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10.8.05

Já sonho com Ngorongoro XIX


Feluca, veleiro típico do Nilo

Assouan... Ballet de felucas. Velas brancas num horizonte que se estende até à ilha Elefantina. A noite desce sobre o Nilo. Abu enrola as suas velas de grosso algodão, baixa os mastros. Qual pirâmide de cabos esticados, a ponte de Assouan perfila-se sobre as águas calmas do rio. O pof pof das bombas de rega cala-se. Aqui e ali nas margens, uma nora gira ainda em soluços. Os marinheiros nas felucas gritam uns para os outros, chamam-se de longe. No regresso à aldeia, sempre este desafio. Como fazer-se ouvir sob um céu povoado de milhares de garças!
Uma nuvem de crianças acolhe-os. As mulheres prepararam as favas para o foul tradicional. Quase de forma prematura, a penumbra adensa-se. Sobre El Qurna, emanações de karkadé, odores de iguarias e o cochicho dos cachimbos de água vêm habitar o silêncio que se instala todas as noites. O vento do Nilo aparece... À borda d'água, um burro zurra, alguns cães famélicos, cor de areia, ladram. As mães chamam os filhos. Palmeiras doum recortam-se em frisos que ondulam.
É noite. A terra e a água silenciam. Nem mais um som, nada. Nós apreciamos as estrelas que parecem fixar-nos no firmamento. O ar arrefece. Entramos na barraca e sentimos a tepidez da madeira. Como Moisés no seu berço, dormimos entre caniços, aninhados no meio das águas do rio sagrado. O imaginário, esse, desperta. Abu...




Volto daqui a alguns dias. Fiquem bem.

25.7.05

Já sonho com Ngorongoro XVIII



Continuo em Port Said mas desta vez, não! Não sou capaz. Só te digo que o cruzeiro pelo Canal do Suez, inaugurado há já 136 anos, continua a ser uma experiência magnífica. E o que me leva a recusar o teu pedido? Respondo-te com outra pergunta: já leste Eça de Queirós? Eu sei que sim e por isso vais compreender que prefira deixar-te, em vez dos meus relatos apressados, estas crónicas do Diário de Notícias de Janeiro de 1870, escritas pelo nosso querido Eça. Começa assim:

Sr. Redactor.
Acedo da mais perfeita vontade ao seu desejo de ter a história real das festas de Suez. Conto-lhe, porém, simplesmente e descarnadamente, o que me ficou na memória daqueles dias confusos e cheios de factos: tanto mais que as festas de Suez estão para mim entre duas recordações - o Cairo e Jerusalém: estão abafadas, escurecidas por estas duas luminosas e poderosas impressões: estão como pode estar um desenho linear a lápis, entre uma tela resplandecente de Decamps, o pintor do Alcorão, e uma tela mortuária de Delaroche, o pintor do Evangelho.

E depois, assim:
Tínhamos voltado, eu e o meu companheiro, o conde de Resende, de uma excursão às pirâmides de Gizé, aos templos de Sakkarah e às ruínas de Mênfis, quando no Cairo soubemos que estavam na baía de Alexandria os navios do quediva que deviam levar-nos a Port Said e Suez.
(...)
...naquele dia 17, da inauguração, Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheio de flâmulas, de arcos, de flores, de músicas, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspecto de vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os yachts dos príncipes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a «Aigle», com a imperatriz, o «Mamoudeb» com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José, até ao caide árabe Abd el-Kader.

Bem, talvez seja melhor leres tu mas guarda bem estas crónicas!

Port Said tem uma história atribulada. Entre 1956 e 1967, a cidade foi afectada pelo conflito árabe-israelita e chegou a ser evacuada. Só depois da guerra de Outubro de 73, quando o Egipto recuperou a maior parte dos seus territórios ocupados por Israel, é que a cidade se tornou segura e os seus habitantes puderam regressar e iniciar a reconstrução. Desde os acordos de paz estabelecidos em 1979 a cidade desenvolveu-se, sendo hoje a quarta maior cidade egípcia e o segundo porto mais importante do país, depois de Alexandria. No Museu Militar podemos encontrar algumas trágicas relíquias das guerras de 56, 67 e 73. Mas sabes, a cidade ainda guarda vestígios da traça arquitectónica dos finais do século XIX. Se pudesses ver a minha varanda alta com este balcão de madeira! É claro que tinha que me lembrar do Eça!


Port Said
Mohammed El-Bakkar

7.7.05

Já sonho com Ngorongoro XVII

Hoje à tarde fui com o Bagaço à Sharia Palestine, a rua mais movimentada de Port Said. Como sempre, um de nós tinha que ficar retido em qualquer lugar e desta vez, foste tu, bin. Dois ferries avariados!? Olha amigo, tenta disfrutar de Port Fuad e logo que puderes vem ter connosco. Uma vez que já conheces, decidimos visitar o Museu Nacional. Durante algumas horas mergulhámos no Egipto antigo, pré-histórico e faraónico. E é claro que fomos à sala da família Khedival. Então bin, diz-me, o que têm Nova Iorque e Port Said em comum? Pois imagina que Auguste Bartholdi, o escultor da Estátua muito americana Da Liberdade se inspirou nas gigantescas estátuas de Abu Sindel. O primeiro nome que ele deu à Estátua foi "Egipto carregando a Luz da Ásia". Só que Khedive Ismail (que reinou o Egipto entre 1854 e 1863) decidiu que o projecto era demasiado caro. "A Luz da Ásia" foi então enviada para os Estados Unidos. Quem podia imaginar esta história! Depois do Museu, divertimo-nos a fazer compras, ou não fosse esta cidade um mega duty-free. Conseguimos um lote de música de Mohammed El-Bakkar por tuta e meia. As capas dos álbuns são deliciosas. Logo já os vês e ouves!










Ya Habibi (Meu amor)

Mohammed El-Bakkar

30.5.05

Já sonho com Ngorongoro XVI


Joris van Daele

Ninguém conhece a história da próxima aurora.
(provérbio africano)

Ontem sentei-me no jardim a falar com o Andwele. Tu dormias, assim como o Bagaço, e nenhum sonho parecia querer despertar-vos. Pedi-lhe que me falasse da sua aldeia. Ele falou num tom sério, falava de saudade e de desgosto, mas terminava sempre todas as frases com uma nota de alegria. Não me cansava de ouvir falar de Magadi. Os olhos dele ficavam cada vez mais límpidos, e através dos seus olhos, também os meus. O Andwele tem uma boca bonita e um sorriso gracioso, emana paz. E assim com ele, pouco a pouco, xhuia-xhuia, a paz voltou.
Por volta das seis horas da manhã, acordei com o pássaro que canta debaixo da minha varanda. Existe uma gaiola dourada enorme e sobre ela pousa sempre esse pássaro. É uma ave canora rara. Pensei decidiu desafiar o mundo tomando posse dessa gaiola. E com esse pensamento, descobri que sorria novamente.

Depois o reflexo desta luz, deste amanhecer nas águas da piscina. E não resisti a apossar-me dela. Durmam todos e que nenhum sonho vos desperte. Não quero tudo. Só este momento. Assim.

Ouço ao longe uma música.


Banda sonora de Le Grand Blue, Eric Serra.

26.5.05

Já sonho com Ngorongoro XV


Henk Braam

Devia juntar-me às outras pessoas e sentar-me no chão para comer o arroz e os legumes. Mas o que desejava era comer sozinha à sombra das árvores. O Sacerdote olhou para mim fixamente. Era impossível permanecer indiferente àquele olhar tão antigo. Percebi que deveria segui-lo. Olhei para a minha mãe que susteve a respiração. Sem palavras, transmitiu-me a mensagem. Não faças disparates, não fales, escuta apenas. Em silêncio segui-o. Andamos mais de uma milha. Não proferiu uma única palavra. E assim chegamos às margens do Ganjes, sei que era o Ganjes. Então ele continuou a caminhar. Seguiu em frente, atravessando a pequena maré, como se esta não exigisse uma pausa. E quando pensava que talvez tivesse enlouquecido, parou, virou-se e, olhando à sua volta, disse: dharma! dharma!
Ali, naquele local sagrado, lembrava-me que havia um modo correcto de viver.

Delirei bastante certamente. Mas estas imagens eram recorrentes. O rosto desse Sacerdote, eu menina. E depois ouvir a tua voz e perceber aquele rosto. O meu Sacerdote era o Imam! Hinduismo e Islamismo tinham o mesmo rosto! Templos e Mesquitas, Brama e Alá, Vedas e Alcorão, fundidos no sonho delirante de uma católica romana perdida em Zanzibar. Mas sei que o meu passado distante tocou todos esses mundos. Terei sido algum dia aquela menina? Esse homem será aquele que me guia em todas as vidas?

Começo a sentir-me mais forte mas continuo confusa. No meu sonho o Sacerdote cantava um hino: "tocai a concha, acendei o incenso". E o Imam dizia "toda a ventura que te ocorra emana de Deus; mas toda a desventura que te açoita provém de ti." Avisos. Sob a forma destas vozes profundas, tão meigas. Avisos. Vocês sentem esta humidade? bin, bagaço, Andwele!
Acho que preciso de mais repouso!

25.5.05

Já sonho com Ngorongoro XIV na Mega Fauna


Zanzibar
Sã e salva!

Marhaba, invasor!
Deixo-te esta música para que compreendas como me sinto em paz. E fico a aguardar que abandones este lugar que ocupaste de forma tão abusiva.


Rokia Trouré

13.5.05

Magia


Desenho da A.

Estou a precisar do pó mágico da Sininho para sair deste lugar sã e salva! A., espero ser uma daquelas figuras que desenhaste para poder voar como a Wendy e os outros meninos amigos do Peter Pan!

Quando me deste este desenho, perguntando se eu acreditava em magias, devia ter-te respondido que me bastava pensar em ti! Meti-o na minha sacola e neste lugar, em Zanzibar, tenho olhado muito para ele. Quando sair daqui, vou contar-te mil e uma histórias mágicas de princesas que ficaram presas em minaretes e de príncipes que as vieram salvar!

12.5.05

Já sonho com Ngorongoro XII - S.O.S.

Atravessei a porta da frente, vi o mausoléu, e depois a curiosidade matou o gato!

bin, estou fechada, escondida - há quantos dias? - no minarete da mesquita Malindi. Não resisti a invadir este pequeno grande território proibido de Zanzibar. Via a mesquita com aquela forma cónica, ouvia a voz que várias vezes ao dia chamava para a oração e num impulso comecei a subir a escadaria. Entretanto ouvi passos e o barulho de uma porta a fechar-se. Só tive tempo para me esconder numa espécie de nicho. Vi-o passar.

Se chegar a ti um destes pedaços de papel que vou atirando para a rua, vou passar a acreditar em milagres! A garrafa de água está no fim, já não tenho comida. Estou a pensar entregar-me ao Iman que sobe a mesma escadaria cinco vezes por dia. Poderá esse Santo Homem perdoar-me?

E o Bagaço, será que o encontraste no Mambo Club? Fico mais tranquila quando imagino que os dois estão juntos.

6.5.05

Bilhete em Zanzibar

Gravitação

Latente gravitação
E depois de corpo imóvel,
Pianando a areia com os dedos dos pés,
Seduzes a praia com a desbasta luz tardia.
Que sobre a costa se alonga.

in Ivar Corceiro
Numa Avenida de Merda


Eu sabia que o Bagaço andava por aqui. Será que ele vai logo ao Mambo Club?

Já sonho com Ngorongoro IX


Ras Nungwi Beach Hotel, Zanzibar

bin, ou meu querido Jacques Mayol, como não sou o Enzo Molinari, não consigo acompanhar-te nesse mergulho no Grand Blue. Os destroços do Pegasus vão continuar a ser um mistério para mim. O que restará de um barco afundado em 1916 em plena Grande Guerra? Enfim, para não ficar deep blue tento imaginar os mergulhos que faremos no recife de Pange. Corais e peixes tropicais, mergulhos nocturnos, um mar terno, caliente e acessível até a mergulhadores pouco experientes (como eu, que tenho mais pele e olhos que respirações compassadas e lentas). Mas deixaste-me preocupada com o mergulho de hoje, não te escames! Cuidado com os refúgios das moreias - não existem apenas nos livros do Spirou. E espero que não te aventures demasiado pelas profundezas - o Andwele disse-me que em Mombassa têm câmaras hiperbáricas mas que aqui os barcos só estão equipados com kits de oxigénio. Não queiras ser um homo delphinus!

Quanto a mim, não te preocupes. Estou a gostar deste "Desesperadamente à procura de Bagaço em Stone Town". Não imaginas os lugares por onde já andei. É verdade que ainda estranho. Ando solta e desconfiada, curiosa e recatada, com vontade de sorrir a toda a gente e de me deixar queimar pelo sol e ruídos e rezas e ao mesmo tempo, um pouco assustada com este bazar de mundos.

Comecei no Darujani Bazaar e não, não comprei aquelas bugigangas chinesas. Fiz o que me aconselhaste, meti-me pelo labirinto de pequenas ruelas ali à volta... e andei a ver se me perdia! Depois apanhei um dala-dala até ao Forte Árabe. O motorista andava nas faixas da direita e da esquerda mas ninguém pareceu estranhar, pelo que me limitei a inspirar e expirar com força até aquelas voltas me saberem bem! Pelo menos havia ar! Ainda me lembro de ir da Praia ao Tarrafal, em Cabo Verde, numa IACE - a carrinha Toyota "adaptada", em vez de 9, levava uns 20 passageiros! Os dala-dala têm a vantagem de não ter janelas e o tecto faz alguma sombra!


Como já conheces, não te vou falar muito de Stone Town, deixo-te só as razões do meu espanto. Quase todos os edifícios históricos tiveram utilizações muito diferenciadas ao longo do tempo!? O Forte foi usado como tal pelos omanis, depois foi transformado numa prisão, mais tarde os portugueses fizeram dele uma igreja, e agora tem um restaurante e lojas de souvenirs!!! A House of Wonders, residência da raínha Fatuma, foi depois a sede do Protectorado inglês! O Old Dispensary, mandado construir por ocasião do Jubileu da Rainha Vitória, é agora o Cultural Center! No subsolo da Catedral Anglicana podemos visitar as celas dos escravos negros! O Templo hindu Shakti já não tem hindus! Talvez por causa de todos estes filamentos da História, de povos e culturas e religiões, Stone Zanzibar parece-me cada vez mais misteriosa.

Outra coisa, este suaíli é um bocadinho diferente do que se fala na Tanzânia. Na Kelele Square tive alguma dificuldade em perceber o que ouvia! Encontrei depois um guia que me disse que este suaíli é mais "puro". Falou-me do kiswahili, de que deriva o suaíli, que nasceu do casamento de línguas de vários povos - árabes, persas, omanis e dos bantus de zanzibar! Por isso, em Zanzibar, estão mais próximos da origem! Já agora, sabes que kelele quer dizer barulho? Nome que seria certamente apropriado para um mercado de escravos! (agora tem lá um salão de beleza, não é bizarro?)

Quando nos encontrarmos logo, tenho uma mão cheia de perguntas para te fazer, depois de me contares a aventura no Pegasus. Para além do suaíli, do árabe, do inglês, como é que tanta gente também fala italiano? E é verdade que em Pemba se podem ver touradas à portuguesa? (e porque não em Unguja?) Que história é essa da Guerra dos 40 Minutos? Só sei que envolve ingleses e sultões e que consta como a guerra de menor duração da História. Os Banhos Persa Hamamni ainda funcionam? ______Podia continuar a puxar as pontas dos mil e um novelos!

Sabes que esta avidez de saber é falaciosa, não sabes? Os dados novos apenas distraem um pulsar que tenho que conter. Apetece-me suaílar, regatear, mas sobretudo dançar, esquecer o calor e as regras do Islão.

Conheces o Bi Kidude?
Ele vai estar no Mambo Club logo à noite. Vê se chegas cedo. Até porque não sei se encontro o Bagaço! Desde que lançou aquele primeiro livro, nunca mais parou. Às tantas está para aí fechado a escrever o próximo best-seller!

Isto de viajar com um Indiana Jones e um Costa-Gravas é muito divertido mas às vezes é um pouco solitário (schuiff). A POPULACÃO É 95% MUCULMANA E EU SOU MULHER FËMEA USO SAIAS TENHO PELE CLARA OLHOS ESMERALDA VALHO TANTOS CAMELOS QUANTOS OS KM DAQUI ATÉ AO DESERTO DO SAARA! AINDA ME RAPTAM!

Para nem pensares em adormecer quando chegares do teu mergulho heróico, deixo-te esta carta e o leitor de cd's. Pedi na recepção do Hotel para os colocarem no teu novo quarto (também mudei, tinhas razão, é melhor mesmo em frente à praia).Free Image Hosting at www.ImageShack.us

Agora bin, carrega no Play.

Bi Kidude, o rei do taarab, 93 anos, canta Beru

Kwa Heri
Maria

2.5.05

Já sonho com Ngorongoro VIII


Já sonho com Ngorongoro VII

Sabes bin, às vezes acredito na reencarnação. Vá, tem calma. Acontece que conheço esta leoa. Não só já a vi, como os nossos olhares já se cruzaram. E confiamos uma na outra. Reconheço-me nesta fêmea mas não sei explicar-te como. Talvez a minha memória se divirta a recriar imagens de infância e o meu pensamento mágico me engane. Mas não foi por acaso que, num impulso, me dirigi a ela e que ela se deitou nesse preciso momento, tranquila. Perdoa o susto. O que aconteceu depois? Não sei, "acordei". E então dei-me conta de que corria perigo. Por isso fiquei imóvel e concentrei-me apenas nas palavras do Andwele. Baixar o olhar, recuar lentamente.

Ficaste louco. Ainda vais ficar mais quando leres isto. Persisto numa inconsciência que te parece inaceitável. Para compreenderes tens que te lembrar que nasci no Dundo. Dundo, capital da Lunda Norte. Os meus irmãos de brincadeiras sempre tiveram, uns bonecas que vinham do Puto (como os "colonos" chamavam a Portugal), outros amuletos.
"Mininos" e monas, juntos. Não se nasce e cresce impunemente num lugar. Sabes isso. Os Matas (senhores) podiam estar divididos, mas nós não. Descalça no meio dos quiocos. Parecia-me natural pertencer também àquela terra.

Ainda antes de partir, enquanto preparava esta viagem, sentia que lentamente regressava às origens. Fui ao fundo do baú. Peguei no velho Ngombo e lancei mesmo aquelas figurinhas esculpidas em madeira. Saiu-me Mikama e Tchilôwa. Free Image Hosting at www.ImageShack.usSe acreditares em Tchokwe, sabe que a viagem vai correr bem. Espero que isso te tranquilize (se calhar, não). Mas deixa-me dizer-te mais: quando estas duas figuras se juntam, lembram ao viajante que devem respeito aos ídolos que forem encontrando no seu caminho. Esta leoa é um ídolo vivo. E eu sei, bin, que vai haver mais. Estamos apenas no princípio da grande viagem.

Amigo, obrigada pela tua companhia e pela tua generosidade. A tua vontade de me mostrares a tua África faz-nos percorrer quilómetros imensos a que chamas "pequenos desvios". O lago Manyara, depois o Parque Nacional de Tarangire. Não sei se vai caber tudo dentro de mim.

Agora estamos quase a chegar a Zanzibar. Anseio por ver a cor do mar. Dizes-me que é azul e límpida mas mais a norte, no Quénia, encontrei um Indico de águas turvas. Depois explicas-me porque é que é assim.

E vai ser bom encontrar o Bagaço, se tudo correr bem vai juntar-se a nós esse amigo. Aposto que já conhece os melhores bares de Zanzibar e que já escreveu alguns contos negros com marinheiros desdentados e prostitutas que viram os vestidos subir, mês após mês, com a certeza de nunca mais verem os amantes que as deixaram assim, gordas de vida.

Um abraço grande (já to dou)
Maria


P.S.: Dou-te o texto agora, mas só o lês quando eu não estiver por perto.

30.4.05

A caminho de Zanzibar

Não, não é para toda a gente, é preciso querer... Nos próximos dias vou andar por aqui.

Mas não pensem que não tive insónias só de pensar nos perigos desta viagem!

20.4.05

Já sonho com Ngorongoro VI



Quando foi que te escrevi a última vez? Os dias são longos, perco a noção do tempo. Disse-te que ia ao mercado de Arusha com o Biko? Foi no dia em que o meu grupo de montanha partiu. Estava a sentir-me um bocado perdida e sozinha. Apetecia-me aquele conforto que se encontra apenas com os velhos amigos, o passado comum que nem se evoca, ele está lá e não é preciso descrever ou justificar coisa alguma, bate-papo de quem se reconhece. Na verdade pensava sobretudo na Graça e na Valentina, sabes que fizemos umas viagens muito giras lá mais para o Norte: as três de mochila, sem reservas nem dinheiro para hotéis de luxo, e correu sempre tudo bem. foi espantoso. conhecemos tanta gente boa. Bem, nesse dia faltava-me essa camaradagem e cumplicidade. E depois sou largada pelo Biko no mercado e descubro que é a semana da Mulher! Ao telefone pediste-me impressões, falavas da minha chegada a Nairobi e querias saber do impacto que tudo está a ter em mim desde esse dia. Pois olha que é confuso. Caiem ideias feitas, agravam-se suspeitas, entram novas realidades. No Quénia, e aqui também, há uma enorme miscelânea de ritmos e influências, raízes e impérios, pés nus e t-shirts de contrafacção de marcas, poligamia e a semana da mulher, crianças por todo o lado e uma mesa com contraceptivos no mercado. E essa mistura começa nos nomes das pessoas. Sabes quem são o David Kagai, a Judy Wanjiku, o Tony Githinji ou o Jimmy Kibaki? Pelo último nome foste lá - são os filhos do presidente do Quénia, Mwai Kibaki. Pai Mwai, filho Jimmy. Gostei deste mercado. Nenhuma das mulheres (quase não vi homens) se chamava Judy. E meteram-se comigo, acho que gozaram comigo, riam-se imenso, queriam mesmo perceber o que fazia ali já que estava sozinha. A curiosidade é permitida.

Os homens falam menos. Sabes isso. Quando vejo a quantidade de jovens que passam os dias na estrada, sentados ao sol, desocupados, à espera de um biscate, percebo esse silêncio... Estarei a fazer um filme? Mas esta terra "esmaga-me". A natureza "esmaga", o que se adivinha da vida destas pessoas também "esmaga".

Preciso do sorriso do Andwele.

A foto que te envio foi tirada no mercado em Arusha. Fiz compras a pensar nesta longa viagem. a pensar também no deserto. Atravessar o Sudão, disseste. Acreditas que vi "jóias" que pareciam fazer parte do tesouro de Méroé ?

P.S.: min fadlik bin, traz-me repelente para os insectos, o meu está a acabar. shukran

Beijos
Maria

17.4.05

Já sonho com Ngorongoro V

Já sonho com Ngorongoro IV


Kili visto de Moshi

bin, estou em Moshi numa guest house [+ 255(0)553071]. Todos os outros foram deitar-se porque amanhã bem cedo vêm buscá-los para o regresso a Nairóbi. Eu não tenho sono. Provavelmente nunca mais os voltarei a ver, para além da Gillian, que quer que vá ao casamento dela em Junho (em Bath. já por lá passei, longe de imaginar que um dia voltaria para assistir ao casamento de um casal local. os pais têm um bed&breakfast. não lhe disse que os que conheci eram pavorosos, cheios de flores - no papel da parede, nas alcatifas, nas colchas... Estou a ser má. mais uma vez devaneio para não ficar triste. já tenho saudades dela, deles todos). Encontrei uma cassete vídeo do Paciente Inglês e estive a ver um bocado, depois parei. irritou-me este impulso de urbana europeia! mas anotei um diálogo. pensei "este é o bin!" ;-)

Katharine - I've been thinking about - how does somebody like you decide to come to the desert? What is it? You're doing whatever you're doing - in your castle, or wherever it is you live, and one day, you say, I have to go to the desert - or what?

Almásy doesn't answer. Katharine, who has looked at him for an answer, looks away. There's another long silence.

Almásy - I once traveled with a terrific guide, who was taking me to Faya. He didn't speak for nine hours. At the end of it he pointed at the horizon and said - Faya! That was a good day!

Point made, they lapse again into silence. Katharine boils.
Katharine - Actually, you sing.
Almásy - Pardon?
Katharine - You sing. All the time.
Almásy - I do not.
Katharine - Ask Al Auf.

Almásy asks Al Auf in Arabic. He laughs, nods.

[Esqueço-me que esta carta segue por fax, não pode ser longa]
[Depois falo-te da subida ao Uhuru Peak]

Amanhã vou voltar a Arusha com o Biko (ele tem que preparar a próxima expedição e eu quero ver o mercado_____ tirar umas fotos) e à tarde convidaram-me para ir ver as plantações de sisal, não sei se é muito longe. mas quero ver o produto de maior exportação da Tanzânia! Agora que já tens o telefone daqui, podes sempre ligar - para me dizeres quando chegas/ ou deixa recado.

Obrigada também pela gravação da Rokia Traoré, adoro!

Beijinhos
Maria

15.4.05

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deus disse luz. ele disse estrada de Machame.

deus viu que era bom. criaram o primeiro dia.
ele sonhou Shira. deus concordou. adiaram Kili para o sétimo dia.

"Conta-me um conto - digo-te. Como queres que ele seja? Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém." (Eva Luna)

Já sonho com Ngorongoro III

14.4.05

Já sonho com Ngorongoro

Continua a troca de correspondência.



Bin, esta foto e texto vão chegar-te via um padre católico de Likoni (que tendo nascido em Goa, fala português), ele decidiu regressar mais cedo a Arusha, não se estava a dar bem com a altitude. Tinhas razão quanto ao espírito de grupo e às amizades que se criam nestas aventuras. O padre Tonino falou-me tanto de Likoni e da sua missão que fiquei com vontade de passar por lá. mesmo se me falou de realidades muito difíceis, a Sida a assomar, gente pobre que é preciso alimentar, a dificuldade que teve para criar um dispensário, e sei lá que mais! Em Likoni há uma comunidade de católicos, penso que no total são 8 mil em cerca de 300 mil habitantes.

Disperso-me. Ou não consigo ainda falar-te da minha própria viagem. Acho que vou demorar algum tempo a digerir tantas emoções e cores e odores e brisas e horizontes sem limite. Cheguei a lamentar não ter optado pela estrada de Marangu (duvidava da minha boa forma física). Mas agora que me aproximo do Pico de Uhuru sinto que a estrada de Machame, o planalto de Shira, Kibo, a floresta, esta subida gradual, até a chuva (pois é, ou não estivéssemos em Abril..., eu pensei que a época das chuvas fosse só em Maio e Novembro!), a neve a 3° graus do equador, o rosto de cada um dos meus companheiros, o de Andwele que não vou nunca esquecer,... tudo isso, bin, eu tinha que viver.

Partilho a tenda com uma inglesa que se chama Gillian, morena e baixinha (julgam sempre que sou eu a inglesa :-) e a Gillian a portuguesa), e ontem estávamos exaustas mas não conseguíamos deixar de falar sobre as imensas coisas que temos vivido nestes dias, recapitulávamos... e depois paramos e as duas tivémos vontade de chorar. mas era um choro bom, eu acho que compreendes.

Amanhã vou fazer a subida pelo "Barranco hut" e não pelo "Arrow Glacier Camp" (conheces?). Medi as minhas forças e as pernas tremem. Temos que aceitar os nossos limites - outra lição de vida ;-)

Penso muito nas horas que se vão seguir. Sinto frio e calor. O Andwele adivinhou estes meus medos secretos - que convivem com o encantamento e a euforia - e, de tempos a tempos, descubro-o a olhar para mim, e então sorri daquela maneira e eu sei que "tudo vai correr bem".

Por ondes andarás agora? Encontramo-nos em que lugar? O "por lá" agora é imenso...

Ngorongoro a seguir... é bom demais!

mas bin, antes do Serengeti, podemos descansar uns dias em Zanzibar? acho que vou precisar de fazer uma pausa na marcha.
ficar deitada na areia.

beijos
Maria
P.S. Ando a ouvir Hukwe Zawose