15.1.05

O Mestre


Raíz, Guitarra Portuguesa, Canto, Embalar, Verdes Anos.

Pulsar.

Ouvir Carlos Paredes num movimento perpétuo.

14.1.05

Canção para Carlos Paredes

Acabo de assistir à apresentação do álbum Canção para Carlos Paredes, uma edição da artemágica. O resultado de um trabalho que começou ainda antes do desaparecimento de Carlos Paredes.
Assisti a um verdadeiro recital pelas mãos de Luisa Amaro e Miguel Carvalhinho. A guitarra portuguesa e a guitarra clássica ora em diálogo, ora a solo. E pequenas estórias sobre o Mestre e as canções.
Estórias. A visita a Aveiro, há muitos anos, um passeio ao pé da ria depois de um espectáculo, partindo do Hotel Arcada, e uma camioneta que passa do outro lado do canal com um condutor que grita OBRIGADA PAREDES!
Verdes Anos, inspirados no Summertime de Gershwin, sabiam? E então um arranjo de Miguel Carvalhinho juntando as duas melodias. Soberbo.
Canções.
E os instrumentos. Formas, caixas, que também são beleza. Uma guitarra portuguesa abraçada, tacteada por uma mulher. Quase inédito. Uma guitarra clássica de 8 cordas, construída por Óscar Cardoso, nos dedos que serpenteiam de Miguel Carvalhinho.
Embalo.
Para rematar, o sentimento, a simplicidade e a simpatia dos dois.


Mensagem URGENTE para o público do Porto, Gaia, Matosinhos e arredores longínquos:
  • Sábado, dia 15, Luisa Amaro e Miguel Carvalhinho vão estar na FNAC da rua Santa Catarina (Porto) às 15:30, e no GaiaShopping às 22:00 horas.
  • Domingo estarão no NorteShopping às 17:00.
A entrada é livre. Mas o sentido é obrigatório.

Encontro de Bloggers IV


Al e Johnny

... sim, também estarão em Aveiro no dia 18 de Fevereiro. O Al só queria saber se era preciso vir de fato. É claro que não! (e please, esquece esse casaco da foto que me enviaste!)

Encontro de Bloggers III



Ela vem com o Maddox. Disse-me só que, por causa do miúdo, é capaz de ter de sair um pouco mais cedo. Tudo bem, querida!

Encontro de Bloggers II



Tinha que ser, ela não vem! Armada em star!

Encontro de Bloggers



Ele já disse que vai lá estar. Vem sozinho.

13.1.05

Chamaremos a Deus, o tubo

Serge Gainsbourg: "O Homem criou deus. O inverso ainda não foi provado"



E finalmente quem é este deus de que fala Amélie Nothomb na sua Metafísica dos Tubos? É a própria Amélie, em bébé.


"Os médicos diagnosticaram uma apatia patológica, sem se darem conta de que havia uma contradição nas palavras: A vossa filha é um legume. É muito preocupante." Neste livro, autobiográfico, Amélie descreve o estado em que permaneceu até aos dois anos. E "como explicar este nascimento dois anos após o parto? Nenhum médico virá a descobrir a chave do mistério. Foi como se tivessem sido necessários dois anos de vida extra-uterina para se tornar operacional." Depois desenvolve uma personalidade muito especial. A ama japonesa exercerá uma influência enorme sobre a criança Amélie, que começa a acreditar que é Deus. "Chegara finalmente o dia do meu terceiro aniversário.(...) Nishio-san foi perfeita: ajoelhou-se em frente da criança-deus que eu era e felicitou-me por essa proeza. Ela tinha razão: ter três anos não está ao alcance de qualquer um."


Amélie Nothomb é espantosa na descrição da sua infância (no Japão) e consegue fazer-nos compreender e mergulhar nas percepções e estratégias mentais de uma menina de dois/três anos. Com contextos narrativos e históricos completamente distintos, essa capacidade literária de situar o leitor no mundo imaginado (mas credível) da sua infância, já me fez ficar rendida a outros escritores - como Albert Camus, em O Primeiro Homem, ou Simone Beauvoir, em Memórias de uma Menina Bem Comportada.

E agora, porquê esta alusão a Serge Gainsboug? Pelas respostas que foram dadas à pergunta "quem imaginam que seja Deus?", a partir do primeiro capítulo da Metafísica dos Tubos. De alguma forma, o pensamento da maioria enquadra-se nesta frase de Gainsbourg.



O Contrabaixo é atribuido ao Bhixma, que deu a resposta mais correcta (bébé). A menção honrosa vai para o Abulafia que cita John Lennon: "Deus é um conceito através do qual medimos a nossa dor".

12.1.05

Lançamento da entrevista a Gonçalo M. Tavares


A morte aumenta a alma. Projecto: Aumentar a alma sem MORRER.

É um prazer conversar com o Gonçalo M. Tavares. A palavra. Como nos seus livros, abrimos uma página, uma frase, e queremos guardá-la. Abrir assim, ao calhas. E gostamos.
Podemos começar a ler esta entrevista pelo fim, pelo meio e finalmente chegar ao princípio. Somos nós que definimos a arquitectura.

Livro da Dança


Sokolsky

Aqui ficam alguns fragmentos do Livro da Dança, o primeiro livro que Gonçalo M. Tavares publicou. Quando o escreveu, o autor não pensou "vou escrever um livro de poesia". Mas, mesmo quando ele escreve um romance, eu penso em poesia. e em filosofia. E vocês?
42.
Claro que podemos errar e não voltar atrás para corrigir o erro porque o erro não é o ERRO o erro só começa no corrigir, errar e avançar não é errar: é avançar; errar e corrigir não é corrigir: é errar.
46.
O sexo é a fenda dos Filhos
mas é também o jardim dos brinquedos.
Quem dança deve lembrar a Fenda quando exibe os brinquedos e os brinquedos quando exibe a Fenda.
54.
Exibição do que TAPA.
Exibição da CORTINA.
Exibição do PUDOR.
Exibir o pudor é violência.
o corpo que só é corpo e não é tudo o resto é um corpo que tapa que é cortina e um corpo que exibe o Pudor.
É violento violento violento.
65.
Ouvi isto uma vez cá dentro, antes da dança (um pedido):
- Por favor, dê-me um exemplar de deus!
83.
Dobrar-se de modo ao ouvido se encostar às próprias costas e ao Peito; ouvir o coração com o próprio ouvido.
Não é acrobacia. Não é Flexibilidade.
É colocar no átomo o "conhece-te a ti mesmo".
(Livro da Dança foi editado pela Assírio & Alvim)

11.1.05

Temor e Tremor


Amélie Nothomb


No início dos anos 90, a belga Amélie-san é contratada pela Yumimoto, uma grande empresa japonesa. Ela vai então descobrir o implacável rigor das hierarquias e o sentido de autoridade da organização japonesa. Depara-se com códigos de comportamento que lhe parecem indecifráveis. Domina a língua japonesa mas não deve revelá-lo para que a empresa não perca a confiança dos seus clientes. A sua superiora hierárquica directa é Mori Fubuki, pelo que não deve falar com o senhor Tenchi, mesmo que este tenha um projecto em que ela pode ser útil. E não esquecer que o superior hierárquico de Fabuki é o Senhor Saito, e o deste, o Senhor Omochi, e o deste o Senhor Heneda,...
Dia após dia, vai somando erros, faltas e fracassos e, como num pesadelo, vai descendo degraus na hierarquia. Até chegar ao nível de supervisora de casas de banho, a derradeira humilhação.
Absurdo, cómico, angustiante, este romance ou esta sátira valeu a Amélie Nothomb o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa em 1999. O livro já foi adaptado ao cinema por Alain Corneau.
Em Portugal o livro foi editado pela Bizâncio.


- Mademoiselle Mori?
- Chame-me Fubuki.
Eu já não ouvia o que ela me dizia. Mademoiselle Mori media pelo menos um metro e oitenta, altura que poucos homens japoneses atingem. Ela era esbelta e graciosa, arrebatadora mesmo, apesar da dureza japonesa a que tinha de sacrificar essa beleza. Mas o que me petrificava era o esplendor do seu rosto. (pp 13, traduzido do original da Albin Michel)
Gritam-me em cima. Abro os olhos e vejo detritos. Volto a fechá-los.
Volto a cair no abismo.
Ouço a voz meiga de Fubuki:
- Eu conheço-a bem. Ela cobriu-se de lixo para não ousarmos sacudi-la. Ela tornou-se intocável. É assim o seu feitio. Não tem nenhuma dignidade! ( pp 85-86, idem)