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11.6.09

Of course, at the moment you're still stronger than I am*

Mário Tendinha
Série ...lá para o Sul..., Bue de cansaço



Na CPLP e na grande diáspora da língua portuguesa, alternamos sempre entre Caliban e Prospero. Acho que até aprecio essa qualidade híbrida, tão portuguesa. Mas, no que diz respeito ao ensino da língua portuguesa, não perdoo. A tempestade que o ministro Pinto Ribeiro ambiciona é bem necessária e não deixa de ser um prazer ouvir o discurso. Mas. Mas. Em França, que eu saiba, para estudar em língua portuguesa, existe apenas o Lycée international de Saint-Germain-en-Laye (secção Portuguesa: Collége Pierre et Marie Curie), acessível a uma mui pequena minoria do milhão de portugueses concentrados à volta de Paris. E não, essa possibilidade não decorre de qualquer iniciativa do Estado português. Conhecemos, é certo, a boa reputação da Escola Portuguesa de Macau. Caso raro! Dito de outra forma, quando pensamos emigrar para um qualquer país que não integre a CPLP, onde podemos encontrar uma escola ou liceu português? Pensemos apenas nas capitais europeias... Deixo-vos todas as informações para a admissão no Lycée Internacional (França). Enviem-me outras relativas a estabelecimentos de ensino existentes por esse mundo fora. Somos um país de emigrantes, a grande diáspora, bla bla bla... Eles devem existir...


Neste mundo globalizado, eu não concebo a educação e formação identitária multicultural dos meus filhos sem esse elemento básico: o conhecimento da língua e cultura maternas. Pelo que nunca é tarde demais, sr. Ministro, mas...



*Palavras de Caliban na peça de Aimé Césaire, Une Tempete: Acto 3, Cena 5.
[Nesta peça, Césaire inspira-se na obra The Tempest de Willian Shakespeare e usa o personagem Caliban como símbolo dos povos colonizados (por oposição, Prospero simboliza o colonizador europeu)]

29.5.09

Massa Crítica às 18h00

Mesmo vivendo na cidade das Bugas, desconhecia por completo a existência deste movimento:

Uma Massa Crí­tica (MC) é um passeio no meio da cidade feito em transportes não poluentes. Realiza-se sempre na última sexta-feira de cada mês às 18h00, partindo de um local pré-determinado.

As MC também são conhecidas nos países lusófonos como bicicletadas porque a maioria dos participantes desloca-se em bicicleta. O termo Massa Crítica é mais apropriado porque se encoraja a participação de pessoas que se deslocam de outras formas não-poluentes: patins, skate, trotinete, etc.

As Massas Críticas são passeios auto-organizados e independentes - geralmente apenas o local de encontro, o dia e o horário são definidos. Em algumas cidades, o trajecto, o ponto de chegada e as actividades ao longo do percurso são decididas somente quando o evento já esta ocorrendo. Claramente existe um carácter de protesto nesses eventos: os participantes demonstram, reunindo-se em público, as vantagens de usar a bicicleta como meio de transporte nas cidades e alertam para as mudanças necessárias no espaço urbano para melhor acomodar os ciclistas.

A Massa Crítica evoca uma situação comum na China: por exemplo, num cruzamento, quando um ciclista pretende atravessar por entre uma linha de tráfego para seguir o seu caminho, espera que se junte a ele um grupo numeroso de outros ciclistas que queiram ir no mesmo sentido, para que possa então dar seguimento ao seu sentido de circulação.


Massa Crítica em Aveiro
- Acontece sempre na última sexta-feira de cada mês;
- Hoje: início de encontro na Praça Joaquim de Melo Freitas (ao lado dos Arcos) a partir das 18h30; saída às 19h00.


Em Coimbra, Lisboa e Porto
Em Chaves
Em Portimão
Boa Bicicletada! :)

Mário Tendinha - Gandaqueda
Nankim acrilico sobre papel - 38x46cm

26.1.09

Grelha de análise (4)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
TEMA: TANATOS - PULSÃO PARA A MORTE

A tua alma não compreende a minha..., nem a tua, nem a de ninguém. Tenho horror à vida...(...) Que ando a fazer neste mundo? O mesmo que as outras pessoas, bem sei... Ah! Mas é justamente isso que me aterra, que me horroriza... Vivo como todos, à espera da velhice, percebes? À espera da morte, compreendes? (...)
Amanhã... Terrível! Seremos velhos... A carne amolecida, já não desejará a carne (...) O foco da vida, apagado, não inflamará os sentidos... A alma, que nunca envelhece, que ama sempre, já não saberá nem poderá amar!... Diante de um corpo encarquilhado e frio, eu recordarei esse mesmo corpo quando ele era fogo... mármore... mármore que ardia... Recordarei prazeres estonteantes em horríveis despojos... Morrerei de sede, junto da fonte onde outrora tanta vez bebi a vida a haustos largos... Recordar é morrer... E eu não tenho coragem para morrer desta maneira... Não tenho! Não hei-de morrer assim! (...) A minha alma é diferente de todas as outras almas!...
p. 49

Se Marcela pensasse como eu, podíamos ser tão felizes ... tão felizes... Morrer nos seus braços... a beijar-lhe a boca... a morder-lhe os seios... Morrer com ela... com os nossos corpos entrelaçados... num êxtase supremo dos sentidos... da alma prestes a evolar-se... (...)
Mas ela não pensa como eu... ela pensa como todos... Ela gosta da vida... da vida... da vida... da vida!... (...)
- Pede-lhe... pede-lhe que consinta... que me salve desta tortura atroz... que morra comigo... Pede-lhe! Pede-lhe!..
pp. 49-50

Empurrei-o para diante dum espelho (...)
- Contempla a tua fisionomia... Vês? Vês? Tens na tua frente a imagem da loucura
p. 50

- Se eu pudesse – murmurou num tom vago – se eu lhe pudesse provar o meu amor... Mas não encontro nada... (...) É terrível... querer demonstrar a verdade e não poder... não poder...
p. 66

Eu não sofro só por isso, não... Ontem arranquei um cabelo branco. É a velhice... o «fim» que se anuncia...
p. 66

Tudo estava mal.
Quando uma ideia se apodera de um cérebro doente, só a custo perderá a sua fixidez.
p. 69

A sala estava profusamente iluminada; flores por toda a parte, os pesados reposteiros de veludo dourado, corridos. Obrigou-a a entrar. (...) Ouve-me, compreende-me, e não tenhas medo: vou despedaçar a obra-prima do teu rosto... torná-lo uma cicatriz hedionda, onde não se conheçam as feições... sem olhos... sem lábios;... Vou queimar os teus seios... sujar para sempre a brancura imaculada da tua carne... E assim, um monstro repelente, continuarei a amar-te, amar-te-ei muito mais, porque todo o tempo será para ver a tua alma... a tua querida almazinha (...) Já não recearei o tempo... o tempo não envelhece um corpo chagado... a morte não o desfeia (...) Vês... vês como vamos ser venturosos? E, numa alucinação, num delírio de loucura, correu a prateleira... pegou num frasco...
Marcela, aterrorizada, ainda sem perceber, tentava fugir, encontrar uma saída, chorava e gritava...(...)
Isto é vitríolo... vou-to lançar ao rosto... espalhá-lo pelo teu corpo... Vou-te matar o corpo para dar mais vida à alma...(...)
Miserável! És como as outras... Gostas de ser bonita... Gostas de excitar os homens... Devassa...
pp. 73-76

...ululou um uivo despedaçador... apanhou o frasco... emborcou-o...
p. 76


[Imagem: Mário Tendinha, Fetiche]

1.6.08

Dia Mundial dos nossos amores III

Mário Tendinha
Ginvuluvulu
Acrílico sobre tela - 89x116.JPG

«Deixar de brincar»:

Ginvuluvulu na etnia Cuvale (sul de Angola) é o jovem que deixa de brincar e passa a tratar do gado (nota do pintor).

5.5.08

Bienal Internacional de Cerâmica de Aveiro IX

Só para acrescentar a este post o que é óbvio(!): os prémios (monetários) da Bienal não foram atribuídos aos artistas vencedores, mas a Câmara Municipal de Aveiro ficou na posse de todas obras. Jasmina Pejcici, Santa Rita e Ricardo Casimiro continuam à espera de 15 mil, 10 mil e 5 mil euros, respectivamente. Quem se manifestou, teve direito a um pedido de desculpas (passados dois meses) e a um silêncio absoluto desde então.

Ricardo Casimiro, faço um desvio para lhe dizer que, vendo as suas peças, não consegui deixar de pensar no pintor angolano Mário Tendinha. Acho que a esta Oratura dos Ogros e do Fantástico falta um ceramista.


Ricardo Casimiro
Grunho
Peça de cerâmica feita de pasta refractária com chamota grossa -
Vidrada quase totalmente com vidrado opaco e posterior vidragem parcial com outros vidrados -
14x10x10cm

Mario Tendinha
Da Série "Contos, lendas, tradição oral dos povos de Angola...ogros, monstros, feitiços, estórias do fantástico...", Ekisi
Acrílico sobre tela - 2006