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9.5.09

Tentando o impossível

René Magritte. Attempting the Impossible
1928. Oil on canvas. 105,6x81 cm
Hoje, compreendo que laborava num erro. A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas. Se pudéssemos conjugar as nossas duas artes faríamos vida. Felizmente é impossível...

Mário Sá-Carneiro, Loucura
Ulmeiro, 1ª Edição, 1994, p. 18

10.2.09

Grelha de análise (8)


Obra: [Contos de] Princípio, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO,
in Princípio e Outros Contos
Ed: Publicações Europa-América, Lisboa, 1985
Tema: «NATUREZA-INSTINTO VERSUS CONDICIONAMENTO SOCIAL (sociabilidades, papéis/status quo, crenças e valores dominantes)»


«LOUCURA»
Com efeito, para a sociedade, existe uma grande diferença entre «marido e mulher» e «amante e amante». No primeiro caso, é o amor consentido, o amor burocrata, membro da Academia; sério e circunspecto. Resume-se todo no amplexo que o sacramento consente e ordena – na produção dos filhos «crescei e multiplicai-vos!» Os esposos dignos (...) devem ser comedidos no prazer, reservados na loucura: devem refrear os sentidos, abafar os suspiros... O amor dos amantes, é pelo contrário, livre; livre de todas as peias, de toda a hipocrisia. Não tem que guardar reservas: pode beijar bocas, os seios, os corpos todos... É a liberdade na paixão, e como é liberdade, grangeou o ódio da «gente honesta»...
Tudo isto é absurdo... tudo isto é verdadeiro.
(...)
É por isso que os esposos que se amam como esposos, se não amam. É por isso mesmo que o marido tem amantes... que a sua mulher lhe segue muitas vezes o exemplo...
p. 30

A cândida-donzela a quem a mamã recomendou que obedecesse às exigências do marido, por mais estranhas que elas lhe parecessem, embora já as conheça muito bem na maior parte das vezes (...)
«E o marido? Esse aparece também algo atrapalhadote, sem saber por onde principiar, não vá a pobrezinha assarapantar-se com a insólita coisa – ela, que está morta por isso mesmo...
«Ah, meu caro, como são imbecis todas estas hipocrisias; frutos dos eternos preconceitos, da educação completamente errada duma espécie que se envergonha da sua mãe: a Natureza....
Bem diferente tinha sido a noite de noivos de Marcela e Raul. Espíritos desprendidos, francos e livres, não se envergonhando de ser animais; possuíram-se encarando o acto como o mais natural, o mais humano, visto que é ele que fabrica a vida, que fabrica os homens... Possuíram-se como amantes, não se possuíram como esposos...
pp. 31-32

[Raul] Nunca lhe deixou usar espartilho.
p. 34

... casado face à igreja, como toda agente... Essa vulgaridade sobretudo é que me espantava.
p. 36

Loucura?! - Mas afinal o que vem a ser a loucura...
Um enigma... Por isso mesmo é o que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...
Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções: É a gente de juízo... (...) Como estão em minoria... são doidos...
p. 37

Como se forma o indivíduo? Com o prazer... Fabricar vida é uma necessidade... deliciosa, viciosa portanto.
A natureza compreendeu que ninguém faria vida se não fosse por interesse... para gozar... faz-se a vida só por isso...
(...)
Eu vivo. Nunca fiz vida. Fui mais sensato, gozei apenas...
........
Procriar é uma malvadez: é fazer desgraçados.
(...)
Se a humanidade fosse inteligente, se porfiasse, acabaria com os homens. Ventura suprema! Suprema superioridade! Demonstraria que teria mais força do que o criador: destruiria a sua obra infame.
Mas ninguém quer domar os sentidos;
pp. 70-71


«O SEXTO SENTIDO»
[Dr. Gouveia:] Ao homem falta apenas o orgão de recepção e percepção das ondas aéreas. Esse órgão é o «sexto sentido». Dele já deve existir um crepúsculo em todos os cérebros, mais desenvolvidos nalguns, o que explica os fenómenos provados de transmissão do pensamento. O homem que já vê, ouve, gosta, cheira e apalpa – muito brevemente sentirá».
p. 184


«O INCESTO»
A maior parte das pessoas faz um grande número de coisas que não gosta de fazer e que podia muito bem deixar de fazer. Mas fá-las porque toda a gente as faz.
p. 215


[Imagem: Pedro Oliveira, Óleo e acrílico sobre tela, 2008]

6.2.09

Grelha de análise (7)


Obra: [Contos de] Princípio, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO,
in Princípio e Outros Contos
Ed: Publicações Europa-América, Lisboa, 1985
Tema: «RELAÇÃO ENTRE HOMENS»


«LOUCURA»
Eu e Raul conhecemo-nos desde os bancos do Liceu. (...)
Eu perdoava-lhe sempre... (...)
... a nossa mútua antipatia transformou-se em simpatia mútua. Eu aceitei os seus olhos e os seus cabelos; ele tolerou a minha cor terrosa, e grande intimidade se foi estreitando entre nós.
...uma convivência sempre quotidiana foi acompanhando, avigorando a nossa amizade.
pp. 8-9

Raul continuava a ser o meu confidente. Expunha-lhe todos os meus projectos, todas as minhas esperanças: era ele a primeira pessoa que ouvia ler as minhas obras.
p. 15

Raul estimava-me muito. Se há amigos verdadeiros, ele era um amigo verdadeiro.
p. 16

Notícias pessoais – isto é, notícias da alma – faltavam.
p. 25

Dantes, só um homem me atraía; agora era também uma mulher... uma mulher encantadora, uma criatura ideal. Raul e Marcela – dizia-se – não eram dois esposos, eram dois amantes.
p. 30

Marcela apareceu sem saber da minha presença. Ao ver-me, estacou ruborizada. É que estava positivamente nua. (...) Raul, ao notar a sua perturbação, soltou uma cristalina gargalhada e – voltando-se para mim – clamou:
- Já que não posso mostrar a ninguém a minha melhor obra, ao menos que a conheças tu... Eu nunca tive segredos para ti!...
Com um puxão, despojou Marcela do seu leve vestuário... Numa aparição ideal, eu vi o seu corpo inteiramente nu... Que corpo... Nos braços, nas pernas, nos seios, havia nódoas negras: eram escoriações de amor, compreendi... A visão durou um segundo... Ela fugiu chorando...
........................................
Um louco... Um louco, não havia dúvida.
p. 35

... a minha intimidade com a sua mulher era pequena. Limitava-se à conversação banal das pessoas que se conhecem. Havia mesmo um certo embaraço entre nós desde a cena extraordinária que narrei.
p. 43

«O escultor faz corpos – dizias – o escritor faz almas...» Da nossa colaboração vai sair a vida!
p. 52

O meu amigo levou-me para a estrada da Praia das Maças. O silêncio era absoluto. (...)
- Ciumento? Sim... Tenho tido ciúmes... de ti, sobretudo. És o meu melhor amigo... e isso acontece sempre com os melhores amigos...
Tapei-lhe a boca inclinado:
- Repara no que dizes, hein?!
- Perdoa-me... perdoa-me... - implorou. Sou tão infeliz...(...)
p. 65


«O SEXTO SENTIDO»
Patrício da Cruz, primoroso contista – acercou-se do Dr. Gouveia e, durante toda a noite, os dois conversaram isolados.
(...) desde aí que eu notei uma grande mudança no pobre Patrício. (...) agora, fugia de todos os amigos – de mim próprio, aquele cujo convívio mais lhe agradava.
p. 185

Mais vale desabafar, confiar em ti – o meu único amigo sincero, agora o sei.
p. 185

... soube que todos eram amigos falsos, miseráveis hipócritas – excepto tu, excepto só tu!...
p. 187

«A PROFECIA»
Amigo íntimo do desventurado e herdeiro dos seus papéis, eu era até agora a única pessoa a conhecer a verdade (...)
p. 199

É tempo de derruir lendas que poderiam ofuscar a glória do seu nome.
p. 199


«O INCESTO»
(Noronha) amigo de infância de Luís, um companheiro leal de todos os dias, que estivera sempre junto dele nas horas alegres e tristes.
p. 224


[Imagem: Cruzeiro Seixas, Anda espreitar o que há dentro de um desejo, Tinta da china sobre papel, 20x15 cm, 1969]

4.2.09

Grelha de análise (6)

Obra: «O INCESTO», MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1912
in Princípio e Outros Contos
Ed: Publicações Europa-América, Lisboa, 1985
Tema: «PRÁTICAS LUXURIOSAS»


- Mas não o tinha amado a Júlia? (...)
No leito vasto de pau-santo, profundo como um túmulo, muitas vezes tivera medo da grande serpente amorosa que o mordia, que o feria nas carícias brutais da sua boca escaldante, nas convulsões despedaçadoras de todo o seu corpo nu!... E era ela...ela...ela mesma, a bêbeda de luxúria que alta noite lhe uivava de amor; era ela, a amante, a amiga e a mãe – ah! e a mãe! - que assim procedia, que fugia, cadela aluada atrás de outro cão... atrás de uma matilha inteira!...
Safada! Safada!
p. 212

Quando voltara a Paris, ia nos 16 anos; a sua carne despertava para o amor. O que o maravilhara, então, tinham sido as mulheres esplêndidas que via nos teatros, cobertas de jóias, amplamente decotadas; (...) Com que prazer infinito não misturaria o seu corpo todo nu aos corpos despidos dessas criaturas de sonho... E, mesmo, que horas inefáveis não passaria com uma dessas raparigas tão galantes que, à noite, circulavam em chusma pelos boulevards... O sabor estranho que haviam de ter os beijos daqueles lábios pintados, as carícias daqueles seios agudos tremendo mal escondidos, perturbadores... Puro ainda, sabia fantasiar, no entanto, todas as volúpias, todos os êxtases...
pp. 249-250

E a noite de núpcias, a terrível noite?... AH! Com que prazer feroz ele estreitara, ele possuíra, esse corpo admirável, quente e amoroso... como beijara essa boca sadia, vermelha e húmida... como mordera aqueles seios louros, de pontas trigueiras e ácidas!
p. 262

No grande leito de pau-santo, profundo como um túmulo, havia agora as mesmas lutas, havia os mesmos espasmos, os mesmos abraços doidos dos tempos da amante fulva. Natureza sensual, viciosa quase, Magda de bom grado se prestava a todas as fantasias do marido, lhe correspondia aos beijos brutais, se contorcia em violentos êxtases. Mas em certas noites, era tal a ânsia com que Luís se precipitava sobre a sua carne nua, que ela chegava a ter-lhe medo, receando, verdadeiramente receando, que as suas mãos ávidas se lhe colassem à garganta num círculo férreo, estrangulador. Porém, (...) o seu prazer aumentava, era mais completo e inebriante por se lhe misturar o terror.
pp. 262-263

Uma vez tentou negar-se ao marido. Este, percebendo-lhe as intenções, agarrara-a pelos pulsos, torcera-lhos brutalmente e esmagara-lhe os lábios com um beijo tão frenético, tão delicioso, que no mesmo instante ela tombara vencida, enrodilhada debaixo dele. (...) ah! Não foram beijos – foram mordeduras de onde o sangue escorrera... Tudo acabara por um arranco supremo de gozo, sibilante e profundo, que mais tinha parecido o estertor de uma agonia horrível...
p. 263

Na manhã seguinte, ao acordar morta de fadiga e ao ver uma nódoa negra no seio esquerdo, Magda (...) teve medo, mas um medo real
p. 263

Depois, entre os espasmos, nunca lhe ouvira uma palavra de amor!
p. 264

... eles amavam-se como dois possessos
p. 264

E por que é que nunca desejara nenhuma mulher com tamanho ardor? (...) Porque só nessa encontrar as mesmas feições da morta! Demais, a prova concludente de que fora assim, é que ele ignorava ainda hoje toda a alma da estrangeira. Logo, o que o fizera desejar aquele corpo não fora a alma que o animava, fora apenas a carne que o constituía. (...) ele só desejara Magda pelo que nela havia de Leonor. Leonor. Coisa horrível, ai, mas bem real..., bem real!
pp. 264-265

... começavam-lhe a surgir lembranças mais perversas, mais sacrílegas e, entre todas, uma mais frequente: a estranha sensação que uma noite experimentara ao descobrir no crepe da China verde da blusa de Leonor, o bico de um seio vagabundo apontando audacioso.
p. 265

Infâmia! Tinha-se consumado há muito o incesto... durava desde a morte da filha! (...) Só desde a morte? (...) E a noite de luar? (...) reconhecia aterrado: não fora júbilo, não; fora o ciúme... o ciúme!... (...)
E todas estas divagações exacerbavam a sua fúria amorosa; cada noite mordia com maior ânsia o corpo nu da estrangeira.
p. 266

«Se lhe tirassem o seu crime sofreria mais do que sofria com ele.
p. 268

Agora tinha visões abomináveis. (...) vira de repente diante dos seus olhos a mãe e a filha – a grande amante fulva e a virgem lirial – todas descompostas, a rolarem-se pelo tapete; misturando os membros, possuindo-se em deboches infernais. Depois fora uma longa teoria de dançarinas obscenas, louras umas, outras ruivas...(...) transformando-se cada um no rosto da morta. (...) E sobre os seus lábios ele sentira – oh horror! deliciosamente sentira – o latejar desse sexo palpitante, ardentíssimo! ... Até que por último, vencido, descerrara a boca e beijara-o, sugara-o, mordera-o num delírio bestial!
p. 268


[Imagem: Duma, Decifra o meu silêncio, Óleo sobre tela, 100x100 cm, 2006]

2.2.09

Grelha de análise (5)

Obra: «FELICIDADE PERDIDA», MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1909
in Princípio e Outros Contos
Ed: Publicações Europa-América, Lisboa, 1985
Tema: DEFINIÇÕES DE AMOR


Estava na plateia. (...) quando de repente os meus olhos se fixaram numa frisa. Ocupavam-no uma senhora idosa, duas crianças e uma rapariga de 18 anos. Escusado será dizer que foi esta última quem atraiu o meu olhar. O seu rosto, que eu via de perfil, era encantador. Vestia de preto. Provavelmente de luto aliviado.
(...) a desconhecida que, cheia de interesse, seguia a representação.
pp. 195-196

De súbito, o seu olhar encontrou-se com o meu... Não tenho nada de tímido, mas foi-me impossível sustentar o brilho dos seus olhos. Abaixei os meus.
Este jogo de olhares durou todo o acto... durou todo o intervalo seguinte... durou até ao fim do espectáculo.
p. 196

Outro que não fosse eu tê-la-ia esperado à porta do teatro, teria indagado a sua morada e depois... depois seriam as cartas de frases inflamadas, a troca de retratos: o amor alfacinha – e julgo que de toda a parte – em suma. Eu não: dirigi-me para minha casa, rapidamente...
O que me levou a proceder assim? Um prazer destruidor; por certo...
p. 196

Não consegui adormecer. Levanto-me... para confessar a verdade: Amo essa desconhecida de quem ainda há pouco desdenhava!... Sim! Amo-a amo-a! Amanhã irei procurá-la. Encontrá-la-ei! O amor é o melhor dos guias...
p. 196

...soube que no começo do ano amava... uma desconhecida, e que estava louco de dor por não a poder encontrar... É curioso! Se não fosse tê-lo assentado nessas páginas nem sequer me recordaria do«trágico sucesso!»... Ah!Ah!Ah!
pp. 197-198

Dizem que toda a gente, durante a sua vida, encontra uma vez, mas uma vez só, a felicidade (...) «Seria essa desconhecida? A minha felicidade?»... Talvez, porque nunca mais a encontrarei. Ninguém pode encontrar uma pessoa que não conhece.
p. 198

Obra: «DIÁRIOS», MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1909
in Princípio e Outros Contos
Ed: Publicações Europa-América, Lisboa, 1985
Tema: DEFINIÇÕES DE AMOR


É verdade: ainda há a priminha... Mas nessa nem vale a pena falar. Modesta, é por isso mesmo desprezada por todos. Tosse continuamente. Não deve incomodar por muito tempo. Pesaroso, fizeram-me até essa confidência...
pp. 189-190

Vi hoje uma rapariga muito parecida com a prima do meu amigo.
p. 190

Durante quase duas horas estive falando sozinho com a «prima»... Elisa, é o seu nome... Que felizes horas! (...)
Fui encontrar no meio de toda aquela futilidade um ente que odeia tudo quanto é fútil... falámos de mil coisas... de música... e de amor... Que crueldade! Falar de amor com uma criatura que já não tem tempo para amar... (...) talvez a viesse a amar, mas não se ama uma morta...
p. 190

E é formosa... formosa de uma formusura etérea, que já não é deste mundo. As faces pálidas, os lábios descorados; mas uns olhos tão negros, tão brilhantes... uns cabelos tão lindos...
p. 190

Falar de amor é falar de «esperança», é falar do «futuro»; (...) Se não fosse o seu estado, talvez a viesse a amar.
p. 190

Poder-se-á amar uma morta?
p. 190

Quase que não tosse, as faces estão coradas e não tem febre, os lábios rosados... tão rosados, tão viçosos... com que prazer os beijaria... Beijei-os!... Que sabor encontrei nesse beijo ardente... um sabor acre, estranho... o sabor da paixão!
p. 191

Amo! Amo pela primeira vez! Como sou feliz! Ah! Como sou feliz! Amor sem esperança é o meu... Mas que importa? Um prazer doloroso é o melhor prazer.
p. 191

A história do meu amor é bem simples: começou pela compaixão e terminou na paixão... na mais ardente paixão!... E, no entanto, não posso dizer que o meu amor seja eterno... A morte não poupa ninguém...
p. 191

Poderá haver algum martírio mais horrível do que o meu?... Amar o impossível... amar a morte!...
p. 191

Faz hoje um mês... quero vê-la... quero vê-la!... Quero beijar-lhe a boca...quero estreitar o seu corpo contra o meu... quero confundir a sua alma com a minha... Quero-a! Quero-a! Vou partir...
...
Os jornais do dia seguinte anunciavam, com efeito, o seu suicídio.
p. 191



[Imagens: Duma, série Glam, Óleo sobre tela, 100 x 100 cm, 2008]

26.1.09

Grelha de análise (4)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
TEMA: TANATOS - PULSÃO PARA A MORTE

A tua alma não compreende a minha..., nem a tua, nem a de ninguém. Tenho horror à vida...(...) Que ando a fazer neste mundo? O mesmo que as outras pessoas, bem sei... Ah! Mas é justamente isso que me aterra, que me horroriza... Vivo como todos, à espera da velhice, percebes? À espera da morte, compreendes? (...)
Amanhã... Terrível! Seremos velhos... A carne amolecida, já não desejará a carne (...) O foco da vida, apagado, não inflamará os sentidos... A alma, que nunca envelhece, que ama sempre, já não saberá nem poderá amar!... Diante de um corpo encarquilhado e frio, eu recordarei esse mesmo corpo quando ele era fogo... mármore... mármore que ardia... Recordarei prazeres estonteantes em horríveis despojos... Morrerei de sede, junto da fonte onde outrora tanta vez bebi a vida a haustos largos... Recordar é morrer... E eu não tenho coragem para morrer desta maneira... Não tenho! Não hei-de morrer assim! (...) A minha alma é diferente de todas as outras almas!...
p. 49

Se Marcela pensasse como eu, podíamos ser tão felizes ... tão felizes... Morrer nos seus braços... a beijar-lhe a boca... a morder-lhe os seios... Morrer com ela... com os nossos corpos entrelaçados... num êxtase supremo dos sentidos... da alma prestes a evolar-se... (...)
Mas ela não pensa como eu... ela pensa como todos... Ela gosta da vida... da vida... da vida... da vida!... (...)
- Pede-lhe... pede-lhe que consinta... que me salve desta tortura atroz... que morra comigo... Pede-lhe! Pede-lhe!..
pp. 49-50

Empurrei-o para diante dum espelho (...)
- Contempla a tua fisionomia... Vês? Vês? Tens na tua frente a imagem da loucura
p. 50

- Se eu pudesse – murmurou num tom vago – se eu lhe pudesse provar o meu amor... Mas não encontro nada... (...) É terrível... querer demonstrar a verdade e não poder... não poder...
p. 66

Eu não sofro só por isso, não... Ontem arranquei um cabelo branco. É a velhice... o «fim» que se anuncia...
p. 66

Tudo estava mal.
Quando uma ideia se apodera de um cérebro doente, só a custo perderá a sua fixidez.
p. 69

A sala estava profusamente iluminada; flores por toda a parte, os pesados reposteiros de veludo dourado, corridos. Obrigou-a a entrar. (...) Ouve-me, compreende-me, e não tenhas medo: vou despedaçar a obra-prima do teu rosto... torná-lo uma cicatriz hedionda, onde não se conheçam as feições... sem olhos... sem lábios;... Vou queimar os teus seios... sujar para sempre a brancura imaculada da tua carne... E assim, um monstro repelente, continuarei a amar-te, amar-te-ei muito mais, porque todo o tempo será para ver a tua alma... a tua querida almazinha (...) Já não recearei o tempo... o tempo não envelhece um corpo chagado... a morte não o desfeia (...) Vês... vês como vamos ser venturosos? E, numa alucinação, num delírio de loucura, correu a prateleira... pegou num frasco...
Marcela, aterrorizada, ainda sem perceber, tentava fugir, encontrar uma saída, chorava e gritava...(...)
Isto é vitríolo... vou-to lançar ao rosto... espalhá-lo pelo teu corpo... Vou-te matar o corpo para dar mais vida à alma...(...)
Miserável! És como as outras... Gostas de ser bonita... Gostas de excitar os homens... Devassa...
pp. 73-76

...ululou um uivo despedaçador... apanhou o frasco... emborcou-o...
p. 76


[Imagem: Mário Tendinha, Fetiche]

23.1.09

Grelha de análise (3)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
TEMA: DEFINIÇÕES DE AMOR

Raul: Mas que vem a ser o amor? Uma necessidade orgânica, nada mais. Para obrar, podemo-nos servir de um vaso de loiça; para amar precisamos de um recipiente de carne...
pp. 10-11

Raul: Meu caro, todos nós temos um ideal. (...) Todavia, afianço-te que nele não há nenhuma mulher... não há mesmo ninguém, senão eu. Sou um bicho do mato... Ah! Não sentir ninguém perto de nós... fazer só o que a nossa vontade exige... A família! Que náusea!...
p. 12

Mas sem uma família constituída, não pode haver felicidade completa! - insurgia-me eu. Raul (...) respondia:
- De acordo. Por isso é que me repugna a vida familiar. Eu não quero ser feliz... Ser feliz, seria para mim a maior das infelicidades!... Pobre amigo... Pobre louco...
pp. 12-13

Hoje, compreendo que laborava num erro. A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas. Se pudéssemos conjugar as nossas suas artes faríamos vida. Felizmente é impossível...
p. 18

Saber quem uma pessoa é, é conhecer a sua alma, penetrar nos seus pensamentos; saber como pensa, como executa. Numa noite, não se pode fazer tanto. A maioria das vezes, nem ao cabo de muitos anos. Por isso, à tua pergunta - «Quem é?» - respondi: - «Não sei». - O seu nome, sei-o: Marcela; a filha da Condessa.
p. 24

Raul era um homem, um artista para mais; uma natureza sensível portanto. O que lhe sucedera, era fatal. O amor não poupa ninguém. As melhores intenções de o desprezar, são inúteis: alfim, lá faz ele sentir s suas influências. No romance da vida de um homem – como em todos os romances – aparece sempre uma mulher, aparece sempre o amor. Afigurava-se-me apenas mais natural que a aventura do meu amigo tivesse sido qualquer coisa de romanesco, e não o prosaico, vulgar casamento.(...)
Somente, confesso, experimentei uma vaga desilusão quando vi o meu amigo descer do seu pedestal de bizarria para a banalidade. Nessa banalidade, ia ser feliz. Eu alegrava-me por consequência.

O casamento foi como todos.
p. 27

«- O matrimónio... - dizia ele muitas vezes – Ah! Como eu abomino essa palavra!... um contrato mascarado com o título de «sacramento que acorrenta inexoravelmente duas vidas; que dá todos os direitos ao homem, nenhuns à mulher!...Amem-se duas criaturas, entreguem-se uma à outra, visto que (...) a intimidade das almas exige a dos corpos; não se sujeitem porém a assinar uma escritura e o mundo considerá-los-à criminosos!!...(...)»
pp. 27-28

Com efeito, para a sociedade, existe uma grande diferença entre «marido e mulher» e «amante e amante». No primeiro caso, é o amor consentido, o amor burocrata, membro da Academia; sério e circunspecto. Resume-se todo no amplexo que o sacramento consente e ordena – na produção dos filhos «crescei e multiplicai-vos!» Os esposos dignos (...) devem ser comedidos no prazer, reservados na loucura: devem refrear os sentidos, abafar os suspiros... O amor dos amantes, é pelo contrário, livre; livre de todas as peias, de toda a hipocrisia. Não tem que guardar reservas: pode beijar bocas, os seios, os corpos todos... É a liberdade na paixão, e como é liberdade, grangeou o ódio da «gente honesta»...
Tudo isto é absurdo... tudo isto é verdadeiro. (...)
É por isso que os esposos que se amam como esposos, se não amam. É por isso mesmo que o marido tem amantes... que a sua mulher lhe segue muitas vezes o exemplo...
p. 30

Raul: Abandonando por algum tempo a escultura, dedicava-se à arte do amor, a mais bela de todas.
p. 31

A sua maneira de amar passou por várias fases: fez de Marcela uma cortesã grega, uma prostituta romana, uma cocotte parisiense...
p. 34

O amor que devia ser um sentimento todo da alma, é um sentimento só dos sentidos. (...) O amor é uma distracção... como o teatro... como as festas de igreja. Ama-se uma mulher porque ela é linda... (...) Pode-se amar uma mulher feia pelos seus vícios estonteantes, perversos...(...)
Ah! eu gosto dos teus beijos... da tua carne... gosto de enlaçar as minhas pernas nas tuas... Mas isso que vale?! O que amo, é a tua alma e essa, seja feio o corpo, será sempre bela...
p. 74

«Só se ama por interesse. Não se ama um corpo disforme». Ele possuía uma criatura ideal; pois bem, destruiria toda a sua beleza (...) Morto o corpo, amaria a alma só com a sua alma.
p. 77


[Imagem: Wlodek Warulik, Provocative, 2006]

21.1.09

Grelha de análise (2)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
Tema: «PRÁTICAS LUXURIOSAS»


A estátua que Raul actualmente cinzelava, era Marcela. (...) sem pensar na pedra – pensava agora só na sua carne; mármore ardente, palpitante... Imaginava, ensinava-lhe requintes de volúpia. Ela, de bom grado se prestava a todas as suas fantasias. (...)
era em plena luz, em estofos caros e moles, nos divãs do atelier, donde, na fúria do amplexo, rolavam para o chão – abraçados, confundidos... (...) A carne nua mostrava-se do delgado tecido; os seios erectos oscilavam com as suas pontas rosadas a enfolarem o pano... Ah! Como ele gostava de morder esses seios! Beijava-os, mordia-os tão sôfregamente, que uma vez o sangue correra...
p. 33

Adorava os seus pés de deusa; metia-os na boca, roía-os. Beijava-lhe as pernas nervosas e brancas, enlaçava-as nas suas.
Dizia-lhe: «És tão linda! A tua pele, meu amor, cobre toda a tua carne; distendida, sem uma prega... parece querer estoirar...»
p. 34

O casto doutrora, transformara-se num quase debochado, num vicioso que se deixava esvair nas ondas espasmódicas dos sentidos satisfeitos, que feria, mordia como uma besta-fera a carne que saciava a sua fúria!...
p. 36

A sua carne palpitou e – só com a carne – amou a estonteante atrizita. Numa embriaguez dos sentidos, possuiu-a nos mesmos divãs desse atelier, onde costumava estreitar o corpo de Marcela. Horrorizado com o «sacrilégio», determinara não o repetir, mas... O eterno mas: a carne é fraca...
p. 59

Dizia-lhe a Luisa:
- Eu quero que tu me ames como eu te amo... Com todo o teu corpo; com as mãos... com os braços... com a boca... E deste modo se amavam na realidade... Com a boca principalmente...
p. 59

Durante a execução de Afrodite, depois de uma hora de trabalho, seguiam-se duas de amor se amor se pode chamar à prática luxuriosa dos vícios mais requintados. (...)
Afrodite é uma obra do autor do Álcool, o que equivale a dizer: uma obra-prima. Contudo, entre todas as outras, talvez a menos notável. É uma estátua vigorosa, clássica, impecável; por isso exactamente, o génio não se manifesta nela com a mesma pujança.
p. 59

De súbito, o meu amigo abandonou de novo a arte. Percebi que fora para se entregar exclusivamente ao mármore divino do corpo de Marcela. (...) Encontrei o Raul sorumbático (...) sua mulher exuberava ventura.
p. 63



[Imagem: Lucien Freud, Naked Portrait with Reflection]

20.1.09

Grelha de análise (1)


OBRA: LOUCURA, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, 1910
Ed: Ulmeiro, Lisboa, 1994
Tema: RELAÇÕES HOMEM/ MULHER

Na verdade, os vinte anos de Raul haviam decorrido sem uma página de romance. Nunca um sorriso de mulher viera iluminar a sua mocidade. Sem mãe, não tinha relações.
p. 12, 20

Raul:
(...) Alguém levou o meu espírito para outras regiões. Só o corpo – o animal – ficou nas salas.
- E qual foi a criatura que operou tamanho milagre? Quem foi esse homem extraordinário...?
- Não foi um homem.
- Uma mulher?!... AH! Então compreendo tudo.
- Não compreendes coisa alguma...(...)
- Já te disse que o «animal» ficou na sala. Não viu portanto a minha companheira. A minha alma só, é que a viu... e a minha alma achou-a linda...

(...) - Com uma mulher bonita, para ocupar toda uma noite, a matéria da palestra só podia ser uma: o amor e o galanteio; tudo isso habilmente misturado com modas, teatros e um bocadinho de maledicência.
- Bem te dizia eu. Não compreendeste nada. Se a conversação tivesse versado sobre tais futilidades, os meus nervos não a teriam podido suportar. Falámos doutras coisas... De coisas muito diferentes... de coisas muito semelhantes...
p. 22

A essa palavra «namoro», Raul, com um gesto violento, largou-me o braço e exclamou asperamente:
- Cala-te... Ah! Cala-te!
p. 23

...regressei a Lisboa. Encontrei outro Raul: alegre, despreocupado, nada misterioso... (...)O motivo: é que nesse dia, ajustava-se o seu casamento com Marcela. O fim do mundo, ter-me-ia causado menos espanto...
p. 25

Raul e Marcela – dizia-se – não eram dois esposos, eram dois amantes.
p. 30

Raul e Marcela, amavam-se verdadeiramente; quer dizer: não se amavam como esposos. Raul era um artista. Abandonando por algum tempo a escultura, dedicava-se à arte do amor, a mais bela de todas.
p. 31

Pensou em se estabelecer em Paris. Não o fez por causa de Marcela, que se desgostaria longe dos seus pais, das suas relações.
p. 53

Dizia-lhe a Luisa:
- Eu quero que tu me ames como eu te amo... Com todo o teu corpo; com as mãos... com os braços... com a boca... E deste modo se amavam na realidade... Com a boca principalmente...
p. 59

Foi por essa altura que eu vi Marcela perder a sua habitual alegria: os lábios descorados, os olhos pisados, indicando lágrimas, evidenciavam qualquer desgosto. Esperei que me escolhesse para seu confidente, como já tinha feito uma vez. Calava-se.
p. 60

Entre os dois esposos houve pela primeira vez uma cena. (...) Depois, reflectindo, implorara o perdão com soluções, jurara eterno arrependimento... Tudo quanto pediu obteve...
p. 60

... continuava a precisar de modelos. Luísa, porém, foi banida.
p. 60



[Imagem: Christian Schad, Self-Portrait (detalhe),1927]

22.12.08

Quase

Lucas Almeida
desenho 201


Para ouvir..., ou ler:

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão...
Mas na minh’alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


....................................................

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



(Paris, 13 de Maio de 1913)

MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
in Dispersão

15.12.08

Sá-Carneiro fala de Santa-Rita Pintor que fala de Homem Cristo: Pessoa lê.

Cabeça
Guilherme Santa-Rita, 1910
Óleo sobre tela - 65,3 x 46,5 cm

"(...) Aliás o Santa-Rita não aprecia na prosa ideias, nem belezas - apenas quer música: «Escreva-me você, por exemplo, a descrição de um serrador serrando onde os rr se precipitem raspantes, e eu não terei dúvida em proclamá-lo um artista.» Mas só admite esta arte. Ora se na verdade eu admiro prosa e verso desta espécie (por exemplo, os «Violoncelos», em que se ouvem as cordas a gemerem, ou a sua «Flauta»), acho avançar muito querer reduzir a isto somente toda a literatura e amordaçar a ideia. Que diz a isto você? Outra grande admiração literária do nosso homem é, imagine quem, o Homem Cristo (pai)! Mas o Homem Cristo literato! Chama-lhe génio, cita entusiasticamente frases dele e devora O Povo de Aveiro no Exílio, que aqui se publica hebdomadariamente!... Você compreende o que pode haver de fatigante na conversa com semelhante individualidade. No entanto, sempre em desacordo, largas horas palestramos."

in Cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa
Edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, 2001, p. 23