Dave AprilEstamos em pleno período de campanha eleitoral pelo que, quase diariamente, ouvimos falar de sondagens de opinião. As sondagens aumentam as audiências dos media, os media investem nelas; os políticos comentam as sondagens, contestam-nas se fôr caso disso, às vezes ameaçam instaurar processos; são matérias que vendem. Depois, os partidos políticos também encomendam sondagens e temos sempre a impressão de que estas lhes são mais favoráveis!?
O que resulta de todo este espectáculo é uma enorme descredibilização das sondagens de opinião, nomeadamente de um dos seus tipos, a sondagem eleitoral.
Não acreditando na hipótese de "construção de resultados" por parte das empresas de estudos de mercado, não posso deixar de admitir que existem problemas de natureza metodológica, por um lado, e relativos à publicação/divulgação das ditas sondagens, por outro. Aquando da última revisão da legislação que enquadra as sondagens e as regras jurídicas em matéria da sua divulgação - definidas pela Lei 10/2000, de 21 de Junho -, vários investigadores de reconhecido mérito foram convidados a dar o seu contributo (teórico) pela AACS.
Note-se que cabe à AACS (Alta Autoridade para a Comunicação Social) o poder de fiscalizar a publicação de sondagens eleitorais. É também a AACS que credencia as entidades que podem realizar estes estudos (segundo os últimos dados, são apenas 13).
Ora lendo esses "contributos", críticos em relação à situação e legislação actuais, ficamos imediatamente esclarecidos sobre as limitações objectivas das actuais sondagens. Chamo a vossa atenção para este documento escrito pela profª Maria Helena Gomes que se centra mais nos aspectos ligados à qualidade da informação estatística, mas onde também podemos aprender a ler de forma crítica a ficha técnica de uma sondagem.
A informação estatística pode ser obtida por vários processos, mas o mais comum é através de inquéritos por amostragem. Um inquérito por amostragem tem várias etapas e em cada uma delas há que ter em conta a qualidade. Desde a definição dos objectivos até à divulgação dos resultados, passando pela definição do universo, pelo dimensionamento da amostra, pelo desenho do questionário, pela qualidade dos entrevistadores, etc. tudo isso contribui para a qualidade da informação estatística a obter.(...) Muitas vezes o erro de amostragem foi calculado para determinada desagregação das variáveis, mas a divulgação da informação é feita a um nível mais desagregado. Neste caso o erro de amostragem é com certeza superior e é possível que resulte não só da dispersão, mas também do enviesamento dos dados.
Apesar dos esforços da APODEMO (Assoc. Portuguesa de Empresas de Estudos de Mercado e de Opinião), nomeadamente através da criação do CODEMO, a verdade é que são poucas as empresas que procuraram certificar-se pela Garantia de Qualidade ISO. Pelo que, mesmo que a qualidade média seja elevada, o sector não criou "defesas" que tranquilizem e esclareçam a opinião pública.
No que diz respeito às sondagens publicadas, tenho reparado também que, na ficha técnica, é frequente haver informações omissas. E, o que me parece grave, nunca é nomeado o técnico responsável pelo estudo. A indicação do nome, e a inerente responsabilização pela comprovação e exactidão dos resultados, eliminaria muitos fantasmas, nomeadamente os do nosso primeiro-ministro.
Termino estas notas, recomendando outra leitura - é o contributo do Prof. Jorge Vala que se centra mais na dimensão institucional das sondagens eleitorais.
Para a análise de todas as sondagens que vão sendo publicadas neste período, já devem conhecer o Margens de Erro.
Em "O dia de um Escrutinador", Italo Calvino fez-nos ver que, mesmo junto à mesa eleitoral, tudo pode acontecer. E aqui não há idiotas mas a verdade é que os eleitores indecisos ou pouco convencidos são sensíveis às sondagens eleitorais. Elas podem levar ao voto útil (ou inútil). e há estudos que indicam que este tipo de eleitor também prefere apoiar o partido que é dado como vencedor. Já percebem a raiva do ministro?