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14.10.08

O «Panteão dos Reais Corpos»


"(...) Regressemos a Portugal, e ao ano de 1572 em que, concluídas as obras de construção da capela-mor do mosteiro dos Jerónimos em Belém, se aproximava o soleníssimo momento da transladação dos restos mortais dos monarcas defuntos para aquele que era indiscutivelmente, muito por vontade e determinação de D. Catarina, o «Panteão dos Reais Corpos» da monarquia portuguesa. Não por acaso, reinando seu neto D. Sebastião, parecia pertencer à rainha o protagonismo dos acontecimentos. No dia 2 de Outubro, D. Catarina partiu de Xabregas em direcção ao convento da Esperança de religiosas franciscanas, mais próximo do mosteiro de Belém do que o austero paço que era agora o lugar da sua evidente reclusão, onde aguardou que se ultimassem os preparativos para as exéquias reais.
Finalmente, o mosteiro estava preparado para que se procedesse às cerimónias. A capela-mor luzia os seus magníficos mármores de cor parda, vermelha verde e branca, os majestosos túmulos, os painéis do retábulo da Paixão de Cristo e da Adoração dos Magos, os cristalinos vitrais venezianos encomendados por D. Catarina.
A igreja encontrava-se totalmente paramentada de negro, e no claustro foram levantados trinta altares com frontais e cortinas de tafetá negro, cada um deles com um crucifixo, duas velas e duas tochas. No Domimgo, 12 de Outubro, pela manhã, o bispo de Viseu, D. Jorge de Ataíde, procedeu à consagração do altar da nova capela-mor, e nessa noite a rainha dormiu nas casas que o duque de Aveiro tinha junto do mosteiro. No dia seguinte, dia 13, a rainha deslocou-se ao mosteiro acompanhada por D. Duarte, duque de Guimarães, o embaixador Juan de Borja e muitos outros senhores de título para observar na sacristia da igreja a preparação dos ossos dos reis D. Manuel, D. Maria e D. João III, retirados dos respectivos sepulcros e depositados dentro de uma tumba, em três pequenos caixões de ferro forrados por dentro e por fora de cetim branco assentado com tachas e fechos dourados.
(...)
Mas nem a solenidade de que a cerimónia fúnebre se revestiu obstou a que fosse marcada, também ela, por mais um episódio que evidenciava a insolúvel distância e frieza que separavam D. Catarina do cardeal D. Henrique. (...) Apercebendo-se o cardeal de que as ossadas de seus pais, os reis D. Manuel e D. Maria, depois de retiradas da tumba, eram conduzidas para serem sepultadas ao lado da Epístola, ou seja, à esquerda do altar, considerado liturgicamente menos nobre do que o lado do Evangelho, situado do lado direito, D. Henrique fez saber a D. Catarina do seu desagrado por essa decisão que coubera à rainha. Para o cardeal, ao rei D. Manuel, seu pai, fundador do mosteiro de Belém, cabia o lugar mais digno e simbolicamente relevante na capela-mor, e por isso era-lhe devido ser sepultado ao lado do Evangelho. Foram e vieram recados. Argumentou D. Catarina que custeara as obras do seu bolso, por amor do rei D. João III, seu marido, e por isso se considerava no direito de para ele - e para si própria - escolher o lado do Evangelho.
Do surdo confronto entre ambos acabou por triunfar a vontade do cardeal, «ficando ela [a rainha] muito desgostosa»... .
(...)
Terminaram as exéquias reais pelas duas da tarde do dia 14 de Outubro."

- ou seja, agora mesmo, há 436 anos!


in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 398-403

20.8.08

«um pequeno pagem de cerca de onze anos»

"(...) mas no que dizia respeito à sucessão do trono, era incontido o júbilo dos monarcas.
Um facto ensombrava contudo aquele momento, sobretudo no que tocava a D. João III: a ausência do infante D. Luís, condestável do reino, que à revelia do rei seu irmão e sem obter autorização prévia decidiu partir de Évora para se juntar, em Barcelona, às tropas de Carlos V, que naquela cidade da Catalunha preparavam a expedição de Tunes contra os Turcos. Apesar do seu grande descontentamento perante o facto consumado, bem patente na ríspida carta que em 13 de Maio de 1535 escreveu a António de Ataíde, conde de Castanheira, sobre o auxílio a enviar a D. Luís, D. João III teve de empenhar-se no auxílio a fornecer à expedição, em cujo numeroso séquito seguia um pagem de cerca de onze anos de idade, chamado Luís de Camões.
Não era, contudo, a primeira vez que se manifestava a «ansiedade guerreira» de D. Luís, bem conhecida na corte portuguesa. Anos antes, em 1530, o embaixador castelhano, Lope Hurtado, fazia menção ao projecto já então acalentado pelo segundo e dilecto filho de D. Manuel de combater o Turco junto do imperador. Fê-lo, então em 1535,na conquista de Tunes. As forças cristãs, sob o comamdo do imperador, obtiveram a 14 de Julho desse ano de 1535 retumbante vitória militar e a conquista daquela cidade do Norte de África, saldando-se também aquele sucesso para D. Luís, eterno segundo, vítima e um sistema em que era, afinal, tanto e tão pouco, por um prestígio amplamente celebrado no tempo, em particular em círculos literários próximos da corte - o poeta e humanista Francisco de Sá de Miranda dedicou-lhe a écloga Célia, em que se exaltava o feito cristão contra o infiel, e as virtudes reveladas pelo infante;..."


in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 201


Nota: 473 anos depois, no mesmo dia 14 de Julho, um bando de portugueses infiltrou-se na medina de Tunes para chegar à conclusão que os únicos invasores bem sucedidos... eram suecos.

2.8.08

Tordesilhas

Tratado de Tordesilhas
Ler Documento completo


"Tordesilhas, junto ao rio Douro, vila tranquila e amena onde nos inícios de 1509 entrou a rainha de Castela e herdeira de Aragão [D. Joana], era um dos lugares onde os monarcas castelhanos possuíam paço, constuído na época de Henrique III (r.1390-1406), parte de uma rede de residências régias que a itinerância e a mobilidade próprias da realeza medieval tornavam necessária à pousada e estadia dos monarcas e da corte que os acompanhava, e terra ligada a ocasiões de subida importância política para a monarquia castelhana - como fora, em 1494, a assinatura do tratado que dividia o mundo com o vizinho reino de Portugal. (...) Foi a chegada de D. Joana que havia de conferir-lhe uma relevância simbólica única - embora fossem outras figuras que por ela exerceram o poder noutros lugares, Tordesilhas alcançava então o estatuto de verdadeira sede da corte e de capital do reino de Castela ao longo de quarenta e seis anos, até à sua morte. Porque, na verdade, a darmos inteira razão ao sábio Afonso X (r. 1252-1284) de Leão e Castela, a corte era onde estava o rei... ."

in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 43-44

29.7.08

«ordem natural»

"[...] os objectivos tradicionais da educação feminina tinham na sua base, como motivo central, o papel dominante das mulheres, ou seja, o casamento (e o governo da casa) e a procriação. Numa orgânica familiar como era a do Antigo Regime, entendida como decorrendo de uma «ordem natural» imutável e que tudo regia, onde cada um tinha o seu lugar preciso, eram essas as funções que a sociedade e, dentro da família, a hierarquia doméstica conferiam fundamentalmente à mulher - o que era independente do posicionamento na escala social.
(...)
Segundo Vives, a mulher cristã e virtuosa devia conhecer as Sagradas Escrituras, as boas maneiras e os preceitos morais, mas não lhe era própria a aprendizagem da ciência, da filosofia e da retórica. Rezar, ler e trabalhar eram ocupações úteis (até para preservar do ócio, espaço da tentação e do pecado desde a época medieval), que pertenciam à esfera do privado, ou seja, ao espaço doméstico, à casa. Não por acaso, os manuais destinados à instrução feminina davam um singular relevo ao governo da casa, espaço de poder indiscutivelmente pertença da mulher - de todas as mulheres, para lá da sua posição social. No exterior, o único espaço legítimo era o da Igreja; os outros domínios relativos à vida económica, social, política e intelectual eram um espaço masculino."

in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 57-58

25.7.08

«sem ajuda de varão»

"Na verdade, D. Joana cresceu até aos dezasseis anos, quando partiu para casar, numa corte em que o gosto pelas coisas da cultura, no seu sentido mais lato, ganhara um lugar destacado no conjunto de interesses e da sociabilidade aristocrática da corte castelhana de então.
Em particular, a cultura letrada e o interesse pelas novas correntes italianizantes e ainda as novidades da Flandres merecem o favor de Isabel, a Católica, possuidora de uma notável biblioteca de cerca de quatrocentos volumes reunida ao longo da vida em que, para além do natural destaque e predomínio dos livros de carácter religioso, estavam presentes autores clássicos como Aristóteles, Virgílio, Tito Lívio e Séneca, este último tão amado pela cultura hispânica medieval, mas também modernos, como Boccaccio, igualmente presente nas livrarias de outros reis peninsulares, como na de D. Manuel. Por outro lado, Isabel, a Católica acolhera e protegera destacados humanistas como Lúcio Marineo Sículo, em 1484, e sobretudo o milanês Pedro Mártir de Anglería, chegado a Castela em 1488, trazido por D. Iñigo López de Mendoza, conde de Tendilla, que havia sido embaixador em Roma.
Num outro plano, em que são mais evidentes as preocupações pedagógicas relativas à aquisição de saberes no universo feminino, a rainha D. Isabel solicitou em 1486 ao prestigiado António de Nebrija que elaborasse uma versão da sua gramática latina para que as mulheres pudessem aprender «sem ajuda de varão». Ficou aliás célebre a presença, na corte de Isabel, da erudita Beatriz Galindo, a quem chamavam «la latina», que muito contribuiu para a aprendizagem do latim por parte das damas da corte de Isabel, a Católica, mas também de Juana de Contreras, outra das mulheres desse círculo próximo de Isabel e que se destacaram pela sua grande cultura.
Neste quadro e ambiente, a cuidada educação das infantas suas filhas Joana e Maria foi confiada a um humanista, Alejandro Geraldino, que lhes ensinou latim a partir dos seis anos de idade e lhes deu alguma formação humanística. Dizia Juan Luís Vives, autor de uma das obras centrais da instrução feminina no século XVI, incessantemente traduzida e copiada, De Institutione Feminae Chritianae, que quer Isabel e Joana quer Maria e Catarina respondiam com facilidade em latim a quem nessa língua as interpelava.
Tal não significa que da formação das filhas de Isabel e jovens da mais alta nobreza que integravam a sua corte estivessem ausentes aqueles que eram, por tradição e quase natureza, os saberes próprios da mulher honesta e virtuosa, ainda que fosse filha de reis e de rainhas - saberes que, como já se dizia nas Siete Partidas, também «pertencem a nobres donas». E na verdade, o mesmo Vives, num outro passo da sua obra, referia como Isabel, a Católica quis que as quatro filhas «aprendessem a fiar, coser e bordar com soltura [...]». E, evidentemente, a piedade e a devoção cristãs que, inculcadas pela prática quotidiana e pela participação em ofícios litúrgicos - mesmo quando, no caso vertente, a rainha D. Joana com frequência a eles se furtava -, se completava, nesta alta nobreza de que falamos, tantas vezes a partir da leitura de livros de horas e de devoção, da leitura de episódios de vidas de santos, de sermonários e tratados morais e de edificação, que sabemos que circulavam e faziam parte, se assim o quisermos dizer, de uma religiosidade de feição aristocrática.
Para lá, portanto, de alguma abertura a outros saberes e a alguma erudição que eram também sinal de pertença social, poder, distinção e não indício de verdadeira criação cultural por parte das mulheres da nobreza - a música, os livros, as línguas clássicas, sobretudo o latim, por vezes também o grego-, e de certos comportamentos próprios da sua condição social, a educação das filhas de reis e de grandes senhores partilhava com todas as outras mulheres, no limite, tudo o resto - embora esse resto viesse, naturalmente, a revestir várias e diferentes configurações."

in Buescu, Ana Isabel, Catarina de Áustria Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, Edit. A Esfera dos Livros, Novembro de 2007. pp 55, 56 e 57

7.7.08

Rainha de Portugal entre 1525 e 1557


Depois de terminar o primeiro volume de "Isabel, A Rainha - As Filhas da Lua Vermelha", de Ángeles de Irisarri, um romance sobre a Rainha Católica, volto a centrar-me no Reino de Portugal, lendo uma biografia da sua neta Catarina.

A historiadora
Isabel Buescu é a autora da obra e é a primeira vez que, na minha lista, vejo a preocupação sistemática da referência às fontes. «Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas» é um tratado de saber, transmitido com rigor, através de uma prosa elegante e fluente, que incita à leitura.

Uma breve sinopse:
D. Joana, rainha e viúva de vinte e sete anos de idade, após a morte «fulminante» do jovem rei Filipe I, deu à luz a sua última filha a 14 de Janeiro de 1507. Nascida orfã de pai, a infanta recém-nascida recebeu o sacramento do baptismo na Igreja de Torquemada, onde repousava, por ordem de sua mãe, o corpo insepulto do rei seu pai.
Em 1509, D. Joana, Rainha de Castela, a quem muitos começavam a chamar a Louca, foi encarcerada no paço régio de Tordesilhas, às ordens de Fernando, o Católico, seu pai. Catarina partilhou com a mãe o cativeiro e aí cresceu num monótono e confinado quotidiano.
Em 1524, o destino de Catarina mudou. No âmbito do diferendo entre Portugal e Espanha em torno das ilhas do «cravo e das especiarias» de Maluco, seu irmão, o imperador Carlos V, concerta o seu casamento com D. João III.
D. Catarina ocupou o trono de Portugal até à morte de D. João III e foi regente na menoridade do rei D. Sebastião, seu neto, até 1562.
A sua vida foi marcada pelo drama da morte de todos os nove filhos, que gerou num processo que, dadas as tão estreitas relações familiares e dinásticas com a Espanha de Carlos V e depois de Filipe II, veio a fazer da sucessão do trono português um delicado problema político.
D. Catarina faleceu na madrugada de 12 de Fevereiro de 1578, poucos meses antes de se consumar, em Alcácer Quibir, o desaparecimento de D. Sebastião e, com ele se traçar o fim da dinastia de Avis.