24.10.12

Existir

Calvino dizia:
saber poemas de cor é bom
porque os poemas fazem boa companhia

e porque se deve treinar a memória.

Os poemas são úteis.

Cunningham diz:
há pessoas que são mais do que úteis
e ser mais do que útil é ser belo.

como alguns poemas.

Outro homem dirá que saber de cor é trazer no coração.
(by) heart
(par) coeur

transportamos a memória no centro do nosso corpo. poemas, às vezes.
que podem ser melhor companhia do que uma pessoa mais do que útil.
ou não (depende dos dias, e do número de dias sem pessoas).

Calvino também dizia que é importante saber fazer cálculos simples à mão, sem calculadora.
por exemplo, saber fazer divisões.
a cabeça calcula o que a mão vai traçando.

É complicado existir.

Finalmente, ele que via cidades invisíveis a nascer dos sonhos das cidades invisíveis, concluía da absoluta necessidade de saber que tudo o que temos podemos perder a seguir
numa nuvem de fumo.

método de sobrevivência: estar junto
instrumento: a música
lugar: a praça

abrir a vida à folia.
amar.

ruído: fazer o quê com o menos que útil?

Não tenho ideias fixas. (logo, como ele, não poderei ser político)
tenho instintos. querer adiar o inabitar.
Decidi decorar poemas.

Começando:
"Comigo me desavim
minha senhora
de mim..."

(Depois continuo. No livro da Maria Teresa Horta.
por exemplo)

Adio muito
existir.
 
 
MRF
2006

20.10.12

Não faças milagres por amor de mim

Ernesto Timor, Just Mary


Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke

Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie nem a minha direcção assuma o sentido do teu sopro.
ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. silencioso aproximas-te como um animal feroz e sou a corça que salta antes de ficar encurralada e te olhar suplicante. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo-sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar-o-teu-medo de não seres grande.
ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.

MRF
2005

7.10.12

Tive, em vez de uma longa vida de doçura

Tive, em vez de uma longa vida de doçura,
A travessia de vales e montes lamacentos;
Em vez de noites breves sob os véus
O temor da viagem no seio de infindável treva;
Em vez de água límpida sob sombras
O fogo das entranhas queimadas pela sede;
Em vez de perfume errante das flores
O hálito esbraseado do meio-dia;
em vez da intimidade entre ama e amiga
A rota nocturna cercado de lobos e de génios
em vez do espectáculo de um rosto gracioso
Desgraças suportadas com nobre constância.



IBD DARRAJ AL-QASTALLI
nasceu em Cacela em meados do séc. X, e foi considerado em todo o al-Andalus, o maior do seu tempo.

Fica o passar do tempo na paisagem

Fica o passar do tempo na paisagem
 -- fica numa folha que passa
e seca
tomba...

Fica numa sombra
a completar a imagem
da eternidade.



ANTÓNIO DE NAVARRO (Vilar Seco, Nelas, 1902 -- Lisboa, 1980)

1.10.12

Literatura & Arquitectura

[No Dia Mundial da Arquitectura____________________, celebrado em Portugal no dia que as Nações Unidas destinaram ao dia mundial do habitat, 1ª segunda-feira de Outubro.]

18.9.12

Lês os contornos do meu corpo


Lês os contornos do meu corpo como aquela cigana leu as linhas da minha mão.

dentro do espelho nítida
rosto liso peito iluminado esterno saliente
ventre de penugem dourada
a mão pousa
diz Quente
sexo pernas moldados por sombras que revelam relevos
segredos
és
vulto que percebemos ao fundo
provocador ausente
ciente

sais do escuro
centras-te dentro do espelho
que eu solte os cabelos e o instinto
que apenas te espreite no estanho do móvel
e depois essa ideia
que eu erga o queixo e permaneça imóvel
e eu consinto
_____que o meu corpo marque os dois destinos



Certamente que me observara de longe, eu atravessei o largo da fonte, pus a carta no marco e no regresso passeei as mãos pela água.
Num instante, segurou-me com palavras, esticou-me a mão molhada, olhou e disse: só estás com ele porque ele está longe.


MRF
2005

27.8.12

Duermes



Duermes,
mientras la ciudad golpea el cristal con su llanto,
ajena a tu sueño. Qué pena que este milagro
de verte dormida en paz
no desborde el muro de esta habitación.
Ojalá que mañana,
cuando te despiertes,
duerma mi dolor.

Duermes,
y bajo el flexo una estudiante reza la locura
de huir con los muchachos del camión de la basura.
Y, mientras, los bares
entierran la culpa de esta gran ciudad.
Tantas soledades
sin saber que duermes
no pueden amar.

Duermes,
insomne cruzo la casa y te busco intranquilo,
porque sueño a tu lado,
aunque no duerma contigo.
Duermes,
perdona mi maldita costumbre de despertarte
porque tengo miedo,
o porque llego tarde.

Duermes,
y un hombre escribe versos frente a una computadora.
Temblando, en la pantalla, abre la caja de Pandora.
Y en un cuarto de hotel,
busca encendida en el minibar
el rumor de las olas
una pareja que esta
noche no dormirá.

Duermes,
y un hombre llora en un taxi mientras suena la radio.
Una mujer desnuda lo detiene en un semáforo.
Nadie sabe que duermes,
no consta en los diarios.
Qué lástima la gente
que nunca besará la paz
sobre tus párpados.

Duermes,
insomne cruzo la casa y te busco intranquilo,
porque sueño a tu lado,
aunque no duerma contigo.

Duermes,
perdona mi maldita costumbre de despertarte
porque tengo miedo,
o porque llego tarde.

J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance...

Prose du transsibérien (fragmento)

 En ce temps-là j’étais en mon adolescence
 J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de mon enfance
 J’étais à 16.000 lieues du lieu de ma naissance
 J’étais à Moscou, dans la ville des mille et trois clochers et des sept gares
 Et je n’avais pas assez des sept gares et des mille et trois tours
 Car mon adolescence était si ardente et si folle
 Que mon cœur, tour à tour, brûlait comme le temple
 d’Éphèse ou comme la Place Rouge de Moscou
 Quand le soleil se couche.
 Et mes yeux éclairaient des voies anciennes.
 Et j’étais déjà si mauvais poète
 Que je ne savais pas aller jusqu’au bout.

 Le Kremlin était comme un immense gâteau tartare
 Croustillé d’or,
 Avec les grandes amandes des cathédrales toutes blanches
 Et l’or mielleux des cloches…

 Un vieux moine me lisait la légende de Novgorode
 J’avais soif
 Et je déchiffrais des caractères cunéiformes
 Puis, tout à coup, les pigeons du Saint-Esprit s’envolaient sur la place
 Et mes mains s’envolaient aussi, avec des bruissements d’albatros
 Et ceci, c’était les dernières réminiscences du dernier jour
 Du tout dernier voyage
 Et de la mer.

 Pourtant, j’étais fort mauvais poète.
 Je ne savais pas aller jusqu’au bout.
 J’avais faim
 Et tous les jours et toutes les femmes dans les cafés et tous les verres
 J’aurais voulu les boire et les casser
 Et toutes les vitrines et toutes les rues
 Et toutes les maisons et toutes les vies
 Et toutes les roues des fiacres qui tournaient en tourbillon sur les mauvais pavés
 J’aurais voulu les plonger dans une fournaise de glaives
 Et j’aurais voulu broyer tous les os
 Et arracher toutes les langues
 Et liquéfier tous ces grands corps étranges et nus sous les vêtements qui m’affolent…
 Je pressentais la venue du grand Christ rouge de la révolution russe…
 Et le soleil était une mauvaise plaie
 Qui s’ouvrait comme un brasier.

 En ce temps-là j’étais en mon adolescence
 J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance...

 Blaise Cendrars (1887-1961)

 

26.8.12

O meu amor existe



O meu amor tem lábios de silêncio
e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes, ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe

25.8.12

Jesus Cristo bebia cerveja

«Ao fundo, Antónia e a neta caminham de mãos juntas. Junto à estrada há uma estátua da Virgem, com as mãos postas em oração. Quando tinha três anos, Rosa, ao ver a estátua com as mãos naquela posição, julgava que a Santa batia palmas. Agora, claro, já não pensa assim.»

in Afonso Cruz, "Jesus Cristo bebia cerveja"
Editora Objectiva, 2012