8.9.07

As cidades invisíveis

Nada garante que Kublai Kan acredite em tudo o que diz Marco Polo ao descrever-lhe as cidades que visitou nas suas missões, mas a verdade é que o imperador dos tártaros continua a ouvir o jovem veneziano com maior atenção e curiosidade que a qualquer outro enviado seu ou explorador. Na vida dos imperadores há um momento, que se segue ao orgulho pela vastidão ilimitada dos territórios que conquistámos, à melancolia e ao alívio de sabermos que em breve renunciaremos a conhecê-los e a compreendê-los;[...] é o momento desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiado gangrenada para que baste o nosso ceptro para a remediar [...].

in Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
Ed. Teorema


Nas últimas semanas andei por aldeias cidades quase invisíveis, escondidas por mares de granito, marões, muitos, parentes do único Marão da pátria de Torga ou, mais a Sul, nascidas à beira da Estrela (que só por isso a Beira é a Beira, à beira da serra), algumas célebres pelas suas ruínas, lugares que deixaram de ser o que eram e que existem agora com outra alma, a custo, ainda dependentes da riqueza que se atribuir às pedras mais ou menos soltas ou agregadas, esculpidas ou torturadas, que escaparam a séculos ou a décadas de abandono. Terras que são de quem lá ficou ou de quem foi para longe, para muito longe, mas volta sempre, custe o que custar, para carregar o Santo ou abraçar compadres. Terras de suas gentes, velhas, pobres, saudosas de frutos e filhos, mas inertes. Ou terras que seguraram a última candeia e se transformaram em coisa híbrida, fruto da fusão da cultura rural original com os valores do novo turismo, histórico, alternativo.

É o nosso império, e a soma de todas estas maravilhas não pode vir a ser uma ruína sem pés nem cabeça. Mas, antes que a memória, o desejo, os sinais, as trocas, até o nome, se alterem novamente, convém ir até lá. Todos os lugares se aproximaram de nós. E os olhos podem agora ser muitos.

A partir de hoje, em cada fim de semana tentarei recrutar exploradores, falando deste ou daquele lugar quase invisível. Até que se esgote a memória e os arquivos de fotografias (pelo que não garanto nada :) ).

It's a man's world

e eu deixo, com prazer, quando é assim:

7.9.07

À escuta #48


Numa das praias fluviais mais limpas e equipadas que vi no nosso país, na barragem do Azibo (próximo de Macedo de Cavaleiros), uma emigrante perturba toda a clientela do restaurante de apoio. "Berra" com alguém ao telemóvel durante quase uma hora em francês. Todos a ouvem insultar toda a familia portuguesa, nomeadamente o oncle Machado, e concluir várias vezes que c'est ma famille mais ils ne sont que de la merde. Pedem-lhe que se retire, o que ela faz, mas como continua a gritar, e as portas envidraçadas estão todas abertas, o incómodo não desaparece. Então alguém diz que não vale a pena criar infraestruturas modernas, de design arrojado, como aquele, em frente a uma praia que deve ser a única a ter avisos em braille, passagens niveladas para deficientes, canadianas anfíbias, etc., para aquele tipo de clientela. Ou seja, não se deve oferecer pérolas (civilidade) a porcos. Ouvem-se cochichos em todas as mesas. Muito preocupadas com a ideia de perder outros "lagos" como aquele só por causa do comportamento de uma senhora, as minhas filhas decidem entrar na discussão. A dado momento, S. levanta a voz bem alto e afirma:

- Os cegos não têm culpa!

À escuta #47

Em viagem, num mesmo dia, entram em Espanha (Sanábria), regressam a Portugal (Trás-Os-Montes) e, mal entram num restaurante, percebem que nas mesas à volta muitas pessoas falam francês. Conclusão da S. que poucos dias antes tinha ouvido uma explicação sobre a CE:
- Isto é que é a tal Europa, não é?

À escuta #46

A - Todos aqui são franceses!
- Não são bem franceses. São portugueses que vivem em França e estão cá de férias.
A - Mas tantos?
- Sim, no mês de Agosto têm férias e voltam à terra para matar saudades.
A - Mas se têm saudades por que não falam português?
- Alguns já vivem em França há muitos anos e habituaram-se a falar mais em francês do que em português.
A - Eu acho que eles não querem que os outros percebam o que dizem. É como se dissessem segredos em voz alta, não é? Mas isso não se faz!

6.9.07

A canção do que dorme

Subo ao sono
Os seus degraus são sete
Tu estás no sono
Elegia daquelas que partem
E um ícone de reprovação

Subo ao sono
Os seus degraus são sete
Exactamente

E nada acontece
Ou termina!
Acendo a luz
Para que os mortos vejam o sono.


Ghassan Zaqtan
in O Estado do Mundo
Fundação Calouste Gulbenkian/Tinta da China
2007, pp. 66


Acendam a luz por Pavarotti, falecido hoje. Acendam a luz por Eduardo Prado Coelho - cujas crónicas lia raramente sabe-se lá porquê, mas que me ofereceu «Os Universos da Crítica» aos vinte anos e deu vida neste país à figura de uma ciência que nunca deixou de me fascinar, a semiologia. Acendam a luz por Ingmar Bergman que, com «O Sétimo Selo», me fez acreditar na morte como um deus. um dia conto-vos. Acendam a luz por Antonioni que engrandeceu, blow-up, Vanessa Redgrave, um beijo, um parque e uma morte, fundindo ilusão e realidade. Façam-no também por Francisco Umbral que me disse «(E) como eram as ligas de Madame Bovary». Acendam a luz pelos 14 civis mortos na madrugada de hoje num bairro de Bagdad, enquanto dormiam, na sequência de um ataque aéreo americano. Todos desaparecidos enquanto tomava banhos de sol e de mundo ou me arranjava para o trabalho, distraída a viver.
Para que vejam o seu sono, e nós o nosso. Mesmo que nada aconteça, ou termine.

5.9.07

O estado do mundo #2d

... Ou ainda: «a cultura visual da pobreza e da moda» de Zwelethu Mthethwa.




Sem título, 2004



Sem título, da Série Sugar Cane, 2003

O estado do mundo #2c

Outro exemplo são as vitrines-gaiolas de Tracey Rose.



O estado do mundo #2b

Para ilustrar as palavras de Colin Richards sobre as imbricações do humanismo e da violência no trabalho artístico, deixo-vos um link e uma pequena amostra das perfomances do sul-africano Steven Cohen.

O estado do mundo #2



Há cerca de dois anos foi publicado um livro de Edward Said, recentemente falecido, com o título Humanism and Democratic Criticism. Neste livro, Said defende veementemente a importância desse conjunto de ideias e práticas que podemos incluir sob o rótulo «humanismo». O texto de Said é complexo, sem peias, e relaciona-se com termos que ouvimos quase todos os dias - das intervenções «humanitárias» aos crimes contra a humanidade. O Apartheid foi um desses crimes contra a humanidade, como é declarado pela resolução 3068 das Nações Unidas, aprovada a 30 de Novembro de 1973. [..] - o «crime contra a humanidade» - surgiu pela primeira vez no Acórdão de Londres de 8 de Agosto de 1945, que instaurou o tribunal de Nuremberga após a Segunda Guerra Mundial. Foi então que, «pela primeira vez na história do direito, determinados crimes foram considerados de tal magnitude que não agrediram apenas as vítimas directas nem o povo do país ou continente onde foram perpetados, mas também a humanidade no seu todo».

Há aqui claramente uma certa ideia de pan-humanismo a animar este discurso, conferindo-lhe forma, direcção e propósito. Mas igualmente importante é a relação entre o que poderíamos conceber como humano e a ideia de crime quase transcendental, um acto supremo de violência e violação inumanas. É nesta conjugação de violência e humanismo que, na minha opinião, grande parte da arte contemporânea crítica encontra o seu campo de acção. [...]
Talvez o trauma, ou a nossa reacção ao trauma, a forma como sofremos o trauma, a forma como o perpetramos, faça parte do que a nossa comum humanidade engloba. Talvez a energia contida na arte que fazemos esteja mais próxima da violência.

Colin Richards, em Feridas das Descobertas, in O Estado do Mundo
Fundação Calouste Gulbenkian/Tinta da China
2007, pp. 43-44



Fotografia. Mindelo, Cabo Verde, frente à (antiga) Escola Preparatória Jorge Barbosa, Junho 2005