7.12.12

Em Louvor da Alemanha


Imperiais, burgueses, grosseria
como de duques de uma Idade-Média
sonhada por românticos no vómito
da cervejaria a mais - e todavia
a pompa de sentir que a realidade
é como esse equilíbrio de ser besta
à beira de sonhar-se o universo.

7/Dez/1870

Jorge de Sena
in "Sequências", colecção Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1ª ed. de Julho de 1980

1.11.12

Tristano morre

Tristano morre.
Tabucchi morre.

O seu último romance.


“[…] Disparates, as pessoas não morrem, assiste-me o dever de informar, ficam encantadas, apenas… como disse um escritor que havias de conhecer, ficamos encantados por aqueles que nos amam muito muito muito, e pairamos no ar a meia altura como uns balõezinhos mas ninguém nos vê, vêem-nos apenas aqueles que nos amam muito muito muito, e eles, erguendo-se em bicos dos pés, com um ligeiro impulso, um pulo de nada, agarram-nos pelas pernas que entretanto já são feitas de ar e puxam-nos para baixo, não nos largam, para que não recomecemos a voar, a levitar, mas dando-nos o braço seguram-nos mais rente ao chão, tão rente ao chão quanto eles próprios, como se não tivesse acontecido nada, tal como em certos faz-de-conta da vida, por conveniência social, para não se fazer má figura à frente do dono da retrosaria, ou da tabacaria, que te conhece desde sempre e diria coisa estranha este tipo a passear de braço dado com a mulher e ela a meia altura… E foi o que sucedeu a Tristano, era domingo, e mesmo que não fosse tanto faz porque eu decidi que as coisas importantes de Tristano aconteciam aos domingos, e se tu o escreveres no livro que hás-de escrever passa a ser verdade, porque depois de escritas as coisas tornam-se verdade… e estava-se em Agosto, porque eu decidi que as coisas importantes da vida de Tristano aconteceram num domingo de Agosto, e se tu o escreveres também isto passa a ser verdade, verás… […]”.

Vida Sempre




Vida Sempre

Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito, in "Poemas da Solidão Imperfeita", Faro, Edição do Autor, 1957



 [Imagem: Cruzeiro Seixas. "O que vos digo é que antes de voar, o homem já sabia voar". 1985. Tinta-da-China, Lápis s/ Papel. 23x37 cm]

24.10.12

Existir

Calvino dizia:
saber poemas de cor é bom
porque os poemas fazem boa companhia

e porque se deve treinar a memória.

Os poemas são úteis.

Cunningham diz:
há pessoas que são mais do que úteis
e ser mais do que útil é ser belo.

como alguns poemas.

Outro homem dirá que saber de cor é trazer no coração.
(by) heart
(par) coeur

transportamos a memória no centro do nosso corpo. poemas, às vezes.
que podem ser melhor companhia do que uma pessoa mais do que útil.
ou não (depende dos dias, e do número de dias sem pessoas).

Calvino também dizia que é importante saber fazer cálculos simples à mão, sem calculadora.
por exemplo, saber fazer divisões.
a cabeça calcula o que a mão vai traçando.

É complicado existir.

Finalmente, ele que via cidades invisíveis a nascer dos sonhos das cidades invisíveis, concluía da absoluta necessidade de saber que tudo o que temos podemos perder a seguir
numa nuvem de fumo.

método de sobrevivência: estar junto
instrumento: a música
lugar: a praça

abrir a vida à folia.
amar.

ruído: fazer o quê com o menos que útil?

Não tenho ideias fixas. (logo, como ele, não poderei ser político)
tenho instintos. querer adiar o inabitar.
Decidi decorar poemas.

Começando:
"Comigo me desavim
minha senhora
de mim..."

(Depois continuo. No livro da Maria Teresa Horta.
por exemplo)

Adio muito
existir.
 
 
MRF
2006

20.10.12

Não faças milagres por amor de mim

Ernesto Timor, Just Mary


Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke

Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie nem a minha direcção assuma o sentido do teu sopro.
ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. silencioso aproximas-te como um animal feroz e sou a corça que salta antes de ficar encurralada e te olhar suplicante. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo-sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar-o-teu-medo de não seres grande.
ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.

MRF
2005

7.10.12

Tive, em vez de uma longa vida de doçura

Tive, em vez de uma longa vida de doçura,
A travessia de vales e montes lamacentos;
Em vez de noites breves sob os véus
O temor da viagem no seio de infindável treva;
Em vez de água límpida sob sombras
O fogo das entranhas queimadas pela sede;
Em vez de perfume errante das flores
O hálito esbraseado do meio-dia;
em vez da intimidade entre ama e amiga
A rota nocturna cercado de lobos e de génios
em vez do espectáculo de um rosto gracioso
Desgraças suportadas com nobre constância.



IBD DARRAJ AL-QASTALLI
nasceu em Cacela em meados do séc. X, e foi considerado em todo o al-Andalus, o maior do seu tempo.

Fica o passar do tempo na paisagem

Fica o passar do tempo na paisagem
 -- fica numa folha que passa
e seca
tomba...

Fica numa sombra
a completar a imagem
da eternidade.



ANTÓNIO DE NAVARRO (Vilar Seco, Nelas, 1902 -- Lisboa, 1980)

1.10.12

Literatura & Arquitectura

[No Dia Mundial da Arquitectura____________________, celebrado em Portugal no dia que as Nações Unidas destinaram ao dia mundial do habitat, 1ª segunda-feira de Outubro.]

18.9.12

Lês os contornos do meu corpo


Lês os contornos do meu corpo como aquela cigana leu as linhas da minha mão.

dentro do espelho nítida
rosto liso peito iluminado esterno saliente
ventre de penugem dourada
a mão pousa
diz Quente
sexo pernas moldados por sombras que revelam relevos
segredos
és
vulto que percebemos ao fundo
provocador ausente
ciente

sais do escuro
centras-te dentro do espelho
que eu solte os cabelos e o instinto
que apenas te espreite no estanho do móvel
e depois essa ideia
que eu erga o queixo e permaneça imóvel
e eu consinto
_____que o meu corpo marque os dois destinos



Certamente que me observara de longe, eu atravessei o largo da fonte, pus a carta no marco e no regresso passeei as mãos pela água.
Num instante, segurou-me com palavras, esticou-me a mão molhada, olhou e disse: só estás com ele porque ele está longe.


MRF
2005