8.1.12

S. Gonçalinho

Quando cheguei a Aveiro, os foguetes e fogo de artifício que começaram a "rebentar" logo no início do ano eram um mistério. Festejariam o ano novo até meados de Janeiro? Lembro-me de uma noite andar à procura da festa___ e de finalmente encontrar a capela de S. Gonçalinho e assistir àquela estranha tradição de atirar cavacas, mais o folclore das redes de pesca e guarda-chuvas invertidos! Era impossível resistir à animação___ sobretudo se o pacote da festa incluia balões com formas de sereias e de golfinhos, algodão doce e muita música pimba! Nesta foto, as minhas meninas tinham 6 aninhos. Fazia um imenso frio mas isso não importava nada! ;)


1.1.12

Branislav MIHAJLOVIC


PREFÁCIO

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
– Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos
 - Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara ao estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
– Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.
 Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
– E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva – tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
 Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta atividade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.

HERBERTO HELDER in "Ofício Cantante", Assírio & Alvim, pp. 9-12
Poema originalmente publicado em 1961, republicado em 1967 na primeira antologia do poeta (que teve o memso título, "Ofício Cantante", e foi publicado pela extinta Portugália Editora).

26.12.11

Bem vindos ao passado do futuro!

Não é uma evocação a Teixeira de Pascoaes, mas podia ser, sem glória. "O futuro é o passado que amanhece", dizia.  Acontece que não há saudade, que não aspiramos à "luz espiritual do passado". Neste país que é o meu, o futuro começa a ser o passado do presente, e isso é mau. Entrem bem neste novo ano situado algures no tempo, anterior a uma revolução a que chamaram "dos cravos"!


Victorian special agent saves Europe from itself - with help from the French and, of course, the Americans... Directed by Tim Ollive... Master of Ceremonies voice, eyes, mouth, Phil Jupitas... Produced by Steam Driven Films in London and 2d3D Animations in Angouleme (avec le soutien de la Region Poitou-Charentes et du Departement de la Charente).

24.12.11

Canção de todos os dias

Diz-me lá porque é que tu não me envias postais durante o ano inteiro
Diz-me lá porque razão é que não me dás prendas sem ter um pretexto
Diz-me lá o que te move uma vez por ano
Eu preciso mais de ti do que te vais lembrando

Family portraits

Fotos de famílias. A nossa poderia ser uma delas. Para além do meio geográfico e social, o que a tornaria absolutamente distinta das restantes? Cada um dos seus membros e esse "todo" que tende a ser maior que a soma das partes! Para todos vós, um feliz Natal! E não se esqueçam de chamar o Thomas Struth que há em vós para registar para a posteridade as "family resemblances" em noite de consoada...


Thomas Struth


A exposição "Fotografias 1978-2010" podemos ver vista em Serralves (até 29 Janeiro de 2012). É absolutamente fantástica! Deixo um link para um vídeo-(do)cumentário sugestivo sobre a mesma___ aqui!

19.12.11

Václev Havel (1936-2011). Cartas a Olga

Nascido em Praga (1936), Václav Havel trabalhou no Teatro da Balaustrada, onde foi técnico de luzes, secretário, assistente de encenação, leitor e autor residente. As suas duas primeiras peças, Garden Party (1963) e Notificação (1965), granjearam-lhe de imediato o reconhecimento internacional como dramaturgo. Finda a Primavera de Praga, em 1968, passou a ser um autor proibido na sua pátria e, devido ao estatuto de co-fundador e porta voz da «Carta 77», veio a sofrer inúmeras condenações e penas de prisão que acabaram por desencadear uma onda de protestos a nível internacional, incluindo os países de Leste. As Cartas que escreveu a Olga Havlová (1933-1996), sua esposa (desde 1964 até 1996), constituíram «o único meio que possuo para comunicar contigo e com o mundo».
Václev Havel viria a ser o último presidente da Checoslováquia (1989-92) e o primeiro Presidente da República Checa (1993-2003). Em 1997 casou com a actriz Dagmar Havlová. Em 2008, "viu subir à cena uma nova peça sua De saída, que dava conta dos dilemas de um líder político no momento de abandonar o cargo. A obra foi aclamada pela crítica." Václev Havel morreu ontem durante o sono, na sua casa em Hrádecek.


1ª CARTA
Querida Olga:

Os astrólogos tinham razão, como se está a ver, quando me predisseram de novo cadeia para este ano e quando anunciaram um Verão quente. Aqui faz realmente um calor horrível, uma sauna imparável. Custa-me que esta minha nova «base» te venha a, com certeza, trazer muitas contrariedades. Na minha opinião devias permanecer em Hrádecek [1], aí administrar a casa, embelezá-la, tratar da horta, ir com os cães ao lago, etc. Sempre poderia alguém da família fazer-te companhia, ou os amigos que aí quisessem ir passar férias. De nada serve estares em Praga - aqui em nada me podes ajudar, e, depois, com que irias ocupar o teu tempo? Lá, ia certamente ser necessário começar a conduzir o carro, para poderes ir às compras e coisas do género. E não ficarias sempre dependente de outras pessoas. Enfim, devias viver como se eu tivesse partido de viagem, ou seja, fazer uma vida normal. É a melhor maneira de me ajudares: saber que estás bem e que nada te falta. (...)

4 de junho de 1979

5ª CARTA
Querida Olga:

Antes de mais: esqueci-me, como, aliás, é costume, de te mandar os parabéns pelo teu aniversário. Só me lembrei uns minutos depois de entregar a carta anterior. Desculpa! Quanto a esta minha falta de memória, parece que já não há nada a fazer. Então, aqui, vão atrasados os meus parabéns! Compro-te um presente quando estiver em liberdade, já que presentes da prisão (feitos de migalhas) não são os que mais te agradam, tanto quanto me lembro... Recebeste as minhas últimas cartas - com os nº 3 e 4? Era, com certeza, bom que confirmasses através de um postal, na volta do correio, a recepção de cada carta, para não perder o controlo... Da última vez acusei a recepção da tua primeira carta; desde então chegaram mais duas. A primeira deu-me grande alegria e despertou-me a vontade de escrever (nela contavas-me como vocês tinham lido as minhas peças). Agradeço-te do coração! Em contrapartida, a segunda (e também a terceira) deixou-me um pouco inquieto. Dizias que não me mandavas um beijo - que eu já sabia a razão. Eu não sei a razão! O que sei é que não deves escrever-me essas coisas, fico mal por sei lá quantos dias. As cartas são a única coisa que temos, aqui lemo-las uma dezena de vezes, ponderamos todas as implicações em todos os sentidos, alegramo-nos com o mínimo pormenor ou com ele também sofremos e tomamos consciência de como estamos manietados - em conclusão, deves escrever-me cartas amáveis! E numera-as, escreve a data, e, principalmente, escreve de forma clara e legível! Afinal, não deve custar muito sentares-te de vez em quando à máquina e escreveres tudo o que acontece contigo! (...)

P.S. Apercebi-me de uma coisa estranha: este mundo aqui dentro tem muito mais verdade que o mundo aí fora. As coisas e os seres humanos mostram-se aqui na sua verdadeira dimensão. A mentira e a hipocrisia esaparecem. Quando estiver outra vez aí fora, hei-de contar-te coisas interessantes sobre este tema.

Segunda-feira, 23.7.1979
(...)

Manhã de terça-feira, 24.7

Hoje sonhei contigo! Tínhamos alugado um palácio em Veneza! Continuo com boa disposição. Escreve-me cartas e postais bonitos para poder guardá-los!

9ª CARTA
Querida Olga:

A tua visita deu-me muita coragem e alento; depois dela senti-me jovial. Fiquei especialmente feliz por termos a mesma opinião sobre a viagaem aos EUA e por me teres apoiado incondicionalmente sobre aquilo que penso de toda a questão. (...) Hoje à tarde comecei a confeccionar para ti uma jóia com bocados de pão. Mando-te um desenho para o caso de não a conseguir fazer chegar a ti pelo advogado. Não tinha ideia de que apreciavas este tipo de coisas ou já te tinha moldado outras há muito tempo.. (...)

Sábado, 8 de Setembro de 1979

(Continuação - Domingo)
Parece que acabei de conseguir algo que se pareça com uma jóia, mas não te vou fazer um desenho - quero que seja uma surpresa. Tentei insuflar-lhe um jeito de arte nova. (...) Não queria esquecer uma coisa: a água em Hrádecek fecha-se assim: 1. Desligas a bomba de água; 2. Abres a torneira que fica no canto da cave e deixas sair a água do cano; 3. Abres todas as torneiras da casa (não esqueças o celeiro) para o ar entrar na conduta.
Gostava de sublinhar outra vez o efeito benéfico da tua visita. Suporta-se melhor o cativeiro.
Ontem tentei, de determinada forma que me foi sugerida, entrar em contacto telepático contigo - mas parece que não resultou. não possuo (ao contrário do que acontece aos outros) os pressupostos necessários para isso.
(...)

P.S. Os meus companheiros consideram-me louco por causa da minha atitude «despegada» relativamente ao visto de saída para os EUA.[2]

[1] Casa de fim-de-semana de Havel, perto de Trutnov, na Boémia do Norte.
[2] V.H. rejeitou a oferta oficial de saída do país, que lhe fora feita ainda durante a sua prisão preventiva.
Nota: Os sublinhados são da autoria de V.H.. Mantive-os . 

Fragmentos de " Cartas a Olga". Edição Livros do Brasil, 1984, pp. 11-19 

18.12.11

Dez anos é muito tempo ou nada


Folheando o Divas & Contrabaixos, revi um post escrito em Março de 2007 que me fez pensar novamente no destino das mais de 300 obras de arte cedidas à Câmara Municipal de Aveiro pelo Instituto das Artes (SEC).

"Esta colecção, tutelada pelo Instituto das Artes, foi construída ao longo de várias décadas no âmbito de uma política de aquisições, orientada então pela Direcção Geral de Acção Cultural da Secretaria de Estado da Cultura...". 

Já não recordo os detalhes do protocolo estabelecido (que envolve também a Universidade de Aveiro) mas sei que durante 10 anos a autarquia pode expor, dar a conhecer, reflectir, dinamizar, celebrar a arte utilizando esse acervo. A maior parte da população não saberá/esqueceu da existência dessas centenas de pinturas, fotografias e esculturas. Realizaram-se duas mostras (não eram exposições!), sendo a primeira a que evoco no referido post. 
Eu quis acreditar! Participei em tertúlias esclarecedoras! Entretanto, é possível, aqui e ali, apreciar algumas das obras: na nova estação de caminho de ferro há umas fotografias (já deterioradas), no Teatro Aveirense estão expostos dois ou três quadros, nos gabinetes dos vereadores encontram-se outras tantas (é um ultraje!). Parece-me que estamos muito distantes dos objectivos definidos pelo Professor António Pedro Pita (então Director da Delegação Regional de Cultura do Centro) mas talvez a CMA esteja a fazer um extraordinário trabalho de bastidores. Como cidadã, eu gostaria de ser informada sobre o paradeiro e projectos desenvolvidos/em estudo relacionados com esse acervo.

Não deixa de ser curioso lembrar também que o "Projecto da Avenida de Arte Contemporânea" foi o grande tema de discussão no primeiro mandato da actual coligação. Esse seria o futuro da Avenida Lourenço Peixinho!

Nada se cumpriu! Mas como poderia esta autarquia propor um pensamento sobre a própria arte ou conduzir a uma análise crítica da teoria visual! Já ninguém cai em enganos! O problema é que o tempo passa. Dez anos é muito tempo ou nada.