9.10.07

Che #4



Depois de Andy Warhol, em que se transformou o mito Che? A luta pela liberdade tornou-se pop. E isso quer dizer o quê?


«Em frente do teu rosto / Medita o adolescente à noite no seu quarto / Quando procura emergir de um mundo que apodrece.» (Sophia de Mello Breyner)

Che #3


Foi numa manhã fria, na cidade de Havana. A 5 de Março de 1960, ao lado de várias autoridades cubanas, numa tribuna, Guevara participava de um acto de protesto contra a explosão de um barco que matara 136 pessoas. O fotógrafo Alberto Díaz Gutiérrez, conhecido como Alberto Korda, trabalhava no jornal cubano "Revolución". Tirou apenas duas fotos, uma vertical e outra horizontal. Uma delas iria converter-se na mais famosa foto de Che.

Depois da sua morte, um italiano, o "editor guerrilheiro" Giangiacomo Feltrinelli, recortou as laterais da foto horizontal e espalhou posters de Che Guevara nas selvas bolivianas. A imagem correu mundo e tem sido fonte de inspiração para muitos artistas. Alberto Korda nunca recebeu qualquer tipo de remuneração pelas fotos (nem se empenhou nesse sentido).




Jim Fitzpatrick popularizou a imagem, criando uma estampa em monotipia baseada na foto de Korda e colocando-a em domínio público (o que hoje se chamaria de copyleft). A imagem tornou-se um ícone do movimento contra a guerra dos EUA no Vietname e hoje é ainda o símbolo das F.A.R.C. na Colômbia e dos Zapatistas no Mexico.

Che #2


Sem a barba e a boina tradicionais, disfarçado de economista uruguaio, Che Guevara entrou na Bolívia em novembro de 1966. A ele se juntaram 50 guerrilheiros cubanos, bolivianos, argentinos e peruanos, numa base num deserto do Sudeste do país. O plano era treinar guerrilheiros de vários países para começar uma revolução continental.

Guevara foi capturado em 8 de outubro de 1967. Passou a noite numa escola de La Higuera, a 50 quilômetros de Vallegrande, e, no dia seguinte, por ordem do presidente da Bolívia, general René Barrientos, foi executado com nove tiros numa escola na aldeia de La Higuera, no centro-sul da Bolívia: no dia seguinte, pelos rangers do Exército boliviano, treinados pelos Estados Unidos.

Tinha 39 anos.

Che #1

ÓRGANO OFICIAL DEL COMITÉ CENTRAL DEL PARTIDO COMUNISTA DE CUBA

"Seguir el ejemplo del Che, inspirarnos en su espíritu revolucionario, compenetrarnos a fondo con sus ideas, significa hoy mirar hacia delante."

En el aniversario 40 de su caída en combate - Che Guevara, só poderíamos ler Granma, o jornal oficial de Cuba. De resto, de tempos em tempos, gosto de ler imprensa assumidamente comprometida.

Censura frustada #n

Há uma nova Adenda lá em baixo.

8.10.07

Fut-farta

Ammar Amarni

Pertencer a um clube, militar desde pequenino, transmitir o culto aos filhos, submeter-se ao carisma dos líderes, crer, ter fé nas vitórias do clube, vibrar com as jogadas no estádio ou no sofá, ser capaz de bater, insultar, gritar, pelo clube - qual catarse -, é um fenómeno estranhamente familiar. Mas os adeptos fervorosos sempre me pareceram beatas. Vão à missa ao estádio, aos domingos e quartas - e sempre que os deuses o ditarem! -, e passam o resto da semana a rezar o terço da bola. A energia e agressividade que animam claques e simples devotos não se assemelha mais às celebrações da eucaristia da Europa católica porque são poucos os padres autorizados a gravar cds e a ter emissões em directo com espectáculos de dança, exorcismo e transe. A função (social) da exaltação é preenchida pelo futebol que, graças ao apoio dos mass media, se tornou mesmo no novo ópio do povo.

O que está em causa é uma questão de intensidade. O jogo em si, pode ser belo; a sua prática, muito saudável; torcer pelo clube anima um momento, cria cumplicidades, gera emoções simples, e a vida até se quer assim, prazenteira e simples.

Eduardo Graça assina um artigo no SE, «
Futebol -"fluxo" e resistência», em que afirma que «O fluxo subjuga o jogo, que se transforma no próprio fluxo, mas não elimina as manifestações de resistência em que o jogo autêntico persiste. (...) desde as pequenas colectividades recreativas às grandes empresas, desde as escolas às ruas, o “fluxo futebolístico” encontra a sua réplica em milhares de resistentes que, apagados da ribalta mediática, são o outro lado de uma realidade humana que persiste em não se deixar apagar».

É verdade: a forma como o sistema mediático envolveu o "desporto rei" e, por outro lado, a atracção que este desporto exerce, mesmo entre os últimos das ligas que ninguém conhece. É claro que há contágio. Os "resistentes" ambicionam muitas vezes ser engolidos pelo fluxo. Mas resistem, partilhando as agruras por falta de apoios e as alegrias pelos pequenos-grandes triunfos. Notável, sobretudo num país em que as taxas de associativismo são tão baixas.

O futebol é então ópio e pão, na nossa cultura. Agrega, dá gozo, faz bem ao estado físico e mental dos seus praticantes, serve-se a todas as mesas. É o epicentro de todas as actividades desportivas mas não faz mal.

Os dirigentes dos clubes falam do futebol como o motor de desenvolvimento de outras modalidades. Mas é assim?

Eu concordo com Eduardo Graça, «Scolari e Mourinho deixarão, um dia, de ocupar o palco, mas o “fluxo futebolístico” vai persistir, e o seu outro lado, o jogo autêntico, resistirá em todo o mundo, bastando para tal que hajam jogadores e um objecto simples, mais ou menos arredondado, no qual se possam dar pontapés.»

Todos dizem que o futebol é uma paixão e que não há explicação. Mas há: é que essa paixão é a única que se (nos) alimenta. Eu não gosto de países monogâmicos. O pão da nossa cultura é fantástico mas andamos subnutridos. Os patins do hóquei não são mágicos? Os objectos do basquetebol e andebol são menos arrendondados? Bater uma pequena bola para além da rede com a ajuda de uma raquete não é emocionante?

Eduardo Graça, os maiores resistentes são os clubes não futebolísticos. Vivem em guetos. Movimentam-se como agentes de contra-cultura. Já que falou da sua "Ilha da Culatra", vou defender o "meu" Clube dos Galitos. É espantoso mas, neste momento, bate-se para manter o posto náutico na cidade dos canais. On line, está já uma petição. Leiam-na, pf.. (e sim, esta é outra das cidades que teve um novo estádio de futebol).

O problema do "fluxo" é que elimina todos os in-puts alheios ao sistema. Centrifuga jogadores, treinadores, árbitros, penalizações da Fifa, mas exclui outros desportos, política (a não ser que seja municipal, pelas piores razões) e qualquer sentido mais abrangente da cultura do nosso país. Por isso é triste e perigoso, como tudo o que é redutor.



ADENDA: No Absorto, Eduardo Graça lança chamas sobre a forma como o associativismo popular é encarado e enquadrado em Portugal.

7.10.07

7-10


Felizmente nunca me deu para isto! :)

[Cartaz num poste em Santiago de Compostela. Foto tirada exactamente há um ano]

Je m'appelle Fardilha et je n'y suis pour rien. Relatório:

Ando a falar tão pouco dos livros e filmes que me têm varrido. A ver se volto a entrar na linha. Mas hoje ofereceram-me "Le rapport de Brodeck" de Philippe Claudel e eu sei que vou andar por aí. Ontem revi Delicatessen e gostei menos. Anteontem revi La Piscine e gostei mais. Quando finalmente conseguir listar os filmes da minha vida, incluo o Sous le Sable do mesmo François Ozon. Não sei porquê. Se calhar é apenas por causa da memória que tenho do dia em que o vi pela primeira vez. Ou pela forma terna como é (sempre) filmado o corpo maduro de Charlotte Rampling.

La Piscine contém um quê mais teatral que Sous Le Sable. Acho que existem dois Ozon, o teatral (Oito Mulheres) e o naturalista (Sous Le Sable). Prefiro o último. La Piscine funde os dois estilos mas flutuei nas cores, na água, na calma e na desesperada contenção da personagem de Rampling. Como sempre. Agora, anseio por Angel.


Tenho ido pouco ao cinema, desculpo-me com a falta de oferta de qualidade na cidade. O Cineclube continua fechado, dizem que por falta de fundos (outro caso em que a CMA é devedora). Mas, esta semana, a programação melhorou nos Lusomundo. Fui ver Os Fantasmas de Goya de Milos Forman. Fiquei com vontade de conhecer melhor as quatro séries de gravuras, Os Caprichos, Desastres da Guerra, Tauromaquia e Disparates (que, soube depois, já estiveram expostas em Portugal). E gostei do filme, mesmo se ele se descentra do que parecia ser o seu propósito original: mergulhar no universo pictórico de Goya, ou, mais especificamente, nas motivações do autor de Desastres da Guerra. Nestas gravuras, a sátira e a fantasia dão lugar à violência como assunto principal. Talvez seja mea culpa se acabei por me deixar embalar mais pela novela (entre o hermano Lorenzo e Inês, e depois Alicia) do que pelo drama histórico e as condições de criação na época. O que sobressai da sequência dos ciclos históricos - os últimos assaltos da Inquisição no final do século XVIII em Espanha, as conquistas e recuos de uma França revolucionária, o reinado de José Bonaparte e o regresso dos Borbon -, é mais a ironia (tão contemporânea) da não-mudança na revolução, do que A MISÉRIA. "Os desastres da guerra" de Milos Forman são menos os olhos esbugalhados de fome e horror e mais o teatro da política. Mas poderia um homem do nosso tempo reproduzir com fidelidade a visão do mundo de Francisco Goya y Lucientes (1746-1828)!


[Gravura de Goya: da série Desastres da Guerra, Tristes premonicións do que virá]

Respostas #n

... e respondi a alguns comentários atrasados. Vocês desculpem o meu silêncio. Chega a ser egoísta: querer ouvir-vos, mantendo-me à distância, quando às vezes é óbvio o convite à conversa. Mas acho que sou mais de cafés e face-to-face que de sms e comments em caixinhas haloscan.