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1.1.10

... e regresso a casa

X

EPIGRAMA II

Uma boa notícia chegou de longe,
num dia qualquer, tarde demais
far-se-á justiça; e regresso a casa

Eduardo Graça, in Poemas Manuscritos
Edição de Autor, Novembro 2009

30.12.09

Epigrama

XX

EPIGRAMA

Mesmo que não me apeteça
Passar o ano
O ano passa por mim!


Eduardo Graça, in Poemas Manuscritos
Edição de Autor, Novembro 2009

____________________________________

Eduardo, o Natal fez com que eu entorpecesse. juro que às vezes quero ser urso para hibernar entre o pelo dos meus. em redor das lareiras na casa antiga dos pais avós família. e agora aqui, na casa que cresce com as filhas. ando sem vontade de sair à rua. não me apetece chuva nem frio. de tempos a tempos, verifico se chegou alguma mensagem de fora a que tenha de dar resposta. e hoje chegou uma, embrulhada em envelope, com sêlo postal. Já não é a primeira vez. reconheci o remetente. e por isso sorri logo. Abri os Poemas Manuscritos e ando a lê-los com o vagar de quem quer saborear e a dedicação que a generosidade da dádiva me suscita. Voltarei a eles. Por agora, fica o gesto de agradecimento e um poema que tocou o urso que está dentro de mim.

19.12.08

Ir até ao fim

Carvoeiro
MRF, 2007


«Quase todos os poemas foram escritos a partir de frases sublinhadas, a traço grosso, aquando da primeira leitura dos "Cadernos"...

O vento,
uma das raras coisas próprias do mundo

o vento,
empurra os odores e espalha sementes
o vento,
assobia canções de embalar entre dentes
o vento,
canta os amores coloridos e suspira fundo
o vento,
dança nas frestas e sopra as ondas do mar
o vento,
é um mensageiro alado que nos faz sonhar
o vento,
é uma das raras coisas próprias do mundo.»

Eduardo Graça in Há um momento em que a juventude se perde. É o momento em que os seres se perdem. E é preciso saber aceitar. Mas esse momento é duro.
Edição de Autor, Lisboa, Outubro 2008




Eduardo, recebi o objecto-fruto maduro, híbrido, iluminado pela «esplendorosa ressonância de estar vivo» de Jorge de Sena e pelo lirismo que decorre do «êxtase na unidade homem-natureza» em Camus. Objecto-de-autor-sensível, atravessado pela maresia e o vento do Mediterrâneo. Objecto-poema pincelado de afecto, quente, no sufoco pelo ser feminino suave, pelo filho,... Lembrei-me: «Havia tanto amor e veneração nos seus olhos (...) que alguém nele - aquele que sabia – se revoltou» - o filho revoltou-se?
e os amigos: que não querem viver fora da beleza. Obrigada. Sinto-me fraca.

Partilha:
1. Sublinhei a traço grosso:
«E, à noite, deitado, morto de cansaço, no silêncio do quarto onde a mãe dormia levemente, ainda ouvia uivar dentro dele o tumulto e o furor do vento que amaria ao longo de toda a vida.» - Albert Camus, O Primeiro Homem, Edição Livros do Brasil, 1994, pp. 219.
2. Parabéns por subir e descer a montanha
5 x 365 dias!

3.11.08

Dardos, dardos e dardos



«Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, são uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:

1 - Exibir a distinta imagem;
2 - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3 - Escolher quinze (15) outros blogues a quem entregar o Prémio Dardos.»

Jogando aos dardos:
1 -


2 - ABSORTO , BLOG DO ZIG, Aquiles, Hector, a vossa Briseida agradece a distinção!

3 -
ZUMBIDO - WASTED BLUES - VOZ EM FUGA - VIDA DAS COISAS - UM DIA A MENOS - SAUDADES DO FUTURO - RENDEZ-VOUS - RAÍZES E ANTENAS - RAIM - PUBLICISTA - PLAN(O)ALTO - PÉ DE MEIA - ONDAS3 - O RASTO DOS COMETAS - O PREDATADO

29.9.08

Fontes perenais de eloquência




DEVORANTE - És üa fonte perenal de eloquência, nunca te acabarão de esgotar.
BRIOBIS - Pois crê-me que não anda aqui um terço de mim.

in Francisco de Sá de Miranda, Os Estrangeiros (1559)

22.5.08

50 Anos da Campanha de Humberto Delgado III

Humberto Delgado com capa negra oferecida por um estudante
Monumento a Carvalho Araújo, Vila Real
22 de Maio de 1958


P.S.(2): Quem leu os posts de Eduardo Graça, no Absorto, sobre o General sem Medo?

28.4.08

Feliz Cumpleaños

José Malhoa
O Atelier do Artista (Antes da Sessão)
Óleo sobre tela - 1893-1894
93 × 127 cm


Eduardo, não sei se os meus avôs alguma vez puderam apreciar este quadro de Malhoa. Abel, avô paterno, nasceu a 27 de Abril de 1909. José, avô materno, nasceu a 28 de Abril de 1897. Suspeito que, pelo menos este último, que tinha sensibilidade artística (era ourives), tenha conhecido a obra de Malhoa, nascido, como ele, num dia 28 de Abril (1855). É preciso ver as coisas pelo lado positivo. Esta é a data de aniversário de alguns tristes ditadores (António de Oliveira Salazar, Saddam Hussein), mas também de Tobias Michael Carel Asser, que ninguém reconhece, é certo, mas foi fundador das Conferências Internacionais de Haia e Nobel da Paz em 1911 (n. 28 de Abril de 1838 - f. 29 de Julho de 1913). Mas os artistas, ah os artistas, é que nos deixam felizes! Aos meus avôs, eu dedicaria este quadro do Malhoa. A si, uma vez que já escolheu a loira Jessica Alba, que é assim uma coisinha mais viva e very-americana, eu dedico outra diva, um furor bem euro-latino, que também festeja aniversário neste dia! Enfim, temos que ser uns para os outros... Quando puder, envie-me o Javier Bardem (e não interessa nada o dia em que nasceu!). :)




P.S.: Também li o Publico, mas quem é o António CUNHA Vaz?

5.3.08

Alto aí sem mais que te conheço

Giuseppe Ruberti
Love is



Experiência III

Dói às vezes partilhar o comum dos gestos
da vida e omitir a sua parte nova e agreste
julgar no dia claro deste Janeiro quente
e seco os passos de viver assim docemente

Crispa a pele seca no corpo o vento em riste
e aceitar o cansaço do ventre a olhar o já visto
receando nós a própria dor do tempo carregado
que dela nos desfazemos amando o corpo amado
mesmo que surja uma palavra a mais ou a menos
naquele gemido que lemos na memória omissa:
que cor têm os cabelos ondeando no beiral
do tempo quando se abrem os braços e se grita?

Paremos, soltemos o nosso passo à desfilada
pensemos, prendamos o braço ao braço que abraçamos
experimentemos ouvir assim as horas na torre
surpreender o esvoaçar da cegonha que observámos
contar com um olhar os pardais no berço da noite
seguir a linha quebrada dos remos fendendo a ria
ou os pontos mortiços das luzes lá no cimo da colina

A respiração sustém-se no momento do passo dado
e já nada nos segue a não ser o nosso próprio riso
eco repetido no chão duro e cego da verdade.

21/1/1981

Eduardo Graça, in Primeiros Poemas
Edição Dezembro 2007

__________________________________________
Eduardo, é assim:
«
Nos passos dia-a-dia mais pesados nada transporto
de outros a não ser seus sonhos e meus desejos
»

e suas palavras, que tomo minhas por não saber dizer de melhor maneira Obrigada.

21.2.08

Palavras aos molhos

Jean Sébastien Monzani
The Still Travelers

Uma nova corrente e, via Absorto, sou apanhada. Doze palavras preferidas.

Lembrei-me
da VIDA secreta das palavras e tive SAUDADES de uma AMIGA. Naquele dia, disse logo: ALGODÃO. e é VERDADE. Algodão é uma palavra bela. e deve haver uma razão__ ou várias, para que esta palavra, e não outra qualquer, tenha saltado logo do topo da minha mente (em inglês, top of mind, é uma expressão que me agrada; em português não é muito musical). é verdade que se chama por ela facilmente: [á]____lgodão. olho outra vez para a palavra. vou olhar imensas vezes para descobrir sentidos____ os que me são familiares e outros estranhos que aparecem sempre que olhamos muito para uma coisa. al__godão alkutum é árabe e gosto do Bi Kidude, rei do taarab. a generosidade de algo__dão contraria o vício capitalista de estimar um preço para tudo. quem dá vai ser____ a senhora da roulotte no parque de diversões, às escondidas do marido que pede 5 euros por algodão azul, rosa ou branco. doce. tenho cinco anos e lambuzo-me de algodão. e trinta anos depois, também. estico o algodão, arranco um pedaço enorme e meto-o na boca. as cores são as da infância. a roupa dos meus bebés. e os tecidos! laváveis a mais de 30°, hipoalergénicos, saudáveis. mas esses não são doces, são macios. estes e os que desmaquilham e lavam feridas.
o que há de universal no algodão: em todos os sentidos da palavra, estica-se na mão. depois de deixar de ser semente. desde a colheita. sendo certo que é melhor evitar falar das plantações. o passado do algodão é negro de escravidão, o presente é transgénico! por outro lado, se o algodão é História, o algodão é rico. oh, nada desvirtua a beleza da palavra! cor, sabor, textura, filamento de sentidos que não se desvanecem com este saber em rama.


Mas, palavra por palavra, hoje, prefiro MILAGRAR, que é uma invenção do poeta Manoel de Barros neste poema:

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam
a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)


Teorizar: o meu gosto pelas palavras também varia consoante o seu estado: sólido, as que lemos; em processo de solidificação, as que escrevemos; gasoso, as que lançamos ao ar e mais ou menos lentamente se desintegram; líquido, as que fluem em conversas com amigos, amantes, filhos.

MILAGRAR, por exemplo, é palavra sólida. SUSTO também. Os imperativos líquidos divertem-me, são teatrais: Vá, VAI! MACIO gosto em estado gasoso. dizer, ouvir MACCCIO. às vezes não gosto: quando o ccc se aproxima do zzz. Gosto de VOZES. As vozes condicionam o meu gosto pela palavra. Uma palavra pode ser bela e tornar-se feia, ou vice-versa, consoante o seu estado e o seu emissor. Enfim, COMPLICO (palavra sólida e gasosa)! que as há neutras, quase transparentes, como CORES (sem adjectivo nem especificação). ou carregadas de sentido e sofrimento, como TRISTE. e gosto delas.

É claro, as palavras que preferimos são as que (nos) provocam EMOÇÕES. Agora mesmo, em estado sólido, deparei-me com esta sequência: "mamã doime o ouvido esquerdo". E desfaleci de AMOR e de culpa porque não estava no lugar certo no momento certo (odeio CERTO).

[não foi por desgostar de DOZE que acabei por eleger 14 palavras]

A CORRENTE (não gosto em nenhum estado, mas submeto-me: é o poder da palavra!__ os visados podem tentar resistir) passa para:
A destreza das dúvidas - A Ilusão da Visão - A Senhora Sócrates - A Vida O Amor e as Vacas - Bandida - Cabo dos Ventos - Deliciosamente em Surdina - Divino Senão Fosse Humano - E-Konoklasta - Expresso do Oriente - Elypse - Luminescências - O Rasto dos Cometas - Plan(o)alto - Zumbido

[o número que eu mais gosto é 15. até chorei quando fiz 16 anos. juro! (termino com uma palavra que evoluiu, está cada vez mais cómica)]

6.11.07

Apenas

Mário Vitória
Nomes Novos para Coisas Antigas
Acrílico s/ tela - 150x150 cm - 2007

Gosto particularmente da pergunta que encerra o último artigo de Eduardo Graça no SM - sobre o Tratado de Lisboa ou «o chapéu jurídico da UE»:
«como hão-de os cidadãos, conformados à descrença nas suas próprias virtudes, ajudar à riqueza da nação?».

19.10.07

Corrente da página 161 e outras


Eduardo Graça, do Absorto, não sabe que eu estou em falta com alguns bloggers por causa desta coisa das correntes e pôs-me na roda. Faltam-me listar livros, filmes e mais uns desafios! Eu prometi responder e respondo, mas faço como o Estado em matéria de pagamentos: levo 60, 90, 120 dias. Ainda bem que os credores não precisam de mim para nada! O "meme" da página 161 exigiu poucos dos meus recursos, bastou estender o braço, e por isso foi mais difícil adiar. A lógica é a seguinte:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Vamos a isso:
1ª) Máscaras de Salazar de Fernando Dacosta, Casa das letras, 22ª edição, 2007 (1ª edição em 1997)

2ª/3ª/4ª) Vou ter que recuar à página 160, para poderem compreender o sentido do extracto. Na página 161 existem apenas sete linhas que são a conclusão de um grande parágrafo.

"As famílias pobres tornaram-se as primeiras a empurrar os filhos, sobretudo rapazes (não engravidam, não dão nas vistas), para a rua. «Mais de 6000 jovens prostituem-se, às claras, em Lisboa. Tendo cada um nove clientes, em média, veja-se a dimensão do problema», anota-me o responsável por um centro de assistência a adolescentes em crise. (...)
Havia um frenesim de sensualidade e neurose na Lisboa do final do fascismo, como havia na do final das Descobertas. O número dos que tinham vidas duplas disparava.
Alguns dos que se prostituíam procuravam nos que os procuravam o pai, a mãe, inexistentes. Era, aliás, frequente terem clientes certos, com quem criavam laços de amizade, de afecto, de protecção, de confidência. A parte afectiva surge com mais frequência do que se supõe. E nas circunstâncias mais inimagináveis.
Salazar sabia que esse era o cimento secreto da união nacional dos portugueses - que nada tinha a ver com a União Nacional do regime. Por isso jamais se atreveu a intrometer-se-lhe."

5ª) Este é o livro que ando a ler e ainda não tinha chegado a esta passagem. Fiquei surpreendida com a violência do que é exposto. Por agora, familiarizo-me com a fidelíssima D. Maria de Jesus e com a filosofia de vida privada e pública do presidente do Conselho.


6ª) Cinco novos seleccionadores de página:


Os meus credores de correntes (para lhes dar a oportunidade de equilibrar a balança de pagamentos de correntes): Bilhas, o bom da fita; Maria Eduarda Colares, que detesta sopa; Carlos Araújo Alves, do Ideias Soltas, que acaba de abrir um Forum para debate da Educação Artística (e todos estão convidados a participar!).

E ainda: A Elisa, de Um dia a menos para a morte e o João Ventura, autor de O que cai dos dias.
Todos têm uma sensibilidade artística e humana fora de comum. Que livros terão em cima da mesa?

[Fotografia de Jean Sébastien Monzani]

8.10.07

Fut-farta

Ammar Amarni

Pertencer a um clube, militar desde pequenino, transmitir o culto aos filhos, submeter-se ao carisma dos líderes, crer, ter fé nas vitórias do clube, vibrar com as jogadas no estádio ou no sofá, ser capaz de bater, insultar, gritar, pelo clube - qual catarse -, é um fenómeno estranhamente familiar. Mas os adeptos fervorosos sempre me pareceram beatas. Vão à missa ao estádio, aos domingos e quartas - e sempre que os deuses o ditarem! -, e passam o resto da semana a rezar o terço da bola. A energia e agressividade que animam claques e simples devotos não se assemelha mais às celebrações da eucaristia da Europa católica porque são poucos os padres autorizados a gravar cds e a ter emissões em directo com espectáculos de dança, exorcismo e transe. A função (social) da exaltação é preenchida pelo futebol que, graças ao apoio dos mass media, se tornou mesmo no novo ópio do povo.

O que está em causa é uma questão de intensidade. O jogo em si, pode ser belo; a sua prática, muito saudável; torcer pelo clube anima um momento, cria cumplicidades, gera emoções simples, e a vida até se quer assim, prazenteira e simples.

Eduardo Graça assina um artigo no SE, «
Futebol -"fluxo" e resistência», em que afirma que «O fluxo subjuga o jogo, que se transforma no próprio fluxo, mas não elimina as manifestações de resistência em que o jogo autêntico persiste. (...) desde as pequenas colectividades recreativas às grandes empresas, desde as escolas às ruas, o “fluxo futebolístico” encontra a sua réplica em milhares de resistentes que, apagados da ribalta mediática, são o outro lado de uma realidade humana que persiste em não se deixar apagar».

É verdade: a forma como o sistema mediático envolveu o "desporto rei" e, por outro lado, a atracção que este desporto exerce, mesmo entre os últimos das ligas que ninguém conhece. É claro que há contágio. Os "resistentes" ambicionam muitas vezes ser engolidos pelo fluxo. Mas resistem, partilhando as agruras por falta de apoios e as alegrias pelos pequenos-grandes triunfos. Notável, sobretudo num país em que as taxas de associativismo são tão baixas.

O futebol é então ópio e pão, na nossa cultura. Agrega, dá gozo, faz bem ao estado físico e mental dos seus praticantes, serve-se a todas as mesas. É o epicentro de todas as actividades desportivas mas não faz mal.

Os dirigentes dos clubes falam do futebol como o motor de desenvolvimento de outras modalidades. Mas é assim?

Eu concordo com Eduardo Graça, «Scolari e Mourinho deixarão, um dia, de ocupar o palco, mas o “fluxo futebolístico” vai persistir, e o seu outro lado, o jogo autêntico, resistirá em todo o mundo, bastando para tal que hajam jogadores e um objecto simples, mais ou menos arredondado, no qual se possam dar pontapés.»

Todos dizem que o futebol é uma paixão e que não há explicação. Mas há: é que essa paixão é a única que se (nos) alimenta. Eu não gosto de países monogâmicos. O pão da nossa cultura é fantástico mas andamos subnutridos. Os patins do hóquei não são mágicos? Os objectos do basquetebol e andebol são menos arrendondados? Bater uma pequena bola para além da rede com a ajuda de uma raquete não é emocionante?

Eduardo Graça, os maiores resistentes são os clubes não futebolísticos. Vivem em guetos. Movimentam-se como agentes de contra-cultura. Já que falou da sua "Ilha da Culatra", vou defender o "meu" Clube dos Galitos. É espantoso mas, neste momento, bate-se para manter o posto náutico na cidade dos canais. On line, está já uma petição. Leiam-na, pf.. (e sim, esta é outra das cidades que teve um novo estádio de futebol).

O problema do "fluxo" é que elimina todos os in-puts alheios ao sistema. Centrifuga jogadores, treinadores, árbitros, penalizações da Fifa, mas exclui outros desportos, política (a não ser que seja municipal, pelas piores razões) e qualquer sentido mais abrangente da cultura do nosso país. Por isso é triste e perigoso, como tudo o que é redutor.



ADENDA: No Absorto, Eduardo Graça lança chamas sobre a forma como o associativismo popular é encarado e enquadrado em Portugal.

22.9.07

A morte feliz #3

Até ali, tinha vivido. Agora poderiam falar da sua vida. Daquele grande impulso de destruição que o tinha impedido, da poesia fugitiva e criadora da vida. Nada ficava além da verdade sem rugas que é o contrário da poesia. De todos os homens que transportara no íntimo, como cada homem no início da vida, de tantos seres diferentes que misturam as suas raízes sem contudo se confundirem, sabia agora qual deles tinha sido. E essa escolha que cria o destino de um homem, tinha-a feito conscientemente e com coragem. Aí residia toda a sua felicidade de viver e de morrer. Compreendia que ter medo daquela morte que ele encarara com uma angústia de animal era também ter medo da vida. O medo de morrer justificava um apego sem limites a tudo o que é vivo no homem. E todos aqueles que não tinham praticado os gestos decisivos que enobrecem uma vida, todos aqueles que temiam e exaltavam a impotência, todos tinham medo da morte, pela sanção que ela imprime a uma vida de que sempre tenham ficado distantes.[...] E a morte era um gesto que priva para sempre de água o viajante que procurou em vão acalmar a sede.

pp. 144

in Albert Camus,
A Morte FelizEdit. Livros do Brasil, Lisboa, Outubro 2002
[Edição original: La Mort Heureuse, Éditions Gallimard, 1949]

A Morte Feliz foi concebida entre 1936 e 1938. Existem dois "dactilogramas" deste romance, do tempo de Camus, que fazem parte do espólio conservado por Madame Camus. Em 1961, Madame Camus mandou fazer uma nova cópia dactilografada, segundo a primeira versão, com as variantes da segunda escritas à mão. Existem ainda dossiers preparatórios e notas sobre A Morte Feliz nos Carnets. Encontra-se aí manuscrito, mas em fragmentos dispersos, quase todo o romance. A primeira referência precisa que aparece nos Carnets, Eduardo Graça, data de 1936 e é um plano para a «II Parte». Depois deste livro, peguei n' O Homem Revoltado e na peça adaptada do romance de Dostoievski, Os Possessos, do mesmo Camus. E muitas vezes me apeteceu trocar ideias e emoções, aprender, certamente, consigo. (Quem conhecer o Absorto, compreenderá de imediato porquê).

10.9.07

Que mais precisamos de saber?

Apeteceu-lhe escrever sobre uma série de matérias que indiciam o estado do mundo, o nosso e o de todos, se pudermos criar ainda divisões. Sobre algumas dessas matérias, tem uma autoridade acrescida (vejam as notas). Fá-lo com a liberdade que teria permitido a Jorge Sena, hoje, mudar o nome de um poema. Leiam Eduardo Graça. Acabou a silly season.

7.7.07

Portugal na Presidência

Eduardo Graça escreve sobre Portugal na Presidência da UE e faz uma viagem à fundação da nacionalidade. Aqui, apenas alguns extractos; no Semanário Económico, o artigo na íntegra.

«Além da geografia também a história coloca Portugal na Europa. O pai de Afonso Henriques, o conde D. Henrique, era francês, neto de Roberto II, Rei de França. A mãe, D. Teresa, era filha bastarda de Afonso VI, Rei de Leão e Castela. O fundador de Portugal era, pois, descendente de estrangeiros, ou seja, filho de imigrantes europeus ilustres. (...)
Nos dias de hoje, por mais imaginação que possamos colocar na tarefa de fazer crescer Portugal, não há volta a dar: Portugal somente pode crescer, em riqueza e bem-estar, quer pela geografia, quer pela história, no seio da Europa, na qual conquistou um lugar privilegiado, partilhando os destinos da União Europeia com as maiores nações do velho continente.»

5.3.07

Dois anos de Governo: sinais de esperança?


Dois anos após as eleições legislativas que deram, pela primeira vez, a maioria absoluta aos socialistas, poucos devem ter acreditado que seria possível, em tão curto espaço de tempo, inverter as expectativas negativas que se tinham adensado sobra a economia e os governos de Portugal, em particular, no que respeita às finanças públicas e às reformas estruturais incluindo a do estado.

Começa assim o novo artigo de Eduardo Graça, publicado no Semanário Económico de 2/03. E continua:

Em democracia a afirmação do “bom governo” não pode prescindir da crítica ideológica, da oposição política e do contraditório da opinião pública. Nada mais certo. Neste cenário de inevitável refrega política, as reformas vão no bom sentido se visarem recriar um estado que ultrapasse a extraordinária capacidade destruidora da inércia que acumulou ao longo de decénios. Um estado que elimine, ou atenue, o impacto das mensagens negativas lançadas contra aqueles que ousam contrariar o imobilismo.
Um estado que estimule a iniciativa individual dos cidadãos e a auto determinação da sociedade civil. Um estado que assuma o combate à inércia das instituições, em particular, das instituições públicas, irradiando o parasitismo que nelas, de alto a baixo, se instalou sem criar novas formas de parasitismo.
(...)
Vem isto a propósito de um tema antigo e recorrente: o deficit público. Tempos atrás os governos da maioria de direita bradavam contra a pesada herança dos governos de Guterres. Mas os seus arroubos reformistas esfumaram-se em pura propaganda. É bom lembrar que os governos da maioria de direita de José Manuel Barroso/Manuela Ferreira Leite e Santana Lopes/Bagão Félix, ao longo de três (3) anos, deixaram um deficit das contas públicas, em 2005, superior a 6%.
Ora a verdade é que um dia destes o Comissário Joaquín Almunia veio a público dar um forte sinal de confiança na política reformista do Governo socialista confirmando o sucesso do programa de consolidação orçamental que deverá ultrapassar o objectivo previsto do deficit de 4,6%, em 2006, abrindo caminho para alcançar os objectivos de 3,7%, em 2007 e inferior a 3%, em 2008.
É a melhor notícia para a economia porque gera confiança e estimula o crescimento; é a pior notícia para a oposição porque dá credibilidade à política do governo; (...)

Ler mais aqui, aqui e aqui.

5.2.07

Reforma da Administração Pública: pequenos detalhes


Artigo de Eduardo Graça:

"Se o Governo, no âmbito da reforma da administração pública, for capaz de justificar, técnica e politicamente, a recondução do Dr. Paulo Macedo, mantendo as suas condições remuneratórias excepcionais, colocar-se-ão uma miríade de questões relacionadas com outras áreas da governação consideradas, de forma reiterada, como da mais alta prioridade.
Exemplifico, entre as áreas sociais, com o caso da “qualificação dos recursos humanos” já que o “Quadro de Referência Estratégico Nacional - 2007/2013”, recentemente apresentado, anuncia que “as verbas destinadas à qualificação dos recursos humanos aumentam de 26% para 37% dos apoios estruturais.
(...)
Pergunto-me como vai o Governo, em coerência com as prioridades que estabeleceu, para citar uma área crítica da acção governativa, remunerar os directores-gerais que, na estrutura orgânica do Ministério da Educação, assumem a responsabilidade de combater este verdadeiro “deficit” estrutural que condiciona o desenvolvimento do País."

O artigo pode ser lido na íntegra no Semanário Económico ou no blog Ir ao Fundo e Voltar.

8.1.07

A luta de classes segue dentro de momentos…


A questão que colocamos todos os dias é como ajustar as políticas sociais à nova realidade socio-económica, considerando situações como a permanência do desemprego estrutural, a flexibilidade do trabalho e, em consequência, a maior mobilidade e o menor compromisso das empresas em relação aos seus empregados. Por outro lado, vivemos tempos de reformas neoliberais. Em Portugal, poucos analistas se debruçaram sobre as transformações do trabalho, e menos ainda na perspectiva do sindicalismo. No domínio da sociologia do trabalho não encontrei nenhum trabalho recente.

Como têm as centrais sindicais enfrentado esta situação adversa? Vivem num mundo muito distinto daquele que deu origem ao sindicalismo revolucionário, mesmo se a evolução social não eliminou o problema fundamental da exploração dos trabalhadores. CGTP-IN e UGT têm adoptado posições e estratégias similares, encontraram vias distintas de acção, convergem em que matérias? Confesso que me sinto incapaz de tal análise, que qualquer opinião seria apenas "impressionista" (como diz o Vasco Graça Moura). Por exemplo, parece-me que existe nas duas centrais sindicais a crença de que a qualificação profissional seria uma boa maneira de enfrentar o desemprego (mas até que ponto a qualificação formal, sendo requisito importante na contratação, impede a demissão?). A verdade é que mesmo nos media, e em particular nas televisões, são raras as oportunidades de discussão desta e outras matérias mais qualitativas. Modelos de negociação, relações entre sindicatos (no seio das duas confederações), o peso da organização de trabalhadores nos locais de trabalho; e problemas de fundo relativos a higiéne e segurança no trabalho, a doenças profissionais, à situação (segregação) das mulheres no trabalho, etc. não merecem, pelo que se (não) vê, suscitar interesse e reflexão. Os responsáveis sindicais são chamados a dar o seu testemunho apenas em ocasiões de greve e na origem destas estão, normalmente, reinvindicações quantitativas, isto é, questões salariais.

Com a maior diversificação de actividades que tem caracterizado o dinamismo dos sistemas económicos pós-industriais, não posso deixar ainda de sentir que são cada vez mais aqueles que não fazem parte dos grupos sociais tradicionalmente "protegidos" pelos sindicatos. Ficamos com a impressão de que, não sendo funcionário público, médico, jurista, professor ou jornalista, se está bem! Enfim, os jogadores de futebol, encontraram agora motivos para fazer uma greve, mas alguém ouviu falar dos direitos dos empregados domésticos, operários de construção, agricultores, empregados do comércio e hotelaria, actores, desenhadores técnicos, técnicos de estudos de mercado, tradutores, caixas de supermercados, etc., etc.. Não me vou alongar, mas cada uma destas profissões merecia algumas medidas legislativas dirigidas. Por exemplo, a maior parte dos funcionários domésticos não declaram actividade. Em França este problema foi atenuado quando os casais com filhos, em que mãe e pai trabalham, passaram a poder deduzir no IRS esses mesmos gastos. Todos ficaram a ganhar, o Estado também.

Por cá, os protagonistas actuais, governo, empresas, sindicatos, são poucos eficazes na defesa dos nossos direitos. Ponho em causa esta concentração do poder político e social. A "descentralização" ou "democratização" das decisões relativas ao trabalho será um conceito pouco operacional?
Falávamos de sindicatos. Mas na minha área - Estudos de mercado e de opinião, as expectativas no sentido da legitimação dos interesses da classe são mais dirigidas às associações profissionais. A luta de classes passou para segundo plano. O eco do apelo "Operários de todo o mundo, uni-vos!" não encontrou ainda uma caixa de ressonância. E não é por falta de "operários" com contratos de trabalho precários.

Eduardo Graça escreveu um artigo de opinião intitulado "A luta de classes segue dentro de momentos…" no Semanário Económico. Estas minhas divagações decorreram da leitura desse artigo. Eduardo Graça critica a redução das lutas sindicais à tentativa de "controlo dos grandes aparelhos do Estado" e clama o advento de um sindicalismo moderno.

"Ao abrir um novo ano verifico que vivemos um tempo em que o estado social está no centro de todas as atenções e todas as reformas são inadiáveis. Neste contexto apetece-me perguntar se, por acaso, a reforma dos sindicatos não deverá ser também considerada inadiável.
O papel dos sindicatos corresponde às exigências de uma sociedade em mutação? O programa de acção dos sindicatos corresponde aos anseios dos trabalhadores, em particular, dos trabalhadores “por conta de outrem”?
Ouço muitas interrogações, desde logo a minha própria, acerca da fúria reformista do Governo. Compreendo a avalanche das medidas reformistas num País que carece absolutamente de ser capaz de sair do ciclo infernal do empobrecimento relativo face aos parceiros ricos do clube europeu cuja casa decidiu partilhar.
(...)
Mas entre esses políticos encontram-se também os sindicalistas, em particular, os dirigentes, que têm ocupado, por regra, o lugar dos protagonistas da oposição a todas, ou a quase todas, as medidas reformistas do Governo. De que forma esses dirigentes se interrogam acerca da reforma dos próprios sindicatos em prol da criação das bases de um sindicalismo moderno.
(...)
Mas os tempos mudaram e o paradigma da acção sindical, em Portugal, estagnou na lógica da correia de transmissão dos partidos com o chamado movimento de massas. O sindicalismo em Portugal vive das facilidades que lhe são oferecidas pelo patronato e pelo Estado. Funcionalizou-se e luta mais para auto sustentar a sua nomenclatura e burocracia do que para defender os interesses dos seus associados.
A tendência para a acomodação dos sindicatos vem de longe, acompanhando as mudanças induzidas pelo chamado processo de globalização. Os sindicatos encarniçam-se, quase exclusivamente, na luta pela defesa dos interesses dos funcionários públicos.
Acantonaram-se, à velha maneira bolchevique, na luta pelo controlo do aparelho de estado, em particular, nas áreas que influenciam a formação da ideologia (educação), o exercício do poder de estado (justiça, forças militares e policiais) e a defesa da prevalência do estado social (saúde e Segurança Social).
Nas actividades de produção de bens transaccionáveis, na agricultura, indústria e na maior parte dos serviços, das quais o Estado já se apartou, quase não soa uma palha reivindicativa que faça lembrar o sindicalismo revolucionário, social-democrata ou mesmo social-cristão, como se todos os direitos dos trabalhadores por “conta de outrem” estivessem salvaguardados e as suas conquistas de classe garantidas.
Os verdadeiros problemas dos trabalhadores assalariados, em particular, os mais jovens e os mais idosos, tais como as reformas precoces, o envelhecimento activo, a discriminação pelo género ou raça, a higiene e segurança no trabalho, entre outros, não motivam qualquer espécie de reivindicação, inovadora e estimulante, que tenha expressão pública.
(...)
A verdade é que o panorama do sindicalismo contemporâneo revela uma triste realidade: os sindicatos são tanto mais fracos quanto mais afastados dos organismos do Estado. Os sindicatos precisam do estado para mostrar a sua força e, dessa forma, esconder a sua submissão aos ditames do patronato.
A luta de classes segue dentro de momentos…"

Eduardo Graça é o autor dos blogues ABSORTO e IR AO FUNDO E VOLTAR (onde este artigo pode ser lido na íntegra).

Imagens - Borofsky: Moleculeman, 1980; Flyingpainting, 1980