13.6.07

RCTV Libre

Utilizando los cuerpos de seguridad del Estado, policías y fuerza armada nacional, el gobierno de Venezuela ha estado reprimiendo las manifestaciones espontáneas que se han generado en todo el país, ante el cierre del canal de televisión RCTV. Las imágenes revelan el hostigamiento de las autoridades a los manifestantes que hacen ejercicio de su derecho constitucional a protestar condenando el cierre del canal, las intensas reacciones emocionales que el hecho ha generado y también, las manifestaciones a favor del cierre por grupos partidarios del gobierno. Los manifestantes a favor de RCTV han sido disparados con armas de fuego, golpeados y reprimidos con fuertes mangueras de agua. Los protagonistas de estas manifestaciones han sido principalmente estudiantes. En contraste, las manifestaciones a favor del cierre del canal no han sido reprimidas por el gobierno. (Ver Blog RCTV Libre)

A
Simone questiona-me sobre as repercussões que a notícia do fecho da cadeia televisiva mais popular da Venezuela, RCTV, teve em Portugal. Respondo-lhe: mínimas. Chávez, "o ditador tropical", continua a apaixonar a ala esquerda e a gerar reacções contidas à direita. Ou talvez eu ande distraída!

A 28 de Maio, o governo de Hugo Chávez silenciou a
RCTV, não renovando a sua licença de concessão. O canal de notícias Globovisión também tem sido ameaçado pelo presidente venezuelano. Os outros canais privados (Venevisión e Televen) já autocensuram a sua linha editorial. Dirigindo-se a esta "oligarquia apátrida", Chávez foi claro: que tenham cuidado pois estará atento a todos os segundos de emissão e não permitirá que desobedeçam à lei e levem a violência para as ruas. As palavras também são suas quando afirma que não pode aceitar que "matem o presidente da Venezuela".

Mas as manifestações de oposição a esta medida que viola o direito à liberdade de expressão prosseguem: na rua; na internet, onde as transmissões do canal re-iniciaram há uma semana, via WorldTV.com (um provedor global de televisão por Internet); através do lançamento de uma petição, esta, que será enviada a todas as embaixadas da Venezuela no mundo. Assinem!

The Human Right Foundation, Amnistia Internacional (mesmo se no site português da AI não existe nenhuma referência à Venezuela), Repórters sem Fronteiras, são algumas das associações que têm apoiado este movimento RCTV LIBRE.


A Resposta da Embajada de la República Bolivariana de Venezuela en la República Checa


... à petição que subscrevi foi rápida. A máquina de propaganda está bem oleada. Na resposta, assinada por María José Báez Loreto, Ministro Consejero, Encargada de Negocios, que podem ler na íntegra aqui, argumenta-se que:

- "El espectro radioeléctrico es Bien del dominio público y pertenece en su totalidad a la soberanía del Estado..."
- "La Televisión RCTV continúa transmitiendo por cable y por dos emisoras de radio: 92. FM y Radio Caracas Radio AM (RCR AM), por lo tanto no se trata de un cierre ni mucho menos de una negación a la libertad de expresión, la cual es plena y absoluta en mi país."
- "En cuanto a los lamentables hechos acaecidos en la manifestación estudiantil, el pueblo venezolano ha manifestado preocupación y repudio, en forma pública a través de sus gobernantes entre ellos, el Presidente Hugo Rafael Chávez Frías, ya que las anteriores manifestaciones a favor y en contra del Gobierno fueron de carácter pacífico y sin incidentes que lamentar."



Sinceramente, só gostei dos cumprimentos finais: "atenta y bolivarianamente"!

Actualidade


...NO ARQUIVO, sff!

12.6.07

BS #4 Nhlonge Yamina

MARIA JOÃO e MÁRIO LAGINHA



Na rádio tocou Saudosa Maloca (de Adoniran Barbosa), tema que esta dupla incluiu no álbum Danças. Hesitei com Nhlonge Yamina (do álbum Cor). Ambas têm pele com dança lá dentro.

A minha pele tem dança lá dentro
Um, dois, 500, 7 milhões de poros
abertos para o ar, num mar de movimentos.

É independente da minha vontade
mas depende dos meus caprichos.
Vive sem pintura, gosta mais
de estar nua que vestida.

A minha pele é fruta e legumes,
carne e peixe.
Toda ela se arrepia de prazer,
se contrai dolorida, mergulha na água,
enxuga-se ao sol.

Protege-me dos desgostos e
aconchega-me, esconde os meus segredos,
brilha muito,
confunde-se com as árvores.

A minha pele é mais macia
entre as pernas e é perfumada.
A minha pele é cor de chocolate
com pingos de sol.

Inland Empire



Na ficha IMBd do filme, estas são as palavras-chave: Nudity, Experimental Film, Circus, Mysticism, Bizarre, Prostitution, Disturbing, Film Making, Film Within A Film, Dream Like, Actress, Surrealism, Cursed, Acting, Female Nudity, Alternative Reality, Surreal, Rabbit, Independent, Film Title Spoken By Character.
E são insuficientes. Falta dizer Hollywood, Tráfico de Mulheres, Máfia de Leste, Mal, Sedução, Crime, Morte, Liberdade, Identidade. E continua a ser insuficiente. Este é um filme que não se traduz em palavras porque está para além delas. As palavras dos poetas podem escrever cinema mas Lynch diz que lida mal com as palavras. O seu não é um cinema de palavras.

Inland Empire desenvolve
mundos dentro de mundos criados a partir de uma cena com Laura Dern, cada cena como uma carta de um baralho, cartas que formam e cortam sequências, e depois um trabalho que persegue uma ideia e encontra gestos, olhares que se pareçam com ela, e actores, Laura, que lêem os sinais de Lynch. Laura Dern em mais de 90% das cenas de um filme de três horas. O filme foi escrito e realizado por Lynch, que domou Laura.

Todos os filmes têm um espaço, que ditam a luz, as cores, os sons. Inland Empire fica em LA.
LA filmada em movimento, uma LA digital. LA dos estúdios de cinema e dos mundos obscuros. LA dos sonhos e dos sem abrigo que dormem no passeio das estrelas.

Mas "I can't tell if it's yesterday or tomorrow", ou se "Have you seen me before?". Talvez O Mal esteja dentro de mim e eu dispare contra mim, salvando-me. Talvez. Talvez.

Normalmente, quando não compreendemos, rejeitamos. Mas, já sabemos, o universo Lynch não nos dá respostas nem favorece a síntese. A expectativa face a uma nova obra recai sempre sobre a forma do não-linear. Com Lynch passa-se essa coisa estranha de sabermos perfeitamente por que não compreendemos. Inland Empire fascina por isso. Sente-se uma pulsação, de liberdade, de arte. E connosco, fica um rasto de fantasia.

O Contrabaixo no Porto


“O Contrabaixo”— uma visão desconcertante e cheia de humor da vida e da música— é uma adaptação do texto homónimo de Patrick Süskind, que o Visões Úteis estreou em 2005. Nesta versão de 50 minutos cruzam-se em palco o actor Pedro Carreira e o músico João Martins.

Patrick Süskind é um autor de culto desde o seu primeiro livro: o romance “O Perfume”. A novela “A Pomba” e o conto “A História do Sr Sommer” tiveram também um notável acolhimento internacional. “O Contrabaixo” não foge à
regra. Estreado em 1981 em Munique é uma das peças de teatro que mais tem
sido levada à cena na Europa.

O Visões Úteis apresenta pela primeira vez no Porto a versão Mix de O Contrabaixo. É no café-concerto da Serv'Artes, neste 12 de Junho às 22h.

A Serv'Artes fica na Rua da Constituição, 2105 r/c. É um espaço que vale a pena conhecer.


11.6.07

Grátis grátis grátis Sport TV


Não, não é um título para inflacionar artificialmente os valores do sitemeter, é mesmo uma descoberta - via O país do Burro - com os dias contados, certamente, mas que pode ser útil: aqui

Já agora, quem viu o último duelo do Roland Garros? Há muito que não ansiava tanto por uma final, mesmo se os dois tenistas me irritam um pouco, um pelo snobismo, o outro pelas palhaçadas e mordidelas à taça. O jogo foi um pouco decepcionante, resultado da imensa pressão psicológica sobre os jogadores, mas Roger Federer e Rafael Nadal - que venceu o torneio pela terceira vez consecutiva, são mesmo os melhores do mundo!

O larus, pois




No Carvoeiro, sobre a falésia, vivem pessoas e gaivotas. Os hotéis e aldeamentos turísticos continuam a crescer como cogumelos, invadindo áreas até há pouco exclusivas destas aves. Resta-lhes a encosta escarpada e acidentada, inacessível aos humanos. Mas invasão com invasão se paga! As gaivotas sobrevoam as casas, pousam nos beirais, mergulham nas piscinas. Esta veio bater-nos à janela todos os dias e acabou por se tornar uma parceira do fim de semana. Um Larus hyperboreus ou um Larus fuscus, fiquei na dúvida, grande, de bico imponente. Amigável mas, diga-se, exigente. No primeiro dia aceitou o pão que lhe demos; depois de provar um pouco de queijo e de fiambre, nunca mais quis outra coisa. O pão que fosse para os pardais que também por lá andavam!
Apareceu todos os dias e, depois de perder o medo, ficava a escutar as nossas conversas a alguns palmos de distância. Ainda cheguei a pensar que era um espião, com vontade de conhecer os novos planos urbanísticos para a região. Coitado, não teve sorte, sobre essa matéria percebemos menos que ele...

Por alma de quem?

Lido no site da Associação República e Laicidade:

"Por iniciativa da Embaixada de Portugal em França – e para não fugir à tradição –, em Paris, o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas (10 de junho) foi assinalado com uma missa solene de acção de graças na Igreja de Notre Dame.

(...) aquela missa constituiu mesmo a única iniciativa oficial promovida pela representação diplomática nacional em França no dia 10 de Junho."

10.6.07

Camões

John William Waterhouse
Hylas and the Nymphs
1896


OS LUSÍADAS

64
Nesta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Algũas, doces cítaras tocavam;
Algũas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais, que não seguiam.

65
Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algũas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.

66
Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos
(Que não há nenhum deles que não saia),
De acharem caça agreste desejosos,
Não cuidam que, sem laço ou redes, caia
Caça naqueles montes deleitosos,
Tão suave, doméstica e benina,
Qual ferida lha tinha já Ericina.

67
Alguns, que em espingardas e nas bestas
Pera ferir os cervos, se fiavam,
Pelos sombrios matos e florestas
Determinadamente se lançavam;
Outros, nas sombras, que de as altas sestas
Defendem a verdura, passeavam
Ao longo da água, que, suave e queda,
Por alvas pedras corre à praia leda.

68
Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.

69
Dá Veloso, espantado, um grande grito:
– «Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano esprito
Desejou nunca, e bem se manifesta
Que são grandes as cousas e excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

70
«Sigamos estas Deusas e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Isto dito, veloces mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.

71
De ũa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e da outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alves carnes, súbito mostradas.
Ũa de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indinadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

72
Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam;
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam;
Ũas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando;

73
Outra, como acudindo mais depressa
À vergonha da Deusa caçadora,
Esconde o corpo n' água; outra se apressa
Por tomar os vestidos que tem fora.
Tal dos mancebos há que se arremessa,
Vestido assi e calçado (que, co a mora
De se despir, há medo que inda tarde)
A matar na água o fogo que nele arde.

74
Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
Usado a tomar na água a ave ferida,
Vendo [ò] rosto o férreo cano erguido
Pera a garcenha ou pata conhecida,
Antes que soe o estouro, mal sofrido
Salta n' água e da presa não duvida,
Nadando vai e latindo: assi o mancebo
Remete à que não era irmã de Febo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme pros[s]uposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu fado ter mudança,

76
Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza,
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
– «Ó formosura indina de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!

77
«Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh, não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
«Não canses, que me cansas! E se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
‘Tra la spica e la man qual muro he messo.’

79
«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua formosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da fortuna a força dura.
Que Emperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo?

80
«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura e menos pesa?

81
«Nesta esperança só te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela.
E se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas, não há mais que espere.»

82
Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.



in Os Lusíadas, de Luís de Camões (Canto IX)