25.1.07

Sem vos querer levar pela cintura...

Diz Olavo Aragão: "Tenho novas revelações sobre o caso Rute Monteiro. Foram-me enviadas do Médio-Oriente e estou a ponderar se as coloco online ou não. Vou decidir até amanhã (ou nem tanto...)."

Decidiu... nem tanto... Ontem mesmo saiu um novo capítulo da novela. Pessoas mais sensíveis devem abster-se de ver as imagens dramáticas. Digo isto, mesmo sabendo que o enforcamento de Saddam Hussein se tornou uma atracção no You Tube. Percebo mal o nosso novo mundo. E também não sei como é que este drama que envolve a jornalista portuguesa vai acabar. Fonte segura afirma que, na melhor das hipóteses, só em Março poderei compreender. Até lá, um intervalo de tempo. Mas esperar não é um verbo fácil.

A recusa dos carniceiros #2

"Retornamos a 1830. Acaba de ser editado o romance Le Rouge et le noir do sr. Marie-Henri Beyle, que assina Stendhal, baseado na notícia do guilhotinamento de um criminoso passional publicada na Gazette des Tribunaux. Ainda em França, a estreia da peça Hernani, ou L'honneur castilhan, do sr. Victor Hugo, provoca na plateia um conflito entre adeptos do classicismo e do romantismo; lutando pelas tropas românticas foi visto o poeta sr. Théophile Gautier, vestido com "um colete cor de cereja e calças verde-água". Notícias de Weimar dizem que o sr. Johann Wolfgang von Goethe está a terminar a segunda parte do seu monumental poema dramático Fausto, "uma fantasmagoria teatral filosófica". Estamos no Rio de Janeiro, de volta, mais uma vez, à Câmara Dos Deputados.
(...)
O sr. Ferreira França rejeita o projecto por "ver nele uma hidra de crimes e culpados! As penas devem ser reduzidas ao menor número possível. Todo legislador que a cada falta impõe uma pena, que só quer achar criminosos, não é certamente digno do nome de homem; é um tigre digno de só legislar para os animais ferozes"."


Extracto de A recusa dos carniceiros, in Romance Negro e Outras Histórias, de Rubem Fonseca
Ed. Campo das Letras, pp 133

Eu voto SIM #5

"Maria de Belém Roseira, deputada do PS, vai bater-se pela consagração na lei de um “período de aconselhamento obrigatório” às mulheres que queiram abortar, para que possam ponderar a sua decisão e serem informadas das alternativas..." (continua aqui)

Em Outubro escrevi:
(...) Outro aspecto que me desconcerta é próprio conceito que se debate, a despenalização do aborto. Como se pode despenalizar sem legalizar? (...) Eu não pretendo apenas que as mulheres deste país deixem de cometer um acto ilegal ao optar por, em determinado momento, fazer uma interrupção voluntária de gravidez. Parece-me mesmo óbvio que todos desejamos muito mais do que isso. Queremos um quadro legal que sustente a prática da IVG com segurança e responsabilidade. A garantia de estabelecimentos que prestem bons cuidados de saúde é importante, mas o clean cirúrgico não é tudo. É preciso conhecer princípios e limites, para além da duração máxima de dez semanas de gravidez.
Quantas IVG poderá uma mulher requerer? (questão fundamental porque esta prática não pode ser encarada como um novo método anticonceptivo) (e como será exercido esse controle?)
Como/quem decide quando se trata de uma gravidez não desejada de uma menor de idade?
Haverá um período de tempo (número de dias) definido para confirmação da decisão? Existirá uma "comissão de apoio" ou o pedido de IVG será aceite sem qualquer abordagem psicológica ou social aos diferentes casos? (...)

Eu achava que não era possível conceber a despenalização do aborto sem a discussão destas questões. Quando finalmente alguém o faz, no caso, Maria de Belém, é claro que fico satisfeita___ e ao mesmo tempo, preocupada. Como é possível chegar a menos de um mês do referendo sem deixar claro que votar pela despenalização não é, porque não pode ser, adoptar uma atitude de laissez faire-laissez passer!

24.1.07

Mkt do livro #1

No campo da edição de livros, todas as abordagens reflectem, em maior ou menor grau, nunca em estado puro, estas duas posturas: a que encara o livro como uma forma de arte e a que trata o livro como uma mercadoria. A primeira anda moribunda devido à falta de sustentabilidade económica; a segunda, não é aconselhável que se desenvolva (ainda mais), sob pena de perdermos excelentes obras que nunca serão editadas dado o universo restrito de leitores a que se dirigem. Alguns editores queixam-se das novas regras editoriais (que nem são assim tão novas) e justificam a venda de best-sellers e livros mediáticos como um recurso que permite posteriormente a publicação de obras mais "arriscadas". Alguns destes editores fazem-no com desencanto e desilusão, outros apenas com pragmatismo. Mas tento resistir ao preconceito de ver o ideal da arte-pela-arte conspurcado ao mínimo sinal de edição-um-negócio.

O que gostaria era de ver as obras de Júlio Cortázar editadas, Os dados estão lançados de Jean-Paul Sartre, re-editado, e juntem a vossa à nossa voz, com as vossas caras e esquecidas jóias da coroa.

A recusa dos carniceiros #1

"Estamos em Maio de 1830, na Câmara dos Deputados. O sr. António Pereira Rebouças, em seu discurso, lembra do que aconteceu há poucos anos, em 1825, quando o carrasco que deveria enforcar o bem conhecido major Sátiro se recusou a fazer a sua estreia como algoz. Sátiro teve que ser fuzilado. Uma semana depois o verdugo recalcitrante foi executado por um carniceiro.
(...)
Podem faltar carrascos, mas nunca faltarão espectadores. O sr. Rebouças sabe disso, mas não irá comentar tais circunstâncias. Na França comprava-se (ou compra-se) um condenado à morte em uma cidade para que ele fosse executado noutra, que por falta de criminosos ficara um tempo muito longo sem oferecer ao povo um espectáculo dessa natureza. A pena de morte, pela função educativa que lhe atribuem os seus defensores, deve ser levada a efeito em local amplo que facilite a observação do maior número de pessoas.
(...)
Ao infeliz que não pode assistir à execução resta ouvir, invejoso e inferiorizado, a descrição de como o condenado chorou como um poltrão e pediu misericórdia; ou então como, opostamente, manteve a alma negra e seu coração perverso sob controle; (...).
As mulheres, está comprovado, ficam ainda mais excitadas com o hediondo espectáculo. Um réprobo estrebuchando pendurado pelo pescoço é algo que tem que ser visto pelo menos uma vez na vida. Assunto para muitas tertúlias."


Extracto de A recusa dos carniceiros, in Romance Negro e Outras Histórias, de Rubem Fonseca
Ed. Campo das Letras, pp 129-130

Eu voto SIM #4

SIM NO REFERENDO, em forma de blogue, até o dia 11 de Fevereiro. Depois, em forma de voto, sff.


Participantes: Carlos Abreu Amorim (CAA), Daniel Oliveira, Fernanda Câncio, Helena Matos, Ivan Nunes, Joana Amaral Dias, João Pinto e Castro, Luís M. Jorge, maradona, Miguel Abrantes (CÂMARA), Miguel Vale de Almeida (MVA), Pedro Adão e Silva, Ricardo Araújo Pereira (RAP), Rui Tavares, Vasco M. Barreto (VMB), Vasco Rato, e outros virão...

Sound Poetry

Depois da série Big Ego (II, III, IV, V, VI, VII, VIII) e das óperas de Robert Ashley, o conceito de Sound Poetry - Música Fonética - Escrita Poética Acústica já não é estranho... mas ainda pode ser assim: Larry Wendt e Stephen Ruppenthal.

Para contextualizar, leiam o próprio Larry Wendt, Narrative as Genealogy: Sound Sense in an Era of Hypertext.

Big Ego VIII

Larry Wendt - How to Cook a Duck

23.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXVII

Encontraram-se no supermercado Atach. Numa secção qualquer ela reparou nele. ou que ele reparara nela. Talvez fosse quase impossível não se encontrarem novamente. Cruzaram-se muitas vezes, já sorriam. Na caixa ele ficou atrás dela. Enquanto os artigos deslizavam, continuavam a sorrir. De vez enquando, ela fazia de conta que se esquecera dele. E depois voltava a fixá-lo, olhos nos olhos, e sorriam. Espreitou o cesto dele. Uma embalagem de um pré-congelado, pão e bebidas. Vivia sozinho. Ele percebeu, fixou as compras dela. Legumes, fruta, leite com suplemento de cálcio, danoninhos, fraldas, etc.. Quis soltar uma gargalhada quando viu a expressão que ele fez involuntariamente.

Estava quase a chegar a casa quando ele passou por ela. Virou-se completamente e sorriu-lhe de novo, divertido por a surpreender. Ela não reagiu e ele acelerou o passo. Quando dobrou a esquina viu-o novamente. Estava parado em frente à sua porta, procurava as chaves. E foi com as chaves na mão que a viu aproximar-se e tirar também as chaves. Ele abriu-lhe a porta. Ela chamou o elevador. Ela carregou no botão com o número 4. Ele marcou o número 5. Olharam tímidos um para o outro. Mora aqui? Há dois meses. Não é francês? Não, turco. E você? Portuguesa. Então vamos encontrar-nos mais vezes. Sim, somos vizinhos. Casada? Sim. Eu só tenho um cão. Se ele ladrar de noite não se zangue. Não. E se for o bébé a chorar, também não se zangue. Não, ponho música.


Todas as semanas saiem novos Princípios: às segundas n'O Afinador de Sinos, às terças aqui, às quartas no Ponto.de.Saturação. Para ler todos e seleccionar um, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.

22.1.07

Duas perguntas para leitores e não-leitores atentos

Quando ouvem falar de "estratégias de marketing do livro" (não estou a falar de estratégias editoriais, que esse é um assunto mais abrangente), em que actividades ou agentes, nomeadamente em matéria de comunicação, pensam?
Recordam algum lançamento (de livro) em particular?

Não pensem muito, soltem o "top of mind", isto é, aquilo que vos ocorre de imediato.