11.1.07

Quando for grande quero ser...

Este é um TPC atrasado. Ele pediu mas fui deixando passar o tempo porque não sabia o que responder. Agora acabo de ver escritas estas palavras, "a arte do movimento sobre pontas", e decidi. Quero ser bailarina.

Quando eu era pequenina:


Quando eu for grande:


... mas também pode ser assim:

Celestial Excursions




Uma Ópera de Robert Ashley
Fotos Hebbel-Theater Berlin, Março 2003



[extracto da ária] Asylum Baguette

Big Ego VI



Ainda este álbum, esta ideia...

Robert Ashley - Interiors With Flash

[3:07][1978]



... e partir dele, para as óperas. Sigam-me.

9.1.07

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

XXII

1.
Ele cicia um canto hondo enquanto mira a paisagem. De tempos a tempos, o sussuro musical desperta-a. Viajam no mesmo pequeno compartimento como se estivessem sós. De noites longas em noites longas, o cansaço apoderou-se dela. A pele continua lisa, é uma cara pálida que se deixa embalar pelo pouca terra muita terra. Ele tem um revestimento curtido pelo sol. Cicia. Os olhos são grandes, a memória longínqua.

O revisor faz deslizar a porta com brusquidão. Bilhetes um, dois. E cumprido o dever, vira as costas, deixando o corredor da carruagem à vista, os passageiros expostos. Ah, estes homens tão pouco gentis, diz bem-disposto, enquanto se levanta para garantir privacidade ao casulo. Qual é essa canção? Isso é flamenco? Unh, não sei, é a minha música. Gosto dessa música, diz ela. E ele responde Se tivesse uma guitarra, cantava-lhe uma canção a sério. Vem donde? De Espanha, mas é segredo. Desci o Guadiana. Os olhos dela arregalam. Todas as quintas carrego o barco com mantas, colchas, lençóis, tudo da máxima qualidade, para distribuir nas feiras. Onde estão as mercadorias? Ah, hoje não trabalho. Deixei ordens ao meu irmão. Vou p'ra um casamento. E sorri largo.

2.
A memória que não se perde.
Estás a ver a feira de Espinho, entre a avenida vinte e quatro e a rua vinte, ficava na vinte, entre as ruas trinta e três e trinta e cinco. Uma casa amarela, cheia de rachas, parecia que podia cair a qualquer momento. Não tinha porta, a entrada era por trás, havia um portão que dava para um carreiro, à esquerda. Ela levou-me lá. Andava na minha turma e começámos a conversar porque nos encontrávamos no trajecto para a escola. No início acho que nem gostava de mim, eu sentia alguma curiosidade. A mãe e a tia foram simpáticas. Queriam que eu lanchasse, e riam-se imenso. Eu estava admirada. As paredes estavam forradas com um papel que tinha cornucópias de veludo, os sofás e poltronas eram majestosos, todos em bourdeaux. Eu já os conhecia da feira mas não sabia que eram ricos.

E o imaginário que nos povoa.
As notícias hoje, as notícias todos os dias, este país é uma miséria. Vê o caso da escultura da Santa. O pároco cedeu-a por uns meses a um Museu e aconteceu um motim na aldeia. Um cigano foi baleado e está internado em estado grave. Na aldeia queriam bater no padre, no hospital insultaram os jornalistas, diziam que eles só sabiam dizer mal dos ciganos.

Nos hospitais têm medo dos ciganos. Quando uma mulher deita um ciganito ao mundo, ela dá pontapés, pragueja. E ai se corre mal, é tareia pela certa à saída.
Experimenta meter-te com um, ciganos e navalhadas, andam juntos. É claro que não são todos iguais. Há um que se formou. Era ele que ainda outro dia dizia "aproximam-se tempos maus". Se eles não podem vender contrabando e contrafacção, vão vender o quê? Drogas e armas!

Outro dia uma miúda seguiu-me. Apanhou-me ali na ponte e nunca mais me deixou em paz. Teria uns seis anitos. Queria que lhe comprasse leite em pó Nidina II para o irmão. Passámos pelo supermercado e comprei-lhe o leite. Era era tão bonita.

Pois, é um problema com a escola. Se os obrigam a ir, fogem.
Se querem ir, os pais dos outros alunos expulsam-nos. Os adultos vão aprender a ler para receber o Rendimento Mínimo Garantido. Levam os putos com eles para as aulas, e quem lhes pode dizer que não pode ser?

3.
Quando se olha do centro para fora, os ciganos são vistos no limite da fronteira. São portugueses e estrangeiros, ao mesmo tempo. Quando são eles que se olham, não são uma coisa nem outra, são ciganos. Agora ela está bem desperta e fala demais.
- Lembro-me de um casamento na minha terra. Vieram ciganos de todos os cantos do mundo. Vai ser assim, esse casamento?
- Não, só vem gente de Portugal e de Espanha. É quase só família!
- Uma vez, na minha terra, uma cigana casou-se com um homem que não era cigano.
- Pois, às vezes acontece, mas ela não deixou de ser cigana, ele é que passou a ser.
- Não sei.
- Mas eu sei.
- É mais fácil deixar de ser cigano que passar a sê-lo.
- Se ela nasceu e cresceu cigana, é mais forte, tem mais ganas do que ele. E se ele não quer ser largado, tem que gostar dela como ela é.
Sorri largo.

4.
A honra é um valor primordial que organiza as relações amorosas e de poder entre ciganos. Em La Casada Infiel, de Lorca, um cigano narra a sua desilusão com a cigana que levara ao rio. Pensava que ela era solteira mas, ao saber que tinha marido, é obrigado a mostrar sua honra de "cigano legítimo":

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
(...)

yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
(...)
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
(...)
Sucia de besos y arena,
yo me la llevé al río.

Con el aire se batían
las espadas de los lirios.


Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

Garcia Lorca [1924-7]


5. ...



Todas as semanas saiem novos Princípios: às segundas n'O Afinador de Sinos, às terças aqui, às quartas no Ponto.de.Saturação. Para ler todos e seleccionar um, abram O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS.

Os ciganos em Portugal até aos fins do século XIX

Vindos do Leste, das suas raízes industânicas, os ciganos, sempre em fuga, chegaram á Europa Ocidental sob a capa de peregrinos. Ao longo da sua passagem em direcção ao Ocidente há registos de várias medidas repressivas aplicadas aos ciganos, com base em "pecados sociais" diversos, como mendicidade não autorizada, pequeno furto, logro (negócios de compra e venda feitos sob falsa representação da mercadoria transaccionada), etc. Estas medidas repressivas acabaram por produzir enormes mudanças na vida dos ciganos da Europa. Para sobreviverem tiveram de se adaptar, instalando-se quase sempre em zonas de fronteira (para uma mobilidade rápida relativamente a autoridades nacionais), dividindo-se em grupos que não chamassem demasiadamente as atenções (famílias), ou agrupando-se em clãs ou tribos capazes de assegurar uma medida de auto-protecção.

Quando chegaram á Peninsula Ibérica e depois a Portugal diziam-se em geral vindos do Egipto, donde "gipsy", "gitanos", "tziganos", "ciganos", que colheram em vários países europeus ocidentais.
(...)

Na história de Espanha e de Portugal não há registos oficiais de ciganos até ao princípio do século XV, altura em que surgem as primeiras referências em textos literários, sendo o mais antigo uma breve alusão a uma Grega no Cancioneiro Geral (1516). Mais significativa é a Farsa das Ciganas de Gil Vicente representada na presença de D. João III, em Évora em 1521 na qual o texto procura captar o som ciciado e "cantado", característico do falar cigano - ainda nos nossos dias - do espanhol e do português.

Na península não conseguiram dos Reis Católicos a tolerância e benesses que muitas vezes tinham noutros países por onde terão passado; foram-lhes retirados os privilégios relativos à manutenção da sua condição nómada e de trabalhadores ocasionais e mais ainda, os reis católicos ao consolidarem o poder central, etabeleceram Lei e Ordem unificada, decretando medidas repressivas para forasteiros e vagabundos, que inevitavelmente incluiam os ciganos. Após a expulsão dos judeus e a conversão forçada dos muçulmanos, as suas duras opções incidiram sobre os ciganos: ou se sedentarizavam e procuravam um "dono" - empregador, protector, garante - ou seriam banidos ao cabo de 60 dias de identificação das suas famílias ou bandos.

Continue a ler este excelente texto de Fátima Mourão, aqui.
Jorge Jacinto
Ciganita

Fille du feu

Elle a des yeux comme une ville en flammes
La voix des violons de Bohême
Ses cheveux d'algues et de fleurs qui se fanent
Inondent son châle de laine

Elle vient d'un monde nomade et son âme
Chemine sur les grandes plaines
Je voudrais tant suivre sa caravane
Courir dans le sang de ses veines

Fille du feu, ma tzigane
Noire sur le fond bleu des gitanes
Oh, fille du feu, ma tzigane

Les soirs d'été, quand les bûchers s'enflamment
Du côté des Saintes-Maries
Des mains d'argent qui nous viennent d'Espagne
Font danser la mer et la nuit

Les bras tendus vers les pâles étoiles
Elle chante sur le sable gris
Le vent marin qui soulève ses voiles
Emporte sa plainte et ses cris

Elle est d'un peuple qu'on chasse ou qu'on parque
Dans des terrains vagues ou des camps
Il n'est pas bon de voyager sans carte
Sur les grandes ailes du vent

Fille du feu, ma tzigane
Noire sur le fond bleu des gitanes
Oh, fille du feu, ma tzigane

Elle a des yeux comme une ville en flammes
La voix du cristal de Bohême



Poema: Thierry Séchan
Música: Julien Clerc

Interpretada por Julien Clerc, esta canção tornou-se um hino à raça cigana. Neste álbum.escutem.

Big Ego V


No Music Hall.

Big Ego IV


Kenward Elmslie - The Woolworth Song
[2:30][1978]


Mais info sobre Kenward Elmslie: 1, 2, 3

8.1.07

A luta de classes segue dentro de momentos…


A questão que colocamos todos os dias é como ajustar as políticas sociais à nova realidade socio-económica, considerando situações como a permanência do desemprego estrutural, a flexibilidade do trabalho e, em consequência, a maior mobilidade e o menor compromisso das empresas em relação aos seus empregados. Por outro lado, vivemos tempos de reformas neoliberais. Em Portugal, poucos analistas se debruçaram sobre as transformações do trabalho, e menos ainda na perspectiva do sindicalismo. No domínio da sociologia do trabalho não encontrei nenhum trabalho recente.

Como têm as centrais sindicais enfrentado esta situação adversa? Vivem num mundo muito distinto daquele que deu origem ao sindicalismo revolucionário, mesmo se a evolução social não eliminou o problema fundamental da exploração dos trabalhadores. CGTP-IN e UGT têm adoptado posições e estratégias similares, encontraram vias distintas de acção, convergem em que matérias? Confesso que me sinto incapaz de tal análise, que qualquer opinião seria apenas "impressionista" (como diz o Vasco Graça Moura). Por exemplo, parece-me que existe nas duas centrais sindicais a crença de que a qualificação profissional seria uma boa maneira de enfrentar o desemprego (mas até que ponto a qualificação formal, sendo requisito importante na contratação, impede a demissão?). A verdade é que mesmo nos media, e em particular nas televisões, são raras as oportunidades de discussão desta e outras matérias mais qualitativas. Modelos de negociação, relações entre sindicatos (no seio das duas confederações), o peso da organização de trabalhadores nos locais de trabalho; e problemas de fundo relativos a higiéne e segurança no trabalho, a doenças profissionais, à situação (segregação) das mulheres no trabalho, etc. não merecem, pelo que se (não) vê, suscitar interesse e reflexão. Os responsáveis sindicais são chamados a dar o seu testemunho apenas em ocasiões de greve e na origem destas estão, normalmente, reinvindicações quantitativas, isto é, questões salariais.

Com a maior diversificação de actividades que tem caracterizado o dinamismo dos sistemas económicos pós-industriais, não posso deixar ainda de sentir que são cada vez mais aqueles que não fazem parte dos grupos sociais tradicionalmente "protegidos" pelos sindicatos. Ficamos com a impressão de que, não sendo funcionário público, médico, jurista, professor ou jornalista, se está bem! Enfim, os jogadores de futebol, encontraram agora motivos para fazer uma greve, mas alguém ouviu falar dos direitos dos empregados domésticos, operários de construção, agricultores, empregados do comércio e hotelaria, actores, desenhadores técnicos, técnicos de estudos de mercado, tradutores, caixas de supermercados, etc., etc.. Não me vou alongar, mas cada uma destas profissões merecia algumas medidas legislativas dirigidas. Por exemplo, a maior parte dos funcionários domésticos não declaram actividade. Em França este problema foi atenuado quando os casais com filhos, em que mãe e pai trabalham, passaram a poder deduzir no IRS esses mesmos gastos. Todos ficaram a ganhar, o Estado também.

Por cá, os protagonistas actuais, governo, empresas, sindicatos, são poucos eficazes na defesa dos nossos direitos. Ponho em causa esta concentração do poder político e social. A "descentralização" ou "democratização" das decisões relativas ao trabalho será um conceito pouco operacional?
Falávamos de sindicatos. Mas na minha área - Estudos de mercado e de opinião, as expectativas no sentido da legitimação dos interesses da classe são mais dirigidas às associações profissionais. A luta de classes passou para segundo plano. O eco do apelo "Operários de todo o mundo, uni-vos!" não encontrou ainda uma caixa de ressonância. E não é por falta de "operários" com contratos de trabalho precários.

Eduardo Graça escreveu um artigo de opinião intitulado "A luta de classes segue dentro de momentos…" no Semanário Económico. Estas minhas divagações decorreram da leitura desse artigo. Eduardo Graça critica a redução das lutas sindicais à tentativa de "controlo dos grandes aparelhos do Estado" e clama o advento de um sindicalismo moderno.

"Ao abrir um novo ano verifico que vivemos um tempo em que o estado social está no centro de todas as atenções e todas as reformas são inadiáveis. Neste contexto apetece-me perguntar se, por acaso, a reforma dos sindicatos não deverá ser também considerada inadiável.
O papel dos sindicatos corresponde às exigências de uma sociedade em mutação? O programa de acção dos sindicatos corresponde aos anseios dos trabalhadores, em particular, dos trabalhadores “por conta de outrem”?
Ouço muitas interrogações, desde logo a minha própria, acerca da fúria reformista do Governo. Compreendo a avalanche das medidas reformistas num País que carece absolutamente de ser capaz de sair do ciclo infernal do empobrecimento relativo face aos parceiros ricos do clube europeu cuja casa decidiu partilhar.
(...)
Mas entre esses políticos encontram-se também os sindicalistas, em particular, os dirigentes, que têm ocupado, por regra, o lugar dos protagonistas da oposição a todas, ou a quase todas, as medidas reformistas do Governo. De que forma esses dirigentes se interrogam acerca da reforma dos próprios sindicatos em prol da criação das bases de um sindicalismo moderno.
(...)
Mas os tempos mudaram e o paradigma da acção sindical, em Portugal, estagnou na lógica da correia de transmissão dos partidos com o chamado movimento de massas. O sindicalismo em Portugal vive das facilidades que lhe são oferecidas pelo patronato e pelo Estado. Funcionalizou-se e luta mais para auto sustentar a sua nomenclatura e burocracia do que para defender os interesses dos seus associados.
A tendência para a acomodação dos sindicatos vem de longe, acompanhando as mudanças induzidas pelo chamado processo de globalização. Os sindicatos encarniçam-se, quase exclusivamente, na luta pela defesa dos interesses dos funcionários públicos.
Acantonaram-se, à velha maneira bolchevique, na luta pelo controlo do aparelho de estado, em particular, nas áreas que influenciam a formação da ideologia (educação), o exercício do poder de estado (justiça, forças militares e policiais) e a defesa da prevalência do estado social (saúde e Segurança Social).
Nas actividades de produção de bens transaccionáveis, na agricultura, indústria e na maior parte dos serviços, das quais o Estado já se apartou, quase não soa uma palha reivindicativa que faça lembrar o sindicalismo revolucionário, social-democrata ou mesmo social-cristão, como se todos os direitos dos trabalhadores por “conta de outrem” estivessem salvaguardados e as suas conquistas de classe garantidas.
Os verdadeiros problemas dos trabalhadores assalariados, em particular, os mais jovens e os mais idosos, tais como as reformas precoces, o envelhecimento activo, a discriminação pelo género ou raça, a higiene e segurança no trabalho, entre outros, não motivam qualquer espécie de reivindicação, inovadora e estimulante, que tenha expressão pública.
(...)
A verdade é que o panorama do sindicalismo contemporâneo revela uma triste realidade: os sindicatos são tanto mais fracos quanto mais afastados dos organismos do Estado. Os sindicatos precisam do estado para mostrar a sua força e, dessa forma, esconder a sua submissão aos ditames do patronato.
A luta de classes segue dentro de momentos…"

Eduardo Graça é o autor dos blogues ABSORTO e IR AO FUNDO E VOLTAR (onde este artigo pode ser lido na íntegra).

Imagens - Borofsky: Moleculeman, 1980; Flyingpainting, 1980