25.1.05

Toys

O Japinho chegou a Aveiro e começou logo a distribuir presentes envenenados. É claro que a culpa não é só dele já que, antes, a amada Didas lhe dera o mesmo presente só para ver o que é que o rapaz respondia! Agora ela já diz que vai repensar a vida, ele há com cada uma! Culpa do Pé de Meia que, assaltado pelo Papagaio que fugiu da casa do Vizinho, desata a falar em inglês não fosse o papagaio perceber! Ainda se fosse em francês, que a Didas deixou de estudar há mais tempo! Mas o que dizia, ou melhor, o que perguntava, também não era novo - limitou-se a reproduzir grandes questões que uma candidada eleitoral, de seu nome Gotinha, arremessou, só para confundir as massas! O pior é que aquilo começava com uma ameaça mais poderosa que a do voto em branco do Saramago. Ora vejam lá:

Se alguém quebrar esta corrente, o Santana Lopes ganha as eleições.
1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX?

Como não sabia o que eram toys fui ao dicionário. mas como é um dicionário antigo, só lá dizia brinquedos, o que não tem a ver com sex. fui a outro de sinónimos ver o que poderiam ser os brinquedos e li: joguete, brinco, brincadeira, folguedo, divertimento, jogo. A resposta é: YES, OF COURSE! (corrijo: gosto de tirar os brincos)

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE?

Mas se é só isso, eu espero que sim. Já o Dildos, só conhecendo!

3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE?

Outra vez o dicionário. Kink (foi o mais próximo que encontrei): retorcimento, mania. anh? Mas há fantasias que não sejam retorcidas? E não, não tenho a mania das fantasias. A não ser que ter muitas seja ter a mania. What is? Eles devem querer dizer "What are?" Bem, isso agora, só confesso no dia 18 se beber além da conta!

4. WHO GAVE YOU THIS DILDO?

Outra vez o Dildo! Mas eu já disse que não o conheço! E olha, o Japinho parece que também não! Mas que lata!

E os 4 nomeados para responderem ao questionário a seguir são:

Alguidar Pneumático - Batatas for the People - Esquerda Volver - O Eixo do Mal

Dormir acordado II


George Papadopoulos, Blue Eye



Lembro-me de quando comecei a pensar que não saber ler era um grande impedimento. Sentada ou em bicos de pés, era sempre minúscula face aqueles adultos que falavam tão depressa. Olhava para cima tentando seguir as conversas, concentrava-me, mas havia sempre qualquer frase que eles atropelavam depois de uma aceleração, e eu perdia o sentido, deixava-me ultrapassar. Como me impressionava a velocidade com que expeliam palavras! Lembro-me de fixar a mímica dos lábios. E de a reproduzir em frente ao espelho. Sonhava com eloquência. Convenci-me então de que ela ia nascer em mim quando aprendesse a ler, isto é, quando injectasse milhares de letras, pronomes, advérbios, formas verbais, substantivos. Chamava-lhes apenas letras e palavras, mas sei que tinha percebido a importância dos adjectivos. Essas pareciam ser as palavras mais importantes. E ler era como que engolir um dicionário ou muitos compêndios.
Teria quatro ou cinco anos.

Quem exercia maior fascínio sobre mim eram os locutores de televisão, nomeadamente os pivots dos telejornais. Desconhecendo a existência dos telepontos, ficava abismada com a capacidade daqueles seres eleitos, que fixavam discursos tão longos e nunca se enganavam!
Ainda não sabia ler. Quando me explicaram que eles liam um texto que era colocado à sua frente, não desarmei a minha veneração. E passei a treinar com o jornal do meu pai. Sentava-me à sua frente a uma distância digna de admiração e ia gritando as letras que já conhecia.

Às vezes ele acabava por me puxar para si, sentava-me ao colo e perguntava: "então, quantos a tem esta página?"
O meu pai. Chamo assim outras memórias.

24.1.05

O mar por cima


Paulo Castro

Eu tinha prometido mandar um postal da minha viagem aos Açores pela mão de Possidónio Cachapa. Só chegou hoje. Agora vai andar por aí e pode ser que, daqui a algum tempo, quando não tiverem planos, se lembrem de olhar para ele, e comprem o bilhete.

Antes de mais, esclareço que de possidónio provinciano ingénuo pretensioso vulgar, ele nada tem, e tão pouco se acachapa. É tão brutal o que acontece na terra que o mar por cima nos parece natural. Mas os personagens, os amigos Ruivo Rucas Rucãoforte e David, a mulher do primeiro, as mães dos dois, e até o Xuinga, não sabem deixar de ser inocentes, de temer, de não expressar, de sentir que é tudo grande demais para quem só quer ir vivendo com consolo. Foi isso que eu vi, movimentos desconcertados que se cruzam na busca de afectos que ninguém quer ou pode ver.
O homem do prazer inculto, fala-nos também de prazeres ocultos e outros mistérios. Cada um tem o seu. De resto o livro é dedicado a todos nós, aos que amam em silêncio.


"Balançando inquieta, a embarcação estava, agora, ao lado da corrente. David aproximou-a mais um pouco da rocha. Ele e o mar. Ele e o mar. Ele e a dor.
- Rucas, meu Rucãoforte - disse. E começou a chorar, mais por si que pelo que não tinha vivido. Sentiu-se ridículo por estar assim, exposto, à vista dos elementos que balançavam e do dia que continuava a correr.
No fundo do barco, os calhaus porosos brilharam mais. David baixou-se e, um por um, meteu-os no bolso."


(Cachapa, Possidónio, O mar por cima, Oficina do Livro, 2000, pp 179-180)

Operator


Gonçalo de la Serna

Anúncio: vou armar-me em operator e colocar Aveiro como spectrum das minhas fotografias. Spectators, invistam o vosso studium, deixem-se picar pelo punctum de cada imagem. A cidade merece essa entrega. Até à spectrum1 !
Para provocar a memória.
(unh, continuo à espera das vossas)
(i a men-i-na do c-i-rco do ivar já conhecem?)
Elis Regina. A minha diva brasileira. Vale pena comer esta sandes de atum.

22.1.05

Dormir acordado


Adelia Mostar

O que guarda a memória no seu saco? O que é que a leva a descobrir no imenso território do nosso passado aquelas imagens precisas, aquelas cenas precisas que ocupam o lugar das nossas recordações? Entre essas recordações, sempre mais ou menos retocadas, até inventadas, privilegiamos algumas. Raras e tão mais preciosas, aquelas que estão ligadas aos nossos primeiros anos; ainda menos numerosas as que pertencem aos anos posteriores. Como nós as acarinhamos, como nós as conservamos, evoquem elas momentos de felicidade ou de sofrimento, de triunfo ou de humilhação! Elas fazem-nos companhia e nós não queremos que elas nos deixem. Visitamo-las de tempos a tempos, correndo o risco de as repisar; o que preferimos é que elas surjam inesperadamente, prova de que elas, pelo menos, não nos esquecem.*


Hoje, a minha proposta é que as provoquemos, às memórias! Fazemos deste texto o mote, e vamos todos procurar as nossas memórias mais longínquas, felizes ou nem tanto. Se forem passíveis de partilha, guardem-nas aqui.
Vou deixar-vos umas das minhas, das mais antigas. ou talvez eu as tenha inventado.
(1) Tenho três ou quatro anos, estou sentada no chão da sala, e estou a brincar com outra criança. Ela esconde-se debaixo do tapete e faz barulhos que me fazem rir. Estou feliz. (a minha mãe diz que eu adorava imitações de animais e que esse amiguinho sabia "rugir" como os leões)
(2) Teria 2 anos e meio. A minha irmã ía nascer. Enquanto a minha mãe está na maternidade, fico em casa de um casal amigo dos meus pais. Eu acho que me lembro do momento em que eles me deixaram nessa casa. Querem que eu suba as escadas da entrada e eu choro imenso e resisto, não quero que me "abandonem" ali. "Lembro-me" perfeitamente das escadas.



*in J.-B. Pontalis, Le Dormeur éveillé, Mercure de France, 2004, pp 25 (tradução minha)
Caras Editoras, é urgente publicar J.-B. Pontalis!
O livro i do Ivar já saiu. Não se esqueça de o ir buscar Aqui.

Encontro de bloggers VI


Juliette

Aveirô? Bien süre!

Encontro de bloggers V


Benicio

Olhos nos olhos. Confias em mim? Disseste Aveiro. Dia 18. Tu sabes que eu vou.

21.1.05

Seul avec lui


Guy Bourdin

Il y a des hommes interdits, des hommes devant lesquels on reste interdite. Je me demande parfois si cette pieuse distance traduit la nature exacte de l'amour - être ici et là, de part et d'autre - ou son impossibilité complète - comment s'aimer de loin, sans rien toucher en l'autre?
Le désir point de traverser, d'aller sur l'autre rive, le désir point, dût-on en mourir, de passer.


in Laurens, Camille, Dans ces bras-là, P.O.L. éditeur, 2000, pp 198