21.1.05

Dans ces bras-là II


Robert Zverina, Been There

"Tu vas me manquer", dit-elle - comme on manque un train.
Ela está sentada na Frégate, ela lê Le Monde.
E de repente, ainda que já há muito tempo tivéssemos passado os Bairros Sociais* de Mantes-la-Jolie - faltam menos de dez minutos de trajecto, os passageiros já se amontoam junto às portas -, ela agarra subitamente nas suas coisas e começa a avançar pela carruagem em sentido contrário, abre a porta enfolada, atravessa uma nova carruagem, depois outra, depois ainda outra - "oh mana, a saída é para o outro lado", lança-lhe um sujeito estendido no meio da passagem, ela passa por cima dele, ela continua, ela quer percorrer todo o combóio antes da chegada, antes da confusão da descida, ela quer ter a certeza de que está enganada.
As carruagens da cauda do combóio estão quase vazias, um simples olhar tranquiliza-a, não há ninguém.
Ela abre a última porta, ela passa. Através do vidro do fundo, vêem-se os carris, a estrada, as árvores que fogem. E mesmo ao lado, sozinho, vendo a paisagem, ele está ali, é ele.
Ela avança no corredor (esbofeteá-lo, arrancar-lhe metade dos cabelos, atirar-se de bem alto), a sombra da sua silhueta fá-lo levantar os olhos, ele sorri como se estivesse orgulhoso dela, bem jogado darling - o marido é muito fair-play, muito desportivo. Quando fica ao seu nível, ela atira-lhe a pasta com toda a força à cabeça, perdido meu amor, apanha com isto no nose, honey, never give all the heart , my tailor is rich and my wife is crazy. Depois ela desaparece, son of a bitch.


in Laurens, Camille, Dans ces bras-là, P.O.L. éditeur, 2000, pp 143-144
(* Bairros Sociais: no original les HLM - Habitation a Loyer Modéré)

20.1.05

Mulheres da América do Sul, hablando espanhol


Lila Downs

A primeira vez que ouvi Mercedes Sosa ficou para sempre. O mais forte não terá sido então aquele poema Gracias a la Vida nem o som grave e índio que parecia chegar das profundezas da Cordilheira dos Andes. Não, o que me tocou foi o silêncio cheio de lágrimas da Consuelo. Essa amiga dos 20 anos, colombiana, quase exilada, e que tinha uma beleza prima da de Lila Downs. Contava histórias que pareciam vindas dos romances de Gabriel Garcia Márquez, cheias de heróis que sobreviviam a terramotos e a armas e conservavam a pureza. Havia uma de um músico que arriscara várias vezes a vida pelo seu violino. Fiquei assim, observando e respeitando as lágrimas de Consuelo, que pareciam querer dizer "esta é a minha identidade" e estou longe, sinto saudades.
Passaram-se longos meses até esbarrar num álbum de Mercedes Sosa. Pensei que tinha de o levar para casa pela Consuelo. Mas, no meu silêncio, encontrei outras razões para nunca mais deixar de a ouvir. Mercedes conseguiu juntar as melhores influências e os melhores letristas-compositores daquele continente (Nicolas Brizuela, Victor Herédia, Silvio Rodrigues, Milton Nascimento, Chico Buarque, entre tantos outros). Um dos meus sonhos é ouvi-la ao vivo um dia. Quando passou por Portugal - deu um concerto na Aula Magna, eu vivia em França. Lembro-me de que nessa ocasião foi ao programa do Herman José. Eu via os canais portugueses e quis bater em alguém. Ele não conhecia a grandeza da diva, deu-lhe 5 minutos de emissão. À Amália Rodrigues de todo o continente sul americano.
Através de Mercedes Soza (argentina) cheguei a outras vozes e a outros músicos. Mas hoje só vou falar das mulheres. Violeta Parra (chilena), que compôs aquele Gracias a la Vida é um mito. Os temas populares e os problemas sociais são uma constante na sua música, e a imagem que temos dela bebe muito da sua forte militância política. Mas Violeta Parra é uma artista. e é raíz. é emoção. são todas as dimensões.
Em direcção ao Norte, damos um salto a Cuba para evocarmos Celina González. Chegamos ao México e à musa de Frida Kahlo, Chavela Vargas. É preciso ouvi-la cantar La Llorona. Almodovar foi buscar Luz de Luna e rendeu-se à sua personalidade forte. Chavela, que morreu recentemente com mais de 80 anos, deixou uma herdeira. Ela está ali, chama-se Lila Downs. Talvez a tenham visto e ouvido no filme Frida, de Julie Taylor.
Todas juntas numa mesma passion musical e política. Hijas de America Latina. Sangre caliente. Cantando la vida.

Arbol de la vida


Lila Downs (David Allen)

Mujer de Dios
profeta de hierba
mujer de la edad del tiempo
que hace honor a los muertos santos
mujer de Dios
mujer de la obscuridad
mujer de tiempos sagrados
diosa del mundo de muertos
venas y carne, tu fruto ha crecido
la tierra tu sangre siempre beberás
...

Feche os olhos e ouça o canto da deusa.

19.1.05

Dans ces bras-là


Thomas Schmidt

Um fragmento da escrita, feminina sensual sensível romanesca, de Camille Laurens.

O marido sente uma pequena dificuldade em tornar-se o marido - ele diz-lhe olhos nos olhos na Closerie des Lilas, uma noite muito tarde: ele não é livre. Ele vive muito perto dali com uma mulher mais velha que ele, a quem se mantém unido. Mas ele vai romper, ele quer casar-se com ela; ela, ele adora-a.
Eles conhecem-se há três dias. Ela responde-lhe que também ela não é livre: ele chama-se Amal, partiu para viver em Nova Iorque e ela devia ir lá ter com ele, mas agora já não vai, acabou.
Eles apresentam-se: ela faz dança, ela tenta escrever, ela gosta de Guillaume Apollinaire; ele foi nadador de competição, ele compõe poemas que não interessam a ninguém, ele gosta de Yeats, T.S. Eliot, Shakespeare, de teatro, ele detesta a actualidade e roda num XK 120 branco, um dia ele vai levá-la, ela vai compreender. Nessa noite, na Closerie des Lilas, eles vão maravilhar-se com as suas semelhanças. A noite, em casa dela, uma imensa tempestade rebenta no momento em que se beijam - noites eléctricas, peles magnéticas. Os deuses ficam com ciúmes.
Eles casam-se. Ele ensina inglês em Rouen, ela é bibliotecária em Vernon, eles moram em Paris. Eles encontram-se no combóio quase todos os dias - é a mesma linha -, esgotados, apaixonados, eles fazem amor, eles não param.
Uma sexta-feira, ele avisa-a que não vem dormir a casa, que tem de acompanhar uns colegas ingleses a Havre. "Tu vais fazer-me falta", disse ela - como quando perdemos um combóio.*


A suivre...


* (Traduzido do francês: Laurens, Camille, Dans ces bras-là, P.O.L. éditeur, 2000, pp 142-143. Na última frase o duplo sentido da palavra manquer não é traduzível, pelo que deixo o original: "Tu vas me manquer", dit-elle - comme on manque um train.)

18.1.05

Mulheres de África


Quem tem um ovo no saco não dança (provérbio africano)

A África Negra produziu ao longo dos anos um número incomensurável de mulheres cantoras. A sua música sempre me perturbou. Isto quer dizer emocionar, impelir à dança, enlevar-se.
Se aqui vou deixar alguns nomes é porque me parece importante quebrar a imagem estereotipada da mulher e da música africanas. das duas. Ouvi-las cantar é atravessar linguagens e romper barreiras culturais.
Mirian Makeba, sul africana, é a Mama África. É uma lenda viva. Nasceu em 1932 e, devido à política de apartheid, passou os seus primeiros seis meses de vida numa prisão com a mãe. A mãe, curandeira, chamou-lhe Zenzi, diminutivo de Uzenzile, que significa "não podes culpar ninguém, a não ser a ti própria".
E Makeba é um exemplo de força. Em 1963 discursou nas Nações Unidas e tornou-se a porta-voz (não oficial) do movimento contra-apartheid, viveu exilada até à eleição de Nelson Mandela, em 1990.
Musicalmente, alcançou renome internacional muito cedo. Com apenas 21 anos tornou-se a vocalista dos Manhattan Brothers. Em 1959 consegue o papel principal em King Kong, um espectáculo da Broadway, e conquista a América. Cantou para o Presidente kennedy no dia do seu aniversário (não foi só a Marilyn Monroe). Trabalhou com Harry Belafonte, participou na digressão de Paul Simon com Graceland. Já actuou nas principais Salas deste mundo. Mirian Makeba é uma diva.
Canta em xhosa, zulu e inglês e o seu espectro musical é amplo, desde a música tradicional africana ao jazz.
As outras cantoras africanas que destaco também conheceram fama internacional. Angélique Kidjo (Benim), Yvone Chaka (África do Sul), Mbilia Bel (Republ. Democrática do Congo). E, é claro, Cesaria Evora, que em Portugal é sobejamente conhecida.
Um outro provérbio africano diz que "Deus soube esconder a nudez do milho sob folhas verdes". Retirem as folhas, uma a uma.

17.1.05

Arca de Noé


Miguel Torga

Hoje é dia para lembrarmos Miguel Torga. Ou é sempre dia. Basta querermos. Mas hoje fui buscar os livros dele, todos Edições Coimbra, com capas amarelecidas e gastas, folhas cortadas, alguns cheios de anotações numa caligrafia que foi mudando de idade.
Lembrei-me do primeiro livro que li, Bichos. E do impacto de Madalena nos meus 13 ou 14 anos. Miura, que continua a comover-me. Ainda são os meus contos.
E aquela linguagem. Frases simples, descrições de filigrana, plano sonoro rico, paisagens verdes ou secas e estaladiças, moçoilas, velhas, machos, vidas.
Pau para toda a colher em matéria de chanatos, o Rodrigo apareceu em Dailão num dia de feira a tocar a gaita dos sete ofícios - uma flauta de capador, que parecia um harmónio a cantar-lhe nos beiços.
- Temos chuva!
Sempre de ironia na ponta da língua, a Mathilde, que lavava a louça, antes mesmo de ver a cara do músico, atirou a dizedela. Depois é que chegou à varanda. E o Rodrigo, apenas a lobrigou, repenicou-lhe cá de baixo uma assobiadela afinada como um madrigal.
- O homem é doido!
Mas era por uma ave de arribação assim, exótica e atrevida, que o seu coração esperava.
(in Contos da Montanha)
Na Arca de Noé da literatura portuguesa, Miguel Torga será sempre um dos eleitos.

Como agradecer?


Complemento ao Troféu Farinha Amparo

Acabo de ganhar um troféu muito especial atribuído pela Didas e Japinho, excelentíssimo júri de um concurso "literário" do Farinha Amparo. O mote era excelente, o prémio é gostoso.

Não podia deixar de retribuir. Mas desta vez, com um texto do Artur Portela.

Quer mais pão, obrigado, de trigo?, obrigado-obrigado, ou antes de centeio?, não-não, trigo, centeio, disse?. não, disse trigo, trigo torrado? como torrado?, torrado, centeio torrado, obrigado, mas não, trigo!, não trigo, portanto, centeio torrado?, não, trigo!, trigo torrado?, muito obrigado, embora, embora quê?, embora o pão torrado beba pior o azeite, beba pior?, sim, beba pior o azeite, quer dizer, seja mais difícil de embeber em azeite, nesse caso, não torrado, nesse caso, e manteiga?, obrigado, a manteiga, de facto é excelente, tem alho?, alho?, não sei, talvez ervas aromáticas!, sim, sim, ervas aromáticas, perfeitamente, perfeitamente, salsa-tomilho-coentros, obrigado, azedas-eruca-louro-alecrim, obrigado, verbena-cebolinho-estragão, obrigado, manjerona-hortelã, obrigado-obrigado, azeitonas?, sim-sim, azeitonas!, verdes?, pretas, obrigado, este vinho é óptimo, alho?, alho, o vinho?!, não-não, as azeitonas!, as verdes?, as verdes e as pretas, não, talvez ervas!, ervas?, sim-sim, ervas aromáticas!, manjericão-endro-cerefólio, como?, ce-re-fó-li-o!, a manteiga é excelente, aqui a tem, mais azeitonas?, obrigado-obrigado, verdes?, pretas, obrigado, disse verdes?, não, disse pretas, obrigado, de nada, pretas com ervas, por quem é, com ervas aromáticas, salsa-tomilho-coentros, o pão?, sim, e a manteiga, a manteiga, sim, mas o pão, eu referia-ma às azeitonas, as pretas?, não, as verdes, as ervas, as ervas!, manjericão-endro-ramo-de-cheiros, obrigado-obrigado, caiu-lhe o guardanapo, caiu-me, desculpe, por amor de deus, de Deus?, de deus?, não, de Deus, é indiferente, Deus ou deus, no caso, é indiferente!, completamente indiferente!, indiferente no caso, no caso, sem dúvida, pois, mas não tem guardanapo, caiu-me, desculpe, eu apanho, não-não, desculpe, apanho eu!, não, desculpe, mas apanho eu!, sim, mas eu insisto, apanho eu!, já estou a apanhar, não-não, eu apanho, eu!, isso não!, quem apanha o guardanapo sou eu, eu apanho, apanho eu!, com licença, com licença, agora caiu-me o meu!, procuramos os dois, não é necessário, eu apanho os dois guardanapos!, apanhamos os dois, os dois apanhamos os dois guardanapos!, um apanha um e o outro apanhas o outro, pois, mas eu faço questão de apanhar o seu!, e eu o seu!, com licença, tinham de estar, com licença, aqui, pois tinham, caíram-nos dos joelhos e só podiam estar aqui!, pois, mas, aqui está um!, é o seu!, por amor de Deus, é o seu!, de deus?, de deus não, de Deus!, é indiferente, Deus ou deus, no caso, é indiferente!, como é que sabe que é o meu guardanapo?, pode muito bem ser o seu guardanapo!, pois, mas e o outro guardanapo?!, é indiferente-é indiferente!, um guardanapo chega!, levantemo-nos!, depois de si, depois de si!, faço questão!, eu também faço questão!, temos é de tomar uma decisão, pois temos-pois temos!, e temos porque não cabemos os dois debaixo da mesa!

O Almoço, Artur Portela, Coluna do Jornal do Fundão, Os Peixes Voadores - 22, 23.04.04

Por onde tenho andado


Marcel Duchamp, Roda de Bicicleta

Não se choquem, mas às vezes penso que sou rica. Não que esta ideia me assalte com frequência. Acontece que às vezes, vou ali ou ali ou ainda acolá, sem sair de casa. Posso escolher a agência de viagens e o destino. As agências ficam no escritório, no quarto, no corredor e ainda no sótão. O destino é o que me parecer mais atraente. Desde o início do ano já fiz três grandes viagens. Ao Afeganistão, aos Açores e a Itália e França (estes últimos, cheguei a percorrê-los no mesmo dia) .
Começa com uma enorme leveza, "o que é que me apetece ler hoje?" E sinto o privilégio. Estendo o olhar, que às vezes tem de atravessar objectos, souvenirs, imagens e fotografias antes de a mão alcançar o bilhete de avião. Porquê este hábito de encher as estantes de livros e de pedaços de outras coisas? Umas estatuetas africanas, um velho mapa de angola, umas caixas de madeira, umas miniaturas de uns sapatos de Marie-Antoinette, fotografias dos que adoramos e nossas, sempre mais jovens e felizes, e outros testemunhos de vivências e amigos que queremos lembrar. Não se dê o caso de a memória nos falhar ou falsear.
Mas podemos deter-nos no obstáculo, e sorrir. E depois fugimos com o tesouro.
Os últimos já aguardavam há algum tempo que eu lhes pegasse. As Andorinhas de Cabul de Yasmina Khadra, O Mar Por Cima de Possidónio Cachapa e Le Dormeur Éveillé de J.-B. Pontalis.
Viajar assim, tendo como único critério a descoberta. Sou rica.
Para a viajem, costumo levar um banco, às vezes a cama, e a roda da minha imaginação. Sem ela era como se, chegada ao destino, não falasse com os nativos. E eu não gosto desses turistas.
Hei-de mandar-vos uns postais.

Apelo

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Nós blogueiros, propomos desde já, unirmo-nos em um alerta para a humanidade, e implantarmos cada um de nós, a nosso modo e em nosso ambiente, medidas práticas de mudanças!

É tempo de se falar abertamente. É tempo de se abordarem as questões em profundidade e não de forma restritiva. É tempo enfim, de se falar a sério sobre a questão ambiental e ecológica. Sobre a humanidade!

E com razão. É que cada vez mais se toma consciência de que o combate pela preservação, não tem fronteiras, não é regionalizável e de que a resposta ou é global ou não será resposta.

As chuvas ácidas, o efeito de estufa, a poluição dos rios e dos mares, a destruição das florestas, não têm azimute nem pátria, nem região. Ou se combatem a nível global ou ninguém se exime dos seus efeitos.

As pessoas ainda respiram. Mas por quanto tempo?

Os desertos ainda deixam que reverdejem alguns espaços estuantes de vida. Mas vão avançando sempre.

Ainda há manchas florestais não decepadas nem ardidas. Mas é cada vez mais grave o deficit florestal.

Ainda há saldos de crude por extrair, de urânio e cobre por desenterrar, de carvão e ferro para alimentar as grandes metalurgias do mundo. Mas à custa de sucessivas reduções de reservas naturais não renováveis.

Na sua singeleza, o caso é este:

Até agora temos assistido a um modelo de desenvolvimento que resolve as suas crises crescendo cada vez mais. Só que quanto mais se consome, mais apelo se faz à delapidação de recursos naturais finitos e não renováveis, o que vale por dizer que não é essa uma solução durável, mas ela mesma finita em si e no tempo que dura. Por outras palavras: é ela mesmo uma solução a prazo.

Significa isto que, ou arrepiamos caminho, ou a vida sobre a terra está condenada a durar apenas o que durar o consumo dos recursos naturais de que depende.

Não nos iludamos. A ciência não contém todas as respostas. Antes é portadora das mais dramáticas apreensões.

O que há de novo e preocupante nos dias de hoje, é um modelo de desenvolvimento meramente crescimentista – pior do que isso, cegamente crescimentista – que gasta o capital finito de preciosos recursos naturais não renováveis, que de relativamente escassos tendem a sê-lo absolutamente. E se podemos continuar a viver sem urânio, sem ferro, sem carvão e sem petróleo, não subsistiremos sem ar e sem água, para não ir além dos exemplos mais frisantes.

Daí a necessidade absoluta de uma resposta global. Tão só esta necessidade de globalização das respostas, dá-nos a real dimensão do problema e a medida das dificuldades das soluções. Lêem-se o Tratado de Roma, O Acto Único Europeu e mais recentemente as conclusões da Conferência de Quioto, do Rio de Janeiro e Joanesburgo, onde ficou bem patente a relutância dos países mais industrializados, particularmente dos Estados Unidos, em aceitar a redução do nível de emissões. Regista-se a falta de empenhamento ecológico e ambiental das comunidades internacionais e dos respectivos governos, que persistem nas teses neoliberais onde uma economia cega desumanizada e sem rosto acabará por nos conduzir para um beco sem saída.

Por outro lado todos temos sido incapazes de uma visão mais ampla e intemporal. Se houver ar puro até ao fim dos nossos dias, quem vier depois que se cuide!... e continuamos alegremente a esbanjar a água do cantil.

Será que o empresário que projectou a fábrica está psicológica ou culturalmente preparado para aceitar sem sofismas nem reservas as conclusões de uma avaliação séria do respectivo impacto ambiental?
Mesmo sem sacrificar os padrões de crescimento perverso a que temos ligados os nossos hábitos, há medidas a tomar que não se tomam, como por exemplo:

  • Levar até ao limite do seu relativo potencial o uso da energia solar e da energia eólica.
  • Levar até ao limite a preferência da energia hidráulica sobre a energia térmica.
  • Regressar à preferência dos adubos orgânicos sobre os adubos químicos.
  • Corrigir o excessivo uso dos pesticidas.
  • Travar enquanto é tempo a fúria do descartável, da embalagem de plástico, dos artigos de intencional duração.
  • Regressar ao domínio do transporte ferroviário sobre o rodoviário.
  • Repensar a dimensão irracional do transporte urbano em geral e do automóvel em particular.
  • Repensar, aliás, a loucura em que se está tornando o próprio fenómeno do urbanismo.
  • Reformular a concepção das cidades e das orlas costeiras


  • Dito de outro modo: a moda política tende a ser, um constante apelo às terapêuticas de crescimento pelo crescimento. È tarde demais para desconhecermos que, quando a produção cresce, as reservas naturais diminuem.

    Há porém um fenómeno que nem sempre se associa ás preocupações da humanidade. Refiro-me à explosão demográfica.

    Com mais ou menos rigor matemático, é sabido que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Assim, em menos de meio século, a população do globo cresceu duas vezes e meia !...
    Nos últimos dez anos, crescemos mil milhões!... Sem grande esforço mental, compreendemos aonde nos levará esta situação.

    Se é de um homem mais sensato e responsável que se precisa, um homem que olhe amorosamente para este belo planeta que recebeu em excelentes condições de conservação e está metodicamente destruindo; de um homem que jure a si mesmo em cadeia com os seus semelhantes, fazer o que for preciso para que o ar permaneça respirável, que a água seja instrumento de vida e dela portadora, e os equilíbrios naturais retomem o ciclo da auto sustentação, empenhemo-nos desde já nessa tarefa, com persistência e determinação.

    Se é a continuação da vida sobre a terra que está em causa, e em segunda linha a qualidade de vida, para quê perder mais tempo?...

    Por isso apelamos a todos quantos se queiram associar a este movimento pela preservação da Natureza, pela Paz e pelo desenvolvimento harmonioso da Humanidade, para subscreverem este Apelo.

    Ao fazê-lo estamos a afirmar a nossa cidadania, enquanto pessoas livres, que olham com preocupação o futuro da Humanidade, o futuro dos nossos filhos!





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    16.1.05

    Postal




    Viajei cá dentro. E quando se viaja, mandam-se postais aos amigos. Nas costas deste escrevi: "Votos de um Portugal livre".
    Achei que era oportuno. Este é um ano de eleições. Somos nós que abrimos a porta.