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27.3.12

«the impression we exist»

POZZO: I am blind.
...
Silence.
ESTRAGON: Perhaps he can see into the future

(...)
ESTRAGON: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist?

(...)
VLADIMIR: Well? Shall we go?
ESTRAGON: Yes, let's go.
They do not move.

in Samuel Beckett, "Waiting for Godot" (original escrito em francês em 1948-49)

__________________


É o Dia Mundial do Teatro e não, não haverá espectáculos por todo o país. nem de longe nem de perto.
Continuamos à espera de Godot!

3.11.07

A Espera


Uma sugestão absurda: ___ ler absurdo, antes de ver absurdo, A Espera, uma criação performativa livremente inspirada em «À Espera de Godot».
Helena Botto e Jorge Neto são Vladimir e Estragon, vagabundos (atletas) subservientes e cegos ao interminável preenchimento do tempo da vida, escravos do peso de carregar os dias como uma espera sem qualquer sentido; e são Pozzo e Lucky, as duas outras personagens, que criam uma forma de jogo (original, nesta peça), na qual se defrontam com igual indiferença e consciência de inutilidade, no espectáculo do servilismo à sua condição (belíssimo, o recurso ao símbolo da gaiola, e o adereço de per se). Bruno Pinho é a música, o circo, a pantomina, e participa também na acção passando desesperados charming days and evenings esperando por Godot. Quem é, o que é Godot? A incerteza ou Deus, a esperança ou o nada, tudo o que nunca aparece a horas certas, ou que nunca veremos, mas que estamos convencidos de que pode aparecer, vai aparecer, vai acontecer, convém não acontecer. Entretanto, (re)pousamos as nossas vidas nos mesmos lugares todos os dias, ou movemo-nos. Porque há sempre uma escolha. Let's Go? Estes performers movem-se___e já
ressuscitaram um Teatro.

VLADIMIR: When I think of it . . . all these years . . . but for me . . . where would you be . . . (Decisively.) You'd be nothing more than a little heap of bones at the present minute, no doubt about it.

(...)
ESTRAGON: Let’s go.
VLADIMIR: We can’t.
ESTRAGON: Why not?
VLADIMIR: We’re waiting for Godot

(...)
VLADIMIR: I felt lonely.
ESTRAGON: I had a dream.
VLADIMIR: Don't tell me!
ESTRAGON: I dreamt that—
VLADIMIR: DON'T TELL ME!
ESTRAGON: (gesture toward the universe). This one is enough for you? (Silence.) It's not nice of you, Didi. Who am I to tell my private nightmares to if I can't tell them to you?
VLADIMIR: Let them remain private. You know I can't bear that.
ESTRAGON: (coldly.) There are times when I wonder if it wouldn't be better for us to part.
VLADIMIR: You wouldn't go far.

(...)
ESTRAGON: Let's hang ourselves immediately!
VLADIMIR: From a bough? (They go towards the tree.) I wouldn't trust it.
ESTRAGON: We can always try.
VLADIMIR: Go ahead.
ESTRAGON: After you.
VLADIMIR: No no, you first.
ESTRAGON: Why me?
VLADIMIR: You're lighter than I am.
ESTRAGON: Just so!
VLADIMIR: I don't understand.
ESTRAGON: Use your intelligence, can't you?
Vladimir uses his intelligence.
VLADIMIR: (finally). I remain in the dark
(...)
VLADIMIR: Well? What do we do?
ESTRAGON: Don't let's do anything. It's safer.
VLADIMIR: Let's wait and see what he says.
ESTRAGON: Who?
VLADIMIR: Godot.
ESTRAGON: Good idea.

(...)
VLADIMIR: One is what one is.
ESTRAGON: No use wriggling.
VLADIMIR: The essential doesn't change.

(...)
POZZO: Ah yes! The night. (He raises his head.) But be a little more attentive, for pity's sake, otherwise we'll never get anywhere. (He looks at the sky.) Look! (All look at the sky except Lucky who is dozing off again. Pozzo jerks the rope.) Will you look at the sky, pig! (Lucky looks at the sky.) Good, that's enough. (They stop looking at the sky.) What is there so extraordinary about it? Qua sky. It is pale and luminous like any sky at this hour of the day. (Pause.) In these latitudes. (Pause.) When the weather is fine. (Lyrical.) An hour ago (he looks at his watch, prosaic) roughly (lyrical) after having poured forth even since (he hesitates, prosaic) say ten o'clock in the morning (lyrical) tirelessly torrents of red and white light it begins to lose its effulgence, to grow pale (gesture of the two hands lapsing by stages) pale, ever a little paler, a little paler until (dramatic pause, ample gesture of the two hands flung wide apart) pppfff! finished! it comes to rest. But– (hand raised in admonition)– but behind this veil of gentleness and peace, night is charging (vibrantly) and will burst upon us (snaps his fingers) pop! like that! (his inspiration leaves him) just when we least expect it. (Silence. Gloomily.) That's how it is on this bitch of an earth.
Long silence.

(...)
VLADIMIR: Well? Shall we go?
ESTRAGON: Yes, let’s go.
They do not move.

(...)
VLADIMIR: Say, I am happy.
ESTRAGON: I am happy.
VLADIMIR: So am I.
ESTRAGON: So am I.
VLADIMIR: We are happy.
ESTRAGON: We are happy. (Silence.) What do we do now, now that we are happy?
VLADIMIR: Wait for Godot. (Estragon groans. Silence.) Things have changed here since yesterday.
ESTRAGON: And if he doesn't come?

(...)
POZZO: I am blind.
Silence.
ESTRAGON: Perhaps he can see into the future

(...)
ESTRAGON: We always find something, eh Didi, to give us the impressione we exist?

(...)
VLADIMIR: Well? Shall we go?
ESTRAGON: Yes, let's go.
They do not move.


A Espera vai voltar a acontecer nos dias 8, 9 e 10 de Novembro, pelas 22 horas, no Estúdio PerFormas.

27.3.07

Dia Mundial do Teatro #3

Winnie:... Pois é... assim eu pudesse suportar a solidão, quero dizer, ficar para aqui a pairar sem ser ouvida por ninguém. Não é que eu tenha ilusões, Deus me livre. Tu não ouves lá grande coisa, Willie. Há mesmo dias em que não ouves nada. Mas há também outros em que respondes. De maneira que eu posso sempre dizer de mim para mim, mesmo quando não respondes e talvez nem oiças: Winnie, posso eu dizer, há alturas em que alguém te escuta, tu não estás a falar só para ti própria, quero dizer, no deserto, coisas que eu nunca pude suportar - por muito tempo. E é isso que me permite continuar, continuar a falar, entenda-se. Enquanto que, se tu viesses a morrer, para falar à moda antiga, ou se te fosses embora e me deixasses, que havia eu de fazer então, que poderia fazer ao longo do dia, quero dizer, desde o instante em que a campainha toca para acordar até ao instante em que a campainha toca para adormecer?

in Dias Felizes
Samuel Beckett

16.11.06

Samuel Beckett


2006 é o ano em que se celebra o centenário do nascimento de Samuel Beckett. O autor de À Espera de Godot ou Dias Felizes, nasceu a 13 de Abril de 1906 em Foxrock, uma localidade a sul de Dublin.
Por ocasião do Famafest - Festival Internacional de Cinema de Famalicão, em Abril/Maio deste ano, tive oportunidade de ver os 19 filmes do projecto "Beckett on Film", idealizado por Michael Colgan, director artístico do Gate Theatre de Dublin. Este projecto reune pela primeira vez a gravação de todas as 19 peças de teatro do autor: Waiting for Godot, Krapp's Last Tape, Happy Days, Endgame, Not I, What Where, Catastrophe, Act Without Words I e II, Rough for Theatre I e II, Footfalls, A Piece of Monologue, Ohio Impromptu, Come and Go, Breath, Play, That Time e Rockaby.


Para minha surpresa, encontrei três destes filmes no Youtube. Leiam um pouco sobre o teatro do absurdo de Beckett, e aproveitem a oportunidade que a internet oferece.

Ohio Impromptu, de Charles Sturridge, com Jeremy Irons:


Play, adaptação de Anthony Minguella, com Alan Rickman, Kristin Scott Thomas e Juliet Stevenson. Play foi escrita por Beckett entre 1962 e 1963. O filme (em 2 partes): 1, 2 .

What Where, de Damien O'Dannell, com Gary Lewis e Sean McGinley (Parte 1 e 2)

Não pertencendo a esta série, não resisto a deixar aqui o link para:


Not I.
Vi esta peça adaptada ao cinema por Neil Jordan e interpretada por Julianne Moore. E guardo também na memória fragmentos de uma interpretação de Graça Lobo. Preferi a última___ que, na verdade, andava próxima desta versão.

Krapp's Last Tape
. Numa versão de Tom Skipp (1, 2).

27.5.06

Vícios

Acho que não falo das minhas leituras há muito tempo... e no entanto, nos últimos tempos tenho lido livros que me têm enfeitiçado. Hoje ficam só as referências. Talvez vos apeteça qualquer coisa boa, agora que chegou a estação das feiras do livro.

Depois de A Mancha Humana, que me impressionou imenso, não esqueci Philip Roth. Por isso lancei-me na leitura de Pastoral Americana e A Conspiração Contra A América (Ed. Dom Quixote). Mas não leiam estes últimos de seguida, que foi o que eu fiz, e agora baralho tudo (apesar de ainda me faltar Casei Com Uma Comunista). Comecei por A Conspiração, que parte de uma hipótese fantástica (vejam a etimologia da palavra): e se em 1940, nos EUA, Roosevelt tivesse perdido as eleições e o Presidente eleito fosse pró-nazista? É esse o pano de fundo de todo o romance. O famoso herói da aviação e isolacionista Charles Lindberg é Presidente dos EUA e a discriminação e o medo começam a alastrar. Philip Roth desenvolve este cenário centrando-se numa família de judeus, a sua, a viver em Newark à época.
Gostei tanto desta obra que me apeteceu continuar na América, em Newark, agora no pós-guerra, isto é, mergulhei na Pastoral Americana (prémio Pulitzer 1998).

Acabada a Pastoral, fiquei desesperada, queria continuar "dependente" de um livro. Foi por isso que finalmente peguei no Murakami.
Não conhecia este escritor, apesar de já me terem falado maravilhas dele. Mas o primeiro livro dele a aparecer nos escaparates das livrarias chamava-se Sputnik, Meu Amor! Associei-o a um Nicholas Spark ou coisa similar e então não, muito obrigado! Foi com cautela que abri as páginas de Kafka À Beira-Mar (Ed. Casa das Letras). Bem, devorei o livro e descobri um novo autor!
Haruki Murakami narra as aventuras de duas estranhas personagens, Kafka Tamura, que foge de casa aos 15 anos, e Nakata, um homem já idoso. Realismo fantástico japonês. Cidades e gatos que conversam com pessoas. Solidão e peixes a cair do céu. Acreditamos que tudo é possível. Já tenho o Norwegian Wood mas, para não fusionar histórias, como fiz com os livros do Philip Roth, vou aguardar. Quanto ao Sputnik, Meu Amor, ainda resisto, certos títulos irritam-me mesmo.


Decidi passar para o último livro do Michael Cunningham, Dias Exemplares (Ed. Gradiva). Li As Horas, Uma Casa no Fim do Mundo e Sangue do Meu Sangue. Esperava reconhecer o ambiente da escrita de Cunningham. Mas ele conseguiu surpreender-me. (eu sei que pareço muito boazinha com os escritores, mas não estou a exagerar, acontece que estes senhores são mesmo bons!)
Este livro tem três partes. Em todas encontramos o mesmo grupo de personagens - um rapaz (que cita Walt Whitman sempre que as suas próprias palavras se esgotam ou demoram a aparecer), um homem e uma mulher (e eu acrescento, uma tigela!).
A primeira parte, que se intitula Dentro da Máquina, é uma história situada em plena Revolução Industrial. Um rapaz de 13 anos vai ocupar o lugar que o irmão, morto devido a um acidente com uma máquina, deixou vago numa fábrica. Esta primeira parte, e as seguintes, valem por si. São contos. Este em particular é obra de mestre. A estrutura narrativa cola-se às casas, às ruas, ao rapaz, à máquina.

Entretanto, e por causa do Famafest '06, voltei a pegar no Samuel Beckett, nomeadamente Dias Felizes (Ed. Estampa) e li pela primeira vez Henry James, porque havia um filme a concurso que fazia a adaptação de A Volta No Parafuso (Ed. Relógio D'Água). O filme era belíssimo mas por questões técnicas foi desqualificado, o livro não me encheu as medidas mas, no final do século XIX, Oscar Wilde descreveu-o como "um conto maravilhoso, terrível e venenoso". É claro que devem dar ouvidos olhos ao Oscar Wilde!
Ainda sobre cinema, gostei de ler Actos de Cinema - Crónicas de um Espectador de Edmundo Cordeiro (Ed. Angelus Novus), um ensaio belíssimo que pensa o cinema de forma filosófica (inspirado nos mestres Deleuze e Bergson).

Agora, ando ocupada com uma série de livros-catálogo do Cineclube da Biblioteca Museu República e Resistência, da autoria de Lauro António (o último, sobre os Irmãos Marx, acabou de ser editado) e com os livros de Paulo José Miranda.

... e tudo isto porque certos vícios são mesmo bons! Aproveitem a estação...

1.5.06

Beckett de, depois de, Graça Lobo


Graça Lobo, sábia, apaixonada, fala-nos de Beckett. Beckett é, desde há muito tempo, seu. O seu Beckett antes do Beckett de outros, End Game de Conor McPherson, Play de Anthony Minghela, Catastrophe de David Mamet e tantos mais. Graça Lobo explica, contextualiza, antes de "Samuel Beckett no Cinema". Para nós. Sabem onde. Mas o público..., o público? Por onde anda o público que deixa escapar momentos assim, belos, raros? Viverá dias felizes?


E assim passamos de um título "à moda antiga" - Winnie - para o verdadeiro título: Dias Felizes, que são uma "tranche de vie", vimos já, limitada, e uma "tranche de vie" também postiça. Postiça adjectivando "vida" e "pedaço de vida" ao mesmo tempo.
Prefácio em Dias Felizes de Samuel Beckett
Ed. Estampa, 1989


Fotos de MRF

24.3.06

cantem...

O dia está a chegar ao fim. Mas se calhar ainda é um bocado cedo para a minha canção. Cantar cedo demais é funesto, sempre achei. Por outro lado, às vezes deixa-se passar a altura. Toca para dormir sem se ter cantado. O dia acaba por passar completamente, para sempre, e não houve canção, seja de que espécie for.

in Dias Felizes, de Samuel Beckett



Cantem! Desta vez, com a Sinéad O'Connor. E há mais no Music Hall.