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22.4.05

Roma



Ao desembarcar em Roma, no século XIX, o romancista francês Stendhal ficou pasmo com esse mosaico montado aleatoriamente pelos séculos. Essa reacção é conhecida hoje por "síndrome de Stendhal". É na expectativa desse efeito que viajo agora para Roma (vou tentar fugir ao "síndrome de Bento XVI").

Amici della blogosfera, até breve !


P.S.: decidi comemorar antecipadamente o Dia Mundial do Livro e o Dia 25 de Abril. Com alguns poemas. Com a lembrança de que em muitos lugares no próximo sábado se celebra o prazer da leitura e com o apelo à festa no dia 25! Para quem esqueceu ou não viveu os tempos da outra senhora, talvez ler, reler os Poemas da Resistência de Joaquim Pessoa, reavive o canto da liberdade. Porque se a pátria é uma herança ela é também o espaço que está à nossa frente (o poema completo de António Ramos Rosa está ali em baixo).

Enquanto lêem vão ouvindo, José Mário Branco. Resistir é vencer é um álbum belíssimo, fantástico, maduro, poético, ... descobri-o e ando a ouvi-lo a ouvi-lo. Canção preferida, já agora: o papão do anão!

O cão da tristeza


Hiroshi Watanabe

A gente faz amor como se a morte doesse mais que a vida e é mentira.

O cão da tristeza está aqui.
Aqui, sem alma, ferrado no meu espanto.
Puxando as verdes charruas do meu pranto
lavrando a dor cinzenta do meu povo.

O cão da tristeza está aqui.
No giz do meu lume, na fogueira acesa
que queima a minha casa, destrói a minha mesa
e magoa o meu sangue e a minha voz.

O cão da tristeza está aqui.
No açaime do medo que nos cala
na sombra do punhal, no frio da bala
apontada ao coração da nossa esperança.

in Joaquim Pessoa, Poemas da Resistência (1968/1971)

Pela liberdade viva


Denny Moers

Neste país sem olhos e sem boca...
Ruy Belo, Homem de Palavras(s)


Meu amor
no teu peito de coragem
feito de pedras e cardos
há um país de viagem
e vinhos de cada cor
verdes maduros bastardos.

Há uma pedra de cal
em cada olhar que respira
há uma dor que já dura
desde que dura a mentira
há um muro levantado
numa seara madura.

Verde mar
verde limão
são os teus olhos de medo
o vento é este segredo
que escreve em cada manhã
o nome dela na erva
numa folha numa pedra
nos bagos de uma romã.

Acendo-te uma fogueira
nas tuas mãos acordadas
dou-te flores de laranjeira
dou-te ruas dou-te estradas
dou-te palavras secretas
dou-te coragem e setas
dou-te os meus dedos crispados
ponho cravos amarelos
à volta dos teus cabelos
dou-te o meu sangue vermelho
e o meu canto proibido

Dou-te o meu nome
raíz
há muito tempo arrancada
dou-te esta calma guardada
nos homens do meu país
dou-te a fome
do meu canto
dou-te os meus braços em cruz
e as mãos feitas num crivo
dou-te os meus pulsos abertos

mas é por outra que vivo.

in Joaquim Pessoa, Poemas da Resistência (1968/1971)