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8.5.12

«meanwhile my self etcetera lay quietly in the deep mud»


Cummings era poeta e pintor. Para ele, os olhos deveriam ler e "ver a poesia". Do ponto de vista tipográfico, inova. Mas o que me toca na sua poesia é a forma como faz de conta que não conta uma história. Estava na livraria do King e comecei a ler My Aunt Lucy. Há muitos anos. "xix poemas" continua a ser um dos meus livros de cabeceira. Já não folheio, agarro o que foi desfolhado.

Estamos a 8 de Maio e somos um dos poucos países da Europa que não celebra o Dia da Vitória. A entrada dos EUA na II Guerra Mundial foi crucial para o feliz desfecho (malgré Hiroshima, Nagasaki, e todo o horror inventado e perpetrado por Aliados e Nazis). Neste poema, Cummings evoca outra a guerra, a Primeira. Mas todas as guerras sacrificam cordeiros, soldados, que têm uma história parecida com esta para contar:

______

my sweet old etcetera
aunt lucy during recent
war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting
for,

my sister
isabel created hundreds
(and
hundreds) of socks not to
mention shirts fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my

mother hope that
i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how
it was a privilege and if only he
could...

..meanwhile my
self etcetera lay quietly
in the deep mud et

cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)


E.E. Cummings (1926)

2.3.07

Him #2

Ilustração de Him do próprio E.E. Cummings



ME (Whispers): Is it?
HIM (Quietly): Yes.
ME (looking at him): It may take two people to make a really beautiful mistake

1.3.07

Him #1

Joan Sloan
A cena de Frankie e Johnny
Da primeira peça de E.E. Cummings, HIM, 1928


Um extracto de grande beleza, em que um profundo amor heterossexual se funde com uma mistura andrógina de Him and Me, uma espiritual (e também infantil) fusão:

HIM: I feel that it's very dark.
ME: Do you--feel?
HIM: Terribly dark.
ME: Are you a little afraid of the dark?
HIM: I've always been. (The room darkens rapidly) May I sit beside you?
ME: If you don't very much mind. (He does so)
HIM: A hand. Accurate and incredible.
ME (To herself): The dark is so many corners--
HIM: Here life is, moves; faintly. A wrist. The faint throb of blood, precise, miraculous.
ME (As before): --so many dolls, who move--
HIM: Curve. And they talk of dying! The blood delicately descending and ascending: making an arm. Being an arm. The warm flesh, the dim slender flesh filled with life, slenderer than a miracle, frailer.
ME (As before): --by Themselves.
HIM: These are the shoulders through which fell the world. The dangerous shoulders of Eve, in god's entire garden newly strolling. How young they are! They are shy, shyest, birdlike. Not shoulders, but young alert birds. (The figures of ME and HIM are almost invisible)
ME (Almost inaudibly): Darker.
HIM: A distinct throat. Which breathes. A head: small, smaller than a flower. With eyes and with lips. Lips more slender than light; a smile how carefully and slowly made, a smile made entirely of dream. Eyes deeper than Spring. Eyes darker than Spring, more new.
ME (To herself): We must go very carefully...
HIM: These, these are the further miracles--
ME (Almost inaudibly):...gradually...
HIM: --the breasts. Thighs. The All which is beyond comprehension--the All which is perpetually discovered, yet undiscovered: sexual, sweet, Alive!



___________________
é claro que agora já conhecem o Cabo dos Ventos!

26.2.07

a função do amor é fabricar conhecimento

a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo;mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas,o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto,os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode não se
importar
se o tempo troteia,a luz declina,os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
---o medo tem morte menor;e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes(cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram)que sonham,criam e matam
enquanto o todo se move;e cada parte permanece quieta:

in livrodepoemas, de E.E. Cummings
tradução de Cecília Rego Pinheiro
Assírio & Alvim, 1998, pp 125


da tradutora, a Nota: "... em Outubro de 1992, vem a lume o artigo "Not e.e. cummings", assinado por Norman Friedman (...), pretendendo esclarecer definitivamente o problema. Segundo o crítico, o erro [uso de minúsculas] tomou forma quando, em 1964, Harry T. Moore afirmou no prefácio ao segundo livro do próprio Friedman, dedicado a Cummings (The Growth of a Writer), que este tinha, legalmente, mudado o seu nome para minúsculas. Quase trinta anos depois, Norman Friedman desmente o que fora anunciado por Harry T. Moore e afirma a necessidade da correcção gráfica do nome do poeta nos inúmeros comentários de natureza crítica, de que a sua poesia tem sido objecto...." pp 23
Norman Friedman é um dos mais conceituados estudiosos de Cummings pelo que, desde essa data, se usa escrever o nome do poeta em maiúsculas. (pensar que peguei nos "xix poemas" também publicado pela Assírio, em 1991, por me agradar a simplicidade do e.e. cummings)



Para o Windtalker
(conhecem este Cabo dos Ventos?)

15.11.06

Now air is air and thing is thing. no bliss

Mais uma celebração. Outro poeta. E.E. (ou e.e.) Cummings. Por Evan Sornstein (Curium). 22 poemas musicados. declamados por vozes vindas de todo o mundo. personalidades distintas para manter a individualidade de cada poema.



agora o ar é o ar e a coisa é coisa:nenhuma alegria
da celestial terra ilude os nossos espíritos,cujos
miraculosos desencantados olhos
vivem a magnificante honestidade do espaço...

14.7.05

Michael Bry. art image




o que apenas é intencional
e não é miraculoso
(nunca será tão engenhoso)













tem de murchar falhar e cessar

















- mas melhor do que crescer
a beleza vai saber

o fim(na calma e na fúria:
por entre alegria e angústia)dos que
a fizeram,é à glória superar
no pouco em que vivem -
a não ser pelo teu pensar
para sempre seja muito














deixa a beleza tocar um erro
(chamado vida)morremos para respirar,
ele mesmo em sua maravilha se transforma
-e maravilhosa a morte é;


mas mais,quanto mais velho ele é
mais jovem se torna





(poema de E.E. Cummings)

3.4.05

O primeiro de todos os meus sonhos



O primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar(pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra
(E.E. Cummings)

Quando elas nasceram, ainda um pouco trôpega, comecei por vê-las assim, pouco nítidas. Pensava Finalmente vou conhecê-las! Reconheci de imediato uma delas, era o meu bébé imaginado. Depois fixei a irmã, Olha o meu bébé surpresa!

Mudaram quase tudo na minha vida. Logo cedo, percebi duas coisas: que amor e paixão podem andar juntos uma vida inteira. e que amar pode conter-se na palavra Dádiva (o conceito defensivo do amor como uma troca esmoreceu).

As horas levantam-se e o amanhecer deixou de se despir de estrelas. Neste amanhecer vou olhar para as minhas estrelas com uma canção na boca. Tesouros são os meus tesouros, as minhas meninas de oiro.

nascidas entre as 12h:00 e as 12h:02 há 5 anos!



PS: Obrigada

sou uma pequena igreja(não uma grande catedral)

sou uma pequena igreja(não uma grande catedral)
longe da opulência e imundície das apressadas cidades
---não me preocupo se os dias mais breves se tornam brevíssimos,
não tenho pena quando sol e chuva fazem abril

a minha vida é a vida do ceifeiro e do semeador;
as minhas orações são orações da terra onde desajeitadas lutam
(encontrando e perdendo e rindo e chorando)as crianças
cuja qualquer tristeza ou alegria é meu tormento e meu aprazimento

à minha volta surge um milagre incessante
nascer e glória e morte e ressureição:
sobre o meu ser adormecido flutuam flamejantes símbolos
de esperança,e eu acordo para uma perfeita paciência de montanhas

sou uma pequena igreja(longe do alucinado
mundo com o seu enlevo e angústia)em paz com a natureza
---não me preocupo se as noites mais longas se tornam longuíssimas;
não tenho pena quando a calma se torna canto

de inverno a primavera,ergo a minha espiral diminuta para
o misericordioso Ele Cujo único agora é para sempre:
permanecendo erecto na verdade imortal da Sua Presença
(acolhendo humildemente a Sua luz e orgulhosamente as Suas trevas)


E.E. Cummings
in livrodepoemas

26.2.05

Os olhos dos meus olhos estão abertos


Catherine Hermans

Todas as sugestões para este fim de semana têm um único objectivo: acabar o dia com vontade de gritar isto:

obrigado Meu Deus por mais este espantoso
dia:pelos saltitantes e virentes espíritos das árvores
e um azul autêntico sonho celeste;e por tudo
o que é natural o que é infinito o que é sim

(eu que morri estou vivo de novo,
e este é o dia de anos do sol;este é de anos
o dia da vida e do amor e asas:e do alegre
grande evento ilimitavelmente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando qualquer----erguido do não
de todo o nada----ser simplesmente humano
duvidar inimaginável de Ti?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)


E.E. Cummings

30.12.04

E se eu fosse outra parte do corpo II


Keith Nicolson

a minha nua senhora emoldurada
em crepúsculo é um acidente*

as sombras que rodopiam são seus alongados dedos de bruxa
seu peito um palco improvisado de preguiça e vontade

retenho nas polpas dos meus dedos
a tensão que aquela parte do meu corpo,
qual indecoroso ser
ameaça revelar

cobarde
precipito-me devagar para o umbigo

imaginável gesto
prendeu-me as mãos

e assim, de mãos atadas
alimento-me do avatar peito


* Os dois primeiros versos são do E.E. Cummings

14.12.04

Supondo que sonhei isto


ama o lugar misterioso

supondo que sonhei isto)
imagina só, quando o dia estremece
tu és uma casa em torno da qual
eu sou um vento---

as tuas paredes não se aperceberão de como
estranhamente a minha vida é curva
já que o melhor que se pode fazer
é espreitar pelas janelas, inobservado

---ouve, pois (acima de todas
as coisas)o sonho não se deixa enganar;
se este vento que eu sou ronda
cuidadosamente em torno desta casa que és tu

o amor sendo assim, ou assim,
as habituais esquinas do teu coração
nunca adivinharão o quanto
o meu maravilhoso ciúme é negro

se a luz florir:
ou o riso cintilar na
casa fechada (em torno e em torno
da qual um pobre vento vai vaguear


in Cummings, E.E., livro de poemas, Ed. Assírio & Alvim, 1999 (pp 91)

P.S.: o nome do lugar misterioso anda algures por aqui, e a foto corresponde às traseiras da casa