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11.10.05

Escritor Famoso. Eleições Abertas


MRF

Chegou o momento das votações. As urnas estão abertas a partir deste momento e até às 24 horas do dia 13 de Outubro. Já conhecem as regras: todos podem votar, incluindo os autores dos textos (num outro texto que não o seu). Só deve ser indicado UM texto (eu sei que é difícil...) como o PREFERIDO. A nomeação desse texto deve ser feita nos comentários deste blog. Na vossa avaliação tenham em consideração se existe ligação entre o texto e o mote apresentado (mesmo que essa ligação não tenha que ser óbvia!). Se quiserem, apresentem as razões por que fizeram a vossa escolha.
Aos autores agradeço a generosidade implícita na resposta a este desafio e, como poderão comprovar, a qualidade elevada dos textos.

Eis os autores e textos a concurso!

1. de George Cassiel, Agulhas ferventes:
"Entrei como um actor entra em cena, sem nada que me despertasse a atenção, porque tudo sempre estivera lá, nos mesmos sítios desde o início, como os adereços sobre o palco deverão estar para que o actor não se perca, sem novidade, sem diferença, para que a indiferença provocada seja estímulo à concentração absoluta no corpo, no corpo do actor, no meu corpo quando entro em cena, em casa. (...)" Contin. aqui.

2. de Palavras em Linha, As palavras da memória:
"Há momentos em que paramos. Subitamente. Como se o corpo estivesse em exaustão e precisasse de recompor-se da corrida diária que é a vida.
Não se trata de parar para pensar, para desbastar a ideia que anda há semanas a ocupar a mente como onda espraiando-se sobre o areal da praia em dia de Agosto. Paragens dessas tive-as amiúde. Resultaram em páginas saídas das minhas mãos como pedaços de mim e espalhadas depois pelos olhos dos outros, olhos atentos, olhos de converter palavras em coisas acabadas com desfechos estranhos à minha compreensão.
O que deixamos escrito sai de nós para não nos pertencer mais.(...)" Contin. aqui.

3. de Hipatia do Voz em Fuga, Les voix du silence:
"Percorreu cada espaço. Sentia-o vazio agora, um refúgio oco. Olhou os livros caiados de pó de casa antiga e com visitas retardadas pelos afazeres longe demais. Em cada espaço, uma memória salta-lhe ao caminho, um sorriso empoeirado de quando era tão mais fácil sorrir. Percorreu cada espaço, cada quarto. Sentou-se nas cadeiras do costume, como se nunca tivesse partido. Respirou os cheiros, cheiros familiares e antigos, de madeira verdadeira e linhos amarelados. Percorreu cada espaço, como quem percorre de mansinho uma vida inteira. (...)" Contin. aqui.

4. de Ivar Corceiro do Bagaço Amarelo, alguém construiu uma fábrica a muitos quilómetros daqui:
"Durante a noite alguém construiu uma fábrica a muitos quilómetros daqui, e eu sentei-me no parapeito da janela onde ainda estou. Nunca vi Vera passar o túnel. São tantas as vezes que um homem olha para o chão, penso agora, que não encontro resposta para a forma preocupada como a mobília me encara. É verdade que estou a olhar para o chão, e que me acalento na fraca pulsação da luz matinal. É verdade que talvez Vera ainda venha hoje. As árvores caminharam durante a noite aproximando-se da casa, e algumas estão deitadas lá fora à espera duma história de amor. As histórias de amor são sempre ridículas, penso agora, e não percebo porque geram tanta expectativa.(...)" Contin. aqui.

5. de J.P. do Faz de Conta, sem título:
"Embebedei-me de aromas ao tocar a pedra áspera. Arcada bruta nascida do sonho de mostrar poderio. Palpei de novo as raízes da infância, quando as azedas eram mais azedas, e o coração menos brando.
Que carranca séria, disseram-me. - Solta o riso que as flores agradecem!
Muda encaracolei-me no axadrezado hipnótico. O eco dos passos uma cortina de fumo.(...) Contin. aqui.

6. de Luna do Loucura e Nata, O Retiro do escritor:
"O meu retiro nada tem de novo comparado com outros, é um local tranquilo onde me encontro comigo mesmo, onde tenho o silêncio, onde me viro mais para dentro do que para fora.
Valorizando mais o silêncio que o barulho. Os mil barulhos com que nos vamos habituando a preencherem o dia-a-dia.(...)" - Continua aqui.


7. de Fausta Paixão, do Não Compreendo os Homens, Jorge Rebelo Tinto:
"Eu já devia estar avisada sobre a complexidade da mente artística. Não é que cada homem seja um artista ou contenha em si um artista, que as artes masculinas são assim umas coisas mais ligadas ao bricolage, coisas de encher garagens ou arrecadações com todas as inutilidades que já não cabem em casa. Mas dizia eu que devia estar avisada sobre as artes ditas nobres, uma vez que o pianista e o dançarino tinham arte inata e nem por isso deixaram intacta a minha alma apaixonada. Artifícios da vida! E se ela não é mais do que um rame-rame feito de rotinas pasmadas, de vez em quando lá cedemos à pitadinha de loucura que um artista traz e transmite ao cinzentinho dos dias.(...)" Contin. aqui.

8. de
Sisífo, Recuo:
"Na parte mais dramática do meu epitáfio há-de ficar descrita a voz de um tempo que me desafiou a perecer apenas com todas as fomes saciadas.
Aí, nesse pedaço pouco atento da gratidão, estarão também soletrados os passos que dei para deixar de sentir o que quer que fosse pela verdade.
Nada de perturbante.
Pedaços e mais pedaços é tudo o que se vai conseguindo sugerir como vida.(...)" Contin. aqui.

9. de Ivo Cação do
Zumbido, A Saphira:
"Et in Arcadia ego. Não, não sei latim. Ficou-me esta frase de há muitos anos quando revivia o passado em Brideshead. Sem propriedade, diga-se. Aconteceu apenas porque me lembrei de Saphira. E a memória é sempre uma feiticeira boa que vem em auxílio de quem já não sabe sair do estreito caminho da evidência.
Saphira esteve comigo no lugar que primeiro defini como meu. Filho único, avesso ao encontro fortuito com a realidade rude e agreste, encontrei em Saphira a companheira, que não sendo capaz de distinguir entre a aventura e a conveniência, me levava para os espaços ocultos onde eram possíveis os devaneios.(...)" Contin. aqui.

10. de Mushu do
Ao Sabor do Vento, Xadrez:
" Sentou-se, cansado de tanto debitar letras naquela folha de papel. Desta vez letras ao acaso, sem nexo. Escreveu-as na leve esperança de que um dia tomassem vida, se organizassem e formassem algo com sentido.Adormeceu.Entrou pela porta de vidro que dava para o jardim, correu ao quarto para buscar as peças de xadrez, tencionando com elas jogar nos ladrilhos da entrada como era habitual.- Mãeeeeeeee! Onde está o cavalo?- O do xadrez? Vi-o passar aqui há pouco. Acho que foi para a rua.(...)" Contin. aqui.

11. de Joaquim Pavão, (sem título):
"Queimei-me! O dedo não arde, apenas dói. Volto a colocar o isqueiro no chão. Levanto-me? É isso! Estou a levantar-me. Tenho que agarrar-me. Tantos solavancos! Onde vou? Usa os olhos, usa os olhos. Só vejo manchas arrastadas em confusas direcções. Parei? Acho que parei, embora o corpo sinta ainda o passado no presente. Calmaria? Parece que parou. Olho e já estou na porta. Respirar, meu deus! Respirar? Inspiro, expiro, repetição. E mais repetição. Mão na maçaneta e rodo.(...)" Contin. aqui.

12. de Rui Gonçalves, do Crónicas de (e depois da) Califórnia, O Tempo:
"Mais um dia! Cheguei aqui há algum tempo e desde aí que tenho esperado que o tempo passe. Porque "o tempo faz com que as coisas mudem", pensei eu nessa altura. Mas o passar do tempo apenas nos faz ficar com menos tempo. Tempo esse, que pretendemos que seja para mudar aquilo que não mudámos a seu tempo.
A verdade é que nunca acreditei na história do D. Sebastião, mas como todos aqui, acredito que haverá um tempo melhor que este. Um tempo em que terei tempo para fazer aquilo a que gosto de dedicar o meu tempo.(...)" Conti. aqui.

13. de Lino Centelha, A casa dos espirros:
"Sentado nos bancos castanhos da casa branca, ouvi um catequista cinzento, com olhos azuis e cabelo ruivo, vestido de verde, com um livro negro nas mãos rosadas, dizer, numa quarta-feira de cinzas, entre dentes amarelos, que éramos pó e em pó haveríamos de nos tornar. O catequista cataclísmico não fumava. Também não bebia. Não fazia nada a não ser dizer-nos que haveríamos de ser pó. E tossia muito lançando perdigotos azulados sobre o meu horizonte de observação.
Foi esta questão do pó e dos perdigotos que me empurrou definitivamente para a engenharia. (...)" Contin.
aqui.

14. de
Prólogo, O coito:
"Quando andava à procura da forma perfeita, encontrei a esfera. Sei que não é universal, que haverá quem goste mais do cubo ou do fantástico tetraedro, mas eu prefiro uma coisa sem vértices nem arestas, elementar o suficiente para parecer mais do que é e onde a proximidade do toque é sempre pontual.
Talvez por isso, na infância, passasse o meu tempo a esquadrinhar obsessivamente o arcaico globo terrestre que ainda está cá em casa. Incomodava-me saber da enorme sorte que me calhara de, dado que estava sempre numa óbvia vertical, o resto da humanidade viver numa estranha e incómoda obliquidade, para não falar nos antípodas que permaneciam eternamente de pernas para o ar. (...)" Contin.
aqui.

15. de Finúrias do
Ministério da Soltura, Carta à insónia:
"Cinco minutos depois das 6, canta a noite sem sono. E mais uma noite ! Deambulo pela casa já de madrugada , uma insónia que tome conta de min . Certamente, quando só no silêncio próprio da noite , inconscientemente acabamos por pensar , e pensar , e pensar ...com ou sem sentido , o que gostaríamos de ter feito, e deixamo-nos cair no esquecimento da hora. É nestas alturas que sentimos a vontade de tudo agarrar, e recriar ...os castelos de criança, já esmagados pelo tempo , falar àqueles que o próprio tempo fez desencontrar, reencontrar o amigo imaginário que fazia companhia quando a mãe apagava a luz do quarto. O medo do escuro deixava de existir ! (...)" Contin.
aqui.

16. de Caiacaina do
Bis morgen, O Escritor Famoso e os elos do passado:
"Levantei-me e dei passos à toa pelas veredas do jardim da minha infância. Voltei a olhar o baloiço e lentamente atravessei o jardim de todas as minhas recordações. Os meus passos ressoavam no saibro solto e por entre a folhagem da velha árvore, parecia-me ver os olhos de Helena a admirarem-me.Em passos lentos dirigi-me à minha casa. Cruzei os arcos de pedra cansada pelos anos que seguravam as ogivas.(...)" Contin.
aqui.

17. de Francisco del Mundo, Mestre, que p. de vida:
"Mestre, certas pessoas tem toda a legitimidade para dizer "Que puta de vida!"... Walter Herrman é uma delas! Este homem, com um H muito grande, tem 25 anos e é um basquetebolista argentino. É um atleta tremendo que tem provado a vitória na derrota e a derrota na vitória. Mas contemos a sua estória...Em Julho de 2003, estava ele em La Plata no estágio quando, ao ligar para casa, descobriu que a sua namorada tinha perdido a vida num acidente. Para quem já passou por isto, sabe que a dor (e impotência) é tão grande que se amaldiçoa a vida. (...)" Contin. aqui.

18. de mfc do Pé de Meia, (sem título):
"
A noite estava fria e já ia alta. Sentei-me naquela poltrona junto à janela a olhar para a árvore, de que apenas se perscrutava o recorte escuro contra o mais escuro do céu. Não ousei acender a lareira e virei costas à estante, que sempre foi um aconchego. Via apenas a árvore negra na minha frente. O frio húmido entrava pela janela, mas precisava de estar ali a contemplá-la. Já a tinha visto mil vezes, mas não assim apenas recortada. Estavamos imóveis os dois, fixos um no outro. Fomos companhia recíproca desde há muito, se bem que ela fosse uma irmã mais velha e me tivesse ensinado como estar na vida... Dizia-me muitas vezes: "Olha para mim!" (...)" Contin. aqui.

19. de Carlos da Alameda dos Oceanos, Um tempo alegremente incerto:
"
Podia estar à espera de um barco que me levasse, a alma animada pelas coisas que se não conhecem e que nalgumas partidas se revelam intensas e felizes, antes de tudo ou alguma coisa se passar.
Poderia olhar em volta, as paredes e as pessoas, e ficar com pena de as deixar por algum tempo (um tempo alegremente incerto), olhar para as minhas coisas e pensar que vão ficar sozinhas por algum tempo (um tempo alegremente incerto). (...)" Contin. aqui.

Divulguem nos vossos blogs o início das votações do III Concurso do Escritor Famoso. Não se esqueçam de que a comunicação dos resultados finais (que supõe a avaliação do "grande júri") acontecerá no dia 14 de Outubro em Aveiro (livraria O Navio de Espelhos, às 21:30) no Encontro de Bloggers que aqui vai ocorrer... e para o qual todos estão convidados!

29.8.05

E o livro vai para...







Fazem ideia de como foi um prazer ler estes 26 textos e de como, depois, se tornou tortuoso ter que escolher O melhor texto! Existem textos para todos os gostos, uns mais poéticos, outros "de época", muitos bastante nostálgicos, uns tantos absolutamente originais, outros tantos bem estruturados, a grande maioria muito bem escritos. Alguns textos não respeitaram o mote inicial e por isso foram penalizados. É o caso dos textos 3, 6 e 19 (sem referência ao escritor ou à relação entre o escritor e Helena). Mas porque são textos excelentes, aconselhamos a re-leitura. Enfim, depois de muitas leituras e re-leituras, o júri chegou a um resultado.

A grande maioria dos votantes no Concurso escolheu o texto 18 da Marquesa d'Aires.

O somatório dos pontos (de 1 a 10) atribuídos por cada membro do Júri definiu a seguinte classificação:

1. Texto 2, O sorriso, de Didas (47 pontos)
2. Texto 21, A Helena , de Ivo Cação (46 pontos)
3. Texto 10, Estranhos frutos do vento, de Elisa (45)
3. Texto 12, O Adamastor, de Ivar Corceiro (45)
3. Texto 16, A máquina do tempo, de Maria (45)
3. Texto 18, Com Saudades de Helena, de Marquesa d'Aires (45)
4. Texto 15, O escritor famoso, de bastet (44)
5. Texto 17, Analepse de Verão, de Renato Quintas (41)

Aos nomeados dou os meus sinceros Parabéns mas, dada a qualidade global dos textos, quero deixar uma palavra aos outros autores de textos.

A subjectividade inerente a este tipo de "avaliações" é tão óbvia que as pontuações dos membros do júri não foram de todo coincidentes, e a esse facto se deveu a (ligeira) "descida" de alguns textos na tabela das classificações. São as regras do jogo! Mas como eu gostei dos SMS do Rui, um dos textos mais originais, ou da Helena de grão de pó e da imagem da hora no espelho, do "voyeurismo altruísta" do Ivo Jeremias, da criação dos vários planos da história pelo Palavras em Linha, da fluidez de textos como o do Alfredo C. Silvestre ou das deambulações inteligentes e criativas de Prólogo e de Sísifo! Cada texto merece de facto uma menção e os não referidos agora sê-lo-ão mais tarde.



O nosso prémio será atribuído mais uma vez a dois concorrentes, a Marquesa d'Aires e a Didas.

Minhas Senhoras, vão pensando no livro que gostariam de receber... porque no final de Setembro vai realizar-se a cerimónia de entrega dos prémios. Antes, vamos ver se o escritor continua ou não a passear pela blogosfera...

E agora, Senhores e Senhoras, os textos eleitos:


  • Com Saudades de Helena, de Marquesa d'Aires

E Helena? Não sei o que disse à mãe, que explicações encontrou. A última vez que andámos de baloiço, tinha os olhos pregados no chão e um aperto na voz. O pai, que sofria da febre do sucesso, estava decidido a partir para África e levava a família. A carta de chamada, enviada por um tio de Joanesburgo, pousava sobre o aparador da sala de jantar, prometendo a todos um futuro melhor. Uma máquina de lavar roupa para a mãe, uma bicicleta para o irmão e a colecção completa dos livros da Anita para Helena. A mulher que não esqueci, que me fez desembarcar nesta cidade sitiada, era, aos 10 anos, uma miúda de sonhos simples. E o meu coração sobressalta-se, agora que deixo o aeroporto e avisto, ao longe, os edifícios fantasma do centro. Temo pelas minhas memórias, pela ternura desse primeiro amor. Os anos, e são muitos, podem ter engolido a rapariguinha tímida, de olhos rasgados, cabelos escuros e ondulantes. Quem sabe que rumos tomou, se mudou a cor do cabelo e enfiou nos dedos anéis de ouro. No bolso do casaco, tenho um endereço e um número de telefone. Mendiguei-os à família, a pretexto de uma viagem de trabalho. Não quis saber mais. Helena não regressou quando o medo tomou o espírito dos emigrantes e transformou as ruas em lugares desertos. Por algum motivo, não fugiu, não se escondeu das armas e das balas, cujos ecos se ouvem assim que entro no hotel. Do outro lado, estende-se Alexandra, nome de mulher para um bairro onde convivem todas as sombras que atormentam as pessoas de bem. Roubos, homicídios, violações, SIDA. Aqui, na cama do meu quarto, o conforto impede-me de pensar sobre o destino dos desafortunados. Vim atrás de uma menina de 10 anos que me dava a mão e fugia comigo para o parque, no intervalo maior das aulas. E é essa a imagem que me enche a alma, que me faz tremer os dedos. Não sei que voz me responderá do outro lado. Apenas peço que seja meiga, que guarde alguma lembrança da infância. Sinto que as palavras me fogem quando oiço uma mulher rir-se no fim da linha, como se estivesse à minha espera. Ou é o coração que me engana, a emoção que me atropela a razão. Todos os tons, todas as inflexões, os risos e as gargalhadas da conversa de 10 minutos dançam-me na cabeça. Helena não se esqueceu.
No bar do teu hotel, disse ela, antes de desligar. E cá estou, afundado numa cadeira, com um uísque duplo à frente, incapaz de ouvir a música que se toca no piano. Nem sei quem espero. Uma trintona desleixada, uma mãe de família ou uma rapariga como a que acaba de entrar, de cabelos soltos e andar gracioso. Baixo os olhos para tentar ler algumas linhas do livro que trouxe e convencer-me do pior. Nenhum amor permanece intacto durante 25 anos. Ou se perde o sentimento, ou ganhamos nós barriga, cabelos brancos. Não o escrevi e disse já, vezes sem conta, nos livros e nas entrevistas? O amor é o momento, a circunstância, a disponibilidade. Não as ilusões de um escritor, homem feito e, dizem, bem parecido que, aos 35 anos, decide tirar a limpo uma história de mãos dadas e lanches partilhados. E apesar de todo o sentido prático dos meus romances, sou eu quem espera pelo passado, com o peito agitado e trémulo de um adolescente. Espero um sorriso cheio de covinhas e quase não reparo que, no fundo da sala, a rapariga de cabelos soltos e andar gracioso me acena.
A mulher à minha frente é linda. Tal como prometia ser. Um olhar onde cabe toda a paz do Mundo, um modo de cruzar as pernas que dá vontade de abraços e beijos. Um sorriso com covinhas, uma voz com travo africano. E eu a gaguejar desculpas para a viagem, a falar dos meus livros, do muito tempo que passou. É Helena quem puxa o assunto, quem fala do nosso namoro inocente. Dos cromos que trocámos, dos gelados de um escudo que partilhámos e do teste de matemática que me deu a copiar. Sorri quando conta que, tantos anos no país do râguebi, do críquete e do hóquei em campo, continua a preferir o futebol. Anda, como todo o povo, feliz com o Mundial, acredita numa nova esperança. E, aos poucos, vai revelando a sua vida, os seus dias, a sua paixão. Não é uma família ou um homem que a tem cativa. É a terra. A imensidão do espaço, o pulsar dos dias, a poesia que se extingue a cada pôr-do-sol e o futuro que não existe. Os seus vieram com sonhos de grandeza, Helena chegou com mágoa no coração, sem desejos com preço em rands. A família partiu, depois, assustada com as mudanças políticas. Ela ficou, apaixonada pelo lugar.
Perdido nos olhos de Helena, lembro-me que vim para fazer uma pergunta, para saber que explicações deu à mãe, quando fomos repreendidos por mau comportamento na escola. Desajeitado, conto como disfarcei tudo com um simples «andamos de baloiço». Um largo sorriso nasce-lhe no rosto, sinto um certo embaraço, mas a miúda com quem andei de baloiço aos 10 anos não sabe mentir. Não esconde emoções, não me contará meias verdades. De olhos pregados no chão, um leve rubor no rosto, a mulher que não esqueci responde-me como o fez à mãe, há 25 anos: «disse que eras o meu namorado».


  • O Sorriso, de Didas (Farinha Amparo)
Preciso de me lembrar das nossas tardes no baloiço do parque, do meu vestido vermelho de pintas brancas a esvoaçar e das nuvens lá em cima que se afastavam e aproximavam em movimentos sucessivos. Dos risos que a vertigem me provocava. De ti ao meu lado, silencioso, sorridente e feliz.
Preciso de me lembrar dos recados em forma de poema que me escrevias nas aulas. Ainda os tenho todos, mas é só na memória que os guardo sem pó. Também tenho todos os teus livros, alinhados na estante e todos os dias os abro para que eles não se desabituem de ser manuseados. Tu sempre me disseste que os livros têm que ser manuseados, que não podem ficar só para ali, perdidos na estante.
Preciso de me lembrar do teu sorriso. É importante não esquecer o teu sorriso.
Preciso de me lembrar do dia em que comprámos a nossa primeira mobília a prestações porque não tínhamos dinheiro para a pagar de uma vez, mas estávamos tão felizes! Era a mobília mais cara da loja e nós comprámo-la mesmo sem termos dinheiro. Lembro-me que me disseste - “Agora somos ricos” – e eu ri muito e estava nervosa porque não sabia como íamos pagar aquilo, mas estava feliz. Nesse dia tinha o meu vestido azul, que era novo, e tinha apanhado o cabelo com um elástico.
Preciso de me lembrar da boneca que me ofereceste no meu aniversário. Era exactamente meia-noite quando a tiraste do armário, toda amarrotada porque estava escondida debaixo das malas. Eu estava sentada no sofá e já tinha vestido a camisa de noite, era cor-de-rosa e tinha uma renda branca. Tinha calçadas aquelas meias grossas a que tu achavas sempre piada porque vestia uma camisa de algodão e meias grossas de lã. Ficava mal, eu sei. Mas eu tinha sempre os pés tão frios! Ainda hoje tenho! Compraste a boneca porque achaste que era parecida comigo e eu achei que não, mas não me importei, por causa do teu sorriso.
Preciso de me lembrar do dia em que me pediste para ficar contigo para sempre. Lembro-me de todas as palavras que trocámos e da ordem exacta delas. Lembro-me do teu sorriso. Lembro-me que estávamos sentados num banco do jardim e passou uma criança de mão dada com a mãe. Calámo-nos um bocadinho enquanto eles passavam, para que não nos ouvissem. Só depois é que te disse que sim. E tu sorriste.
.............................................................
Preferia não me lembrar do dia em que te despediste de mim depois do almoço. Mas lembro. Com todos os pormenores que ainda hoje me fazem doer o peito por dentro. O médico diz que é sistema nervoso. Lembro-me que almoçámos peixe e eu me esqueci de pôr sal mais uma vez. Era péssima na cozinha. Tu voltaste a dizer – “Quando formos mesmo ricos contratamos uma cozinheira” – e riste. Eu fingia sempre que amuava quando dizias isso e dessa vez fingi também. Depois beijaste-me, disseste-me até logo e saíste. Eu levantei a mesa e pensei como era horrível aquela toalha bordada que a minha mãe nos tinha oferecido. Trinta e cinco minutos depois telefonaram-me do hospital e contaram-me do teu acidente. Eu não quis acreditar logo, porque acho que as pessoas nunca acreditam nessas coisas de imediato, demoram aqueles segundos em que o mundo pára. Depois, quando tudo recomeça, algo muito escuro e pesado se abate sobre elas, durante muitos anos. Foi o que aconteceu comigo, sabes?
Agora tenho este teu retrato em cima da mesinha de cabeceira para poder falar contigo todos os dias e recordar-te todas estas coisas, para que tu também não te esqueças e te lembres de mim quando eu chegar. Já não deve demorar muito porque cada vez estou mais fraca e doente. Mas não faz mal.
.................................................................
Os teus netos brincam muito comigo. Riem-se por eu nunca saber onde pus as chaves, onde arrumei as compras, o que jantei ou que recado me deram para eles ao telefone. Dizem que a Avó Helena está a “bater mal”, é assim que eles dizem. Bater mal. Mas como posso eu perder tempo a lembrar-me dessas coisas se tenho outras muito mais importantes que não posso esquecer? O teu sorriso, por exemplo..."


[amanhã ponho os links todos em falta neste post]

24.7.05

Não, muito obrigado!



Não imaginam como foi difícil para o júri permanente deste Concurso hierarquizar a originalidade e o talento literários daqueles que se foram cruzando com o Escritor Famoso, desde que este iniciou o seu passeio pela blogosfera. Ficámos com vontade de também responder com um "não, muito obrigado!".

Como definido no Regulamento, numa primeira fase, todos os visitantes desta casa (com ou sem blog) seriam chamados para nomear o seu texto preferido. Essa consulta foi realizada e traduziu-se nos seguintes resultados:

Textos mais Votados
n° 5 - Maria Heli, O escritor famoso (14)
n° 8 - Rosarinho, A visita do escritor famoso (9)
n° 9 - Ivar Corceiro, Helena (5)
n°16 - mfc, O escritor famoso passou por aqui (3)

Paralelamente, cada membro do júri permanente do Concurso (Batatas, O'Sanji, Sónia Sequeira e MRF) avaliou individualmente os 18 textos, atribuindo-lhes uma pontuação de 0 a 10. Dessa avaliação resultou o seguinte ranking:

Textos mais pontuados
n° 9, Ivar Corceiro, Helena (36)
n° 7, Rui, O escritor famoso (35)
n° 8, Rosarinho, A visita do escritor famoso (33)
n° 3, George Cassiel, Confissões de um escritor famoso (32)
n° 16, mfc, O escritor famoso passou por aqui (32)
n° 5, Maria Heli, O escritor famoso (31)

A qualidade global dos textos era bastante elevada, de forma que todos os outros textos ficaram com uma pontuação superior a (25). E a subjectividade é um vício humano, às vezes maldito!

Pessoalmente descobri em todos os textos uma frase, uma mensagem, um sense ou non sense, que senti como notas agudas e deliciosas de sensibilidade. Essas "notas" vão aparecer no Divas assim de tempos a tempos para matar saudades destas leituras.

Os dados foram lançados e nas 24 horas que nos foram concedidas para decidirmos sobre um vencedor final, chegámos à conclusão de que... não, muito obrigada! Não vamos nomear um vencedor! Vamos distinguir todos os participantes com menções honrosas!

E não se ouvirá o "the winner is". Preferimos antes "o prémio vai para".

E o prémio vai para...


Maria Heli
Reagindo ao mote inicial imaginou um diálogo inteligente e pertinente entre (dois) escritores. O público leu e gostou. A reacção "massiva" dos seus fãs revela também que ela já é uma escritora com carisma.

e para...

Ivar Corceiro

Reflectindo sobre a subjectividade da fama, inventou um escritor e uma amada. E ela é todas as pessoas do mundo. A prosa muito poética de um escritor que vocês vão conhecer melhor, mais dia menos dia...

O Navio de Espelhos terá muito prazer em oferecer a estes dois ilustres premiados um livro à sua escolha.



E agora vamos reler os dois textos:


O escritor famoso, de Maria Heli

Ela abordou o escritor famoso, segura nos gestos, na postura, na voz.
- Vim aqui com o propósito de lhe pedir o favor de ler este original de que sou autora. A sua opinião é importante. Talvez decisiva.
O escritor famoso estendeu a mão para segurar o original, enquanto lhe perguntou pelo nome.
- Maria Helena.
- Pois até o leio, Maria Helena, se me disser porque escreve. Sorriu.
- Bem…porque gosto de escrever!- Não é suficiente. Hoje, toda a gente gosta de escrever! Quase aposto que tem um blog…Tem?
- Não. Não tenho, mas escrevo num.
- É a mesma coisa. Pertence ao grupo banal e eclético daqueles para quem não é suficiente dizer. Pois claro que se acabaram as tertúlias de café. Hoje já ninguém conversa, a oralidade está a perder-se. Toda a gente quer fixar as palavras no papel ou no ecrã. No silêncio de um suporte qualquer. A honra da palavra extingue-se. A palavra dita está rouca. A vulgaridade escreve-se. Deve achar que o que tem para dizer é tão importante que tem de o fixar, gravar em caracteres, se possível impressos. Já ninguém conta. Já ninguém diz. Ambiciona escrever um livro…
- Lê ou não lê o original?
- Dá-lhe prazer escrever?
- Sim, claro!
- Nada é claro para quem escreve, minha senhora! Provavelmente tem aqui um depósito de coisas claras que vão ofuscar o leitor....
-E o senhor começou ou não a escrever livros?
-Tenho, como sabe, dezenas e dezenas de livros publicados, tiragens fenomenais. Faço sessões de autógrafos. Pedem-me para ler originais. No entanto, não tenho um blog, nem escrevo para nenhum…
- Dê cá o original! Nunca imaginei que…

- Não! Desculpe… Agora vou ler o seu original. Pediu-me que o lesse. Ou acha que numa conversa me dizia tudo o que tem aqui escrito?


Helena, de Ivar Corceiro

Esta é a história dum violino que nunca o chegou a ser. É tocado, às vezes, durante horas a fio pelas mãos dum homem que bebe demais. Desculpem, que escreve demais. No balcão do bar onde, no fundo de copos de vinho morno, vai asfixiando as palavras dos que lhe falam demais, decidiu um dia só escrever. Demais também, para que só o ouçam voluntariamente.
Lá fora os eléctricos coxeiam pelas tortuosas artérias da cidade, como bichos da seda, pensa ele. Pensa-o desde que deixou Helena presa a uma varanda pequena, mandando-lhe beijos que voavam como borboletas ao vento até baterem nos vidros, e que com o tempo se transformaram num adeus.
Desde então que as noites estão sempre tão vazias, e as tardes também. E as manhãs também, mas num sono que vai prolongando mais suavemente a vida. Vai enchendo tudo com música, tocada pela embriaguez dum violino inexistente. Há uns dias parou. Pintou, escondido pela neblina noctívaga, uma frase em frente à varanda de Helena: “Os eléctricos são bichos da seda, cujas borboletas morrem ao desovar”. Ela já leu. Ela é todas as pessoas do mundo. Todas as pessoas do mundo já leram. Ele é famoso.


P.S.: Maria Heli e Ivar Corceiro, quem é esta Helena que vocês parecem conhecer tão bem?