18.9.12

Lês os contornos do meu corpo


Lês os contornos do meu corpo como aquela cigana leu as linhas da minha mão.

dentro do espelho nítida
rosto liso peito iluminado esterno saliente
ventre de penugem dourada
a mão pousa
diz Quente
sexo pernas moldados por sombras que revelam relevos
segredos
és
vulto que percebemos ao fundo
provocador ausente
ciente

sais do escuro
centras-te dentro do espelho
que eu solte os cabelos e o instinto
que apenas te espreite no estanho do móvel
e depois essa ideia
que eu erga o queixo e permaneça imóvel
e eu consinto
_____que o meu corpo marque os dois destinos



Certamente que me observara de longe, eu atravessei o largo da fonte, pus a carta no marco e no regresso passeei as mãos pela água.
Num instante, segurou-me com palavras, esticou-me a mão molhada, olhou e disse: só estás com ele porque ele está longe.


MRF
2005

27.8.12

Duermes



Duermes,
mientras la ciudad golpea el cristal con su llanto,
ajena a tu sueño. Qué pena que este milagro
de verte dormida en paz
no desborde el muro de esta habitación.
Ojalá que mañana,
cuando te despiertes,
duerma mi dolor.

Duermes,
y bajo el flexo una estudiante reza la locura
de huir con los muchachos del camión de la basura.
Y, mientras, los bares
entierran la culpa de esta gran ciudad.
Tantas soledades
sin saber que duermes
no pueden amar.

Duermes,
insomne cruzo la casa y te busco intranquilo,
porque sueño a tu lado,
aunque no duerma contigo.
Duermes,
perdona mi maldita costumbre de despertarte
porque tengo miedo,
o porque llego tarde.

Duermes,
y un hombre escribe versos frente a una computadora.
Temblando, en la pantalla, abre la caja de Pandora.
Y en un cuarto de hotel,
busca encendida en el minibar
el rumor de las olas
una pareja que esta
noche no dormirá.

Duermes,
y un hombre llora en un taxi mientras suena la radio.
Una mujer desnuda lo detiene en un semáforo.
Nadie sabe que duermes,
no consta en los diarios.
Qué lástima la gente
que nunca besará la paz
sobre tus párpados.

Duermes,
insomne cruzo la casa y te busco intranquilo,
porque sueño a tu lado,
aunque no duerma contigo.

Duermes,
perdona mi maldita costumbre de despertarte
porque tengo miedo,
o porque llego tarde.

J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance...

Prose du transsibérien (fragmento)

 En ce temps-là j’étais en mon adolescence
 J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de mon enfance
 J’étais à 16.000 lieues du lieu de ma naissance
 J’étais à Moscou, dans la ville des mille et trois clochers et des sept gares
 Et je n’avais pas assez des sept gares et des mille et trois tours
 Car mon adolescence était si ardente et si folle
 Que mon cœur, tour à tour, brûlait comme le temple
 d’Éphèse ou comme la Place Rouge de Moscou
 Quand le soleil se couche.
 Et mes yeux éclairaient des voies anciennes.
 Et j’étais déjà si mauvais poète
 Que je ne savais pas aller jusqu’au bout.

 Le Kremlin était comme un immense gâteau tartare
 Croustillé d’or,
 Avec les grandes amandes des cathédrales toutes blanches
 Et l’or mielleux des cloches…

 Un vieux moine me lisait la légende de Novgorode
 J’avais soif
 Et je déchiffrais des caractères cunéiformes
 Puis, tout à coup, les pigeons du Saint-Esprit s’envolaient sur la place
 Et mes mains s’envolaient aussi, avec des bruissements d’albatros
 Et ceci, c’était les dernières réminiscences du dernier jour
 Du tout dernier voyage
 Et de la mer.

 Pourtant, j’étais fort mauvais poète.
 Je ne savais pas aller jusqu’au bout.
 J’avais faim
 Et tous les jours et toutes les femmes dans les cafés et tous les verres
 J’aurais voulu les boire et les casser
 Et toutes les vitrines et toutes les rues
 Et toutes les maisons et toutes les vies
 Et toutes les roues des fiacres qui tournaient en tourbillon sur les mauvais pavés
 J’aurais voulu les plonger dans une fournaise de glaives
 Et j’aurais voulu broyer tous les os
 Et arracher toutes les langues
 Et liquéfier tous ces grands corps étranges et nus sous les vêtements qui m’affolent…
 Je pressentais la venue du grand Christ rouge de la révolution russe…
 Et le soleil était une mauvaise plaie
 Qui s’ouvrait comme un brasier.

 En ce temps-là j’étais en mon adolescence
 J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance...

 Blaise Cendrars (1887-1961)

 

26.8.12

O meu amor existe



O meu amor tem lábios de silêncio
e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes, ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe

25.8.12

Jesus Cristo bebia cerveja

«Ao fundo, Antónia e a neta caminham de mãos juntas. Junto à estrada há uma estátua da Virgem, com as mãos postas em oração. Quando tinha três anos, Rosa, ao ver a estátua com as mãos naquela posição, julgava que a Santa batia palmas. Agora, claro, já não pensa assim.»

in Afonso Cruz, "Jesus Cristo bebia cerveja"
Editora Objectiva, 2012

Greta Garbo Screen Test


À escuta #121

Mãe: É giro ter nascido no ano 2000!
A.: Sim... Eu gostava de viver 101 anos! É possível! Já viste como seria extraordinário! Eu viveria durante três séculos!

20.8.12

Nada que exista

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!
Jorge de Sena


espantou-me encontrar-te assim tão de passagem na tua própria casa
e que houvesse sempre uma pequena luz (talvez benzida) a mantê-la iluminada
não obstante, pensei amar-te (libertar-te) da ponta dos dedos às ideias mais abstractas

a realidade revelou um corpo-defeito desfeito
que eu tocava com nomes pele água panos ternos jeitos
e um silêncio encalhado que me inspirava sonatas e me levava a beijar-te por falta de
palavras

decidi então assim: nunca mais te verei.
vais ser: o rasto dos aviões no céu, idênticos a si mesmos, não singulares.
serei: se quiseres ainda: o mamilo que toca piano. ou seja, nada que exista.

MRF
2005

19.8.12

Lorca





Em «La Casada Infiel», de Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936), um cigano narra a sua desilusão com a cigana que levara ao rio. Pensava que ela era solteira mas, ao saber que tinha marido, é obrigado a mostrar a sua honra de “cigano legítimo”. A honra é um valor primordial que organiza as relações amorosas e de poder entre ciganos.

Y que yo me la llevé al río
creyendo que era mozuela,
pero tenía marido.
(…)
yo me quité la corbata.
Ella se quitó el vestido.
Yo el cinturón con revólver.
Ella sus cuatro corpiños.
(…)
No quiero decir, por hombre,
las cosas que ella me dijo.
La luz del entendimiento
me hace ser muy comedido.
(…)
Sucia de besos y arena,
yo me la llevé al río.
Con el aire se batían
las espadas de los lirios.

Me porté como quien soy.
Como un gitano legítimo.
La regalé un costurero
grande de raso pajizo,
y no quise enamorarme
porque teniendo marido
me dijo que era mozuela
cuando la llevaba al río.

in Federico García Lorca, "ROMANCERO GITANO" [1924-7]


P:S.: Uma curiosidade relativa à métrica do poema. Todos os versos têm 8 sílabas, com excepção do primeiro, que tem nove.

6.8.12

Chavela Vargas

"Silêncio, silêncio: a partir de hoje, as amarguras voltarão a ser amargas... morreu a grande senhora Chavela Vargas".


Chavela Vargas, "Las simples cosas"


... y a las cosas simples las debora el tiempo.