6.9.06

Banville, O mar e Duccio

Duccio di Buoninsegna
Madona e menino, 1280


Em repouso, quando ignorava que a estavam a espiar - e que espião eu era! - mantinha a cabeça inclinada para baixo num ângulo acentuado, com os olhos velados e o queixo com uma pequena covinha enfiado no ombro. Nessas alturas lembrava uma madona de Duccio, melancólica, distante, abnegada, perdida em devaneios sombrios sobre o que o futuro lhe reservara, as coisas que nunca teria.

Transcrição: in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 141-142
Imagem: Works of DUCCIO di Buoninsegna

5.9.06

Banville, O mar e Bonnard III

Pierre Bonnard
O banho, 1925


A obra em que supostamente devia estar a trabalhar é uma monografia sobre Bonnard, um projecto modesto em que estou metido há mais tempo do que gostaria. Um pintor extraordinário, na minha opinião, sobre o qual, como há já muito percebi, não tenho nada de original a dizer. Anna costumava chamar-lhe o Noivas-no-Banho, ao mesmo tempo que soltava um gargalhada. Bonnard, Bonn'art, Bon'nargue. Não, não sou capaz de trabalhar, mas apenas de rabiscar umas coisas.
Seja como for, trabalho não é bem a palavra que eu usaria para aquilo que faço. Trabalho é um termo demasiado vasto e demasiado sério. Os operários trabalham. Os adultos trabalham. Para nós, os medíocres, não existe uma palavra suficientemente modesta que seja adequada para descrever o que fazemos e como o fazemos. Não aceito o diletantismo. É o amadorismo que é diletante, ao passo que nós, a classe ou o género de que estou a falar, somos profissionais. Os profissionais de papel de parede como Vuillard e Maurice Denis eram diligentes - e aqui está outra palavra-chave - como o seu amigo Bonnard, embora a diligência só por si não chegue, nunca é suficiente. Nós não somos nem uns baldas nem uns ociosos.(...)

Acabamos as coisas, ao passo que para o verdadeiro trabalhador, como disse o poeta Valéry, suponho que foi ele, o trabalho nunca está concluído, mas tão só suspenso. Existe uma bela vinheta em que se vê Bonnard no Museu do Luxemburgo acompanhado por um amigo, creio que era Vuillard, a quem ele pede para distrair o guarda do museu enquanto saca da caixa de tintas e refaz uma parte de um dos seus trabalhos ali expoxto há vários anos. Os verdadeiros trabalhadores morrem atormentados por um sentimento de frustação. Tanta coisa por fazer e tanta coisa que não chegou a ser feita!


in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 29-30

Pierre Bonnard
Nu de cócoras no banho, 1940

Banville, O mar e Bonnard II

Pierre Bonnard
Mesa diante da janela, 1930-31


Ainda não descrevi Chloe. Aparentemente, não havia uma grande diferença entre nós, entre mim e ela, naquela idade, em termos do que poderia ser medido. Mesmo o cabelo, quase branco, mas cor-de-trigo quando estava molhado, pouco mais comprido era do que o meu. Usava-o cortado à pagem, com uma franja a tapar-lhe a testa bonita, arqueada e estranhamente convexa - semelhante, apercebo-me de súbito, notavelmente semelhante à testa daquela figura espectral vista de perfil a pairar na extremidade do quadro de Bonnard, Mesa diante da janela, o quadro com a taça de fruta e o livro, e a janela que mais parece uma tela vista de trás, assente num cavalete. (...)
Certo dia, um dos rapazes do Campo garantiu-me, com um sorriso dúbio, que uma franja como a de Chloe era um sinal indesmentível de uma rapariga que brincava sozinha. Ignorava o que ele queria dizer, mas tinha a certeza de que Chloe não brincava, nem sozinha nem de outro modo.

in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 88-89

4.9.06

Banville, O mar e Bonnard

Pierre Bonnard
Marthe au gant de crin, 1920

Certo dia, em 1893, Pierre Bonnard avistou uma rapariga a descer de um eléctrico de Paris e, atraído pela sua beleza frágil e pálida, seguiu-a até ao local onde ela trabalhava, uma agência de pompes funèbres, onde passava os dias a coser pérolas em coroas mortuárias. Foi assim que, desde o início, a morte entrelaçou a sua fita negra na vida de ambos. Ele não tardou a conhecê-la - suponho que que essas coisas eram feitas com naturalidade e um certo aprumo na Belle Époque - e pouco tempo depois ela abandonou o emprego e tudo o resto na sua vida e foi viver com ele. Disse-lhe que se chamava Marthe de Méligny e que tinha dezasseis anos. Na realidade, embora só o viesse a descobrir volvidos mais de trinta anos, quando decidiu finalmente casar com ela, o seu verdadeiro nome era Maria Boursin e, quando se conheceram, não tinha dezasseis anos, mas, como Bonnard, vinte e poucos. Permaneceram juntos atravessando várias vicissitudes, cada vez mais frequentes, até à morte dela cerca de cinquenta anos depois. (...) Era reservada, ciumenta, ferozmente possessiva, sofria de um complexo de perseguição, e era uma hipocondríaca ferrenha e obstinada. Em 1927, Bonnard comprou uma casa, Le Bosquet, numa cidadezinha incaracterística, Le Cannet, na Côte d'Azur, onde viveu com Marthe, remetido a um isolamento intermitentemente atormentado, até à morte dela quinze anos depois. Em Le Bosquet, a mulher criou o hábito de passar intermináveis horas no banho, e foi no banho que Bonnard a pintou, repetidamente, dando continuidade à série mesmo depois da morte dela. Os Baignoires constituem o culminar triunfante da obra de uma vida inteira. No Nu no banho, com cão, começado em 1941, um ano antes da morte de Marthe, e apenas concluído em 1946, ela surge em tons de rosa, malva e ouro, uma deusa num mundo flutuante, emaciada, perene, simultaneamente morta e viva, e ao lado, sobre os ladrilhos, o seu pequeno cão castanho, o seu animal de estimação, suponho que um basset, vigilante, enroscado em cima duma esteira ou do que pode ser um rectângulo de luz desmaiada projectada através de uma janela invisível. O espaço estreito que lhe serve de refúgio vibra à sua volta, nas suas cores latejantes. Os pés, o esquerdo estendido na extremidade da perna imponderavelmente comprida, parecem ter deformado a banheira e provocado um bojo na extremidade esquerda e, por baixo da banheira, do mesmo lado, dentro do campo de forças, também o chão surge desalinhado e como que prestes a esgueirar-se pelo canto, não como um chão mas como uma poça de água escorregadia. Aqui tudo se move, tudo se move serenamente, num silêncio aquoso. Ouve-se um gotejar, um leve murmurejar, um suspiro trémulo. Uma mancha vermelha ferruginosa na água ao lado do ombro direito da banhista talvez seja de ferrujem ou, quem sabe, de sangue seco. (..)
Também ela, a minha Anna, quando adoeceu, adquiriu o hábito de tomar longos banhos à tarde. Dizia que a acalmavam.

Pierre Bonnard
Nu no banho, com cão, 1941-46

Transcrição: in Banville, Jonh, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 97-98

Max Morden, o protagonista deste romance em que se entrelaçam muitas histórias, é um especialista de Bonnard. A escrita do "grande livro sobre Bonnard" vai correr mal. Banville termina O Mar e Max escreveu apenas "metade de um pretenso primeiro capítulo e de um bloco de notas cheio de anotações dispersas e incipientes" (pp 163-164). Ultrapassar a perda recente de Anna e confrontar um trauma de infância vão consumir Max. vai consumir-nos. de dor e muito prazer.

e voltou a acontecer: li um mestre.

3.9.06

Por que vale a pena viver

... porque existem "bôlinhas"! Não as do futebol (meu caro Steiner, compreendo a sua consternação) mas as que se vendem nas praias, cheias de creme e açucar! É claro que a tradição já não é o que era... Agora, o velho pregão "Ólh'a bola de berlim" foi substituido por "Bôlinha"... já que os nossos amigos brasucas, craques de todas as bolas, tomaram conta do negócio! Mas a gente habitua-se logo à modernice e até já imagino os pregões do futuro: оно хочет шарик! Sabem tão bem que todos vão entender os conterrâneos de Roman Abramovich!

Is life worthwhile?

Catherine Bott nodded, "I sing religious music, the Messiah, and the musical instruments are not always authentic. I often feign sincerity. But the audience is inspired anyway. As an atheist I really believe that the music heals. The sceptic George Steiner immediately reacted: "There were maybe 11 people on Golgotha, and perhaps 1400 attended the Missa Solemnis, but the cupfinals make 2,5 billion hearts beat faster when the great Maradonna scores a goal. So what is it that makes life worthwhile? Football, of course, soccer!"

in Of Beauty and Consolation. Ás 2h30 na SIC falava-se assim. Mas tenho uma pergunta para o George Steiner: Que consolação nos dão os incompetentes, corruptos e influentes dirigentes desportivos? As novelas à volta do espectáculo do futebol, tão exploradas pelos media, não têm o efeito inverso? Como pode, por exemplo, um caso como o do Gil Vicente ameaçar o ânimo de (quase) toda uma nação?

16.8.06

Tengo una canción para mostrarte



Actuação de Jorge Drexler no Teatro Solís de Montevideu - Salvapantallas

Tengo tu voz,
tengo tu tos,
oigo tu canto en el mío.

Rumbos paralelos,
dos anzuelos
en un mismo río.

Vamos al mar,
vamos a dar
cuerda a antiguas vitrolas.

Vamos pedaleando
contra el viento,
detrás de las olas.

Tengo una canción
para mostrarte,
talvez cuando vaya….

Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.

Años atrás
de pronto la casa
se llenó de canciones.

Músicas y versos
que brotaban
desde tantos rincones.

Vamos al mar,
vamos a dar
guerra con cuatro guitarras.

Vamos pedaleando
contra el tiempo,
soltando amarras.

Brindo por las veces
que perdimos
las mismas batallas.

Tengo tu sonrisa
en un rincón
de mi salvapantallas.

[Do álbum ECO]

Se não conhecem ainda Jorge Drexler... aqui podem ficar a saber de quem é a culpa! Vossa, claro, e da Academia! :)


Vamos al mar. Fiquem bem!

Let the mornin' sun warm your bed while I'm a way



Happy Time


Ah, it's a happy time inside my mind
When a melody does find a rhyme
Says to me I'm comin' home to stay
Oh, Lord, home to stay
I'm comin' home to stay
Home to stay
Ah, lord, it's just the same old story
Something about love for glory
A nickel and a dime a dozen
Fame
Ah, it's such a shame
Ah, the way they use your name
Ah, you know it's such a shame
When it's only mine to sing a song
Hoping that you'd cross along my way
Before I have to move along
Ah, now move along
Ah, but I'll be back again
Ooh back again
Ah, it's a happy time inside my mind
When a melody does find a rhyme
Says to me I'm comin' home to stay
Oh, Lord, home to stay
I'm comin' home to stay
Home to stay
Sleep late now mama
Let the mornin' sun warm your bed
While I'm away
While I'm away


Canta Tim Buckley, aqui.

Bonne pensée du matin

À quatre heures du matin, l'étè,
Le sommeil d'amour dure encore.
Sous les bosquets l'aube évapore
L'odeur du soir fêté.

Rimbaud

15.8.06

De passagem. cronicando



Mes amis, mes amours,

O mau tempo anda a brincar comigo. Saio de França, onde pude sentir o dia mais frio de um mês de Agosto___ desde 1948, e entro em Portugal para sentir mais frio! Eu sei que quem cá esteve até agradece, mas eu anseio por um dia de calor intenso! Afinal, é Verão!

Percebi que com as altas temperaturas os incêndios voltaram a fazer notícia mas que, este ano, há maior controle da situação___ e das notícias. Até em França, a imprensa e os jornais televisivos preferiram as desgraças da Galiza (mas ainda vi Valongo na TV). Extraordinário é o facto de os gauleses andarem a contrariar a tendência mundial de redução do espaço florestal. Não que tenham escapado ao triste espectáculo das manchas de paisagem carbonizadas (sobretudo no Sul do país)! Acontece que o abandono maciço da agricultura está a resultar no aumento da área de floresta. Os rectângulos verdes, cultivados, que ordenavam a campagne française começam a rarear! C'est la panique!

Em pânico fico eu quando ouço os debates combates que antecedem as próximas Presidenciais em França. Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal encabeçam as sondagens. Ler Témoignage não me deixou mais tranquila. O carisma de Sarkozy é imenso e, se for eleito, vamos assistir a uma aproximação aos EUA (ele privilegia a Aliança Atlântica, sendo menos gaulista que Chirac no que diz respeito ao posicionamento político da França), além de que as políticas de imigração vão endurecer. Preferia mil vezes esta senhora mas a batalha não está ganha, mesmo dentro do PS!

Não percam estes vídeos__ (1) Emission: Karambolage - ArteRéalisateur: Claire Doutriaux; (2) Ségolène Royal en Suède, "où les patrons n'ont pas peur des syndicats"; (3) Environnement: Ségolène Royal défend "des choix de rupture". E, é claro, visitem o polémico___ porque muito democrático__ site de Ségolène Royal, Désirs d'avenir.

Como é evidente, os ataques de Israel no Sul do Líbano font la une em todos os jornais, todos os dias. (Agora não vou ser politicamente correcta:) Os franceses odeiam os israelitas! Todos sentimos esta trágica ofensiva como um ultraje aos valores mais profundos de humanidade, nunca esquecendo, é certo, uma mistura de medo e incompreensão face a todos os Partidos de Deus, mas em França, o sentimento de indignação face a Israel é antigo, muito intenso e generalizado a (quase) toda a população. Na memória fiquei com as palavras de uns amigos franceses que conheceram vários estudantes libaneses na universidade: eram estudantes, mas só pensavam na reconstrução do seu país após tantos anos de guerra, todos queriam regressar.

Ir a França e não espreitar os escaparates das livrarias seria sinal de grave doença. Pois bem, vim carregada de novidades. Deixo algumas pistas.

"Pour moi, l'âge n'a aucune importance. Depuis la nuit des temps, les hommes et les femmes s'aiment d'amour, quelle que soit la différence. Il n'y a pas d'amour impossible." Assim se lê na contracapa de Franz & Clara, o último livro de Philippe Labro. Une violoniste de vingt ans rencontre un gamin surdoué de douze ans... Situation d'amour impossible? Quem resiste? Dele li L'Étudiant Étranger, um romance com uma marca autobiográfica, que nos fala de uma América tão dourada quanto preconceituosa e da passagem à idade adulta de um jovem e inconsciente universitário. Na véspera deste encontro, pura coincidência, pude rever a figura de Labro na TV, apresentando uma biografia de Ernest Hemingway (na 3, um canal público que passa excelentes documentários em prime time!).

Entretanto, na minha livrariazinha de eleição em Roanne, descobri La Poursuite du Bonheur, um belo título para um livro que suspeito mordaz. É que o seu autor é Michel Houellebecq (um dos meus escritores preferidos, já aqui referido muitas vezes!). A novidade é que Houellebecq, neste livro, escreve Poesia. O primeiro poema chama-se Hypermarché, o segundo Non Reconcilié..., verei se resisto a tanta felicidade...

Mas a liderar o top ten de ficção está Marc Levy, um escritor que sigo desde o primeiro momento. Vivia em França quando ele lançou Si C’était Vrai... (traduzido pela Ed. Presença com o título Enquanto Estiveres Aí), livro que o catapultou de imediato para a fama ___e fortuna, uma vez que Steven Spielberg comprou os direitos cinematográficos do livro. Agora é Mes amis Mes Amours que arrebata crítica e leitores.

Mes amis, mes amours, vou embora que este relatozito já vai longo. À minha espera tenho agora o mar e, espero, um bom soleil português!