15.8.06

Nota umbiguista

Bem escrito, bem pensado, bem desenhado, bem escolhido, bem idealizado, “Divas e Contrabaixos” é um blog inteligente, culto, sensível, suficientemente dúbio para ser misterioso, suficientemente apaixonado pela escrita, o espectáculo, o “serviço público”, o desejo do desejo como aventura interior, suficientemente ancorado na Ria de Aveiro (terra de meu pai, nunca o esqueço!), suficientemente espantado com a vida para a cada palavra se conseguir surpreender. Acho a Rosário que o escreve e gere uma mulher a valer, daquelas em que vale a pena investir, na amizade e na cumplicidade.

E continua...


Pausa nas férias e recebo esta onda de elogios!
Muito obrigada, Lauro António!
Mas a onda é tão grande que me deixou com os cabelos todos à frente dos olhos e cheia de areia... :))

4.8.06

Vou andar entretida a ler II



O Mar, de John Banville, foi finalmente publicado em Portugal (ASA).

Talvez se recordem do fantástico Doutor Copérnico (Dr Copernicus) ou de O Livro da Confissão (The Book of Evidence), ou ainda dos romances Fantasmas (Ghosts), O Intocável (The Untouchable) ou Eclipse. Este último, sobre a vida de um ensombrado actor, Alexander Cleave, que, parecendo ter perdido a sua própria identidade nos conta a história da sua vida, deixou marcas.

O Mar ganhou o Booker Prize 2005. Sei que vou mergulhar.

Foi no dia da estranha maré que os deuses partiram. Durante toda a manhã, sob um céu turvo e opaco, as águas da baía foram engrossando, atingindo alturas jamais vistas. As pequenas vagas insinuavam-se pela areia crestada que anos a fio apenas a chuva humedecera e lambiam a base das dunas. O casco corroído do cargueiro encalhado ao fundo da baía há tanto tempo que já nenhum de nós se lembrava quando deve ter pensado que ia ser de novo lançado ao mar. Depois daquele dia, nunca mais voltei a nadar. As aves marinhas soltavam guinchos e desciam a pique, excitadas pelo espectáculo daquela imensa bacia de água que ia entumescendo como uma enorme bolha, de uma tonalidade plúmbea e de um brilho funesto. Naquele dia, aquelas aves pareciam estranhamente brancas. As ondas deixavam uma fímbia de espuma amarelada e suja ao longo da linha da água. Não se avistava uma vela de barco no horizonte distante. Não, nunca mais voltei a nadar.

Alguém caminhou sobre a minha sepultura. Alguém.

in O Mar, p. 7

Vou andar entretida a ler


O meu amigo R.R. dá-me sempre boas dicas para leitura e assim, este Verão, vou atirar-me ao Arno Gruen. A Loucura da Normalidade e A Traição do Eu (Assírio & Alvim) já esperam por mim no saco de viagem. Falsos Deuses é a outra obra do psicanalista que também já foi traduzida para português (Ed. Paz).

Quando uma criança começa a perder a consciência do seu Eu próprio, dá-se um acto de autotraição. (...) obediência e adaptação substituem-se à responsabilidade pelos próprios actos. (...) Quando uma pessoa perde o contacto com o seu interior, só pode recorrer a um Eu falsificado: a imagem que se pauta por determinado comportamento e por atitudes que agradam aos outros. A necessidade - e talvez mesmo obsessão - de preservar tal imagem, sobrepõe-se a tudo o que poderiam ter sido percepções, sentimentos e vivências empáticas genuínas. A incapacidade de estar enraizado em si próprio provoca um sentimento destrutivo e maldoso.(...)
Não sou o primeiro a debruçar-me sobre a destrutividade humana. Entre todos os seres vivos, o homem parece ser o único que destrói por destruir - como fim em si, pelas palavras do psicanalista finlandês Martti Siirala. Enquanto que Sigmund Freud ou Erich Fromm, por exemplo, atribuem a destrutividade humana ou a uma pulsão de morte inata ou a tendências necrófilas (...), penso ter encontrado muitos indícios de que os actos destrutivos e mortais do Homem têm origem na traição que cometeu contra si próprio, a fim de conseguir uma quota-parte de um poder que não passa de uma alucinação.

in A Loucura da Normalidade, pp 11-12

Ando entretida a ler...


Pourquoi Dieu ne disparaîtra jamais?
Chimie, structure.....tout dans notre cerveau nous pousse à croire en Dieu ! Et la foi est un parfait anxiolythique. Autant de révélations dues aux neurosciences qui montrent que l'avenir des religions est assuré.....

3.8.06

Vou procurar o meu lindo amor no fundo do mar

Isto é: Bocochê para vocês. Canta a Elis Regina. E eu ando assim, com vontade de cantar e chorar face à (amarga) doçura das coisas.

Menina bonita pra onde "quo´cê" vai
Menina bonita pra onde "quo´cê" vai
Vou procurar o meu lindo amor
No fundo do mar
Vou procurar o meu lindo amor
No fundo do mar

É onda que vai
É onda que vem
É vida que vai
Não volta ninguém

Foi e nunca mais voltou
Nunca mais! Nunca mais!
Triste, triste me deixou

(Nhem, nhem, nhem)
É onda que vai
É onda que vem
(Nhem, nhem, nhem)
É vida que vai
Não volta ninguém
Menina bonita não vá para o mar
Menina bonita não vá para o mar
Vou me casar com meu lindo amor
No fundo do mar
Vou me casar com meu lindo amor
No fundo do mar

(Nhem, nhem, nhem)
É onda que vai
É onda que vem
(Nhem, nhem, nhem)
É a vida que vai
Não volta ninguém
Menina bonita que foi para o mar
Menina bonita que foi para o mar
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá

(Baden Powell e Vinícius de Moraes)

Álbum: No Fino da Bossa. Gravações Originais. Vol.2

2.8.06

Cuidado com a doçura das coisas III

Meia hora depois Henri atravessou o prado. Estava um pouco triste e tinha pressa de reencontrar Catherine e de dormir junto ao seu corpo. Empurrou a porta de entrada, tirou as botas, colocou-as atrás da porta, acendeu a luz, e quase tropeçou no corpo nu de Catherine que estava deitada na escada, de olhos fixos no vazio.
- É a minha pateta que aqui está? - perguntou com uma voz que ocultava mal o medo que sentia, sentando-se com cuidado no degrau ao lado da cabeça dela. O que é que está aqui a fazer, assim, sozinha?
(...)
Levantou-a suavemente, ela fechou os olhos e deu-lhe a morder o punho, que ia empurrando e esmagando o nariz dele como um sinal de aviso, enquanto ele subia rapidamente a escada com o seu fardo.
(pp 85)

Cuidado com a doçura das coisas II

Catherine, sem ter ainda acabado o coelho e para lhe mostrar quão maravilhosa era a vida deles, falou ao marido nas framboesas com natas que viriam logo a seguir para a mesa; depois enquanto comia sofregamente as framboesas - já que nela a felicidade era nervosa e ávida -, apontou para as cadeiras meio ao sol meio à sombra, onde a seguir se poderiam aprazivelmente deitar os três durante a tarde, e talvez depois, por volta das cinco horas, tomar um chá para acompanhar os merengues. (...)
Os olhos de Henri assemelhavam-se aos do touro que vigia ao mesmo tempo a capa vermelha, roçando o chão, e o momento da estocada. De repente deu uma palmada no ombro de onde voou, calmo e ondulante, um mosquito que foi perder-se no ar.
- O estupor picou-me, disse. Saiu da mesa e deixou-as ali plantadas.
(pp 67)

Cuidado com a doçura das coisas

Entretanto, no andar de baixo, na cozinha, Catherine tinha trazido a cadeira para comer um cacho de uvas ao lado do marido.
- Hoje estás com a tua cara larga, hein? - disse ele esticando o queixo.
Catherine ocultou a vontade de rir sob um ar de criança repreendida. Henri tinha reparado que aquela pequena cara de mulher, ainda imprecisa, podia alongar-se ou alargar-se de um dia para o outro, sob o efeito do fígado ou do humor. Pegou nela ao colo, enquanto ela fingia só prestar atenção ao seu cacho de uvas.
- A minha mulher tem três tipos de cara: a cara comprida, a cara larga e... Qual é a terceira, afinal?
Catherine não queria responder. Pretensamente confusa, pestanejava e fazia trejeito de amuo.
- Diz lá qual é a tua terceira cara, franganita.
-... É a minha cara horrorosa, balbuciou Catherine.
Desataram a rir, beijando-se e batendo-se como sempre que ele a obrigava a confessar a existência dessa terceira cara. Acabou tudo num longo beijo, ali, no meio da cozinha, e Catherine transformou-se em hera, com pequenas mãos por todo o lado.
(pp 72)

1.8.06

Desperate couples

Isto está terrível! Uma miúda chega de férias (curtinhas)(mas vai haver mais) e descobre que o amigo A se vai divorciar e que a amiga B já o fez. Ele diz que nunca mais se vai casar, que ninguém se vai apaixonar por ele, e "ninguém" é alguém por quem ele também se apaixone, e ela diz que nunca esteve tão bem, que agora cada um tem a sua vida, mas ainda se reunem ao jantar, que ela confecciona, pois, pelos filhos. O amigo do amigo diz que para as mulheres é sempre pior, sobretudo quando há filhos; a amiga da amiga diz que quem se tramou é o ex-marido que agora é que vai dar o devido valor à ex-mulher. Os dois concordam que os filhos são uma prioridade. Os dois nunca vão esquecer o ex-cônjuge. Mas tem que ser.

E depois, isto está terrível! Uma miúda chega de férias (curtinhas)(mas vai haver mais) e percebe que todos os casais juntos há mais de 10 anos, se não menos, se não muito menos, se suportam. às vezes com muito esforço. ponto final. Aquele diz que nos devemos deixar de ilusões, as paixões acabam, a rotina mata, (com sorte) a ternura é doce, a cumplicidade compensa, e ir vivendo assim assim é uma arte. Outro diz que nada disso contenta, e até destrói. Mas que a cobardia impera. Enfrentar o toiro pelos cornos (ou não). com ou sem alternativa. this is the question my friend!

Sem nunca desacreditar que o amor é eterno (enquanto dura)

(ou antes de chegar).

Como o Brel, acho que nos apaixonamos pelo amor, mas nunca verdadeiramente pelas nossas mulheres ou pelos nossos homens. É terrível, mas os amantes ficam sempre aquém da sua-nossa ideia de amor. É terrível, uma miúda chega de férias (curtinhas) e pensa que tem que haver mais, muito mais que isto, na merda da vida!