14.5.14
27.4.14
Vasco Graça Moura
Há muitos anos, a Anabela Mota Ribeiro tinha uma programa televisivo em que entrevistava casais. Vasco Graça Moura e a mulher de então, Rosarinho, foram um dos casais convidados. Nunca mais esqueci a crítica da minha homónima, que se queixava de que ele era demasiado pró-Cavaco (Primeiro-Ministro na altura!?), demasiado, demasiado! E eu a gostar tanto dela. Porque era verdade, era verdade! Mas dep...ois ele começou a falar das filhas e leu alguns poemas que escrevera para elas. Belíssimos! Quanta sensibilidade, quanto amor! Vasco Graça Moura era grande na sua arte e imenso no seu saber humanista e erudito. De resto, preconceito meu, era essa imensa Cultura que me fazia não aceitar a sua associação àquele pequeno poder cinzentão e deprimente (que se perpetua...). E comprava os seus livros e admirava as suas épicas traduções, sempre segura da qualidade, sempre ligeiramente irritada. A morte lava as pequenas fúrias. Estou triste pela sua morte.
As meninas
as minhas filhas nadam. a mais nova
leva nos braços bóias pequeninas,
a outra dá um salto e põe à prova
o corpo esguio, as longas pernas finas:
entre risadas como serpentinas,
vai como a formosinha numa trova,
salta a pés juntos, dedos nas narinas,
e emerge ao sol que o seu cabelo escova.
a água tem a pele azul-turquesa
e brilhos e salpicos, e mergulham
feitas pura alegria incandescente.
e ficam, de ternura e de surpresa,
nas toalhas de cor em que se embrulham,
ninfinhas sobre a relva, de repente.
3.4.14
Manhã
Está a chover a potes, o que não dá jeito nenhum para levar os ténis novos e a t-shirt verde que condiz tão bem, os primeiros presentes de aniversário... Diziam que hoje ia melhorar e é isto! Se tem algum jeito vestir impermeável por cima desta roupa! Mas vá, vamos, já estamos atrasadas... Na rotunda, a nossa saída está tapada por um carro que decidiu estacionar ali. De tempos a tempos, acontece. ...É por ser uma rua estreita, deve ser, não percebem!? Apita e ele sai. Obrigada, pá! Em frente à escola, a Ana ainda não tinha conseguido por a écharpe bem... Mãe, põe! Estamos atrasadas, diz a Sofia! Pára o carro que não dá para o pé ficar no travão enquanto te torces toda para lhe chegar ao pescoço... Olha, deixa estar! Ai é? Até logo, meninas! Avança e estaciona ao pé do mercado. Nada como comprar fruta, legumes e flores pela manhã! Ao entrar, ups, salta que ainda levas um pontapé! O senhor da banca onde vou está em plena acção. Agarra um homem que grita, esperneia, ameaça, sem resultado, que o rapaz é forte e prendeu-o bem. Rua daqui! Apanhado a roubar outra vez! Todos falam. Afinal quem foi apanhado é mesmo mau, só quem não vai à Caixa Geral de Depósitos quando ele vai receber a pensão, é que não sabe. Ficam todos cheios de medo, menos o senhor que o vê sempre, ele não! Mas olha rapaz, diz outro, não é preciso ser herói para pegar nele... Dá-se um empurrão e ele cai logo. Pois, mas tu fugiste, não foi? Vá, vá, mudemos de conversa! Quem deixou aqui o Correio da Manhã? Está toda a gente, incluindo eu, a colocar os sacos com as compras para pesar em cima do jornal. Não importa, diz o mesmo-assim-herói, esse jornal é só escândalos! É, não é? Está a perguntar-me? Pois, não é bem a melhor referência de jornalismo. Ora, diz as verdades, isso é que é, contrapõe bem alto uma senhora. Pois! Que os outros escondem as verdades e esse, pelo menos, diz as coisas como elas são! As narinas abrem e fecham, a senhora ficou irada em dois tempos, olha para mim com ar de "deves achar que me enganas". Paga e diz que sim. Bom dia e vai à banca das flores. Levo estas. Pois nem acredita, há uma senhora que compra sempre essas flores, dessa cor, há várias semanas. É que parece que nem gosta de mais nada, santo Deus! Quer que corte o pé ou a altura está boa? Corte um bocadinho! Estas aguentam-se bem se a água estiver fresquinha. Com este tempo duram mais! Bom dia e vai ao quiosque. Olha lá vem ele? Diga!? Devia ser proibido assustar assim as pessoas! Está a ouvir? Olhe, olhe! Então? Passa por aqui a esta hora todos os dias. A sirene inunda a praça. Não há urgência mas o motorista da ambulância liga-a sempre para passar nos sinais da Avenida. Faz isso duas vezes por dia. Não há direito. Sobressalta. Pensa-se logo o pior pela manhã! Essa não sabia! Pois, mas é verdade. Uma vergonha! Chega-se ao carro e escapou-se à multa da Polícia Municipal. Sorriso. A esta hora ainda não saíram para a rua. É só depois das 9h/9h30 que os carros são varridos a papelinhos. Arranca. Outra rotunda. Camião avariado mesmo no meio. Livra! Mas pronto, o dia só começou agora.
MRF
As minhas meninas
As meninas são minhas, só minhas, na minha ilusão, as minhas meninas no meu coração.
do amor
... e ela disse que eu vos amava porque vocês são uma extensão de mim, como se o meu corpo e tudo o que eu sou se dilatasse, se estendesse, desdobrado nas duas que sois, e completo nas duas que sois, como se eu fosse com vocês um espaço contido em limites, como se eu fosse um tempo que não expirasse com a minha morte. e eu não consegui dizer que não mas é não. o meu amor por vós tem o fundamento da vossa estranheza, das vossas dores e fragilidades__ que não são minhas, da vossa inocência e esperança__ que não são minhas, da vossa beleza e encanto__ que não são meus. e é imenso. desmesurado. às vezes maior do que as minhas forças e competências. e o amor, esse amor, nasce de um dom que eu tenho e que não vou perder. um dom que se revelou face à vossa estranheza. de vos querer servir bem no amor. de vos dar o que sei ___ e às vezes até a minha ignorância. de vos dar cuidados e beijos. até à exaustão. até parecer que me extingo. e em dias bons, e são muitos os dias bons, até parecer que sou feliz. o que é meu é só esse amor, não vós.
às minhas duas filhas
... e ela disse que eu vos amava porque vocês são uma extensão de mim, como se o meu corpo e tudo o que eu sou se dilatasse, se estendesse, desdobrado nas duas que sois, e completo nas duas que sois, como se eu fosse com vocês um espaço contido em limites, como se eu fosse um tempo que não expirasse com a minha morte. e eu não consegui dizer que não mas é não. o meu amor por vós tem o fundamento da vossa estranheza, das vossas dores e fragilidades__ que não são minhas, da vossa inocência e esperança__ que não são minhas, da vossa beleza e encanto__ que não são meus. e é imenso. desmesurado. às vezes maior do que as minhas forças e competências. e o amor, esse amor, nasce de um dom que eu tenho e que não vou perder. um dom que se revelou face à vossa estranheza. de vos querer servir bem no amor. de vos dar o que sei ___ e às vezes até a minha ignorância. de vos dar cuidados e beijos. até à exaustão. até parecer que me extingo. e em dias bons, e são muitos os dias bons, até parecer que sou feliz. o que é meu é só esse amor, não vós.
28.1.14
Lis, no peito
A única entrevista filmada a Clarice Lispector. "Tímida e ousada". "Triste e solitária". Clarice fala, morta, no seu túmulo. "Lis no peito".
Woolf
Virginia Woolf, reflectindo sobre escrita, criação de palavras e de beleza e sobre crítica literária. A gravação áudio é uma raridade: datada de 1937 (BBC), foi a única de VW que sobreviveu.
Com o seu " old upper class British accent", ela soa a páginas de um livro que se folheia.
1.5.13
«Eu devia ter sido um ferro de duas garras/ A rasgar o fundo desses mares de silêncio.»
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são refúgio de vozes murmuradas
De noites sem repouso em hotéis baratos... de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes "Qual será?"
Vem lá comigo fazer a tal visita.
(...)
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho as vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam nas sarjetas,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
(...)
Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio
(...)
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são refúgio de vozes murmuradas
De noites sem repouso em hotéis baratos... de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes "Qual será?"
Vem lá comigo fazer a tal visita.
(...)
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho as vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam nas sarjetas,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
(...)
Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio
(...)
T.S. Eliot, "A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock",
Prefácio e tradução de João Almeida Flor, Assírio & Alvim, 1985
P.S.: O poema foi publicado pela primeira vez em 1917 no livro intitulado "Prufrock and other observations".
Imagem: Bill Brandt (1904-1983). Primeira Foto: Misty evening in Sheffield, 1937; Segunda Foto: Rainswept roofs in Sheffield, 1937.
26.4.13
Éramos deuses
Éramos deuses
e fizeram-nos escravos.
Éramos filhos do sol
e consolaram-nos
com medalhas de lata.
Éramos poemas
e puseram-nos a
recitar uma esmolinha
por amor de Deus.
e fizeram-nos escravos.
Éramos filhos do sol
e consolaram-nos
com medalhas de lata.
Éramos poemas
e puseram-nos a
recitar uma esmolinha
por amor de Deus.
GONZALO ARANGO (1931-1976)
12.3.13
Manifesto pela Democratização do Regime
A tragédia social, económica e
financeira a que vários governos conduziram Portugal interpela a consciência
dos portugueses no sentido de porem em causa os partidos políticos que, nos
últimos vinte anos, criaram uma classe que governa o País sem grandeza, sem
ética e sem sentido de Estado, dificultando a participação democrática dos
cidadãos e impedindo que o sistema político permita o aparecimento de
verdadeiras alternativas.
Esta ruptura visa um objectivo
nacional, que todos os sectores da sociedade podem e devem apoiar. Alterar o
sistema político elimina o pior dos males que afecta a democracia portuguesa.
Se há matéria que justifica a união de todos os portugueses, dando conteúdo às
manifestações de indignação que têm reclamado a mudança, é precisamente a
democratização do sistema político.
Abílio Neves Marques Afonso, Economista, Lisboa
Álvaro Órfão, Aposentado, Marinha Grande
Amílcar Martins, Engenheiro, Lisboa
Ana Cristina Figueiredo, Jurista, Oeiras
André Fonseca Ferreira, Consultor de Inovação, Lisboa
António Cerveira Pinto, Publicista ,Cascais
António Curto, Bancário, Lisboa
António Gomes Marques, Bancário, Loures
António Mota Redol, Engenheiro, Costa da Caparica
Armando Ramalho, Gestor, Odivelas
Arsénio Mota, Escritor, Porto
Carlos Filipe, Empresário, Lisboa
Carlos Loures, Escritor, Mafra
Clarisse Aurora Marques, Agrónoma, Amadora
Dulce Mendes, Médica, Marinha Grande
Edmundo Pedro, Correspondente de Línguas, Lisboa
Eduardo Correia, Professor Universitário, Cascais
Elísio Estanque, Professor Univ., Sociólogo, Coimbra
Emerenciano, Artista Plástico (pintor), Porto
Eurico de Figueiredo, Prof. Cated. de Psiquiatria Jubilado da Univ. Porto, Porto
Fernando Lima Antunes, Engenheiro, Lisboa
Fernando dos Reis Condesso, Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, Lisboa
Helena Ramalho, Tradutora e Docente, Carcavelos
Hélder Costa, Escritor e Encenador, Lisboa
Henrique Neto, Empresário, Marinha Grande
Herberto Goulart, Economista, Lisboa
Jaime do Vale, Empresário, Oeiras
João Gil, Músico, Cascais
Joaquim Ventura Leite, Economista, Grândola
Jorge Martins, Empresário, Marinha Grande
Jorge Veludo, Dirigente Sindical, Lisboa
José Adelino Maltês, Professor Catedrático da Univer. de Lisboa, Lisboa
José Almeida Serra, Economista, Lisboa
José Manuel C. S. Miranda, Bancário reformado, Lisboa
José Manuel Pereira da Silva, Arquitecto, Caldas da Rainha
José Quintela Soares, Economista, Lisboa
José Veiga Simão, Professor Catedrático da Universidade Coimbra, Lisboa
Júlio Marques Mota, Professor Universitário Aposentado, Coimbra
Luís Azevedo, Investigador Universitário, Lisboa
Luís Salgado de Matos, Cientista Social, Lisboa
Manuel G. Simões, Professor Universitário Aposentado, Amadora
Manuel Maria Carrilho, Professor Catedrático da Univ. Nova Lisboa, Lisboa
Manuel Nobre Gusmão, Advogado, Cascais
Manuela Menezes, Engenheira, Lisboa
Margarida Rocha e Costa, Economista, Lisboa
Maria Albertina B. Campos, Notária, Arcos Valdevez
Maria da Conceição Bapt. Silvestre, Investigadora e Prof. do Ensino Secundário, Lisboa
Maria José Mota, Jurista, Lisboa
Maria do Rosário B. S. Fardilha, Socióloga, Aveiro
Maria Perpétua Rocha, Médica, Lisboa
Maria Teresa S. F. Sampaio, Filósofa, Lisboa
Mário Montez, Docente E. S. Politécnico, Coimbra
Miguel Cambraia Duarte, Oficial de Marinha, Oeiras
Paulo Soares, Advogado, Lisboa
Pedro Teixeira da Mota, Investigador, Lisboa
Rómulo Machado, Advogado, Cascais
Rui Tavares, Historiador/Deputado Parlamento Europeu, Bruxelas
Telmo Ferraz, Empresário, Marinha Grande
Vasco Lourenço, Militar Reformado, Lisboa
Neste quadro, a rotação no poder
não tem servido os interesses do Povo. Ela serve sobretudo para esconder a
realidade, desperdiçando a força anímica e a capacidade de trabalho dos
portugueses, bem como as diversas oportunidades de desenvolvimento que o País
tem tido, como aconteceu com muitos dos apoios recebidos da União Europeia.
A obsessão do poder pelo poder, a
inexperiência governativa e a impreparação das juventudes partidárias que, com
inusitada facilidade e sem experiência profissional ou percurso cívico, chegam
ao topo do poder político, servem essencialmente objectivos e interesses
restritos, nacionais e internacionais, daqueles que utilizam o Estado para os
seus próprios fins.
O factor trabalho e a
prosperidade das pessoas e das famílias, base do progresso da Nação, são
constantemente postos em causa pela austeridade sem desígnio e pelos
sacrifícios impostos aos trabalhadores, como se fossem eles, e não os
dirigentes, os responsáveis pelo desgoverno do Estado e pelo endividamento
excessivo a que sucessivos governos conduziram Portugal.
Como se isso não bastasse, o
poder político enveredou pela afronta de culpar os portugueses, procurando
constantemente dividi-los: os mais novos contra os mais velhos, os empregados
contra os desempregados, os funcionários públicos contra os trabalhadores do
sector privado.
A Assembleia da República, sede
da democracia, desacreditou-se, com os deputados a serem escolhidos, não pelos
eleitores, mas pelas direcções partidárias, que colocam muitas vezes os seus
próprios interesses acima dos interesses da Nação. A Assembleia da República representa
hoje sobretudo – com honrosas excepções – um emprego garantido, conseguido por
anos de subserviência às direcções partidárias e de onde desapareceu a vontade
de ajuizar e de controlar os actos dos governos.
A Nação portuguesa encontra-se em
desespero e sob vigilância internacional. Governos sem ideias, sem convicções,
sem sabedoria nem estratégia para o progresso do País, colocaram os portugueses
numa situação de falência, sem esperança, rumo ou confiança. O Estado Social está a desmoronar-se, mais do
que a racionalizar-se, deixando em angústia crescente centenas de milhares de
desempregados e de novos pobres.
E não é apenas o presente que
está em desagregação. É simultaneamente o futuro de dezenas de milhares de jovens
sem emprego ou com salários que não permitem lançar um projecto de vida.
Só por incompetência partidária e
governativa se pode afirmar que os portugueses têm vivido acima das suas posses
-como se as posses de milhões de famílias que recebem menos de mil euros por
mês fosse o problema- ou que não existem alternativas aos sacrifícios
exagerados impostos aos mais pobres e à classe média.
É urgente mudar Portugal, dando
conteúdo positivo à revolta e à crescente indignação dos portugueses. As
grandes manifestações já realizadas mostraram de forma inequívoca o que milhões
de portugueses pensam do sistema político e da nomenclatura governativa.
Há uma diferença dramática entre
os políticos que pensam na próxima geração e os que pensam sobretudo na próxima
eleição. A sociedade portuguesa tem naturalmente respeito pelas figuras
políticas e pelos partidos que foram determinantes no regresso do País a um
Estado de Direito Democrático. E pelos políticos que, com visão, souberam
recolocar Portugal na Europa.
O que está hoje em causa já não é
a opção pela democracia, mas torná-la efectiva e participada. Já não está em
causa aderir à Europa, mas participar no relançamento do projecto europeu. Não
está em causa governar, mas corrigir um rumo que nos conduziu à actual crise e
realizar as mudanças que isso implica.
Todavia, nada será possível sem
um processo de reformas profundas no Estado e na economia, reformas cujos
obstáculos estão, em primeiro lugar, nos interesses de uma classe política
instalada e na promiscuidade entre o poder político e os interesses
financeiros.
Impõe-se uma ruptura, que a nosso
ver passa por três passos fundamentais:
- Em primeiro lugar, por leis eleitorais transparentes e democráticas
que viabilizem eleições primárias abertas aos cidadãos na escolha dos
candidatos a todos os cargos políticos;
- Em segundo lugar, pela abertura da possibilidade de apresentação de
listas nominais, de cidadãos, em eleições para a Assembleia da República. Igualmente,
tornando obrigatório o voto nominal nas listas partidárias;
- Em terceiro lugar, é fundamental garantir a igualdade de condições no
financiamento das campanhas eleitorais. O actual sistema assegura, através de
fundos públicos, um financiamento das campanhas eleitorais que contribui para a
promoção de políticos incompetentes e a consequente perpetuação do sistema.
É urgente reivindicar este objectivo nacional
com firmeza, exigindo de todos os partidos a legislação necessária. Queremos
que eles assumam este dever patriótico e tenham a coragem de –para o efeito– se
entenderem. Ou então que submetam a Referendo Nacional estas reformas que
propomos e que não queiram assumir. Os portugueses saberão entender o desafio e
pronunciar-se responsavelmente.
Entretanto, os signatários
comprometem-se a lançar um movimento, aberto a todas as correntes de opinião, que
terá como objectivo fazer aprovar no Parlamento novas leis eleitorais e do
financiamento das campanhas eleitorais.
A Pátria Portuguesa corre perigo.
É urgente dar conteúdo político e democrático ao sentimento de revolta dos
portugueses. A solução passa obrigatoriamente pelo fim da concentração de todo
o poder político nos partidos e na reconstrução de um regime verdadeiramente
democrático.
Os signatários
Abílio Neves Marques Afonso, Economista, Lisboa
Álvaro Órfão, Aposentado, Marinha Grande
Amílcar Martins, Engenheiro, Lisboa
Ana Cristina Figueiredo, Jurista, Oeiras
André Fonseca Ferreira, Consultor de Inovação, Lisboa
António Cerveira Pinto, Publicista ,Cascais
António Curto, Bancário, Lisboa
António Gomes Marques, Bancário, Loures
António Mota Redol, Engenheiro, Costa da Caparica
Armando Ramalho, Gestor, Odivelas
Arsénio Mota, Escritor, Porto
Carlos Filipe, Empresário, Lisboa
Carlos Loures, Escritor, Mafra
Clarisse Aurora Marques, Agrónoma, Amadora
Dulce Mendes, Médica, Marinha Grande
Edmundo Pedro, Correspondente de Línguas, Lisboa
Eduardo Correia, Professor Universitário, Cascais
Elísio Estanque, Professor Univ., Sociólogo, Coimbra
Emerenciano, Artista Plástico (pintor), Porto
Eurico de Figueiredo, Prof. Cated. de Psiquiatria Jubilado da Univ. Porto, Porto
Fernando Lima Antunes, Engenheiro, Lisboa
Fernando dos Reis Condesso, Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, Lisboa
Helena Ramalho, Tradutora e Docente, Carcavelos
Hélder Costa, Escritor e Encenador, Lisboa
Henrique Neto, Empresário, Marinha Grande
Herberto Goulart, Economista, Lisboa
Jaime do Vale, Empresário, Oeiras
João Gil, Músico, Cascais
Joaquim Ventura Leite, Economista, Grândola
Jorge Martins, Empresário, Marinha Grande
Jorge Veludo, Dirigente Sindical, Lisboa
José Adelino Maltês, Professor Catedrático da Univer. de Lisboa, Lisboa
José Almeida Serra, Economista, Lisboa
José Manuel C. S. Miranda, Bancário reformado, Lisboa
José Manuel Pereira da Silva, Arquitecto, Caldas da Rainha
José Quintela Soares, Economista, Lisboa
José Veiga Simão, Professor Catedrático da Universidade Coimbra, Lisboa
Júlio Marques Mota, Professor Universitário Aposentado, Coimbra
Luís Azevedo, Investigador Universitário, Lisboa
Luís Salgado de Matos, Cientista Social, Lisboa
Manuel G. Simões, Professor Universitário Aposentado, Amadora
Manuel Maria Carrilho, Professor Catedrático da Univ. Nova Lisboa, Lisboa
Manuel Nobre Gusmão, Advogado, Cascais
Manuela Menezes, Engenheira, Lisboa
Margarida Rocha e Costa, Economista, Lisboa
Maria Albertina B. Campos, Notária, Arcos Valdevez
Maria da Conceição Bapt. Silvestre, Investigadora e Prof. do Ensino Secundário, Lisboa
Maria José Mota, Jurista, Lisboa
Maria do Rosário B. S. Fardilha, Socióloga, Aveiro
Maria Perpétua Rocha, Médica, Lisboa
Maria Teresa S. F. Sampaio, Filósofa, Lisboa
Mário Montez, Docente E. S. Politécnico, Coimbra
Miguel Cambraia Duarte, Oficial de Marinha, Oeiras
Paulo Soares, Advogado, Lisboa
Pedro Teixeira da Mota, Investigador, Lisboa
Rómulo Machado, Advogado, Cascais
Rui Tavares, Historiador/Deputado Parlamento Europeu, Bruxelas
Telmo Ferraz, Empresário, Marinha Grande
Vasco Lourenço, Militar Reformado, Lisboa
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