14.7.10

«Mais que humano feito»

Andei pelo Buçaco. Vale sempre a pena lembrar que fica aqui ao lado. O Palace Hotel inclui azulejos de Jorge Colaço com cenas de Os Lusíadas, de Autos de Gil Vicente e da obra Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, datados de 1906. Por hoje, fiquem com o Adamastor!


Muito sol. e uma brisa a varrer aquela varanda...

10.7.10

Neptunus


o Neptunus tem uma cave. quando o capitão ordena, descemos ao "menos um" para ver o fundo do mar. ficamos dentro de um aquário invertido. nós, rodeados de vidros e oxigénio, a água no exterior. se o fundo do mar não decidir ficar nublado, podemos ver carcaças de velhos navios naufragados e até uma estátua que outrora estava plantada na costa. é um pequeno Cristo-Rei que nos fixa de braços abertos. é comovente. naquela pedra não há colónias de algas e peixes. é um milagre. submersos dentro do Neptunus é fácil acreditar em milagres. só há um senão: metade da tripulação enjoa sempre e nem ousa descer à cave. o Neptunus, ou a ondulação à volta da ilha do Sal, deixa as pessoas doentes ou milagradas. e isso está para além do pão nosso de cada dia. é natural, pois, que só os turistas procurem essa extraordinária experiência.

cartas de amor


Hoje não vieste. Para dizer a verdade, não dei conta disso até à hora de me deitar. (...) foi quando de facto pensei em ti, não tinhas vindo, não regressaste, prendeu-te a noite ou a luz, não deste conta do caminho. Eu desabituei-me de ti. Não é bem desabituar, foi mais qualquer coisa como ter deixado de esperar e, por distracção, ou por repetição automática do tempo e dos gestos, fechei a porta à chave.
(Carta p. 10)

Aqui a escrever-te de um café com pena de que o papel não reconheça o chá que tomo, a torrada, as vozes à volta, e só te vá encontrar transformada eu numa letra miudinha. (...)
(Carta p. 18)

Agora tenho aqui a tua carta à minha frente e não sei o que hei-de fazer com ela. Mas de que raio é que te foste lembrar - escrever-me, meu Deus, escrever-me uma carta, o que foste tu dizer-me por papel e sem cá estares? (...) de que raio de coisa te foste lembrar, não havias de vir cá buscar o fato do teu irmão? na terça-feira passada, não era? ele há-de estar a precisar dele, o sogro vai desta para melhor não tarda, Deus me perdoe, mas ainda bem que é assim, tanto sofrimento não serve para nada, a morte anda-lhe atrasada, é uma chatice, mas não deve tardar e assim é que deve ser. O que é que terás para me dizer que não tenha também morrido ainda? (...) de ti não sei, nunca tive a certeza, é melhor ficarmos por aqui, hás-de vir buscar o fato do teu irmão, vou guardar a tua carta no bolso do casaco dele.
(Carta pp. 21-22)


in cartas de amor de Luís Mendes

[e malmequeres . facas . amores-perfeitos de Alexandre Sampaio (adaptação ao teatro)][Papiro Editora, 2010]

Imagem: Jean-Sébastien Monzani, The Still Travelers.

7.7.10

Convite


A Papiro Editora e os autores Luís Mendes e Alexandre Sampaio têm o prazer de convidar V. Exa. a estar presente no pré-lançamento do livro cartas de amor /malmequeres.facas.amores-perfeitos que terá lugar no dia 9 de Julho de 2010, pelas 17h30, no Salão Nobre do Teatro Aveirense, Rua Belém do Pará, Aveiro
Apresentação da obra a cargo de Sónia Santos Alves.

22.6.10

Carlos Souto (1943-2010)

Difícil acreditar! Adorava o Engº Carlos Souto. Dia muito triste. Obrigada pelas conversas tão vivas e interessantes, pela boa disposição permanente, pela generosidade, pela cervejinha fresca há tão poucas semanas no Mercado Negro, pelas brincadeiras com as minhas filhas no Merendeiro, pelo dinamismo aquando da exposição de pintura no ciclo «Silêncio», obrigada mesmo! Encontrar alguém como o Engº Carlos Souto por essas ruas de Aveiro, com a sua boina, a sua presença imensa, era umas das razões que me fazia gostar desta cidade (por vezes tão cinzenta). Este é um dia muito triste.

[Fotos tiradas em Abril 2010]

18.6.10

José Saramago (1922-2010)


"Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto."

in As Intermitências da Morte (2005)
Editorial Caminho, pp. 158-159

13.6.10

LIBERDADE


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isso
É Jesus Cristo
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa
(n.13 de Junho de 1888)


Imagem: Capote (2006). Vale a pena. Acrílico sobre tela. 100x100 cm

7.6.10

Como se fosse um segredo...

Filipe Rodrigues
Como se fosse um segredo
Acrílico sobre tela - 120x100cm - 2008


Como se fosse um segredo que agora se tornou público! Um SIM que fica para a História. É o primeiro num longo tempo de silenciamento forjado ou forçado. Um SIM no primeiro dia do resto de muitas vidas. Depois, é claro, legislar é tanto e tão pouco. Oh, os cochichos vão continuar...

4.6.10

À escuta #106

S - Hoje, o dia correu-me mal... Quando há uma parte do dia que me corre mal, para mim é como se o dia todo corresse mal...
- Compreendo, mas qual foi a parte do dia que correu mal?
S - É esta, agora, porque tenho que me ir deitar!