8.7.08

Ser português é também uma arte #3

«...É certo que a nossa jurisprudência deriva das leis godas e romanas, e a dos últimos tempos não é mais que uma cópia inferioríssima de leis estrangeiras que desnaturam por completo o corpo jurídico do Estado.»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, p. 93

7.7.08

Al salaam a'alaykum

...ou Bom dia! Escrevo-vos de Hammamet, no sul da Península de Cap Bon. Hammamet nasceu em redor de uma baía com o mesmo nome, desenvolveu-se em torno do seu porto de pesca, foi transformada em estância de veraneio pelo jet-set internacional – Paul Klee e André Gide eram frequentadores habituais – e mantém a sua pitoresca cidadela medieval. O mais extraordinário é que, apesar de se afirmar como o templo do turismo balnear da Tunísia, preserva uma graciosidade intemporal, graças ao magnífico estado de conservação da sua Medina, situada junto à baía, e ao facto da maioria dos grandes resorts terem sido instalados à beira-mar, mas afastados do centro histórico.

[acabo de ler isto na Rotas & Destinos, e ainda faltam dois dias para chegar a Hammamet, mas vamos fazer de conta que é mesmo assim, porque eu quero que seja mesmo assim... para, a esta hora, no dia 7, estar a sair do conforto do meu Hotel (que só me vai reservar excelentes surpresas) na direcção da Medina, depois de já ter tomado um delicioso banho de mar e... ____ depois conto :P]

Rainha de Portugal entre 1525 e 1557


Depois de terminar o primeiro volume de "Isabel, A Rainha - As Filhas da Lua Vermelha", de Ángeles de Irisarri, um romance sobre a Rainha Católica, volto a centrar-me no Reino de Portugal, lendo uma biografia da sua neta Catarina.

A historiadora
Isabel Buescu é a autora da obra e é a primeira vez que, na minha lista, vejo a preocupação sistemática da referência às fontes. «Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas» é um tratado de saber, transmitido com rigor, através de uma prosa elegante e fluente, que incita à leitura.

Uma breve sinopse:
D. Joana, rainha e viúva de vinte e sete anos de idade, após a morte «fulminante» do jovem rei Filipe I, deu à luz a sua última filha a 14 de Janeiro de 1507. Nascida orfã de pai, a infanta recém-nascida recebeu o sacramento do baptismo na Igreja de Torquemada, onde repousava, por ordem de sua mãe, o corpo insepulto do rei seu pai.
Em 1509, D. Joana, Rainha de Castela, a quem muitos começavam a chamar a Louca, foi encarcerada no paço régio de Tordesilhas, às ordens de Fernando, o Católico, seu pai. Catarina partilhou com a mãe o cativeiro e aí cresceu num monótono e confinado quotidiano.
Em 1524, o destino de Catarina mudou. No âmbito do diferendo entre Portugal e Espanha em torno das ilhas do «cravo e das especiarias» de Maluco, seu irmão, o imperador Carlos V, concerta o seu casamento com D. João III.
D. Catarina ocupou o trono de Portugal até à morte de D. João III e foi regente na menoridade do rei D. Sebastião, seu neto, até 1562.
A sua vida foi marcada pelo drama da morte de todos os nove filhos, que gerou num processo que, dadas as tão estreitas relações familiares e dinásticas com a Espanha de Carlos V e depois de Filipe II, veio a fazer da sucessão do trono português um delicado problema político.
D. Catarina faleceu na madrugada de 12 de Fevereiro de 1578, poucos meses antes de se consumar, em Alcácer Quibir, o desaparecimento de D. Sebastião e, com ele se traçar o fim da dinastia de Avis.

6.7.08

Ser português é também uma arte #2

«... O génio lusíada é mais emotivo que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não raciocinando que ele prova a sua verdade.
A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. E assim, corresponde à nossa superioridade poética, uma grande inferioridade filosófica. O português não é nada filósofo; a luz do seu olhar alumia mais do que vê; não abrange, num golpe de vista, os conhecimentos humanos, subordinando-os a uma lógica perfeita e nova que os interprete num todo harmonioso. O português não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente; e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende.
Daí a sua incapacidade construtiva de novas verdades que representam o móbil superior do Progresso.»

Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007, pp 91-92


5.7.08

Ser português é também uma arte

«... quanto mais palavras intraduzíveis tiver uma Língua, mais carácter demonstra o Povo que a falar. A nossa, por exemplo, é muito rica em palavras desta natureza, nas quais verdadeiramente se perscruta o seu génio inconfundível


Teixeira de Pascoaes, in Arte de Ser Português
Assírio & Alvim, BI - Biblioteca editores Independentes, 2007

4.7.08

Marcas da guerra IV

«Mezars» é o nome dado aos cemitérios turcos. Em Kovaci, um bairro de Sarajevo, existia um velho «mezars». Em 1878 foi convertido num Parque, um espaço verde no limite da cidade. O que aqui vemos evoca a barbárie num mundo que é contemporâneo, que nos pertence. Na sequência do cerco a Sarajevo entre 1992 e 1995, o cemitério foi reactivado. Milhares de soldados estão sepultados aqui. Desde então, chama-se «Shahids' Mezarje». Subir aquela área, desde a parte baixa do cemitério, até à Fortaleza Zuta Tabija, foi o momento mais doloroso da viagem. Em todas as placas estava assinalada a data da morte. 1992 1992 1994 1993 1993 1994 1992, infinitamente. O poema de Pessoa ressoava:

"Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe»."

No «Shahids' Mejarje» está também sepultado o primeiro Presidente do Estado Independente da Bósnia e Herzegovima, Alija Izetbegovic. O túmulo é guardado por um soldado___ que fica horas imóvel, em sentido, prestando homenagem ao herói nacional.


(Malhas que o Império tece)...

Fotos MRF e BG
Maio 2008

3.7.08

Libertação de Ingrid Betancourt


El rescate es el golpe más grave que hayan sufrido las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia en sus 44 años de historia, ya que Betancourt y los tres contratistas eran las piezas más fuertes que tenían para negociar.
Betancourt fue secuestrada en 2002 cuando era candidata presidencial. (...)
Los infiltrados lograron primero que los secuestrados, que estaban divididos en tres grupos, fueran reunidos en uno solo y trasladados al sur del país "para que fueran recogidos en un sitio por un helicóptero de una organización ficticia".
Los agentes de la inteligencia militar infiltrados hicieron creer al dirigente guerrillero conocido como "César" que llevarían a los rehenes a la presencia de Alfonso Cano, el jefe supremo de las FARC.
"César" y otros tres miembros de su cuadrilla fueron "neutralizados en el helicóptero y serán entregados a las autoridades judiciales para ser procesados por todos sus delitos", dijo el ministro.
"Unos 15 más o menos de la cuadrilla, como al resto que se encontraban a unos kilómetros, decidimos no atacarlos y les respetamos la vida en espera de que las FARC en reciprocidad suelten al resto de los secuestrados" (...)
[o artigo completo no jornal colombiano El Mundo]

Felizmente
ninguém esqueceu, ou quase!

2.7.08

Apetece-me Aveiro #8

Apetece-me Aveiro!___ e por isso (re)abri as janelas do QUARTO COM VISTA PARA A CIDADE DE AVEIRO. Vão até lá e vejam se podemos marcar encontro, ali mesmo, sobre este círculo...

1.7.08

Poema para pesar maças

Às vezes ainda fecho os olhos, mas já não funciona tão bem.
Outrora, podia pensar numa coisa e fechar os olhos
que de imediato havia uma similitude entre o que pensava
e a imagem que surgia na escuridão. Hoje em dia, nem isso.
Posso, por exemplo, pensar em ti com muita força
e, acto contínuo, cerrar os olhos que me aparece (olha,
quem diria) a motorizada do meu pai.

Mas eu, de olhos abertos, penso mais no teu filho
do que nos cisnes. Uma pessoa nasce e cresce.
Conhece um pai e uma mãe, aprende a falar e a escrever
«mãe» e «pai» e outras palavras mais em idiomas perversos.
Há um dia em que nos deixamos tomar por alguém
pela primeira vez e ocasionalmente a gente
apaixona-se que é o momento da vida em que duvidamos do Newton,
na medida em que verificamos que o centro de gravidade nem sempre
é a Terra: todas as maçãs passam a cair na cabeça da pessoa amada,
esteja ela onde estiver. Viveste tudo isto, ou talvez um pouco mais,
para chegares a uma tarde em que estás sentada na relva
em frente a um lago e olhas para o lado
e vês um rapaz. E eu imagino que, pela primeira vez,
percebes que aquele miúdo (para além de ter todas as maçãs do mundo
a cair-lhe em cima da cabeça) surgiu algures, como quem não quer
a coisa, numa curva mais apertada da tua existência.
Fomos dotados de um poder do qual somos indignos
que é trazer para o mundo um ser apto a detonar
todos os verbos que conjugámos no passado.
Tudo isto é inimaginável e terrível, embora não deixe
de ser belo até à comoção, que é normalmente o nome predicativo
de todos os sujeitos terríveis e distantes.

Lembro-me igualmente de quando te fui ver ao hospital
e recordo ainda com maior exactidão a vontade
que tinha de te ver, pois para mim era óbvio que era outra
a rapariga que estaria ali. Tinhas dado um salto. Pisado um risco.
Nitidamente entrado para outra divisória. Esperava ver-te
transfigurada, na plena posse do teu poder criador,
e não deixava de ter um pouco de medo ao pensar na possibilidade
tão verosímil de não admitires uma presença profana
(inclino agora um pouco o pensamento para os cisnes,
pois era o que me faziam lembrar as enfermeiras ao deslizarem
em silêncio pelos corredores). Entrei no quarto e vi-te.
Estavas bem bonita, sabes. Despojada do teu milagre,
mas bonita. Olhavas para a luz que era a única forma de matéria
que deverias reconhecer naquela altura. Chamei-te pelo nome,
olhaste para o vazio. Estavas cansada e sorriste.

Fecho os olhos e não vejo o teu sorriso. Porém, na
memória, um odor a maçãs e outros cisnes.

João Pedro da Costa,
aqui

Imagem visionária

A nova crise do petróleo já ocupava os nossos espíritos, mas há cerca de um ano ainda não antevíamos o cenário actual...
Jamaica, Agosto 2007