3.4.07

Até ao meu regresso!

Santiago de Compostela, Outubro 2006


Elas fazem 7 anos daqui a uns dias. Nem de propósito, vamos oferecer-nos a todos umas férias. para longe cá dentro. Vai saber bem. Depois trago-vos umas fotos dos coriscos mal amanhados que encontrarmos.

Boa Páscoa!

31.3.07

As últimas leituras

A biografia de Sándor Márai é ela própria espantosa e trágica. Nasceu em Kassa, na Hungria, em 1900, e nos anos 30 era já um escritor famoso. Assumiu posições anti-fascistas e anti-comunistas. Foi perseguido. Sobreviveu à II Guerra Mundial mas em 1948 foi obrigado a exilar-se. Partiu para Itália, e daí para os EUA. Lentamente o seu nome começou a ser esquecido. Em 1923, Márai casou com Lola Matzner, judia. O casal teve um filho, Kristof, que morreu poucas semanas depois do seu nascimento em 1939. Não voltaram a ter mais filhos mas adoptaram outra criança, János. A sua obra, composta por dezenas de romances, além das suas memórias, permaneceu na obscuridade porque a tradução do húngaro não é frequente, e porque ele nunca permitiu que os seus livros fossem editados na Hungria durante o período de dominação soviética. Lola morreu em 1986, o que arrasou Márai. Janós, morreu com 46 anos, no ano seguinte. Desesperado, só, e completamente esquecido, Márai suicidou-se com um tiro na cabeça a 22 de Fevereiro de 1989. Nove anos depois, o seu trabalho é descoberto pelo escritor italiano Roberto Calasso. As notícias espalham-se depressa e muito rapidamente os seus livros começam a vender-se bastante em Itália e na Alemanha. Outros países se seguem. A obra de Márai renasce e volta a ser conhecida no mundo inteiro.

A Herança de Eszter (Public.Dom Quixote), que acabo de ler, é um romance muito particular, contado na primeira pessoa. A acção decorre em dois planos temporais: o primeiro num dia e o segundo, 20 anos depois. Antes de morrer, Eszter quer contar-nos a história do dia em que Lajos veio vê-la pela última vez e a roubou. A pureza e a comoção que caracterizam os sentimentos de Eszter, e a falta de armas de toda a sua família, face a Lajos, um sedutor sem escrúpulos, deixam o leitor (deixaram-me) irritado. Até que a desconcertante decisão final de Eszter se revela. e compreendemos o que é existir inteiro, sendo coerente com o nosso mais íntimo ser. "Lajos tem razão, Endre, Lajos tem razão ao dizer que na vida há uma qualquer ordem invisível e que devemos terminar o que um dia se começou... Como pudermos...Pois agora terminei - disse eu, e levantei-me." (pp. 145-146)

Do mesmo autor, terei que ler Como As Velas Ardem até ao Fim, outro dos seus romances já traduzidos, e que me dizem ser ainda mais belo.




Logo na sua estreia como romancista, ou seja, na publicação do seu primeiro romance, Silêncio (Public. Dom Quixote, 1981), Teolinda Gersão arrecadou o prémio do Pen Club português, no género ficção.

De uma forma distinta, tal como em A herança de Eszter, mergulhamos nos limites da incomunicabilidade, do autismo, no (des)encontro entre uma condição feminina e uma condição masculina, como se o tempo, o de Sándor e o de Teolinda, fosse o mesmo.

No romance A Árvore das Palavras (Dom Quixote, 1997), essa dicotomia volta a estar presente.

Foi interessante ler duas obras da mesma autora, escritas em períodos diferentes, com estruturas narrativas díspares (em Silêncio, a linearidade narrativa é interrompida, há decomposição, descontinuidade, circularidade, como se uma escrita na água; em A Árvore, um estrutura mais linear, uma trama coesa, a história de uma família num local e tempo definidos - a então Lourenço Marques, no início da Guerra Colonial), e observar a recorrência de temas: a imaginação, o sonho como evasão ou força transformadora do real, sempre associado à mulher, o desejo (in)contido de liberdade, as idas e voltas das relações interpessoais, em particular homem-mulher, e sempre, a busca, da identidade. Curioso também o papel da casa, como palco e como marca de uma condição de género ou de espírito, feminino/masculino, passivo/inquieto. A casa que oprime/protege, se ordena/desfaz. As janelas que se abrem ao mundo ou se fecham ao devir, encerrando o silêncio.

Leiam um estudo elaborado nos anos 80 por Eduardo Prado Coelho sobre Silêncio. Ou, para melhor compreender o universo da escritora, um artigo de Isabel Pires de Lima, a actual Ministra da Cultura que, caso não saibam, é doutorada em Literatura Portuguesa.


Diferente de tudo o que já lemos deste autor é Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa (Tinta da China Edições, 2006). Este livro de Haruki Murakami foi escrito entre 1997/98, e é composto por duas séries de entrevistas que realizou: a sobreviventes do atentado no metro de Tóquio com gás sarin, ocorrido na manhã de 20 de Março de 1995, e a vários membros da seita Aum ou Verdade Suprema (autora do atentado). No Japão, a segunda série foi publicada numa edição separada com o título O Lugar Prometido.

"No início de cada entrevista, eu pedia aos entrevistados que me falassem da sua história - onde tinham nascido, como era a sua família e o seu trabalho (sobretudo o seu trabalho) -, para poder dar a cada um deles um rosto, para os tornar visíveis. Não queria uma colecção de vozes sem corpo." pp 17-18

"Não decidi fazer estas entrevistas a actuais e antigos membros da seita para os criticar ou para os denunciar, nem sequer na esperança de que as pessoas os olhassem a uma luz mais positiva. O que estou a tentar transmitir com este livro é exactamente o mesmo que esperava transmitir em Underground - não um ponto de vista claro, mas sim material, de carne e osso, a partir do qual se possam construir pontos de vista múltiplos; e esse é o mesmo objectivo que tenho em mente quando escrevo romances." pp 331


Para descrever a sensação que tive ao ler alguns destes testemunhos, deixo-vos uma citação de Silêncio de Teolinda Gersão (os últimos dois parágrafos deste livro):

"Voltou para dentro e fechou a janela.
Havia dentro dele um ódio leve, que se estendia a todas as coisas do mundo"

30.3.07

À escuta #35

S - Eu não sabia que os grandes também tinham prisão de vento! Isso dá-me vontade de rir...
A - Olha, e tu por acaso sabes que a prisão de vento às vezes dói muito?

Programa Primavera

CNB
Foto de Pedro Conceição, 2006



No ano em que completa 30 anos, a Companhia Nacional de Bailado apresenta o Programa Primavera, quatro coreografias num programa único: The Vertiginous Thrill of Exactitude de William Forsythe, Dualidade de Gagik Ismailian, Passo Contínuo de Mauro Bigonzetti, Treze Gestos de um Corpo de Olga Roriz.

Ontem à noite estiveram no TA, no dia 31 vão estar em Leiria, estejam atentos à digressão. O programa é mesmo interessante, deixa-nos felizes, e com vontade de ter outra vez 6 anos, para nenhum constrangimento travar as piruetas e saltos de cavalo que insistem em soltar-se à saída da sala. Elas dançaram até cairem na cama...

Revi uma peça de Roriz que já tinha visto há anos na Fundação Gulbenkian e foi bom confirmar. mais do que a coreografia, nunca esqueço os cenários das obras da coreógrafa. por isso, talvez aprecie tanto Nuno Carinhas como a própria Roriz.


Treze Gestos de Um Corpo, peça concebida para 13 homens ou (como ontem) para um cast de 13 mulheres, inspira-se n' A Obra ao Negro de Yourcenar. Vocês sabem, "acontecia-lhe muitas vezes reabrir uma porta, simplesmente para se assegurar que não a tinha fechado atrás de si para sempre...".

Não apreciei em particular The Vertiginous Thrill of Exactitude de William Forsythe. O tutu futurista e o virtuosismo abrem bem a noite, mas eu contentei-me especialmente com o excesso de Passo Contínuo de Mauro Bigonzetti, e a vertigem e ilusão de Dualidade, de Gagik Ismailian. A peça de Bigonzetti, interpretada por Vera Alves e Christian Schwarm, é muito corporal, sentimos o pulsar dos dois, as correntes de energia, magnetismo, química, que se cruzam. É um bailado quase acrobático e muito poético.
Dualidade aborda o tema da paixão e da provocação, lança sedução, cor, tem um ritmo impressionante, é um espectáculo denso de surpresas... a começar pelo desenho de luz (Miran Susternic).

A CNB foi criada em 1977 por despacho de David Mourão Ferreira. Completa agora 30 anos e os corpos continuam iluminados.

Encontrei estas peças de Gagik Ismailian, se vos apetecer:
- Coreografia inspirada no livro de Paulo Coelho, Veronika decide morrer
- Coreografia criada para a Companhia de Bailado de São Paulo, Masks of time

Adeus e até ao meu regresso #8




"Women Only"! Discriminaçao positiva ou uma sinaléctica que ainda não compreendi.

Metro de Tóquio
Maio 2006

Adeus e até ao meu regresso #7



Tóquio
Maio 2006


29.3.07

Noé

Graça Morais
Manufactura de Tapeçarias de Portalegre


Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. Eu sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por essse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Não é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.


in Analogia e Dedos de Pedro Tamen

O atentado de Tóquio #2

Estava a olhar para uma tesoura que tinha na mão e de repente assolou-me o pensamento de que algum adulto tinha trabalhado arduamente para a criar, mas que um dia ela acabaria por se desfazer. Tudo o que tem forma acaba por se desfazer. O mesmo se passa com as pessoas. Tudo está a caminho da destruição e não há caminho de volta. (...)

in Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa de Haruki Murakami
Ed. Tinta da China, 2006
pp. 335

Adeus e até ao meu regresso #6


Tóquio
Maio 2006