24.3.07

Encantamento XI

Os Dias da Árvore e da Água. esta semana. foi em Cabo Verde que encarei, sem ilusões, o problema da escassez de água. O deserto na ilha do Sal, mas sobretudo esta aridez na ilha de Santo Antão. A pequena cascata que mal se vê (na segunda foto) é um bem tão raro que todos nos levam a visitá-la. Fica no Vale do Paul que, por causa da nascente que ali corre, é a única zona verdejante da região. Depois, nas altitudes mais elevadas, devido à maior humidade, também existe alguma flora. mas nada que dê sustento às famílias.

Delgadinho


Vale do Paul - Nascente

Vale do Paul - aldeia Fundo de Café


Ilha de Santo Antão - Cabo Verde
Fotos MRF - 2005

verdes incomparáveis, pérolas arquitectónicas, e miopia


Parece um castelo de conto de fadas, este palácio neo-manuelino na mata do mosteiro do Buçaco, no concelho da Mealhada. Foi construído para a família real, em finais do século XIX, ao lado do antigo Convento das Carmelitas, e hoje é um hotel. Neste site da DGEMN *, podemos conhecer em detalhe o monumento nacional. Ontem fui lá jantar. Percorrer aquela mata à noite deixa-nos um pouco inquietos, ou deslumbrados, porque as árvores que se avistam, mesmo na escuridão, são magníficas. Mas sim, é preferível fazer a visita durante o dia. De qualquer forma, ontem, dei por bem passado o meu serão. Mesmo se o serviço não é excepcional. E é isso que me leva a fazer esta referência. Caramba, mais uma vez, que falta de visão! Então não era de caprichar nos menus e no serviço, de forma a igualá-los à categoria das instalações! Não era de investir num restaurante com a tal nouvelle cuisine ou cozinha criativa e fazer de cada refeição um festim, recriando um pouco o ambiente da corte de D. Carlos. ou tivessem outras ideias! Escrever o menu num papel creme não chega. Depois, como sabem, a região tem óptimos vinhos e o Hotel Palace do Buçaco é conhecido pela sua garrafeira. Mas os vinhos foram servidos sem que pudéssemos ver as garrafas, ou nos dessem informação sobre a história ou as características dos vinhos. Marketing, precisa-se! Para quando a definição e comunicação de um conceito que assegure com inteligência um posicionamento diferenciado, com um serviço adequado? A acomodação à herança histórica pode ser coisa muito portuguesa mas, a longo prazo, traz maus resultados...



* Site da DGEMN: na secção Sistema de Informação/Inventário, temos um descritivo de todos os monumentos nacionais, por concelho. E para uma consulta mais rápida, temos sempre a Wiki.

23.3.07

Geração em linha



Ontem foi dia de tertúlia. Desde há uns meses, reunimo-nos semanalmente e conversamos. Sou uma das mais novas do grupo e a maior parte do tempo escuto. Os meus amigos mais velhos têm imenso para contar. O pretexto para os encontros começou por ser o gosto comum pela leitura e pela cidade, mas falamos de tudo - a ida ao futebol, a última viagem, os filhos e os netos, e depois, naturalmente, lá vem uma história ou uma reflexão que me deixa a pensar. Outro dia o F., que já passou os setenta, disse que tinha estado a pensar nas últimas décadas da nossa História e que não tinha dúvidas de que a mudança maior tinha a ver com o comportamento sexual. Lembrava-se da II Guerra Mundial, vivera mais anos no tempo da ditadura do que no pós 25 de Abril, lembrava-se do aparecimento da televisão e da chegada à lua mas, o que mais o marcara pessoalmente, fora a revolução de mentalidades a partir dos anos 60, e depois de 74 em Portugal. Ainda antes do Maio de 68, viu um casal de namorados a beijar-se no metro de Paris e não esqueceu o seu espanto, quase inquietação. Seria possível?

O L., que tem sessenta e poucos anos, contou logo a história do poeta António Botto, que terá sido o primeiro e único funcionário público que viu publicada em Diário da República a causa do seu despedimento por homossexualidade. Parece que assediou um colega no local de trabalho. Que escândalo! Até porque não se ousava dizer, quanto mais escrever, a palavra homossexualidade.

E lá foram enumerando o que até há poucos anos não era concebível sequer. Para as mulheres, claro, as inibições e proibições eram maiores. Sair do país, ou mesmo comprar um carro, sem autorização do marido, não era possível. Não havia a pílula (foi produzida pela primeira vez em 1952 - e devemos agradecer a invenção a um mexicano!), e depois foi a expectativa da pílula ou não pílula e contracepção. Reinava o princípio do "crescei e multiplicai-vos"! A C. aludiu ao Discurso às Parteiras, de PIO XII (em 1951), em que o Papa condena aqueles que afirmam que a sexualidade tem uma finalidade própria independentemente do seu objectivo primário, a procriação, à qual se devem subordinar todos os outros fins. David Lodge, mesmo se centrado na sua Inglaterra, narra tão bem os problemas dos casais dessa época e a sua decepção com a Humanae Vitae de Paulo VI!

Em 1940, a celebração da Concordata entre Portugal e a Santa Sé, impediu os portugueses casados catolicamente de recorrer ao divórcio - apesar da Lei de 1910 que admitia pela primeira vez o divórcio e que dava ao marido e à mulher o mesmo tratamento, tanto em relação aos motivos de divórcio como aos direitos sobre os filhos.
A maioria das mulheres também não podia votar. A lei de 1931 só reconhecia o direito de voto às mulheres diplomadas com cursos superiores ou secundários - enquanto que aos homens continuava a exigir-se apenas que soubessem ler e escrever. Só em 1968 é proclamada a igualdade de direitos políticos do homem e da mulher, independentemente do seu estado civil. Em relação às eleições locais, permanecem, contudo, as desigualdades, sendo apenas eleitores das Juntas de Freguesia os chefes de família (segundo o novo Código Civil de 1967, a família é chefiada pelo marido, a quem compete decidir em relação à vida conjugal comum e aos filhos).

Imaginem que foi preciso chegar a 1976 para ser abolido o direito do marido abrir a correspondência da mulher!

O F. concluia que era espantoso como em algumas décadas tudo se alterara. Mas todos concordámos que são ainda muitos os resquícios desta nossa História recente.



P.S.: "Geração em linha" é também o título de uma exposição do escultor Pedro Figueiredo, que vi há poucos meses no TA. A imagem que vemos aqui é de uma peça intitulada "Sentido único".

Tal mãe...

cá por casa, deixo os livros amontoarem-se no escritório, no quarto... até me dar um ataque de arrumação... para tudo voltar ao mesmo poucas semanas depois...recentemente percebi que uma das minhas filhas faz questão de me imitar. ela vai buscar os livros e faz montinhos de propósito. como tu, mamã!

22.3.07

Wordsong às 22h30 no Mercado Negro


Wordsong é o premiado e criticamente aclamado projecto multimédia em que Pedro d'Orey (Mler If Dada), Alexandre Cortez (Rádio Macau), Nuno Grácio, Filipe Valentim (Rádio Macau) e alguns artistas convidados (como João Peste dos Pop dell'Arte, JP Simões ou Vítor Rua) transformam, manipulam, desconstroem e reconstroem em experiências sonoras de formato melódico-electrónico a poesia de autores portugueses. Partindo das obras de Al Berto e Fernando Pessoa, os Wordsong trazem-nos um evento único, numa abordagem transdisciplinar que combina música e o trabalho vídeo de Rita Sá, interpretando as palavras dos dois poetas com total liberdade criativa.

So um cartinha


Dia pleno para a lusofonia, em Aveiro. A poesia é a música das palavras e a música dos sentidos, disse Nuno Júdice na apresentação de "Poesia, uma Cartografia de Emoções". depois de alguns dos seus versos terem sido cantados pelo Grupo Poético de Aveiro e de uma introdução à sua obra pelo Professor Luís Serrano. ainda nesta sessão, na Biblioteca Municipal, ficámos a conhecer o vencedor do primeiro Prémio de Poesia Nuno Júdice: José Jorge Letria.

À noite, foi a vez da música dos movimentos de Lura. Gostei de ver Cabo Verde no palco do Teatro Aveirense. Na ri na, Oh na ri na, Nu ta brinka so iá iá (de Orlando Pantera) que se ouvia nas ruas de Vila do Porto ou do Mindelo, chegou cá!

sem esquecer os Cantantes da Confraria de S. Gonçalo, bons cagaréus que nunca tinha visto actuar, e que nos divertiram na primeira parte da gala de aniversário da revista ponte&vírgulas. sim, porque esse foi o pretexto. ficou para o fim, mas parabéns!

21.3.07

Chuva de Março

A chuva detrás dos vidros,
a chuva de Março,
acesa até aos lábios, dança.
Mas a maravilha
não é a primavera chegar assim
como se não fora nada,
a maravilha são os versos
de Williams
sobre a rasteira e amarela
flor da mostarda.


Eugénio de Andrade
Rente ao Dizer, 1992


em mais um dia de poesia

20.3.07

Desde 20 de Março de 2003


(via Cibertúlia)

Projecto Avenida da Arte Contemporânea


A ver até dia 25 no edifício da antiga Capitania, a colecção de Arte Contemporânea, ou parte dela, não sabemos, que será posteriormente instalada, aonde precisamente e de que forma também não sabemos, em Aveiro. Em Julho de 2006 foi assinado um protocolo entre o Instituto das Artes e a CMA/UA e a "Entidade Gestora do Projecto Avenida da Arte Contemporânea", pressuponho, achou por bem fazer uma primeira exposição.

"Esta colecção, tutelada pelo Instituto das Artes, foi construída ao longo de várias décadas no âmbito de uma política de aquisições, orientada então pela Direcção Geral de Acção Cultural da Secretaria de Estado da Cultura..." - lemos na única folhita explicativa disponível ao público. Insuficiente e impreciso, diga-se. Pelo que vi, algumas das obras terão sido adquiridas ainda no tempo do SNI. Elaborar um documento que clarificasse os visitantes sobre a História da Arte Contemporânea em Portugal, relacionando-a com os organismos que sucessivamente tutelaram e regularam a produção, aquisição e exposição das obras dos artistas portugueses desde o final do século XIX não pareceu ainda pertinente à "Entidade Gestora do Projecto Avenida da Arte Contemporânea". Explicar os critérios que presidiram à escolha destas obras e não de outras, também não pareceu obrigatório. Temos assim uma panóplia de nomes, alguns de primeira linha, muitos de segunda linha e uns "desconhecidos"/"sem data". Fiquei com a impressão de que os delegados da CMA/UA foram às reservas do IA e foram metendo no saco o que havia e o que até era giro, mas que não levavam nenhum conceito ou critério, a não ser a deliciosa (sem ironia) ideia de poder encher a Avenida Lourenço Peixinho, da antiga estação de caminhos de ferro à capitania, de arte.


A exposição está à nossa espera, e vale sempre a pena passar por lá. Quem quiser saber quem são os artistas e porque é importante estarem ali representados, pode sempre anotar os nomes, pesquisar em casa, e talvez chegue a uma conclusão. Eu fixei as belas fotos de cena (são fotografias de autor? que autor? qual é o espectáculo que documentam? em que ano? porque foram adquiridas pela SEC?) e talvez descubra um dia a resposta às minhas perguntas. A arte também tem essa função de nos levar a questionar o porquê das coisas!


O espaço tem esta luz óptima e é convidativo. Mas até Diogo de Macedo, em 1944, quando assumiu a direcção do Museu Nacional de Arte Contemporânea (que mais tarde renasceria como Museu do Chiado), sabia da importância da publicação de catálogos, com pequenas monografias sobre os artistas (nas exposições temporárias!), soube reduzir o número de peças expostas para colocar em evidência aquelas que o exigiam, criou circuitos de exposição por períodos/correntes sucessivas, etc., etc..

Mas vão ver a exposição! Não a vejo anunciada nos jornais ou nas ruas, mas ela está lá à nossa espera!

De uma assentada poderão olhar para obras de:
Júlio de Sousa, Cândido Costa Pinto, Júlio Resende (2 peças), Maria Gabriel (2 peças), Raquel Oliveira, Paulo Ossião, Menez, Álvaro Passos, Sérgio Costa, João Paulo Lourencinho Furtado, Guilherme Parente (2 peças), V. Oliveira, Luis Gonçalves, Tomás Mateus, Henrique Ruivo, Sérgio Pinhão, António Sena, Nuno Félix da Costa, Carlos Calvet, Carlos Afonso Dias, Rui Cunha, João Segurado, António Duarte, João Charters d'Almeida, António Marinho, vários de autor desconhecido.