7.12.06

A Naifa


Eu conhecia Música, um poema de José Luis Peixoto, e pouco mais. Foi o maior sucesso do álbum de 1994, Canções Subterrâneas. Sabia da voz poderosa de Maria Antónia Mendes e da musicalidade original da banda, mas perdi os concertos __ até ontem. Confesso que comecei por estranhar Monotone (de João Miguel Queirós), Da uma da noite às oito da manhã (de Nuno Moura), no início a bateria abafava a voz, não se ouvia o baixo, ainda me ocorreu que ela "puxava" demasiado pela voz e não era preciso, não era mesmo, que ela tem voz que parece que nunca vai doer, a voz dela É, simplesmente É, faz de qualquer poema com fraca cadência uma canção que merece ser ouvida, desgostei do teatro da vocalista com João Aguardela, aquela do cigarro era dispensável, mesmo se gosto desses ambientes de tango, de tasca, de boémia, mas bem encenados, há ali coisas que têm de ser polidas, e a guitarra portuguesa de Luis Varatojo é magnífica, pois, mas e se houvesse menos amplificador, e, de repente, só por uns momentos, a pudessemos ouvir sem efeitos, o som da guitarra portuguesa dedilhada, só por uns momentos, ruptura, para re-despertarmos, e ia pensando isto tudo, como as marés recuam e avançam, mas A verdade apanha-se com enganos e 3 MINUTOS ANTES DE A MARÉ ENCHER fui completamente apanhada pela onda. A sala foi abaixo com Desfolhada e com Tourada, e ela tem o ímpeto da Simone de Oliveira e o balanço do Fernando Tordo, mas é a Maria Antónia Mendes, e é única, não é imitação de coisa nenhuma. A sala rendida, A Naifa em apoteose, quantos encores?, e a certeza de que vão crescer, porque transpiram talento e paixão.

6.12.06

O Bairro de Gonçalo M. Tavares


O Bairro de Gonçalo M. Tavares tem mais um habitante, O Senhor Walser. Imagino que o Senhor Henri e o Senhor Valéry não lhe liguem nenhuma, que o Senhor Brecht tenha grandes discussões com ele___ enfim, quando o encontrar, que a casa fica um pouco afastada.

Por agora, nas minhas leituras, o Senhor Walser anda muito satisfeito consigo mesmo. Mas sei que vai ter umas visitas menos agradáveis...

"Mal se abre a porta de sua casa - sente ele - entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço - dois passos que se dão - mas também uma deslocação - bem mais intensa - no tempo; do pé de trás que vem ainda com o cheiro a terra e com a sensação, nada objectiva, mas que existe, de que está rodeado de coisas vivas que não compreendemos na totalidade e não nos compreendem - os elementos da floresta -, desse pé de trás para o pé da frente, que já ultrapassou a ombreira da porta, a distância não deve ser medida em centímetros de passada, mas em séculos, talvez milénios.
Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar - esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis a conquista da racionalidade absoluta."

in O Senhor Walser, de Gonçalo M. Tavares, Ed. Caminho, Outubro 2006, pp 13


P.S.: Bibliografia em português de Robert Walser

5.12.06

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS

X

O rir dos lábios belos. São essas palavras de Rimbaud que repetes para me explicares a tua presença. Mas agora é tarde no dia e ainda estás longe. Sentar-me-ei no alpendre à tua espera e talvez apareças quando eu já tiver adormecido. Delicia-me pensar que neste momento todos os teus passos te aproximam da nossa casa.

Saboreio as viagens que fazes, reencontro-te belo como uma árvore. às vezes, é claro, deixas-te queimar pela neve. mas chega sempre o dia em que te sentas na minha mesa, prisioneiro dos meus olhos, ao alcance dos meus gestos.

O amor é para ti uma coisa natural sobre a qual não se deve falar muito. nunca são muitas as palavras, e raramente são tuas. dizes que os poetas já inventaram quase tudo. Talvez, sobre o amor. mas falas tão pouco de ti, e quando partes levas contigo todo o teu ser, tão completamente. não esqueces nenhuma parcela de ti, em nenhum lugar.
Adivinho pois, creio. e anseio. que a ternura que abandonas de cada vez que te afastas tenha cada vez mais o valor de um tesouro. Diz-me que há um sentimento de mágoa a crescer dentro de ti nos momentos em que nos enterras. A minha casa é aqui, a minha fonte são os teus olhos, só eles me saciam, dizes antes de partir. e a meio da noite, das noites, abraças-me, apertas-me com ternura, como se eu fosse um pequeno animal doméstico e sussuras não sei ser teu, perdoa-me.

Nunca sei muito bem como me arrumar em ti ou na cómoda dos meus pensamentos. Ofereço-te o rir dos meus lábios, enceno a tua fantasia. para que escaves sempre e revolvida a terra nos encontres.
e durante alguns dias em muitos anos, vamos vivendo. intensamente. nunca em paz. para sempre.

não demores.

*

Il faut que ma femme me rapelle que je suis tellement amoureux.
Carta de Antoine de Saint Exupéry a Consuelo de Saint Exupéry


Meu amor,

Acabo de ler um livro com a correspondência entre Saint Exupéry e Consuelo Sandoval, a única mulher com quem casou, e apontei esta frase.
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Imagine o leitor-autor que pretende escrever um livro e não sabe por onde, nem como, começar. O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS proporciona-lhe uma vasta gama de princípios para conto, novela ou romance que o leitor-autor poderá seleccionar livremente. Depois terá apenas que escrever o resto demorando o tempo que entender.

Todas as semanas saiem novos textos:
Às segundas, n' O Afinador de Sinos
Às terças, aqui
Às quartas, no Ponto.de.Saturação

O LIVRO DOS BONS PRINCÍPIOS (blogue)

4.12.06

O narrador vem tomar uma chávena de chá e Albert diz-lhe

Henk Braam

"Li um artigo seu, O fogo e o enxofre no Yediot Abronot* de ontem. Foi Rico que o trouxe e disse, lê isto, pai, e não te zangues. (...) Parece-me que ele é ainda mais esquerdista que você, Estado repressivo e coisas do género. Eu tenho menos princípios,
mas a situação também não me agrada lá muito. (...)
Claro que respeito a coragem da criança que grita o rei vai nu enquanto a multidão aclama viva o rei!, mas na situação actual é a multidão que grita o rei vai nu e talvez por isso a criança tenha que inventar um grito novo
ou dizer o que tem a dizer
sem gritar. De qualquer maneira, há barulho a mais, o país está cheio de clamores (...). Ou, pelo contrário, de um sarcasmo corrosivo: todos se condenam uns aos outros. Eu pessoalmente sou de opinião que a crítica
dos assuntos públicos deve conter, digamos, vinte por cento de sarcasmos e insultos, vinte por cento de sofrimento e sessenta de rigor clínico. (...)
O melhor que você tem a fazer é afastar-se da procissão. Fique lá em Arad e se possível escreva com serenidade. Em tempos como este, a serenidade é um bem precioso e raro neste país. E que não haja mal-entendidos:
estou a falar de serenidade, e decididamente não de silêncio."


Amos Oz, O Mesmo Mar, Ed. ASA, 2004, pp147-148


*Yediot Abronot (Ultimas notícias): jornal diário de grande tiragem em Israel

3.12.06

Que importância tem

Insónia. Então levanto-me e começo a transcrever o que acabo de ler.

"A seguir, no carro, as notícias. Um soldado do exército do sul do Líbano foi mortalmente ferido e dois israelitas sofreram ferimentos ligeiros.
Em Hazor, na Galileia, fechou mais uma pequena fábrica
e os nove operários começaram uma greve de fome. Em Natania,
um professor de Matemática vem abusando das filhas há seis anos.
Um carro precipitou-se esta noite no vazio, na estrada de Beitar:
o pai, a mãe e dois filhos; a filha que sobreviveu está em estado crítico.
Epidemia e fome no Burundi. Uma mulher de Holon
atirou-se pela janela. A chuva vai continuar. Prevêem-se inundações nas zonas baixas e um tufão nos Estados Unidos.
Que importância tem O Amor de Nirit."


Amos Oz escreveu O Mesmo Mar em 1999. Ou hoje.

2.12.06

A Diva de serviço


Ouçam a emissão do programa Terra Pura, dedicado inteiramente a Aldina Duarte. Canções do álbum CRUA, agenda dos Concertos, entrevista. Para mais informações, vão ao Crónicas da Terra de Luis Rei.


30.11.06

Os melhores blogues

Juarez Machado
Atelier em Montmartre com a Presença de Malhoa, 2006


Ainda a propósito do concurso do Geração Rasca, o meu obrigada ao António Branco Almeida do Luminescências, pela nomeação do Divas & Contrabaixos como um dos melhores blogues femininos.
Lembrei-me deste quadro do Juarez Machado quando li o post sobre o tributo de Guus Slauerhoff ao universo do Fado. Talvez não conheça, António. Vocês, se ainda não viajaram até ao Luminescências, aproveitem esta passagem. É um lugar raro.

Allen Ginsberg's First Blues acaba de sair

* Release Date: 2006 * Genre: Spoken Word * Label: Water

É o opus de Allen Ginsberg. esse mesmo, o poeta da Beat Generation. o mito beatnik. Canções escritas e interpretadas por ele, entre 1971 e 1981. O LP saiu em 1983 mas o compact disc teve que esperar por este século. First Blues conta com a participação de David Amram, John Scholle, Happy Traum, e, é claro, Bob Dylan, que sempre o encorajou a escrever e que foi o primeiro a levá-lo a um estúdio de gravação. Anne Waldman, poetisa e co-fundadora com Ginsberg da Escola Jack Kerouac de Poéticas Desincorporadas, também aparece como vocalista. Cultivem o lema beat: art in everyday life. se vos apetecer. mas uivem sempre:


Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa

(fragmento do poema continua aqui)
(um estudo sobre Uivo)



Adenda - Jimmy Berman

de Allen Ginsberg - canta Bob Dylan

29.11.06

Cocteau


Jean Cocteau, poête, écrivain, peintre a été le premier artiste à utiliser le phonogramme non comme un moyen de témoignage mais comme un véritable outil de création à part entière. Il Invente le théâtre sonore, qui donnera plus tard les dramatiques radiophoniques. Link

Temos estado a ouvir Cocteau a declamar La Toison d'Or, um poema retirado do seu livro Opera. Esta leitura foi gravada a 12 de Março de 1929. É acompanhada pela Orquestra de Jazz de Dan Parrish: Vance Lowrey no banjo, Dave Peyton na percussão, James Shaw no clarinete, Crickett Smith no trompete e Dan Parrish no piano.