9.10.06

Comme ils disent

Aznavour compôs a letra e música desta canção, (Je suis un homo) Comme Ils Disent. Espero que compreendam a letra (em francês). Conta-nos a história de um gay que vive só com a maman, num velho apartamento, tem uma tartaruga, dois canários e uma gata. Para deixar a maman repousar vai às compras e cozinha. À noite é travesti, faz um número especial que acaba em nu integral, depois de strip-tease. Em poucas frases, entramos no mundo da personagem, ouvimos as tricas dos bares que frequenta, o queixume pelos amores passageiros, as paixões impossíveis___ como a que sente por aquele rapaz, o objecto do seu tormento __ a quem nunca ousará confessar o seu doce segredo por ele passar le plus clair de son temps au lit des femmes. Uma canção que fala de solidão e preconceito. Cantada com uma terrível sensibilidade. E com alguma coragem, em 1973.

Nul n'a le droit en vérité
De me blâmer de me juger et je précise
Que c'est bien la nature qui
Est seule responsable si
Je suis un "homo" comme ils disent.



Penso sempre nesta canção como um manifesto. Mas é a melodia que viaja comigo.
(e sim, eu sei, tenho um lado cota cada vez mais apurado)

6.10.06

Outra viagem

Henk Braam


Penso no próximo fim de semana e quero que seja assim.

Loin devant les villas sur la digue, elle se tenait accroupie, les genoux au menton, en plein vent, sur le sable humide de la marée. Elle pouvait passer des heures devant les vagues, dans le vacarme, engloutie dans leur rythme comme dans l'étendue grise, de plus en plus bruyante et immense, de la mer.


Não sei se vai ser assim, mas este livro levo-o comigo. Villa Amalia, de Pascal Quignard. Talvez conheçam o escritor, Goncourt 2002 com As Sombras Errantes. As Sombras Errantes, lembram-se?

Des nouvelles


Começa hoje uma viagem à terra da Marianne no Music Hall.

5.10.06

96 anos da República Portuguesa

Painel de Maria Keill no Átrio da Biblioteca-Museu República e Resistência


5 de Outubro de 1910
5 de Outubro de 2006



Este é um bom dia para ficar a conhecer as obras e exposições que esta Biblioteca Museu tem disponíveis ao público (atenção Câmaras e Bibliotecas Municipais!). E, é claro, podem sempre ler e participar nos fóruns e iniciativas da Associação República e Laicidade.

4.10.06

Avec le temps

Não me lembro de canção mais triste que esta. O meu lado maso delicia-se. Já vos confessei esta fraqueza, já vos recordei a letra, mas agora descobri-a no YouTube cantada precisamente por Léo Ferré. Não é por mal, é mesmo por bem. Se vos apetecer chorar, merda, chorem!

3.10.06

Sagrado & profano

Ana Koudella


Eu lembro-me da primeira vez que pequei. Até aí, portava-me mal, se batesse na minha irmã, por exemplo, ou lhe atirasse com os cubos de madeira dos puzzles infantis. Corria o ano de 1972. Um a um fomos confessar-nos. Estávamos na véspera do dia da Primeira Comunhão. De certeza que o padre me mandou rezar uns Pai-Nossos e duas Avé-Marias, ou o Acto de Contricção Meu Deus Porque Sois Tão Bom. Eu levava a sério o que os adultos me diziam e temia as ameaças, em especial se fossem lançadas por homens imponentes vestidos de batina negra. Nesse mesmo dia, experimentámos também, pela primeira vez, aquela partícula de pão ázimo que se transformaria em hóstia sagrada no Domingo seguinte, na missa a sério. "Ele" disse: quem morder a hóstia ofende o corpo de Cristo e isso é um pecado. E sem querer mordi a hóstia-que-ainda-não-o-era! Lembro-me perfeitamente do pânico que senti, estava condenada, de corar imenso e depois, já a sentir-me muito cobarde, de calar a culpa. Nunca esqueci esse episódio. Adolescente, quando compreendi de quem era o pecado, zanguei-me.

Recentemente, essas recordações voltaram à superfície. As minhas filhas chegaram à idade de frequentar a catequese. Desde há muito tempo que elas assistem curiosas ao rodopio dos miúdos em frente à Sé de Aveiro. Passamos por lá muitas vezes. Ficar a conhecer a vida de Jesus, o menino do presépio de Natal, parece-lhes bem, sobretudo se depois se pode correr e saltar no adro da Igreja. O mistério da catequese aumentou recentemente quando, assistindo a uma cerimónia religiosa, perceberam que só poderiam participar na eucaristia depois de fazerem a Primeira Comunhão. A ideia de poder tomar a hóstia, um dia, com solenidade, como os adultos, compreendendo o sentido do acto, motivou-as imenso.

Talvez possam saber (assim muito rapidamente) que hoje sou mais uma "católica não praticante" (é uma categoria nova, pós-moderna)(parece um novo dado do BI, irremediável, como o local de nascimento ou a altura). No meu caso, isso quer dizer que me foi dada uma educação religiosa católica mas que, actualmente, raramente vou à missa, não me confesso, e não acredito no Deus configurado católico que me foi inculcado. No entanto, quando menos espero, descubro em mim marcas da educação que tive e laivos de religiosidade. Respeito, obviamente, quem é crente, e não me sinto estranha nos lugares do meu culto. Mais, com o tempo, passei a encarar a fé como o mais válido dos anti-depressivos (e não há aqui nenhuma ironia).

Uma coisa é certa: não aceito que, no meu país, a Igreja (as Igrejas) ou os seus representantes, imponham restrições ao conhecimento (num sentido amplo) dos seus seguidores, ou tentem condicionar os comportamentos de natureza secular dos fiéis ou infiéis.

Apesar dos meus pequenos traumas, não me oponho de todo a que as minhas filhas frequentem a catequese. Acho mesmo que esta, bem orientada, pode enriquecê-las.
E, assumindo que as introduzo tão jovens numa comunidade religiosa particular, a minha, a do pai, dos avós, contava comigo e com o meio que as rodeia para relativizar dogmas.

Eis-me pois, cheia de intenções e apreensões, face a um grupo de cinco pessoas que recepcionam as inscrições - sentadas em fila numa espécie de "mesa de voto" - e que organizam o serviço da catequese na Sé de Aveiro. Problema imediato: o horário não é compatível com as actividades escolares. A catequese para os mais pequenos acontece à segunda-feira, às 16h. E não há nada a fazer.

Se existem falta de meios (salas, catequistas), e dizem-me que sim, eu estranho e lamento. Mas o que eu ouvi da parte desta "comissão organizadora" (onde não constava nenhum padre) é digno dos meus tempos de catequese, e não destes!
Este ano as escolas são obrigadas a ter ATL's (que incluiem desporto, inglês, música, etc.), pelo que as crianças saiem às 17h30. Mas, para esta "comissão", os pais não são obrigados a pô-las no ATL. Às 16 horas, as crianças da escola mais próxima têm inglês. Reacção: os pais têm que fazer opções, que decidam o que é mais importante, inglês ou catequese. Face a uma sugestão para alterarem os horários, perguntaram-me se pedi o mesmo à escola (que, por acaso, é uma das maiores do país em número de alunos: são 320). Quando manifestei desagrado face a tanta rigidez, deixaram claro que o serviço é gratuito. Quem não paga, não pode reclamar!

Mas eu reclamo. Os conteúdos das escolas e Igrejas não podem competir entre si. A escola ensina letras e números, humanidades e ciências. A Igreja instrui sobre a vida de Cristo e os ensinamentos dos livros sagrados.
De ambos eu espero que complementem a formação das minhas filhas em termos cívicos.

Para mim, esta conversa na ala paroquial da Sé de Aveiro é uma reprodução (se for optimista serão apenas resquícios) da mentalidade católica saloia em que fui obrigada a crescer. As minhas filhas vão ter que esperar. Não encontrei o ambiente certo para elas, nesta idade em que acreditam em tudo o que os adultos lhes dizem e que levam a sério as ameaças. O pecado vai continuar a morar ao lado.

Outras famílias mais temerosas a Deus sacrificarão o inglês. As suas crianças terão que esperar também.


P.S.: Enquanto escrevia isto fiquei com outra impressão: a de que, para a maior parte das pessoas, será incoerente defender o princípio da laicidade no regulamento das instituições públicas, viver pessoalmente com distanciamento os rituais da Santa Sé e optar por dar uma formação religiosa aos filhos. Mas é isso mesmo que eu faço e parece-me uma escolha válida. E este post é uma reclamação: a suposta liberdade que nos assiste hoje é sempre limitada por uma qualquer (muito antiga) pequena imbecilidade ou desorganização.

2.10.06

CineEco #1 ___Há quanto tempo não vão a Seia?


O Cine’Eco foi um dos fundadores da Associação de Festivais de Cinema de Meio Ambiente (EFFN – Environmental Film Festival Network) e, tendo sido o primeiro a surgir em Portugal ligado à cinematografia ambiental, é também um dos mais referenciados na Europa. O estreitamento da componente lusófona tem sido outra das intenções, com a participação de grande número de filmes de países de língua oficial portuguesa, nomeadamente do Brasil, existindo inclusivamente um protocolo de cooperação entre o Cine’Eco e o FICA – Festival de Ambiente de Goiás.
Recentemente, a Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente atribuiu-lhe o Prémio Nacional do Ambiente (2006).

Vejam o programa. Acho que este Festival merece a atenção de todos.


Acorda-me quando Setembro acabar


A Terra

tributo ao outono que, no meu corpo calendário pessoal, só começa em Outubro.


A terra verde entregou-se
a todo o amarelo, ao ouro, às colheitas,
aos torrões, às folhas, ao grão,
mas quando o outono se ergue
com seu largo estandarte
é a ti que eu vejo,
é a tua cabeleira que reparte
para mim as espigas.

Vejo os monumentos
de antiga pedra partida,
porém se toco
a cicatriz da pedra,
teu corpo responde-me,
de imediato os meus dedos
reconhecem
, trémulos,
tua quente doçura.

Passo entre os heróis
recém-condecorados
pela terra e pela pólvora
e atrás deles, muda,
com teus passos miúdos,
tu estás ou não estás?
Ontem, quando arrancaram
pela raiz, para a observar,
a velha árvore anã,
vi-te sair olhando-me
das torturadas
e sedentas raízes.


E, quando o sono vem
estender-me e levar-me
ao meu próprio silêncio,
há um grande vento branco
que derruba meu sono
e caem dele as folhas,
caem sobre mim
como punhais,
ferindo-me.

E cada ferida tem
a forma de tua boca.

Pablo Neruda
in Versos do Capitão,
ed. Campo das letras, trad. Albano Martins

Os novos territórios da psicologia

Qui aurait dit, il y a cent ans, que la psychanalyse allait prendre une telle place dans la psychologie du XXe siècle ? En 1906, Sigmund Freud, âgé de 50 ans, venait de publier sa théorie sur la sexualité infantile. La psychanalyse commençait juste à faire parler d'elle en dehors des cercles viennois. En 1905, Alfred Binet créait le premier test d'intelligence : ce n'est pas encore le QI, créé en 1911, mais son travail allait déclencher un flot ininterrompu de recherches et de polémiques. Ivan Pavlov, dans son laboratoire de Saint-Pétersbourg, faisait saliver les chiens au son d'une cloche. Mais nul ne pouvait prédire la place que tiendrait le behaviorisme* dans la psychologie du XXe siècle. Dix ans plus tard, leurs travaux étaient pourtant connus dans le monde entier....

Se esta matéria vos interessar não percam o Dossier n° 3 da revista Sciences Humaines