8.9.06

Kothbiro

A paixão que eu tenho por este disco, En Mana Kuoyo! Sentir uma extrema subtileza e doçura, um imenso espaço para a mente vaguear. Talvez tenham retido o som de Ayub Ogada em O Fiel Jardineiro de Fernando Meirelles. Ouvir Kothbiro no final do filme foi uma espécie de cereja em cima do bolo!

Haaaaaaaaa, hajé, hajé, hajé, hajé, hajé, hajé
Haaaaaaaaa, hajé, hajé, hajé, hajé, hajé, hajé

U-ma Ku-indja Kothbiro qué luru vokétala
U-ma Ku-indja Kothbiro qué luru vokétala

(escrita em luo, língua falada no Sul do Sudão e no Norte do Quénia)

Recordem
aqui e depois digam-me até onde viajou o vosso espírito livre.
Se conhecerem uma tradução "certificada" da letra da canção, fico eternamente grata (sendo que a gratidão não pode ser uma prisão)
(andamos constantemente a criar amarras e a libertar-nos delas!)(divagar)(escrever uma errata da nossa vida: os momentos das más decisões - sugestão de George Steiner)
(listar as pequenas grandes conquistas)(nunca salvei a humanidade)
(u-ma Ku-indja Kothbiro qué luru vokétala)(tenho a certeza que fala de liberdade)
(pensar livremente o passado altera-o?)
(ou o passado é imutável?)(pensar o passado altera o futuro?)
(os fiéis jardineiros conservam jardins de memórias?)
(existirão sempre guerreiros)(e guerreiros de afectos)
(o Ralph Fiennes é tão inglês!)
(
Haaaaaaaaa, hajé, hajé, hajé, hajé, hajé, hajé)

7.9.06

Banville, O mar e Whistler, Géricault e De La Tour

James McNeill Whistler
Mother, 1871

Estava sentada numa cadeira um pouco afastada de mim, junto à parede, de lado, na mesma postura da mãe de Whistler, com as mãos cruzadas no regaço e o rosto inclinado, pelo que as órbitas se assemelhavam a dois poços escuros e imensos. Uma luz, que julguei ser de uma vela, ardia numa mesa diante dela, projectando um círculo de luz difuso no cenário, que poderia ser um estudo de Géricault ou de De La Tour - um círculo difusamente luminoso com uma mulher sentada e um homem a andar.


Théodore Géricault
Estudo de cabeça


Georges De La Tour
Madalena com a vela fumegante, 1640


Transcrição: in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, p. 161

Imagens: Whistler Mother, An American Icon; Web Gallery of Art

6.9.06

Para não esquecer


Ingrid Betancourt e outros sequestrados pelas FARC não podem ser esquecidos. Nem lembrados pelas piores razões (pelo que a questão que se coloca aqui é muito pertinente).

Ver: Tugir, Canhoto, e outros tantos blogues que decidiram não esquecer

Banville, O mar e Vermeer

A memória não gosta do movimento, prefere reter as coisas imobilizadas e, como acontece com tantas cenas evocadas, estou a ver esta como se fosse um quadro. Rose com o busto inclinado para a frente e as mãos apoiadas nos joelhos, o cabelo caído a tapar-lhe o rosto numa madeixa comprida e brilhante, a escorrer espuma de sabão. Está descalça, vejo-lhe os dedos dos pés sobre a erva crescida, veste uma daquelas blusas de linho branco, de mangas curtas, vagamente tirolesas, tão populares na altura, tufadas na cintura e cingidas nos ombros, bordadas no peito num desenho abstracto a ponto-cruz vermelho e azul-prussiano. O decote é profundamente recortado e vislumbro os seus seios pendentes, pequenos e pontiagudos semelhantes às extremidades de dois fusos.

Johannes Vermeer, que também é conhecido como Vermeer de Delft ou Johannes van der Meer
Rapariga com jarro de leite, 1658-60



Mrs. Grace usa um roupão de cetim azul e delicados chinelos azuis, e transporta consigo para o exterior um perfume incongruente a toucador. Tem o cabelo apanhado junto às orelhas com dois ganchos ou travessões de tartaruga, acho que era assim que lhes chamavam. É visível que se levantou há pouco tempo e o rosto, iluminado pela luz da manhã, revela umas feições ásperas e desarmónicas. Está exactamente na mesma posição da rapariga com o jarro de leite de Vermmer, com a cabeça e o ombro esquerdo inclinados, uma das mãos em concha sob a densa cascata de cabelos de Rose e a outra a despejar um jacto de água prateada de um jarro de esmalte amolgado.

Transcrição: in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 140-141
Imagens: Popular Vermeer

Banville, O mar e Duccio

Duccio di Buoninsegna
Madona e menino, 1280


Em repouso, quando ignorava que a estavam a espiar - e que espião eu era! - mantinha a cabeça inclinada para baixo num ângulo acentuado, com os olhos velados e o queixo com uma pequena covinha enfiado no ombro. Nessas alturas lembrava uma madona de Duccio, melancólica, distante, abnegada, perdida em devaneios sombrios sobre o que o futuro lhe reservara, as coisas que nunca teria.

Transcrição: in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 141-142
Imagem: Works of DUCCIO di Buoninsegna

5.9.06

Banville, O mar e Bonnard III

Pierre Bonnard
O banho, 1925


A obra em que supostamente devia estar a trabalhar é uma monografia sobre Bonnard, um projecto modesto em que estou metido há mais tempo do que gostaria. Um pintor extraordinário, na minha opinião, sobre o qual, como há já muito percebi, não tenho nada de original a dizer. Anna costumava chamar-lhe o Noivas-no-Banho, ao mesmo tempo que soltava um gargalhada. Bonnard, Bonn'art, Bon'nargue. Não, não sou capaz de trabalhar, mas apenas de rabiscar umas coisas.
Seja como for, trabalho não é bem a palavra que eu usaria para aquilo que faço. Trabalho é um termo demasiado vasto e demasiado sério. Os operários trabalham. Os adultos trabalham. Para nós, os medíocres, não existe uma palavra suficientemente modesta que seja adequada para descrever o que fazemos e como o fazemos. Não aceito o diletantismo. É o amadorismo que é diletante, ao passo que nós, a classe ou o género de que estou a falar, somos profissionais. Os profissionais de papel de parede como Vuillard e Maurice Denis eram diligentes - e aqui está outra palavra-chave - como o seu amigo Bonnard, embora a diligência só por si não chegue, nunca é suficiente. Nós não somos nem uns baldas nem uns ociosos.(...)

Acabamos as coisas, ao passo que para o verdadeiro trabalhador, como disse o poeta Valéry, suponho que foi ele, o trabalho nunca está concluído, mas tão só suspenso. Existe uma bela vinheta em que se vê Bonnard no Museu do Luxemburgo acompanhado por um amigo, creio que era Vuillard, a quem ele pede para distrair o guarda do museu enquanto saca da caixa de tintas e refaz uma parte de um dos seus trabalhos ali expoxto há vários anos. Os verdadeiros trabalhadores morrem atormentados por um sentimento de frustação. Tanta coisa por fazer e tanta coisa que não chegou a ser feita!


in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 29-30

Pierre Bonnard
Nu de cócoras no banho, 1940

Banville, O mar e Bonnard II

Pierre Bonnard
Mesa diante da janela, 1930-31


Ainda não descrevi Chloe. Aparentemente, não havia uma grande diferença entre nós, entre mim e ela, naquela idade, em termos do que poderia ser medido. Mesmo o cabelo, quase branco, mas cor-de-trigo quando estava molhado, pouco mais comprido era do que o meu. Usava-o cortado à pagem, com uma franja a tapar-lhe a testa bonita, arqueada e estranhamente convexa - semelhante, apercebo-me de súbito, notavelmente semelhante à testa daquela figura espectral vista de perfil a pairar na extremidade do quadro de Bonnard, Mesa diante da janela, o quadro com a taça de fruta e o livro, e a janela que mais parece uma tela vista de trás, assente num cavalete. (...)
Certo dia, um dos rapazes do Campo garantiu-me, com um sorriso dúbio, que uma franja como a de Chloe era um sinal indesmentível de uma rapariga que brincava sozinha. Ignorava o que ele queria dizer, mas tinha a certeza de que Chloe não brincava, nem sozinha nem de outro modo.

in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 88-89

4.9.06

Banville, O mar e Bonnard

Pierre Bonnard
Marthe au gant de crin, 1920

Certo dia, em 1893, Pierre Bonnard avistou uma rapariga a descer de um eléctrico de Paris e, atraído pela sua beleza frágil e pálida, seguiu-a até ao local onde ela trabalhava, uma agência de pompes funèbres, onde passava os dias a coser pérolas em coroas mortuárias. Foi assim que, desde o início, a morte entrelaçou a sua fita negra na vida de ambos. Ele não tardou a conhecê-la - suponho que que essas coisas eram feitas com naturalidade e um certo aprumo na Belle Époque - e pouco tempo depois ela abandonou o emprego e tudo o resto na sua vida e foi viver com ele. Disse-lhe que se chamava Marthe de Méligny e que tinha dezasseis anos. Na realidade, embora só o viesse a descobrir volvidos mais de trinta anos, quando decidiu finalmente casar com ela, o seu verdadeiro nome era Maria Boursin e, quando se conheceram, não tinha dezasseis anos, mas, como Bonnard, vinte e poucos. Permaneceram juntos atravessando várias vicissitudes, cada vez mais frequentes, até à morte dela cerca de cinquenta anos depois. (...) Era reservada, ciumenta, ferozmente possessiva, sofria de um complexo de perseguição, e era uma hipocondríaca ferrenha e obstinada. Em 1927, Bonnard comprou uma casa, Le Bosquet, numa cidadezinha incaracterística, Le Cannet, na Côte d'Azur, onde viveu com Marthe, remetido a um isolamento intermitentemente atormentado, até à morte dela quinze anos depois. Em Le Bosquet, a mulher criou o hábito de passar intermináveis horas no banho, e foi no banho que Bonnard a pintou, repetidamente, dando continuidade à série mesmo depois da morte dela. Os Baignoires constituem o culminar triunfante da obra de uma vida inteira. No Nu no banho, com cão, começado em 1941, um ano antes da morte de Marthe, e apenas concluído em 1946, ela surge em tons de rosa, malva e ouro, uma deusa num mundo flutuante, emaciada, perene, simultaneamente morta e viva, e ao lado, sobre os ladrilhos, o seu pequeno cão castanho, o seu animal de estimação, suponho que um basset, vigilante, enroscado em cima duma esteira ou do que pode ser um rectângulo de luz desmaiada projectada através de uma janela invisível. O espaço estreito que lhe serve de refúgio vibra à sua volta, nas suas cores latejantes. Os pés, o esquerdo estendido na extremidade da perna imponderavelmente comprida, parecem ter deformado a banheira e provocado um bojo na extremidade esquerda e, por baixo da banheira, do mesmo lado, dentro do campo de forças, também o chão surge desalinhado e como que prestes a esgueirar-se pelo canto, não como um chão mas como uma poça de água escorregadia. Aqui tudo se move, tudo se move serenamente, num silêncio aquoso. Ouve-se um gotejar, um leve murmurejar, um suspiro trémulo. Uma mancha vermelha ferruginosa na água ao lado do ombro direito da banhista talvez seja de ferrujem ou, quem sabe, de sangue seco. (..)
Também ela, a minha Anna, quando adoeceu, adquiriu o hábito de tomar longos banhos à tarde. Dizia que a acalmavam.

Pierre Bonnard
Nu no banho, com cão, 1941-46

Transcrição: in Banville, Jonh, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 97-98

Max Morden, o protagonista deste romance em que se entrelaçam muitas histórias, é um especialista de Bonnard. A escrita do "grande livro sobre Bonnard" vai correr mal. Banville termina O Mar e Max escreveu apenas "metade de um pretenso primeiro capítulo e de um bloco de notas cheio de anotações dispersas e incipientes" (pp 163-164). Ultrapassar a perda recente de Anna e confrontar um trauma de infância vão consumir Max. vai consumir-nos. de dor e muito prazer.

e voltou a acontecer: li um mestre.

3.9.06

Por que vale a pena viver

... porque existem "bôlinhas"! Não as do futebol (meu caro Steiner, compreendo a sua consternação) mas as que se vendem nas praias, cheias de creme e açucar! É claro que a tradição já não é o que era... Agora, o velho pregão "Ólh'a bola de berlim" foi substituido por "Bôlinha"... já que os nossos amigos brasucas, craques de todas as bolas, tomaram conta do negócio! Mas a gente habitua-se logo à modernice e até já imagino os pregões do futuro: оно хочет шарик! Sabem tão bem que todos vão entender os conterrâneos de Roman Abramovich!

Is life worthwhile?

Catherine Bott nodded, "I sing religious music, the Messiah, and the musical instruments are not always authentic. I often feign sincerity. But the audience is inspired anyway. As an atheist I really believe that the music heals. The sceptic George Steiner immediately reacted: "There were maybe 11 people on Golgotha, and perhaps 1400 attended the Missa Solemnis, but the cupfinals make 2,5 billion hearts beat faster when the great Maradonna scores a goal. So what is it that makes life worthwhile? Football, of course, soccer!"

in Of Beauty and Consolation. Ás 2h30 na SIC falava-se assim. Mas tenho uma pergunta para o George Steiner: Que consolação nos dão os incompetentes, corruptos e influentes dirigentes desportivos? As novelas à volta do espectáculo do futebol, tão exploradas pelos media, não têm o efeito inverso? Como pode, por exemplo, um caso como o do Gil Vicente ameaçar o ânimo de (quase) toda uma nação?