10.4.06

O último texto ...

... para o Escritor Famoso, V Edição, foi este:

17. Lino Centelha, Zerozerossete at the blockbuster mountain

O agente secreto ao serviço de Sua Majestade, recentemente convertido aos apelos democráticos da República, colocou-se à disposição do novo inquilino do palácio cor-de-rosa, receoso de perder o lugar de funcionário público arduamente conseguido, para resolver, de uma vez por todas, e como missão ultra-secreta, o caso das escutas telefónicas em envelopes de correio azul. No início as coisas nunca correm muito bem mas a experiência internacional de um agente que até já tivera uma aventura no espaço, há-de resolver todos os percalços mantendo sempre a compostura do fato e do rosto e o ar de impenetrável emoção que tanto apraz ao seu novo patrono que até preferia o MacGyver. (contin.)


Extra concurso, aconselho a leitura a quente de Brincos de Palavra!

8.4.06

O Escritor Famoso V Edição - dia 12

Hoje chegaram mais três textos! Vamos ver o que este fim de semana vai ainda produzir!


14. Fausta Paixão, Oh Captain, my captain

A minha grande questão andava sempre à volta da quadratura do círculo. Havia em mim a curiosidade das linhas infinitas, das intersecções, das elevações do xis e das inúmeras possibilidades das funções f.
Não me perdoava, pois, a ignorância no que dizia respeito às operações concretas, embora me saísse muito bem nas mais complexas operações formais. O que me minimizava sempre diante dos meus amigos intelectuais eram as referências constantes aos integrais e às derivadas. E embora todos soubessem o que me passava pela cabeça perante este tipo de referências o que eu precisava de saber, mesmo, era como efectuar o somatório de coisas contínuas. Em termos pragmáticos esse tipo de operações não me oferecia dificuldade, quanto mais continuidade melhor, era o meu lema. O pior era sempre a parte teórica.
Decidi, pois, frequentar aulas de Matemática no SPA (Special Pythagoric Academy), por recomendação especial do meu amigo Assis Matoso cuja especialidade era o grego. (contin.)


15. Claudia Sousa Dias, Closer, o epílogo

Os seus olhos, enormes e negros, destacam-se na pele branca, de um mate perfeito. Do rosto de Alice/Jane, emana uma expressão de melancolia, realçada pelo sorriso triste que lhe escapa dos lábios entreabertos, conferindo-lhe um je ne sais quoi de alheamento acentuado pela curvatura perfeita do arco das sobrancelhas.



Sentado no lugar em frente, o olhar azul-esverdeado do ex jornalista de obituários exprime dor e saudade. O sorriso é um esgar de amargura. Pequenas rídulas à volta dos olhos denunciam o cansaço acumulado ao mesmo tempo que, dois vincos de tristeza marcam os cantos da boca fina e de contornos perfeitos.



Os dois olhares cruzam-se examinam-se com precisão cirúrgica, sentados à mesa do café onde, seis anos antes, Alice Ayres exercia a função de waitress. (contin.)


16. bastet, Chá no Deserto

Só já pela noite vinham os enxames de estrelas apagar o amarelo das almas cansadas do pó e atenuar o cheiro dos corpos sujos, suados e despidos da dignidade que oferece um banho e roupa fresca. Não há eco no vazio mas o silêncio propaga as vozes quase perto do além. O telefone do deserto. Ouvia os murmúrios de si mesma, como se do ventre lhe soprassem os fantasmas da digestão, e da mente, os estalidos das memórias mais profanas.
Não há cor quando o dia se cerra sobre as dunas. O azul tuareg é negro, fechado e envolve no escuro as sombras e os vultos acocorados em pontos de fogo, luz e fumo. Os Somovares. Neles fumega o chá. Pequenas lamparinas de uma civilização perdida, pequenos sorvos de menta que aquecem o frio e uma esperança qualquer. (contin.)

7.4.06

O Escritor Famoso associa-se ao Lugar da vida secreta das palavras

1. Um dos membros do júri escreve assim, cultivando a vida secreta das palavras.
2. Outro membro do júri e um dos primeiros amigos do Escritor Famoso fazem bater o coração colectando as mais belas palavras do nosso idioma.
3. E para que vos agasto o coração, contando estes segredos? Para que de coisas quase íntimas e simples, belas, se milagrem partilhas. São convites, pois. O primeiro à leitura e ao enamoramento. O segundo à participação numa declaração colectiva de amor às palavras. Pensem naquela que querem eleger e escrevam sobre ela, ou para ela, um pequeno texto. Neste lugar Da vida secreta das palavras os vossos tesouros ficarão guardados.

Eu pensei algodão.

Algodão.


disse logo: algodão. algodão é uma palavra bela. e deve haver uma razão__ ou várias, para que esta palavra, e não outra qualquer, tenha saltado logo do topo da minha mente. é verdade que se chama por ela facilmente: [á]____lgodão. olho outra vez para a palavra. vou olhar imensas vezes para descobrir sentidos____ os que me são familiares e outros estranhos que aparecem sempre que olhamos muito para uma coisa. al__godão alkutum é árabe e gosto de Bi Kidude, rei do taarab. a generosidade de algo__dão contraria o vício capitalista de estimar um preço para tudo. quem dá vai ser____ a senhora da roulotte no parque de diversões, às escondidas do marido que pede 5 euros por algodão azul, rosa ou branco. doce. tenho cinco anos e lambuzo-me de algodão. e trinta anos depois, também. estico o algodão, arranco um pedaço enorme e meto-o na boca. as cores são as da infância. a roupa dos meus bebés. e os tecidos! laváveis a mais de 30°, hipoalergénicos, saudáveis. mas esses não são doces, são macios. estes e os que desmaquilham e lavam feridas.

o que há de universal no algodão: em todos os sentidos da palavra, estica-se na mão. depois de deixar de ser semente. desde a colheita. sendo certo que é melhor evitar falar das plantações. o passado do algodão é negro de escravidão, o presente é tranogânico! por outro lado, se o algodão é História, o algodão é rico. oh, nada desvirtua a beleza da palavra! cor, sabor, textura, filamento de sentidos que não se desvanecem com este saber em rama.



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Bi Kidude, 93 anos, canta Beru

O Escritor Famoso V Edição - dia 11

Hoje chegaram três novos textos, o que perfaz 13 argumentos passíveis de adaptação a uma curta metragem. Mas, até às 24h00 do dia 9 de Abril, podem continuar a concorrer à V Edição do Escritor Famoso!


11. Didas, O homem que via muitos filmes

Abril, dia 9, ano: 3056.
Em frente ao complexo painel de comandos da nave, o Capitão Ant, finalmente a sós consigo mesmo, reflectia sobre tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. A certeza de que dele dependiam algumas centenas de vidas atormentava-o. Atormentava-o ainda mais saber que cada uma dessas vidas era um ser inocente, no desconhecimento total da realidade que era a incerteza do futuro. Apesar de ter assegurado a todos, como era seu dever, que tudo agora estava bem e prosseguiam a bom ritmo na direcção de um novo planeta, a consciência de que ainda havia inúmeros perigos a ultrapassar, provocava-lhe um nó na garganta. E se não conseguisse? E se, por incompetência sua, aquelas vidas se perdessem?
Aquelas vidas era tudo o que restava do que fora, ainda há uns dias, a gloriosa raça humana. (contin.)


12. Elipse, O Cheiro da Igreja

Quando as alpercatas iam chinelando sobre a areia, abrandava o passo, mas se as carrasqueiras rareavam o sol castigava e andava mais depressa. Debaixo do chapéu de palha ainda tinha a protecção do lenço, atado em duas pontas debaixo do queixo, misturando-se o cheiro fresco das estevas com o da transpiração e colando-se as meias à magreza das pernas. Seguia apressada, as mãos a darem o impulso da marcha, de trás para a frente, da frente para trás. Sentia a pieira no peito e o respirar era ofegante mas já avistava as primeiras casas da vila. Começavam a ver-se os chiqueiros dos porcos, à espera da faca que separasse o toucinho para a salgadeira, que o mais dos tempos a fome roía as entranhas. (contin.)


13. Artur Torrado, Roleta Russa

A cena passa-se num dado perfeito. Há um cubículo cúbico em reconstrução. Paredes sem estuque nem escuta, caídas e recuperadas de um ataque.
Uma mesa verde num chão plano. Além do dado, um baralho de cartas escritas a toda a volta com versos e infiéis. Far-se-á uma contabilidade dogmática.
Duas câmaras e várias freguesias, ou uma apenas se for bem gerida, focam alternadamente os rostos sombrios de duas personagens que podem ser dois homens, duas mulheres ou, preferencialmente, por uma questão de cotas, um homem e uma mulher ou uma mulher e um homem, para ser tão correcto quanto possível.
Admitindo que as personagens sejam capazes de dizer alguma coisa, escondem-se microfones e a câmara aproxima-se lenta mas continuamente de um rosto de cada vez. (contin.)

6.4.06

O Escritor Famoso V Edição - dia 10

Depois de uma pausa forçada, voltamos à emissão para realçar as propostas recém chegadas ao Escritor Famoso:


8. Filha da Patroa, A Mutilação de um SonhoDezassete horas.
Como sempre entrei na sala de cinema com a sessão prestes a começar e, pela décima vez nesse dia disse:
- Pede-se o favor de desligarem os telemóveis e manterem silêncio durante o filme. Pipocas e refrescos vendem-se na entrada. A gerência agradece.
Que emprego tão aborrecido... e eu nem sequer gostava de cinema...
Como não tinha mais nada para fazer sentei-me numa cadeira vazia na fila da frente a descansar as pernas antes de regressar a casa. Acho que quando acabou a publicidade e finalmente começou o filme eu já tinha adormecido. Malditos anti-depressivos!
(...)
Acordei com gritos! (contin.)


9. Elipse, Toda a infância cabe numa caixa enferrujada
Nesse dia tinha sonhado com o pai. Dir-se-ia que andava enleada nos caminhos da reconciliação com as memórias. Ela ou a parte de si que se escondia da racionalidade.
Foi depois do sonho que sentiu desejo de voltar à casa antiga. Vestiu-se de roupas novas e recuou no tempo. Paradoxo certeiro mas eficaz nas intenções porque foi na estação do comboio que o passado começou, enquanto o cheiro das travessas da linha se alojava no sentir antigo, quase até ao silvo da locomotiva e à “pouca-terra” anunciada ao longe. A viagem deu-lhe tempo para desejar ter pressa e por isso empurrou com força a porta, depois de ter estado presa ao brilho que o sol reflectia nos vidros. (contin.)


10. Rosarinho, Como descobri que os beijos de cinema não existem
Na minha imaginação de adolescente flutuavam sempre cenas de beijos de cinema. Fechava os olhos para dormir e elas passavam à minha frente ininterruptamente: Cenas amputadas de todos os filmes de amor que eu já havia visto. Uma e outra e outra sem parar até ao fade out do sono.
E eu sonhava ser beijada como no cinema.
Queria um beijo grandioso, com a luz a incidir no ângulo exacto, a harmonia perfeita dos movimentos e o som maravilhoso das orquestras.
Queria que os anjos descessem e nos envolvessem na aura cintilante do amor mágico.
Queria um beijo limpo e etéreo para guardar toda a vida na moldura da memória.
Preparei-me para esse beijo como anos antes me tinha preparado para a primeira comunhão. Imaculadamente.
...
O eleito foi o colega mais velho da turma. (contin.)


Continuaremos a receber os vossos Actos de Cinema! Deixo os links para lerem o mote e para conhecerem os prémios desta edição do concurso O Escritor Famoso.

4.4.06

apeteceu-me outro dia dos blogues...

Chagall. Aqui.


Pérolas de ostras de mar, de mar, e não daquelas que os japoneses criam em cativeiro industrial:

Ventoínhas penduradas no tecto assim estilo vintage mas que refrescam mesmo:

Estrelas que eu ando a descobrir mesmo se geralmente fujo delas:

E depois, Ad tempus ou a Noite em Macau.

E não se esqueçam que está a decorrer a V Edição do Escritor Famoso! E que podem tentar o vosso primeiro (ou segundo ou terceiro ou...) guião de uma curta metragem! Sim, é esse o grande prémio! Hoje ficámos a conhecer um novo concorrente!


PS: estou com problemas de ligação à net, não estranhem um certo silêncio :(

3.4.06

mas mais Winx, não!*



Uma nova sonda colectou finalmente imagens dos misteriosos habitantes do planeta Uterus. São imagens pouco nítidas mas que nos permitem compreender, desde já, algumas das suas características.

Parecem apreciar viver em cavernas sobrepostas, modeladas por paredes extensíveis que assumem formas variadas.

Não medem mais de 2 cm ou 2.1 cm mas têm um coração muito potente que bate ao ritmo de um tambor africano.

Não sabendo ainda o que esperar do nosso mundo, mas já tendo ouvido falar dos paparazzi, escondem-se das câmaras, preferindo o anonimato. Uma atitude sensata!

Com o desenvolvimento da relação entre o nosso e o seu mundo, esperamos vir a captar melhores imagens.

Lisboa, 1 de Setembro de 1999, 8 semanas após a grande fusão molecular.

A acompanhar esta carta para os avós, seguiram imagens retiradas da primeira ecografia. Hoje elas fazem 6 anos. Continuamos a estreitar relações, a cruzar os nossos mundos, e não existe amor maior, como podem imaginar! Mas minhas queridas, mais Winx, não!

* a obsessão do momento: Club das Winx

1.4.06

O Escritor Famoso V Edição - dia 5 (1)

As novidades do dia são excelentes! Teremos dois patrocinadores oficiais nesta V Edição. A livraria O Navio de Espelhos, que tem acompanhado O Escritor Famoso desde o primeiro momento, mantém-se como patrocinador e ponto de encontro de todos os seus amigos. O Cineclube de Aveiro estreia-se como nosso parceiro, ... e em grande! Vejam a qualidade dos prémios a atribuir aos vencedores da V Edição do Concurso O Escritor Famoso:


1° Prémio Escritor Famoso - Cineclube de Aveiro - O Navio de Espelhos

O autor do argumento mais pontuado pelo júri do Concurso terá a oportunidade de ver esta sua criação adaptada a uma curta-metragem. O filme será realizado por Ivar Corceiro (ou outro realizador que o Cineclube designe).

Ou seja, o vosso acto de cinema será transformado numa obra de cinema!

O Navio de Espelhos fará ainda a Oferta de um Livro.



2° Prémio Escritor Famoso
- Cineclube de Aveiro
Ao autor do texto com a segunda melhor classificação será oferecido um conjunto de DVD's.


Prémio Escritor Bairrista
- Cineclube de Aveiro
Oferta de cartão de sócio e anuidade do Cineclube.
Este prémio foi criado a pensar nos aveirenses. Ele será atribuído ao concorrente da Região de Aveiro que obtenha melhor classificação.

Nos próximos dias divulgaremos informações adicionais sobre a curta-metragem, a relação pormenorizada dos restantes prémios (livro, dvd's), assim como a constituição do júri e método de votação.

O Escritor Famoso V Edição - dia 5 (2)

O Escritor Famoso continua a receber excelentes propostas de argumentos... e assim será até ao dia 9 de Abril. Já leram os três últimos?


5. Marte, Estou sim? Deus?

[AW] - Aqui tens. É um presente meu. Sei que lhe darás bom uso.
[JMD] - Um telefone Dourado?
[AW] - Sim e o melhor é que tem uma linha directa para Deus. [Dando um gole do seu Dry Martini]
[JMD] - Uhmmm... estou a ver... Mas o que é que eu poderia ter para falar com Deus?
[AW] - Descobrirás com o tempo. Mas também não precisas de te preocupar com isso. Tens todo o tempo do Mundo. És imortal. És um Deus. És um mito. Não existe tempo para os Deuses...
[JMD] - [Risos] Tudo bem. Muito obrigado pelo presente. Tentarei dar-lhe uso.

[Deserto nos arredores de Los Angeles] [Mustang preto descapotável] [Telefone Dourado no banco do pendura]

[JMD]- Aquele gajo é mais alucinado que eu... uma linha directa para Deus... sim pois... [tentando sintonizar o rádio] Maldito rádio! [dá-lhe um murro]. (contin.)


6. Hipátia, Gilda
A porta abre-se e entra uma fabulosa mulher de vestido longo, azul noite, luvas até ao cotovelo que escondem os alvos braços e cabelo comprido cor de cobre. Bate com força a porta da casa asséptica caiada de branco, com vontade de, dessa vez, construir um castelo.

Começa a encher o espaço de almofadas de penas. Espalha velas perfumadas, pinta no tecto estrelas. Escolhe um pau de incenso perfumado, talvez maçãs verdes, ou qualquer fruto. Semeia confeitos doces e coloridos, ou então pétalas de flores. Faz uma cama no chão. Põe a tocar uma música com guitarras e cítaras.

Depois pára de repente... A câmara pára com ela. (contin.)


7. Joaquim Pavão, Uma questão de genes

Saltou para a frente. Teve que ser. Impulso ou talvez não, lá o carteiro encarregado de convicção se dirigiu por aquele caminho. Acho que lhe “limparam o sarampo” passado pouco tempo. Não sei, tive medo de me reter em corpo e abandonei-me à saudável cobardia. Aquela que nos faz ficar velhos e com sorte pouco doentes. Ele ainda vivia ali. Vida morta, parece que se esqueceu de respirar. Família preta, mas de luto, porque tudo o resto é claro, excepto as manchas negras da velha. Produto da masculinidade do pai do defunto. (contin.)