IEm dias assim envolvida neste choro do tempoouso sairQue são tantas as lágrimas que as minhas se perdem
II
que ramos quebrados são esses
que força usámos para nos perdermos
Chicotes de vento
Chicotes de tempo
III
atravessa o vidro, trespassa a árvoredesventra a nuvem e a neblinapercorre a casa que é um fantasmae o meu olhar não encontra nada.(2)
IEm dias assimSeco as lágrimas nos cantos da bocaE risco a face de arco-íris sem vento;IIDepois trago para dentro o olhar,Ponho ramos secos no centro das mágoasE neles prendo flores viçosas;IIIGanho o dia,Ganho tempo;Amaino o bater dos chicotes nas memóriasE sento-me na calma das palavras. (3)
Eu aceitei a desgarrada, continuando no registo à "Madalena":
Em dias assimo vento rasga os arco-íris que nascem nos meus olhosMas se acaso algum escapae desce à foz que são meus lábios sinto que o tempo o congela e nem a mão o apagae não há mão que me afaguenem manto que me dê asasnem fogueira que me aqueçaaté que esta mágoa passeArcos-lágrima que perdurampor sobre sóis e palavrasespelham tua íris negradespojada de ternura.(4)
E não há mão que me afagueSem conhecer os meus beijosNem afago que resistaAo arco-iris que ponhoNo braseiro dos desejos;Nem manto que me dê asasPorque cavalgo com o ventoPorque aproveito os despojosE não deixo o pensamentoRasgar a luz dos meus olhos;Não há mal que me destruaNem fogueira que me queimeQuando amanheço na fozPorque o tempo é meu amigoE traz-me sempre no ventoLuas novas, sóis diferentesIluminando-me a VidaAté que esta mágoa passe.(5)
E pois, agora eu:
em dias assimolho os girassóis na telameus olhos que seguem os teusolhos que levam os meus pela trelaem dias assimabafo as fogueirasminhas mãos que querem apenas arder nas tuasmãos que se fecham n' algibeiraem dias assimescondo-me neste mantomeu corpo marcado pelo espanto do teucorpo animal de puro sangueespasmos, danças, achas, cheiasque em dias assimrodopiam nos meus olhos como areia.(6)
Em dias assimPonho girassóis nos olhosE sopro, no som dos búzios,O apelo do meu corpo;Sigo depois em dançaTacteando a neblina;Em dias assimFecho a noite à beira das marésE componho a minha dançaNa caligrafia das ondas;Solto os sentidosRasgo-te a peleSoltam-se os gritos...Sente-se a calma;Nesse instante acordo o espantoE sento-me, descalça, no areal.(7)
E como de uma desgarrada nasce uma maratona ou toma lá outro poema, ó parceira:
Descalça no arealparei para sentir a noiteesse instante em que o vento é mais nuo teu corpo fica frio de ventoos odores caiem c'os açoites do aresse instante em que a palavra é mais cruaos olhos erguem-se para a palavra o céu desce até nóstocam-me as luzes que trememe nesse instante quebras um búzio
e suspiras adeus