8.2.05

Carnaval V


Lex

É claro que hoje prefiro olhar para elas. adormecidas. enquanto os foliões cantam na rua.

7.2.05

Do Brasil


Explosão de Cores

A imagem fotográfica é plena, carregada, íntegra, e no entanto, eu insisto em acrescentar-lhe algo. Normalmente, neste espaço, a imagem acrescenta sinais às palavras, é cúmplice do texto. Enildo Amaral é o autor de uma das fotografias que usei como aviso, "atenção, o tema hoje é...". Escreveu-me e disse-me "fotografia é paixão". Deixou um presente que infelizmente não consegui postar aqui (hei-de fazê-lo). Mas porque ele não é parco em interpretações da vida, encontrei uma explosão de cores.
Enildo, hoje, vou pegar na sua alegria e, mesmo sem a folia que se vive por ora no seu país, desejar a todos, BOM CARNAVAL!
Muito obrigada a você.

O Dia do Escrutinador II


Dave April

Segundo Raul Proença (Páginas de Política - 1929, vol. I, Lisboa, 1972, pp 197) é no direito individual, e não no direito do número, que reside a essência da Democracia. Podemos ou não concordar com este princípio, mas o nosso sistema eleitoral (representação proporcional com a regra de Hondt) favorece a representação de várias correntes de opinião no parlamento e dificulta a obtenção de maioria absoluta.
Este sistema tem vários defensores. Um dos mais notáveis terá sido Stuart Mill, ainda em 1861 (Representative Government). Mas também não se livrou de críticas: Joseph Schumpeter (Capitalisme, Socialisme et Démocracie, Paris, 1963, pp 371) referia que era evidente que a representação proporcional não só fornece a todas as idiossincrasias uma ocasião de se manifestarem mas também pode impedir a democracia de se dotar de governos eficientes e pode assim revelar-se perigosa em períodos de tensão.
No próximo dia 20 de Fevereiro, quando estivermos a exercer o nosso direito de voto, os cientistas políticos (enfim, não estes) vão observar como os eleitores ponderam estas questões tão antigas. Vamos votar no projecto político com o qual mais nos identificamos porque essa é a essência da democracia, ou vamos tentar reduzir o eventual efeito da "ingovernabilidade"?
(mas, já agora, identificamo-nos de facto com algum projecto político? conhecemos e diferenciamos os programas de cada partido? é certo que sem maioria absoluta haverá mais instabilidade? não compete aos líderes partidários, homens com sentido de Estado, encontrar plataformas de entendimento no sentido de tornar viável o governo que venha a ser eleito? ou teremos que descobrir uma nova essência para a democracia?)

4.2.05

Venus as a boy, paralelo


Daniel Sarphatie


[Depois de ler o texto do Ivar Corceiro, reagi. Os personagens são os que ele criou. Esta é uma visão paralela do seu Venus as a boy]

Acho que ainda respirava quando comecei a ver-me. a imagem não era nítida. esvaziava os pulmões de oxigénio. estava feio. foi quando comecei a chorar que morri.
Ela saiu cedo. quase me comoveram os movimentos submissos à ordem. chegar à mesma hora ao mesmo escritório, vestir discretamente, cumprir todos os dias. suar pouco. até na cama ela se mantém seca.
Ontem fizemos amor. não me parece que ela tenha percebido qualquer diferença mas nunca tive tanto prazer. sabia que era a última vez. ainda sinto o falo endurecer. morrer completamente não é muito diferente de perder uma perna. levamos algum tempo até deixar de sentir as partes do corpo. ainda tenho comichões e tesão.
Tenho rugas, já não disfarço as olheiras. Quando me vi na banheira, percebi que me tinha sido atribuido o primeiro castigo divino. Olhar para mim morto ao espelho. a água foi ficando menos turva.
Mas depois não foi tão mau assim. Por exemplo, pude continuar a ver televisão.
Não me ocorreu ir à janela. Mas hei-de experimentar lançar-me. Como se mata um morto?
Ela deve estar a chegar.
Mal a vi, soube de imediato que íamos acabar juntos. ela era bonita e esguia. envolvia-me e quando tentava retê-la, fugia-me dos braços. chamava-lhe polvo. sabia que precisava de um polvo. para poder fugir na minha hora sem grandes receios ou culpa.
É melhor não voltar à casa de banho. apesar de ser fácil qualquer movimento. pareço massa de plasticina, amolgo-me, alongo-me, deslizo suavemente sobre a matéria. puxo a pele que já só é uma espécie de película elástica.
Olho para os meus braços. eram bem modelados. há alguns minutos atrás seria angustiante vê-los deformarem-se. se ainda sentisse arrepios. mas não. agora, nem ela, nem ninguém, me pode ver. vou abandonar-me à diluição___________________________________.
É ela. sei que toca a campainha, mas mortos, percebemos logo que não nos podemos dar a ver. como as tartarugas bébés que nunca conhecem a progenitora correm para o mar quando estala o ovo. Atravesso a matéria. Ela resmunga. amo a neurose. mas não resisto aos novos poderes que pressinto. quando ela pousa os sacos, sopro. matéria espalhada.
Oh não, fiquei sem tv! não entres aí!_______________és doce! ____________________pois, a tua vida continua.

Venus as a boy


Daniel Sarphatie

[Um dia destes, entramos numa livraria e pegamos Numa Avenida de Merda do Ivar Corceiro. Ao lado, talvez esteja uma colectânea de contos. Desfolhamos e encontramos Venus as a boy]

Ela fixou um dos produtos que a senhora da caixa passara pelo leitor de códigos de barras. Era comestível e tinha um prazo de validade, e nesse instante assimilou o que o seu companheiro lhe dissera na noite anterior, logo depois de uma hora de sexo: que não queria envelhecer, nem ver-se ao espelho derrotado pelas rugas. Tal como Dorian, insistira antes de adormecer. Pôs as compras nos sacos.
A campainha tocou insistentemente.
Como duas ilhas de origem vulcânica, os seus joelhos emergiam da água elevando-se em direcções simetricamente opostas. As suaves saliências peitorais e a ponta do falo, adormecido no brando ritmo das ondas, completavam um arquipélago ao abandono. Os seus braços escondiam-se atrás das costas, e dada a quietude do corpo, apenas as gotas que pingavam espaçadamente da torneira pareciam provocar movimento na água.
A campainha tocou insistentemente. Por causa dos pesados sacos de compras que trazia, ela já tinha marcas na pele, à volta dos metacarpos, por isso pousou-os no chão para procurar a chave. Os sacos estenderam-se como a clara de um ovo, aumentado a distância entre as suas asas. “Foda-se” – roeu quando se apercebeu da dificuldade acrescida que teria em apanhá-los de novo. Depois abriu a porta, com a chave que demorou a encontrar nos bolsos, e entrou.
A porta ficou entreaberta.
A televisão estava ligada e sozinha. Ela desligou-a empurrando-a levemente para trás, tal a força do impulso com que o fez. Depois dirigiu o olhar para a lâmina de luz que sorrateira se escapava pela frincha da porta da casa de banho. “Quando te decidires a sair da casa de banho vai lá fora buscar as compras” – disse, e continuou, arrependendo-se do seu tom agressivo: - “Por favor...”
Tal como a luz, também o silêncio saiu sorrateiramente pela porta, e embrulhou-a num lençol de frio, talvez branco, pensou esperando a morte. Nele foi envolvida até se aproximar da banheira e afastar o cortinado. Percorreu o cadáver com os olhos, fixando momentaneamente as ilhas com a íris hesitante. Depois beijou-o e foi buscar as compras.

[Espreite outros talentos do Ivar Corceiro, aqui]

3.2.05

O Dia do Escrutinador


Dave April

Estamos em pleno período de campanha eleitoral pelo que, quase diariamente, ouvimos falar de sondagens de opinião. As sondagens aumentam as audiências dos media, os media investem nelas; os políticos comentam as sondagens, contestam-nas se fôr caso disso, às vezes ameaçam instaurar processos; são matérias que vendem. Depois, os partidos políticos também encomendam sondagens e temos sempre a impressão de que estas lhes são mais favoráveis!?
O que resulta de todo este espectáculo é uma enorme descredibilização das sondagens de opinião, nomeadamente de um dos seus tipos, a sondagem eleitoral.
Não acreditando na hipótese de "construção de resultados" por parte das empresas de estudos de mercado, não posso deixar de admitir que existem problemas de natureza metodológica, por um lado, e relativos à publicação/divulgação das ditas sondagens, por outro. Aquando da última revisão da legislação que enquadra as sondagens e as regras jurídicas em matéria da sua divulgação - definidas pela Lei 10/2000, de 21 de Junho -, vários investigadores de reconhecido mérito foram convidados a dar o seu contributo (teórico) pela AACS.
Note-se que cabe à AACS (Alta Autoridade para a Comunicação Social) o poder de fiscalizar a publicação de sondagens eleitorais. É também a AACS que credencia as entidades que podem realizar estes estudos (segundo os últimos dados, são apenas 13).
Ora lendo esses "contributos", críticos em relação à situação e legislação actuais, ficamos imediatamente esclarecidos sobre as limitações objectivas das actuais sondagens. Chamo a vossa atenção para este documento escrito pela profª Maria Helena Gomes que se centra mais nos aspectos ligados à qualidade da informação estatística, mas onde também podemos aprender a ler de forma crítica a ficha técnica de uma sondagem.

A informação estatística pode ser obtida por vários processos, mas o mais comum é através de inquéritos por amostragem. Um inquérito por amostragem tem várias etapas e em cada uma delas há que ter em conta a qualidade. Desde a definição dos objectivos até à divulgação dos resultados, passando pela definição do universo, pelo dimensionamento da amostra, pelo desenho do questionário, pela qualidade dos entrevistadores, etc. tudo isso contribui para a qualidade da informação estatística a obter.(...) Muitas vezes o erro de amostragem foi calculado para determinada desagregação das variáveis, mas a divulgação da informação é feita a um nível mais desagregado. Neste caso o erro de amostragem é com certeza superior e é possível que resulte não só da dispersão, mas também do enviesamento dos dados.

Apesar dos esforços da APODEMO (Assoc. Portuguesa de Empresas de Estudos de Mercado e de Opinião), nomeadamente através da criação do CODEMO, a verdade é que são poucas as empresas que procuraram certificar-se pela Garantia de Qualidade ISO. Pelo que, mesmo que a qualidade média seja elevada, o sector não criou "defesas" que tranquilizem e esclareçam a opinião pública.
No que diz respeito às sondagens publicadas, tenho reparado também que, na ficha técnica, é frequente haver informações omissas. E, o que me parece grave, nunca é nomeado o técnico responsável pelo estudo. A indicação do nome, e a inerente responsabilização pela comprovação e exactidão dos resultados, eliminaria muitos fantasmas, nomeadamente os do nosso primeiro-ministro.
Termino estas notas, recomendando outra leitura - é o contributo do Prof. Jorge Vala que se centra mais na dimensão institucional das sondagens eleitorais.
Para a análise de todas as sondagens que vão sendo publicadas neste período, já devem conhecer o Margens de Erro.
Em "O dia de um Escrutinador", Italo Calvino fez-nos ver que, mesmo junto à mesa eleitoral, tudo pode acontecer. E aqui não há idiotas mas a verdade é que os eleitores indecisos ou pouco convencidos são sensíveis às sondagens eleitorais. Elas podem levar ao voto útil (ou inútil). e há estudos que indicam que este tipo de eleitor também prefere apoiar o partido que é dado como vencedor. Já percebem a raiva do ministro?

2.2.05

Uma casa no fim do mundo


Paulo de Sousa

Michael Cunningham escreveu Uma Casa no Fim do Mundo, antes de As Horas ou de Sangue do Meu Sangue. mas demorei algum tempo até encontrar este livro. dos três, acho que é o meu favorito. mas isso pouco interessa.
O que este livro nos oferece é, mais uma vez, a sensibilidade do escritor. que compõe frases que conseguem transmitir estados psíquicos. os dos seus personagens de ficção, aqui Bobby, Jonathan e Clare. e, por projecção, os dos leitores. Podemos não nos identificar com as vivências afectivas mas certamente as reconhecemos, já as apreendemos aqui e ali, olhando à nossa volta.
Colocar verbalmente estas vivências tão subtis é a arte de Cunningham, embora ele considere (através da personagem "Virginia Woolf", em As Horas) que o livro que se tem na cabeça é sempre melhor do que aquele que se consegue pôr no papel. Neste livro, acompanhamos a história de dois homens, que se conhecem ainda na infância, e de uma mulher que cruza as suas vidas. um retrato da condição humana, cheio de quotidianos, ilusões, morte, fugas, amor, lealdade, aceitação. tudo o que é possível encontrar numa vida. sobretudo se essa vida teimar como a árvore da foto de Paulo Jorge de Sousa.
- Hum. - Bobby pousou o braço nos meus ombros, porque gostava de mim e porque desejava ardentemente que eu me calasse. Rodeei-lhe a cintura com o braço. Lá estava o seu cheiro, a sua carne sólida, familiar. Contemplámos o nascer do sol. Bobby era quente e substancial, o cérebro cheio de pensamentos que me eram ao mesmo tempo familiares e completamente estranhos. Ainda tinha no pulso o sinal cor de fígado. Clare esperava por nós dentro do carro, derrotada pela paisagem. Nesse momento acreditei que nunca tinha amado ninguém além dos meus pais e daquelas duas pessoas. Julgo que nunca recuperamos inteiramente dos nossos primeiros amores. Julgo que, na extravagância da juventude, oferecemos os nossos afectos facilmente, quase arbitrariamente, na falsa convicção de que teremos sempre mais para dar. (pp 265)

Expiação


Ralph de la Rie

Negar a ajuda dele, negar-lhe qualquer possibilidade de remediar o que tinha feito, seria a forma de o castigar. A temperatura inesperadamente baixa da água, que quase a deixou sem respirar, seria o castigo dele. Susteve o fôlego e mergulhou, deixando o cabelo aberto em leque à superfície. Afogar-se seria o castigo dele. Quando emergiu alguns segundos depois, com um caco em cada mão, ele teve o discernimento de não se oferecer para a ajudar a sair da água. (...) Pegou nas sandálias e enfiou-as debaixo do braço, pôs os cacos no bolso da saia e pegou na jarra. Fez tudo aquilo com movimentos selvagens e sem olhar para ele. (pp 36)



Um facto aparentemente simples mudará para sempre, de forma trágica, a vida de Robbie e Cecília. Briony, uma menina de treze anos que gosta de escrever histórias, será a responsável. Qual é o limite do mal que a consciência humana pode suportar? Pode a literatura servir para expiar um pecado?

A infância, a Inglaterra de 1935 até ao pós-guerra, a situação de classes, um crime e a sua expiação, uma história de amor. A escrita de Ian McEwan, marcada por referências subliminares a Jane Austen ou Samuel Richardson (e certamente a outros autores que a vossa erudição descobrirá). São muitas as razões para ler este livro, se ainda não o fizeram.
Eu já o li há algum tempo e ficou-me uma espécie de apego ao livro. a começar pela capa, que é belíssima. acabando na sensação de mestria narrativa que me deu tão bons momentos de leitura. Viajem.

1.2.05

Spectrum 2


MRF, spectrum 2, Aveiro

O canal e uma canção de Serge Reggiani (letra de Claude Lesmele). fragmentos.
Venise n'est pas en Italie
Venise c'est chez n'importe qui
Venise n'est pas là où tu crois
Venise aujourd'hui c'est chez toi
C'est où tu vas,
c'est où tu veux
C'est l'endroit où tu es heureux

Venus as a boy


Vénus, de Aubrey Beardsley

Mesmo filho de zeus e de dione, dos céus e dos deuses
ou fruto do sangue transformado em espuma
que cronos derramou sobre urano, com raiva e poesia

Mesmo se
caracóis de ébano,
ombros nus,
dorso coberto por manto de cauda e roda
seda selvagem sobre pele hérculea,
que teu sexo (que é um cálice) não rasga

(e ainda que)
tronco feito um mastro,
envolto em tecido que são velas
braços num barco sem envergues

(sussuram que)
Nasceste da espuma do mar
e em espuma de dias e noites não numeradas
te diluis
e nós fêmeas e machos, tua corte
residentes e servos da casa tua
soberano
ouvimos galanteios
tocamos nossos teus seios
penteamos enleios
choramos prazeres alheios

(discutem)
Quem são as guardiãs de teu reino
orugã?
a beleza e o amor
ou a tristeza e a cópula
a transgressão e a dor
ou o prazer e a arte

Pares filhos de guerra
tens netos humanos
bisnetos volúpia
ris de Botticelli
e da ninfa de Milo

Acabarás em pedaços
caracóis em farrapos
dorso sobre plintos
braços mutilados

Porque vénus em macho
diz o Oscar Wilde
é sempre maltratado