11.1.05

Bloggers, à vossa!


Sokolsky, fly walk on air

O Barão d' Holbster, dado a sérios pensamentos, fez uma sugestão e, noblesse oblige, fiz logo questão de ser a melhor RP possível.
Então é assim, bloggers de Aveiro e de todo o país: no dia 18 de Fevereiro, vai realizar-se um encontro na livraria O Navio de Espelhos para o qual estais todos convidados. A ideia é bebermos uns copos e conversarmos podendo, quem o desejar, não revelar a sua identidade virtual.
Pelo meio, quem tiver jeito (e não é preciso muito!) e vontade (isso é que é importante!), poderá ler textos seus ou de autores que aprecie. Poderão seleccionar textos dos vossos próprios blogues ou de outros blogues que admirem.
Os premiados do concurso Retrato X-Net que estiverem presentes, receberão o seu Contrabaixo. A grande vencedora, a Viajante, poderá estar presente? E os honrados premiados por categoria?
Para que a coisa resulte, gostaria de vos pedir meia-meia-dúzia de coisas:
1. que divulguem esta iniciativa
2. que nos informem sobre a v/ eventual presença
3. que nos comuniquem se têm a intenção de ler algum texto
Como é evidente, e porque ainda temos tempo, qualquer sugestão que queiram fazer é bem vinda e poderá ser integrada no programa.
Para qualquer informação estamos (eu, a livraria, e... Barão - podemos contar contigo?) à vossa inteiríssima disposição.
Deixo as coordenadas da livraria:
O Navio de Espelhos
Rua 31 de Janeiro, n° 10 - Aveiro (junto ao Teatro Aveirense)
Tel. 234 420 197
Já agora aproveito para vos informar que esta sexta-feita, dia 14 de Janeiro, vai haver, no espaço da livraria, um concerto de apresentação do álbum Canção para Carlos Paredes, com a (própria) Luisa Amaral e Miguel Carvalhinho. É às 21:00 horas e a entrada é livre. É mesmo para não perder!
Para terminar a série de promoções, chamo a v/ atenção para a inclusão de links directos para as entrevistas do Divas & Contrabaixos ali na coluna da direita, e que a entrevista com o Gonçalo Tavares sai, na íntegra, no próximo dia 13.
Bloggers, à Vossa! Tlim.

10.1.05

Eu hoje (não) acordei assim


Joris Van Daele


é uma pena, mas eu hoje não acordei assim.
saí da santa terrinha ao som de All I need is Everything,
viajei. mentalmente.
uma sombra ocultou um sinal de sentido obrigatório,
sonhei STOP, parei.

amanhã, logo direi
mas queria acordar assim,
diva


(posted by Contrabaixo)

A Cosmética do Inimigo


Amélie Nothomb

A 24 de Março de 1999, os passageiros que aguardavam a partida do voo para Barcelona assistiram a um espectáculo inacreditável. Quando o avião já estava com três horas de atraso não explicado, um dos passageiros levantou-se do lugar onde estava sentado e começou a bater com a cabeça contra uma das paredes da sala, uma vez e outra. Movia-o uma violência tão espantosa que ninguém ousou intervir. E continuou até morrer.
As testemunhas daquele suicídio inqualificável foram unânimes quanto a um pormenor. De cada vez que batia com a cabeça contra a parede, o homem acompanhava aquele gesto com um grito. E aquilo que ele gritava era:
- Livre! Livre! Livre!


Esta notícia, lida num jornal, levou Amélie Nothomb a escrever um livro. Sobre a história que ela nos conta nada direi, mas de página em página, até ao surpreendente final, acompanhamos os pensamentos de um homem, Angust, que se sente perseguido. O livro chama-se A Cosmética do Inimigo e está editado pela Bizâncio. Amélie Nothomb é belga mas nasceu no Japão (1967). A sua ligação ao país do sol nascente é uma marca incontornável na sua obra (pelo menos na Metafísica dos Tubos e em Temor e Tremor, livros que já li). Mas este livro é diferente. Este livro revela apenas, mais uma vez, a sua capacidade de pegar numa visão particular, de assumir um universo singular, e construir todo um mundo a partir daí.


O post anterior é já uma homenagem a esta escritora. Lembro-me de começar a ler a Metafísica dos Tubos e de sentir uma enorme vontade de partilhar esse livro com toda a gente. Li tantas vezes aquele primeiro capítulo (em francês parece-me ainda mais poético) que quase o fixei por inteiro, poderia declamá-lo! A passagem para o segundo capítulo foi outra revelação. Espero convencer-vos a espreitar esta autora, em Portugal ela ainda é pouco conhecida. No post seguinte, voltarei a ela. Por agora, releiam o fabuloso início da Metafísica dos Tubos e digam-me quem imaginam que seja Deus!

9.1.05

Metafísica dos Tubos


Amélie Nothomb

No princípio não havia nada. E este nada não era vazio nem vago: ele não apelava a nada a não ser a ele próprio. E Deus viu que isso era bom. Por nada deste mundo ele teria criado o que quer que fosse. Mais do que convir-lhe, o nada preenchia-o.
Deus tinha os olhos perpetuamente abertos e fixos. Se eles estivessem fechados, não teria mudado grande coisa. Não havia nada para ver e Deus não olhava para nada. Ele era cheio e denso como um ovo duro, e também tinha a redondeza e a imobilidade deste.
Deus era a absoluta satisfação. Ele não queria nada, não percebia nada, não recusava nada e não se interessava por nada. A vida era de tal forma esta plenitude, que não era vida. Deus não vivia, existia.
A sua existência não teve para ele um começo perceptível. Alguns grandes livros têm primeiras frases tão pouco turbulentas que as esquecemos logo e que nos dão a impressão de que estamos instalados nessa leitura desde a alvorada dos tempos. Da mesma maneira, era impossível saber o momento a partir do qual Deus tinha começado a existir. Era como se ele sempre tivesse existido. Deus não tinha linguagem e portanto ele não tinha pensamento. Ele era saciedade e eternidade. E tudo isto provava, ao mais alto nível, que Deus era Deus. E esta evidência não tinha nenhuma importância, porque Deus estava-se nas tintas de ser Deus.


Os olhos dos seres vivos possuem a mais espantosa das propriedades: o olhar. Não há nada mais singular. Não dizemos dos ouvidos das criaturas que eles têm um ouvidar, nem das suas narinas que elas têm um narinar.
O que é um olhar? É inexprimível. Nenhuma palavra se aproxima da sua essência estranha. E no entanto, o olhar existe. São mesmo poucas as realidades que existem tanto assim.
Qual é a diferença entre os olhos que têm um olhar e os olhos que não o têm? Esta diferença tem um nome: é a vida. A vida começa ali, onde começa o olhar.
Deus não tinha olhar.


As únicas ocupações de Deus eram a deglutição, a digestão e, consequência directa, a excreção. Estas actividades vegetativas passavam pelo corpo de Deus sem que ele se apercebesse delas. A alimentação, sempre a mesma, não era suficientemente excitante para que ele reparasse nela. O estatuto da bebida não era diferente. Deus abria os orifícios necessários para que os alimentos sólidos e líquidos o atravessassem.
É por isso que, neste estado do seu desenvolvimento, nós chamaremos a Deus, o tubo.
Há uma metafísica dos tubos.

Depois de lerem este fragmento (primeiro capítulo de um livro), quem imaginam que seja Deus? O Contrabaixo será atribuído à primeira resposta correcta. Há menções honrosas para as melhores aproximações.

8.1.05

Os meus surreal referrals


Sokolsky, Surreal Rocket

Ainda muito verde nestas coisas da blogosfera, dei comigo a cuscar os referrals do SiteMeter e a não entender nada! Como é possível? A verdade é que às vezes aparecem umas referências bizarras. Viajemos! (sabem que prometi links à Viajante em 10 posts, não sabem?)
Para começar aparecem por aqui uns americanos, com uns nomes que mais parecem vírus, e que ainda por cima são muito mauzinhos. Por exemplo experimentem a Kdbelle, cusquem as fotografias do casal que aparece nas fotos e depois digam qualquer coisinha! (amorosos!) Mas há outros: que tal a Terministic Reality? - Amanda até é engraçada, quer ser escritora mas não tem tempo para escrever, gosta de Shakespeare, Foucault e Nicholas Spark!? Ainda mais giro, I can unwrap starbusts in my mouth! A verdade é que vou lendo estes blogues com a curiosidade do mirone que quer conhecer o daily day do americano médio.
Mas hoje fui assaltada pelo AcneTreatmentPortal! Fiquei à toa. Vieram cá para quê? Nunca tive borbulhas! Com este não se aprende nada!
Porque com outros há a satisfação da revelação. O mais interessante blogger que veio cá parar (como?) foi o Muhannad. Em My Life encontrei um jovem sírio em estado de grande depressão. Por razões profissionais está a viver na Arábia Saudita desde há alguns meses (e parece que é bem pago). O blogue foi criado por ele para comunicar com os amigos. Sente saudades, odeia a vida que leva, mulheres nem vê-las, despreza aquele novo país, pondera decisões, enfim! fiquei felícissima quando ele soube que ia ter duas semanas de férias! Neste momento ainda deve estar na Síria. Também é curioso ver como a língua inglesa é usada.
Do Canadá, chegou a universitária H-Train com as suas Chronicles. Vejam o post com a lista das banished words para 2005 da Lake Superior State University.
De Espanha tenho o jornalista Nacho de la Fuente a criticar o sistema político e judicial do seu país que vai deixar sair em liberdade um sanguinário terrorista da ETA. Sentimo-nos muito próximos dos nossos hermanos quando lemos os seus comentários. a propósito das primeiras e muito agressivas rebajas do ano. ou, pasme-se, quando cita o discurso de tomada de cargo do novo director da Television Española, Manuel Pérez Estremera. Vou deixar-vos com essas palavras:
"Vivemos uma certa esquizofrenia ao pedir uma televisão de qualidade que, ao mesmo tempo, tenha audiência."
E com a conclusão do meu paraquedista:
"Vuelta al marujeo estridente y barato."

7.1.05

Réplicas nas grelhas televisivas


Ilha Phi Phi

As televisões informaram o mundo. que constatou a enormidade da catástrofe na Ásia. E depois, sobreinformou. Entre o dia 26 de Dezembro de 2004 e o dia 2 de Janeiro de 2005, o tsunami motivou 988 notícias nos serviços informativos regulares dos quatro canais portugueses. Segundo dados da MediaMonitor/Marktest, nestes 8 dias, 48.8% das peças emitidas estavam relacionadas com o tsunami. Somando as notícias de todos os canais, temos uma média de 124 peças por dia - 124 marteladas! já que as peças eram muitas vezes repetidas.
A SIC foi a estação que mais noticiou sobre este tema - que representou 65.8% da sua grelha informativa regular. O canal passou 335 notícias sobre a catástrofe (dá uma média de quase 42 notícias por dia!). Corresponde a 11:09 horas de informação sobre o tsunami num total de 16:57 horas de notícias.
Na TVI passaram 303 notícias, que corresponderam a 10:29 horas de tsunami num total de 17:00 horas de informação.
A RTP passou 228 peças sobre o tsunami com a duração total de 8:22 horas em 19:44 horas de informação.
A 2: dedicou ao acontecimento 122 peças informativas por um período de 3:27 horas (em 6:40 de noticiários). Com cerca de 52% da grelha dedicada a este tema, foi a que menos insistiu na tragédia!
E por que se batiam as estações televisivas? Pelas audiências, pois claro. Ou não vivessem delas! Mas perderam qualquer noção de equilíbrio! A grande vencedora foi a SIC: o canal atraiu 38.0% do total da informação vista sobre este tema; seguem-se a TVI, com 32.9% de visibilidade, a RTP (27.5%) e a 2: (1.7%).
A todas agradecemos a possibilidade de, em directo, poder assistir à aplicação do princípio de informação por mono-temas sequenciais. Para ficarmos a saber o que não queremos mais!

O diabo de Vincent



Segundo post sobre o mesmo livro e autor. Quem é o diabo de Vincent? Não vá o diabo tecê-las!
O Diabo de Jean-Didier Vincent é darwiniano. Encarna a necessidade que nós somos de morrer para viver, de sofrer para ter prazer, de nos confrontarmos com o outro sexo para existirmos. O diabo não é o mal, é o coração da dinâmica vital - aquela onde se defrontam os contrários.
Quem quiser ficar a conhecer um pouco mais este autor e a sua dupla atracção (o diabo, o princípio negativo da vida; a carne, o princípio positivo), leia esta entrevista do LePoint, a propósito do lançamento do seu último livro, Le Coeur des Autres - Biologie de la Compassion.
Viagem comigo!

6.1.05

A carne e o diabo


Paulo de Sousa

O que determina o nosso destino amoroso? O que nos leva à dependência da droga ou ao vício do jogo? O que nos transforma em assassinos em série? Por que desejamos ter poder? Quem controla o que nós somos?
- O diabo. "Se eu não existisse, nada existiria, porque não haveria nada contra o qual se opôr" - fê-lo dizer Fernando Pessoa.
Invenção de um poeta? Talvez não.
Jean-Didier Vincent é um dos mais famosos biólogos do nosso tempo e professor de Neurofisiologia no Instituto Alfred-Fessard. Escreveu La Chair et le Diable onde explora o princípio de oposição, desde a vida animal ao cérebro do homem. Ler este cientista é fazer uma viagem ao conhecimento. Em Portugal não encontrei este livro (tenho o das Éditions Odile Jacob, Paris, 2000) mas encontrei outros, do mesmo autor. Aconselho mesmo. E a linguagem é muito acessível (diz uma socióloga que gosta apenas de ler sobre biologia e neurobiologia). Eis o que encontrei:
- Biologia das Paixões, Ed. Europa-América, Col. Biblioteca Universitária
- A Vida é uma Fábula, Ed. Temas e Debates, 1999
- O que é o Homem?, Ed. ASA (co-autoria com Luc Ferry)
Não há acto sem emoção subjacente e a palavra é o mais apaixonado dos actos. As minhas palavras e os meus gestos, por um lado, os meus prazeres e as minhas dores, por outro, não existem uns sem os outros; eles encontram-se todos nos caminhos do céu e do inferno. (pp 120)

A Política como vocação

Em 1919 Max Weber publica A Política como Vocação.* Será que Santana Lopes teve tempo para ler esta obra?

O chefe depende para o seu triunfo do funcionamento deste aparelho (partidário), dependendo portanto dos motivos do aparelho e não dos seus próprios. Tem pois que assegurar permanentemente essas recompensas para os partidários de que necessita (...) Nessas condições, o resultado objectivo da sua acção não lhe fica nas mãos, sendo-lhe imposto por motivos éticos, predominantemente abjectos, dos seus sequazes, que só podem ser refreados na medida em que pelo menos uma parte deles, que neste mundo nunca será a maioria, seja animada por uma nobre fé na sua pessoa e na sua causa. (...) e o que sucede é que, após a revolução emocional, o quotidianismo tradicional volta a impôr-se: os heróis da fé e a própria fé desaparecem ou, o que é ainda mais eficaz, transformam-se em parte constitutiva da fraseologia dos aldrabões e dos técnicos da política.(...) O génio ou o demónio da política vive em íntima tensão com o deus do amor...

*in Max Weber, O Político e o Cientista, Ed. Presença, pp 93

Sócrates

Dei a entender por que motivos fascinava Sócrates: parecia ser um médico, um salvador. É necessário mostrar ainda o erro que havia na sua fé na "racionalidade" a qualquer preço? - É um auto-engano por parte dos filósofos e moralistas acreditarem que se livram da décadence pelo facto de lhe moverem guerra. O escapar-lhe é algo que está para além da sua força: o que eles escolhem como remédio, como salvação, não é por seu lado mais que uma outra expressão da décadence - modificam a sua expressão, porém não a eliminam.*

Felizmente era Nietzsche que escrevia assim, há já muito tempo, de Sócrates, o filósofo grego. Não, não era sobre o futuro primeiro-ministro de Portugal!


*in Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, Guimarães Editores, pp31