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2.8.06

Cuidado com a doçura das coisas III

Meia hora depois Henri atravessou o prado. Estava um pouco triste e tinha pressa de reencontrar Catherine e de dormir junto ao seu corpo. Empurrou a porta de entrada, tirou as botas, colocou-as atrás da porta, acendeu a luz, e quase tropeçou no corpo nu de Catherine que estava deitada na escada, de olhos fixos no vazio.
- É a minha pateta que aqui está? - perguntou com uma voz que ocultava mal o medo que sentia, sentando-se com cuidado no degrau ao lado da cabeça dela. O que é que está aqui a fazer, assim, sozinha?
(...)
Levantou-a suavemente, ela fechou os olhos e deu-lhe a morder o punho, que ia empurrando e esmagando o nariz dele como um sinal de aviso, enquanto ele subia rapidamente a escada com o seu fardo.
(pp 85)

Cuidado com a doçura das coisas II

Catherine, sem ter ainda acabado o coelho e para lhe mostrar quão maravilhosa era a vida deles, falou ao marido nas framboesas com natas que viriam logo a seguir para a mesa; depois enquanto comia sofregamente as framboesas - já que nela a felicidade era nervosa e ávida -, apontou para as cadeiras meio ao sol meio à sombra, onde a seguir se poderiam aprazivelmente deitar os três durante a tarde, e talvez depois, por volta das cinco horas, tomar um chá para acompanhar os merengues. (...)
Os olhos de Henri assemelhavam-se aos do touro que vigia ao mesmo tempo a capa vermelha, roçando o chão, e o momento da estocada. De repente deu uma palmada no ombro de onde voou, calmo e ondulante, um mosquito que foi perder-se no ar.
- O estupor picou-me, disse. Saiu da mesa e deixou-as ali plantadas.
(pp 67)

Cuidado com a doçura das coisas

Entretanto, no andar de baixo, na cozinha, Catherine tinha trazido a cadeira para comer um cacho de uvas ao lado do marido.
- Hoje estás com a tua cara larga, hein? - disse ele esticando o queixo.
Catherine ocultou a vontade de rir sob um ar de criança repreendida. Henri tinha reparado que aquela pequena cara de mulher, ainda imprecisa, podia alongar-se ou alargar-se de um dia para o outro, sob o efeito do fígado ou do humor. Pegou nela ao colo, enquanto ela fingia só prestar atenção ao seu cacho de uvas.
- A minha mulher tem três tipos de cara: a cara comprida, a cara larga e... Qual é a terceira, afinal?
Catherine não queria responder. Pretensamente confusa, pestanejava e fazia trejeito de amuo.
- Diz lá qual é a tua terceira cara, franganita.
-... É a minha cara horrorosa, balbuciou Catherine.
Desataram a rir, beijando-se e batendo-se como sempre que ele a obrigava a confessar a existência dessa terceira cara. Acabou tudo num longo beijo, ali, no meio da cozinha, e Catherine transformou-se em hera, com pequenas mãos por todo o lado.
(pp 72)