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12.3.07

Bon anniversaire, Dominique!

Pierre Bonnard

"Vois-tu, là-bas, cette fenêtre? Elle est noire, comme toutes les autres. Regarde bien. Dans une minute elle va s'éclairer. Elle sera rouge." La minute passe. La fenêtre s'éclaire. Il y a, en effet, des rideaux rouges. (Je regrette, mais je n'y puis rien, que ceci passe peut-être les limites de la credibilité. Cependant, à pareil sujet, je m'en voudrais de prendre parti: je me borne à convenir que de noire, cette fenêtre est alors devenue rouge, c'est tout.)
(...)
Vois tu ce qui se passe dans les arbres? Le bleu et le vent, le vent bleu. Une seule autre fois j'ai vue sur ces mêmes arbres passer ce vent bleu.
(...)
Pourtant elle cherche quelque chose, elle tient absolument à ce que nous entrions dans une cour... C'est de là que tout peut venir. C'est de là que tout commence.


in André Breton, Nadja
Gallimard, 1964
(acheté à Roanne, l'été dernier ;)

5.9.06

Banville, O mar e Bonnard III

Pierre Bonnard
O banho, 1925


A obra em que supostamente devia estar a trabalhar é uma monografia sobre Bonnard, um projecto modesto em que estou metido há mais tempo do que gostaria. Um pintor extraordinário, na minha opinião, sobre o qual, como há já muito percebi, não tenho nada de original a dizer. Anna costumava chamar-lhe o Noivas-no-Banho, ao mesmo tempo que soltava um gargalhada. Bonnard, Bonn'art, Bon'nargue. Não, não sou capaz de trabalhar, mas apenas de rabiscar umas coisas.
Seja como for, trabalho não é bem a palavra que eu usaria para aquilo que faço. Trabalho é um termo demasiado vasto e demasiado sério. Os operários trabalham. Os adultos trabalham. Para nós, os medíocres, não existe uma palavra suficientemente modesta que seja adequada para descrever o que fazemos e como o fazemos. Não aceito o diletantismo. É o amadorismo que é diletante, ao passo que nós, a classe ou o género de que estou a falar, somos profissionais. Os profissionais de papel de parede como Vuillard e Maurice Denis eram diligentes - e aqui está outra palavra-chave - como o seu amigo Bonnard, embora a diligência só por si não chegue, nunca é suficiente. Nós não somos nem uns baldas nem uns ociosos.(...)

Acabamos as coisas, ao passo que para o verdadeiro trabalhador, como disse o poeta Valéry, suponho que foi ele, o trabalho nunca está concluído, mas tão só suspenso. Existe uma bela vinheta em que se vê Bonnard no Museu do Luxemburgo acompanhado por um amigo, creio que era Vuillard, a quem ele pede para distrair o guarda do museu enquanto saca da caixa de tintas e refaz uma parte de um dos seus trabalhos ali expoxto há vários anos. Os verdadeiros trabalhadores morrem atormentados por um sentimento de frustação. Tanta coisa por fazer e tanta coisa que não chegou a ser feita!


in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 29-30

Pierre Bonnard
Nu de cócoras no banho, 1940

Banville, O mar e Bonnard II

Pierre Bonnard
Mesa diante da janela, 1930-31


Ainda não descrevi Chloe. Aparentemente, não havia uma grande diferença entre nós, entre mim e ela, naquela idade, em termos do que poderia ser medido. Mesmo o cabelo, quase branco, mas cor-de-trigo quando estava molhado, pouco mais comprido era do que o meu. Usava-o cortado à pagem, com uma franja a tapar-lhe a testa bonita, arqueada e estranhamente convexa - semelhante, apercebo-me de súbito, notavelmente semelhante à testa daquela figura espectral vista de perfil a pairar na extremidade do quadro de Bonnard, Mesa diante da janela, o quadro com a taça de fruta e o livro, e a janela que mais parece uma tela vista de trás, assente num cavalete. (...)
Certo dia, um dos rapazes do Campo garantiu-me, com um sorriso dúbio, que uma franja como a de Chloe era um sinal indesmentível de uma rapariga que brincava sozinha. Ignorava o que ele queria dizer, mas tinha a certeza de que Chloe não brincava, nem sozinha nem de outro modo.

in Banville, John, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 88-89

4.9.06

Banville, O mar e Bonnard

Pierre Bonnard
Marthe au gant de crin, 1920

Certo dia, em 1893, Pierre Bonnard avistou uma rapariga a descer de um eléctrico de Paris e, atraído pela sua beleza frágil e pálida, seguiu-a até ao local onde ela trabalhava, uma agência de pompes funèbres, onde passava os dias a coser pérolas em coroas mortuárias. Foi assim que, desde o início, a morte entrelaçou a sua fita negra na vida de ambos. Ele não tardou a conhecê-la - suponho que que essas coisas eram feitas com naturalidade e um certo aprumo na Belle Époque - e pouco tempo depois ela abandonou o emprego e tudo o resto na sua vida e foi viver com ele. Disse-lhe que se chamava Marthe de Méligny e que tinha dezasseis anos. Na realidade, embora só o viesse a descobrir volvidos mais de trinta anos, quando decidiu finalmente casar com ela, o seu verdadeiro nome era Maria Boursin e, quando se conheceram, não tinha dezasseis anos, mas, como Bonnard, vinte e poucos. Permaneceram juntos atravessando várias vicissitudes, cada vez mais frequentes, até à morte dela cerca de cinquenta anos depois. (...) Era reservada, ciumenta, ferozmente possessiva, sofria de um complexo de perseguição, e era uma hipocondríaca ferrenha e obstinada. Em 1927, Bonnard comprou uma casa, Le Bosquet, numa cidadezinha incaracterística, Le Cannet, na Côte d'Azur, onde viveu com Marthe, remetido a um isolamento intermitentemente atormentado, até à morte dela quinze anos depois. Em Le Bosquet, a mulher criou o hábito de passar intermináveis horas no banho, e foi no banho que Bonnard a pintou, repetidamente, dando continuidade à série mesmo depois da morte dela. Os Baignoires constituem o culminar triunfante da obra de uma vida inteira. No Nu no banho, com cão, começado em 1941, um ano antes da morte de Marthe, e apenas concluído em 1946, ela surge em tons de rosa, malva e ouro, uma deusa num mundo flutuante, emaciada, perene, simultaneamente morta e viva, e ao lado, sobre os ladrilhos, o seu pequeno cão castanho, o seu animal de estimação, suponho que um basset, vigilante, enroscado em cima duma esteira ou do que pode ser um rectângulo de luz desmaiada projectada através de uma janela invisível. O espaço estreito que lhe serve de refúgio vibra à sua volta, nas suas cores latejantes. Os pés, o esquerdo estendido na extremidade da perna imponderavelmente comprida, parecem ter deformado a banheira e provocado um bojo na extremidade esquerda e, por baixo da banheira, do mesmo lado, dentro do campo de forças, também o chão surge desalinhado e como que prestes a esgueirar-se pelo canto, não como um chão mas como uma poça de água escorregadia. Aqui tudo se move, tudo se move serenamente, num silêncio aquoso. Ouve-se um gotejar, um leve murmurejar, um suspiro trémulo. Uma mancha vermelha ferruginosa na água ao lado do ombro direito da banhista talvez seja de ferrujem ou, quem sabe, de sangue seco. (..)
Também ela, a minha Anna, quando adoeceu, adquiriu o hábito de tomar longos banhos à tarde. Dizia que a acalmavam.

Pierre Bonnard
Nu no banho, com cão, 1941-46

Transcrição: in Banville, Jonh, O Mar, ed. ASA, Junho 2006, pp 97-98

Max Morden, o protagonista deste romance em que se entrelaçam muitas histórias, é um especialista de Bonnard. A escrita do "grande livro sobre Bonnard" vai correr mal. Banville termina O Mar e Max escreveu apenas "metade de um pretenso primeiro capítulo e de um bloco de notas cheio de anotações dispersas e incipientes" (pp 163-164). Ultrapassar a perda recente de Anna e confrontar um trauma de infância vão consumir Max. vai consumir-nos. de dor e muito prazer.

e voltou a acontecer: li um mestre.