tributo ao outono que, no meu corpo calendário pessoal, só começa em Outubro.
A terra verde entregou-sea todo o amarelo, ao ouro, às colheitas,aos torrões, às folhas, ao grão,mas quando o outono se erguecom seu largo estandarteé a ti que eu vejo,é a tua cabeleira que repartepara mim as espigas.Vejo os monumentosde antiga pedra partida,porém se tocoa cicatriz da pedra,teu corpo responde-me,de imediato os meus dedos
reconhecem, trémulos,tua quente doçura.Passo entre os heróisrecém-condecoradospela terra e pela pólvorae atrás deles, muda,com teus passos miúdos,tu estás ou não estás?Ontem, quando arrancarampela raiz, para a observar,a velha árvore anã,vi-te sair olhando-medas torturadas
e sedentas raízes.E, quando o sono vemestender-me e levar-meao meu próprio silêncio,há um grande vento brancoque derruba meu sonoe caem dele as folhas,caem sobre mim
como punhais, ferindo-me.E cada ferida tema forma de tua boca. Pablo Neruda
in Versos do Capitão,
ed. Campo das letras, trad. Albano Martins