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2.10.06

A Terra

tributo ao outono que, no meu corpo calendário pessoal, só começa em Outubro.


A terra verde entregou-se
a todo o amarelo, ao ouro, às colheitas,
aos torrões, às folhas, ao grão,
mas quando o outono se ergue
com seu largo estandarte
é a ti que eu vejo,
é a tua cabeleira que reparte
para mim as espigas.

Vejo os monumentos
de antiga pedra partida,
porém se toco
a cicatriz da pedra,
teu corpo responde-me,
de imediato os meus dedos
reconhecem
, trémulos,
tua quente doçura.

Passo entre os heróis
recém-condecorados
pela terra e pela pólvora
e atrás deles, muda,
com teus passos miúdos,
tu estás ou não estás?
Ontem, quando arrancaram
pela raiz, para a observar,
a velha árvore anã,
vi-te sair olhando-me
das torturadas
e sedentas raízes.


E, quando o sono vem
estender-me e levar-me
ao meu próprio silêncio,
há um grande vento branco
que derruba meu sono
e caem dele as folhas,
caem sobre mim
como punhais,
ferindo-me.

E cada ferida tem
a forma de tua boca.

Pablo Neruda
in Versos do Capitão,
ed. Campo das letras, trad. Albano Martins

22.4.05

O Filho


Henk Braam, foetus

Em plena guerra, a vida levou-te a ser o amor do soldado...

Ai, filho, sabes, sabes
donde vens ?

Dum lago com gaivotas
brancas e famintas.

Junto à água de inverno
ela e eu levantámos
uma fogueira rubra,
consumindo os lábios
de tanto beijarmos nossas almas,
lançando ao fogo tudo,
queimando as nossas vidas.

Assim vieste ao mundo.

Mas ela, para ver-me
e para ver-te, um dia
atravessou os mares
e eu, para abraçar
sua pequena cintura,
percorri a terra inteira,
por entre guerras e montanhas,
areais e espinhos.

Assim vieste ao mundo.

Vens de tantos lugares,
da água e da terra,
do fogo e da neve,
de tão longe caminhas
ao encontro de nós dois,
desse terrível amor
que nos acorrentou,
que queremos saber
como és, que nos dizes,
porque tu sabes mais
do mundo que te demos.

Como uma grande
tempestade sacudimos
a árvore da vida
até às mais ocultas
fibras das raízes
e apareces agora
cantando na folhagem,
no mais alto ramo
que contigo alcançamos.

in Pablo Neruda, Os Versos do Capitão

21.4.05

Se tu me esqueces


Sokolsky

Quero que saibas
uma coisa

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento na minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me,
deixarei de amar-te a pouco e pouco.

Se de repente
me esqueceres,
não me procures,
que já te terei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar nova terra.

Mas
se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.

Pablo Neruda