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6.9.09

Cartilhas


O Jornal Nacional de Sexta (JN6) de Manuela Moura Guedes desapareceu e eu acho que o país fica melhor sem aquele triste espectáculo noticioso. A vigília de solidariedade a Manuela Moura Guedes faz-me lembrar as visões de Lúcia, a reeleição de Fátima Felgueiras, o visionamento massivo de telenovelas, enfim, o país no seu melhor! Quanto à importante questão da falta de liberdade de expressão, não me preocupo. O Público continua aí e enquanto Cintra Torres, prestigioso analista televisivo político da nossa praça, não for mandado para a judiciária pelo seu último artigo de opinião (em destaque nesse "jornal de referência"), está tudo bem!

«
O PS-governo segue o mesmo caminho de Chàvez, ao perseguir paulatinamente, um a um, os seus críticos: e segue o mesmo caminho de Putin, ao construir uma democracia meramente formal, em que se pode dizer que a decisão foi da Prisa não dele, em que se pode dizer que os empresários são livres, que os juízes são livres, que os funcionários públicos são livres, que os professores são livres, que os jornalistas são livres, que a ERC é livre, etc — mas o contrário está mais próximo da verdade. Para todos os efeitos, Portugal é uma democracia formal, mas estas medidas protofascistas vão fazendo o seu caminho. Não dizia Salazar que Portugal era mais livre que a livre Inglaterra? Sócrates e Santos Silva dizem o mesmo.»


Ah, e na imprensa local e regional, quem dita a cartilha?

Imagem: Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro sobre todos dizerem coisas diferentes mas fazerem o mesmo. À frente Fontes Pereira de Mello, Barros Gomes e o sumido Braamcamp. Atrás, olhando por cima com o seu lorgnon, o Duque de Ávila então Presidente da Câmara dos Pares.

26.8.09

Negócio das piscinas: Bloco toma iniciativa de apresentar queixa-crime no MP e participação ao TC

«O Bloco de Esquerda anunciou hoje, através da cabeça-de-lista do partido nas próximas eleições autárquicas em Aveiro, Catarina Gomes, que vai apresentar uma queixa no Ministério Público (MP) para "avaliar a legalidade" do chamado "negócio das piscinas".
Seguirá também uma participação no Tribunal de Contas (TC) porque "independentemente da legalidade" a venda de parte do complexo "é lesivo para o interesse públicos".
Catarina Gomes, que estava acompanhada do número um da lista do Bloco pelo distrito nas eleições legislativas, Pedro Soares, considerou "indispensável" estas denúncias, "apesar" do processo vir a ser objecto de investigação da Inspecção Geral da Administração Local (IGAL) a pedido da Câmara - embora, alega o Bloco, o processo esteja incompleto, sem segunda parte do negócio, respeitante às maias valias do Beira-Mar na revenda – bem como de investigações já confirmadas pela PJ de Aveiro.
O Beira-Mar não chegou a pagar as piscinas, pelas quais já recebeu 700 mil euros do novo proprietário, alegando dificuldades de tesouraria e problemas administrativos ao nível bancário, o que levou a edilidade a ponderar a nulidade do negócio.
“É contra esta politica de subalternização do poder público para com privados que o Bloco se insurge”.
Segundo o Bloco, as dívidas ao Beira-Mar deveriam ter sido englobadas no empréstimo bancário.
O valor cobrado também voltou a motivar reparos. “O executivo alegou na Assembleia Municipal que a venda era pelo valor do mercado, agora diz que foi a preços baixos para a especulação imobiliária pagar ao Beira-Mar. Há aqui uma falta de verdade e por outro lado estas práticas são ilegais”, disse o candidato a deputado Pedro Soares.»


Fonte: Notícias de Aveiro

(Ainda sobre a Conferência de Imprensa do BE: ver Terra Nova - 105 FM)
(Adenda dia 27-08: ver Jornal de Notícias e Público)

4.7.09

Correr nos jornais do mundo. e do país (?)

[Na carta que envia às cidades, o Mestre de Avis diz:]
E que porém lhes rogava a todos, de bom coração como verdadeiros portugueses, tivessem voz por Portugal…
Fernão Lopes



José Sócrates só podia optar pela demissão. Mas não gosto quando batem no ceguinho. Diz João soares, e bem, «Só espero que o gesto de Pinho não nos caia em cima até às eleições»! Eu também! Quanto à humilhação que representa ver o escândalo estampado no El Pais ou no Le Figaro, nem comento. Buscando referências a Pinho na imprensa estrangeira, acontece que só encontrei boas malhas. Na verdade, nem me lembro de ler notícias como a seguinte em nenhum jornal português. Eu sei que adoramos os vencidos da vida mas está na hora de, como bons portugueses, darmos voz por Portugal.



«Il y a 20 ans, on n'imaginait pas que les énergies renouvelables pouvaient être rentables. Or, aujourd'hui, certaines sont déjà compétitives. La bonne stratégie pour notre pays, c'est de diversifier», explique Manuel Pinho, le ministre de l'Économie.

15.6.09

D&AD, design art direction

A sociedade Design and Art Direction atribuiu um Lápis Amarelo ao Público, na categoria Magazine & Newspaper Design. No total, a D&AD entregou 50 Lápis Amarelos em categorias que vão de sites publicitários a instalações digitais, passando pelo design de produto. Mas foram entregues apenas quatro Lápis Negros, os mais cobiçados e raros prémios D&AD. Fui conhecer os produtos vencedores do Lápis Preto. O primeiro, na categoria Integrated, é Million, uma espécie de Magalhães do New York City Department of Education. Em 2008, a campanha Million já ganhara o Leão de Titanium em Cannes*.


Million | New York City - Cannes Lions 2008 por brainstorm9 no Videolog.tv.

Vejam o vídeo na íntegra, aqui.
TITANIUM LION - Cannes 2008
Title: MILLION
Advertiser/Client: NEW YORK CITY DEPARTMENT OF EDUCATION
Product/Service: EDUCATIONAL PROGRAM
Entrant Company, City: DROGA5, New York
Country: USA


O segundo Lápis Negro foi também para a Drogas5, na categoria Escrita: o filme chama-se «The Great Schlep» e visava captar votos judeus para Barack Obama. É protagonizado pela comediante Sarah Silverman e é delicious!



O terceiro Lápis Negro foi para uma escultura cinética exposta no museu BMW. Suspensas por fios praticamente invisíveis, esferas dançam soltas no espaço, numa coreografia aparentemente livre. No final elas formam a silhueta de um modelo já antigo da marca. Poético e muito tecnológico.


O quarto Lápis Negro foi para o designer Matthew Dent. No seu site, podem ver as novas moedas da coroa britânica e perceber o conceito do criador. I could imagine the coins being played with, looked at and enjoyed in a way which was foreign to coinage, and could imagine their appeal for kids messing with them in school as much as for folks in a pub.

Enfim, 4 lapinhos, muitas ideias e este parece um mundo mágico!


* O Leão de Titanium (Cannes) pretende premiar projectos inovadores e integrados, ou seja, que envolvam uma convergência dos media, algo que se está a tornar cada vez mais obrigatório para uma comunicação eficiente. Desde que foi criado em 2003, o Titanium tornou-se o prémio mais desejado e disputado do Festival de Cannes. A sua criação deve-se ao famoso e já clássico projecto BMW Films, The Hire. Para quem não se lembra, era uma série de filmes feitos por famosos directores de cinema, como Ridley Scott, John Frankenheimer, Ang Lee e John Woo, onde um modelo da BMW fazia sempre parte da história. A proposta não se enquadrava em nenhuma das categorias tradicionais do festival. Como todos os filmes ultrapassavam os 60 segundos, a BMW decidiu usar todos os meios de comunicação para convidar o consumidor a assisti-los na internet, criando aí a tal convergência.

4.6.09

Memórias póstumas de um realizador (estranhamente) vivo

«Grande» (do pior!) Entrevista de Judite de Sousa sorriso olhos brilhantes a Manoel de Oliveira sereno paciente, há pouco na RTP. 100 anos, qual é o segredo da longevidade, 100 anos, como é viver com 100 anos, o que pensa do amanhã alguém com 100 anos, 100 anos, pensa na morte certamente, 100 anos, tem medo da morte, 100 anos, que projectos quer terminar, 100 anos, ah tem muitos projectos, sorriso olhos brilhantes, 100 anos, atravessou todo o século XX sem se envolver politicamente, sorriso olhos brilhantes, sou um humanista, 100 anos, foi preso pela PIDE, sorriso olhos brilhantes, a sua mulher foi um esteio na sua vida, cuidou dos filhos, sorriso olhos brilhantes, 100 anos, quando era criança já ia ao cinema, havia cinema? 100 anos, como gostaria de ser recordado? pois, mas como gostaria de ser recordado?

Se o Manoel de Oliveira sobreviver à tortura psicológica que a terrível Judite lhe infligiu, vai durar outros 100 anos. Judite, o Manoel de Oliveira É o Manoel de Oliveira, não foi... O Brás Cubas é que FOI, mas noutro século! Judite, repõe o teu cálcio...

3.6.09

Vivemos uma democracia de audiência

Finalmente um bom artigo no Público. Para que fique em arquivo, transcrevo na íntegra.

«Portugal tem uma sociedade civil anestesiada, os partidos estão longe do povo e as suas direcções controlam a constituição das listas eleitorais, cujo processo é o jardim secreto da política.

O sistema político português está bloqueado e uma larga maioria dos cidadãos deixou de se reconhecer nos partidos políticos existentes, que funcionam de forma oligárquica e sonegaram a soberania popular, que lhes é delegada pelo voto e que deveriam representar. Este diagnóstico é a conclusão que ressalta da obra O Povo Semi-Soberano. Partidos Políticos e Recrutamento Parlamentar em Portugal, que identifica e analisa as especificidades portuguesas da crise dos sistemas políticos representativos.

"Vivemos uma democracia de audiência, feita de comunicação social, sondagens e líderes, em que há uma espécie de sondocracia, de videocracia e de lidercracia", resume Conceição Pequito, explicando as novas condições em que é exercida a política: "As sondagens funcionam como um escrutínio permanente ao eleitorado e é desse escrutínio que saem as ofertas políticas que os partidos direccionam, como produtos no mercado, para rentabilizar votos. Depois há a questão da videocracia, com o peso da comunicação social, que personaliza, por sua vez, os líderes. Tudo isto se vai afunilando, até que torna a sociedade civil claustrofóbica".

Esta situação é geral, mas Conceição Pequito considera que "nos outros países é menos preocupante, porque há sociedade civil". E explica que "nas democracias consolidadas a crise dos partidos tem sido compensada com o alargamento do repertório das formas de participação política, que reforça a participação na representação".

Mas em Portugal "a componente participativa só começa a existir com a introdução do referendo na Constituição em 1997". A democracia nasceu "com uma componente de democracia participativa nula, a que há é recente e os cidadãos não se mostraram receptivos. Até à data, não tem corrido muito bem". E lembra a história dos referendos e a altíssima abstenção que os tornou não-vinculativos.

"Envelhecimento precoce"
As "tendências transversais" a todos os sistemas políticos europeus são agravadas em Portugal pelo facto de ser "uma democracia demasiado jovem, mas com traços de envelhecimento precoce". Conceição Pequito considera que "é preocupante" que o sistema político português esteja "a dar saltos qualitativos para limitações do sistema democrático consolidado, mas em fase precoce". Ou seja, a sociedade está distanciada dos partidos e o povo não se sente neles representado.

Apontando as causas da especificidade portuguesa, Conceição Pequito refere em primeiro lugar a "democratização tardia", que fez com que os partidos políticos fossem "criados de cima para baixo nessa altura ou próximo, "à excepção do PCP, que existe desde 1921 com um longo passado de clandestinidade". Ora, prossegue esta investigadora, o processo é assim inverso ao dos partidos europeus que "nascem para dar voz a grupos ou classes sociais pré-existentes, para politizar clivagens que existem na sociedade, são na esfera institucional uma espécie de correia de transmissão do tecido social".

Em Portugal, "os partidos são autores e actores da democracia, todo o sistema é feito pelos partidos", vão para o Governo, vão para o Parlamento, vão para o poder local e, "só depois de instalados na esfera institucional, vão à procura da representação popular", em meados dos anos 80.

Exemplo é a ligação que os dois maiores partidos têm com as organizações sindicais ou patronais. "O PCP entra na CGTP e o PSD e o PS ficam ali dois anos hesitantes para criar um movimento representativo dos trabalhadores para responder ao avanço do PCP", lembra, prosseguindo: "E tiveram de concordar numa criação conjunta da UGT, porque a UGT é uma espécie de prestação de serviços; quando o PSD está no Governo, presta-se a assinar os acordos, e com o PS o mesmo".

Recorda o facto de "o PS e o PSD nascerem já como partidos de eleitores" que pretendem acesso ao poder, fazendo-o com a conquista do voto e através de um apelo transversal, "procurando não estar muito à esquerda, não estar muito à direita, estar ao centro". Daí "falar-se de bloco central de interesses, quando se fala da partilha dos despojos do poder político entre o PS e o PSD", o que, "ao nível da sociedade, teve um efeito perverso, que foi situar o eleitorado muito ao centro, o eleitorado moderado que está mais disponível para um discurso mais ambíguo, mais definido por factores de curto prazo como sejam a situação económica o desempenho do Governo, o apelo carismático do líder".

A segunda especificidade portuguesa é que os partidos foram também criados "em torno das figuras dos líderes e cada saída de um líder dá quase uma crise de sucessão e de perda de eleitorado e de descaracterização", o que "mostra a fragilidade, como os partidos acabam por ser quase sinónimo dos líderes conjunturais e não instituições com implantação social e ideologia sólida". Alem disso, os partidos portugueses nascem "em época mediática" e a "mediatização da política junta-se à personalização, são fenómenos que se alimentam mutuamente". E Conceição Pequito pergunta: "Quando o que interessa é o líder e os dirigentes de topo e o palco é a TV, os partidos servem para quê?"

Há uma outra particularidade portuguesa que é "um funcionalismo público partidarizado", o que, aliás, é tradição da história portuguesa e não uma particularidade da democracia pós-25 de Abril. "Há os despojos de partido, há um clientelismo partidário e estatal que dá a possibilidade de colocar pessoal no aparelho de Estado", afirma Conceição Pequito, acrescentando que Portugal "não é como a Inglaterra, que tem um serviço público autónomo da classe política".

O Povo Semi-Soberano. Partidos Políticos e Recrutamento Parlamentar em Portugal, publicada pelas Edições Almedina, divulga para o grande público a tese de doutoramento em Ciência Política defendida em 2008 por Maria da Conceição Pequito Teixeira. Esta investigadora de 37 anos é professora de Ciência Política do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade Aberta. A tese foi elaborada sob orientação de Adriano Moreira, professor catedrático jubilado, ex-ministro da Educação e do Ultramar de Salazar e antigo líder do CDS, que, aliás, é autor do prefácio. O co-orientador foi Julían Santamaria Ossorio, director do Departamento de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid.

As reformas
Como, "institucionalmente, não há democracia sem partidos", é preciso procurar ultrapassar o impasse criado pelo afastamento dos cidadãos da política. Para isso, Conceição Pequito defende que há muito a mudar no funcionamento dos partidos, em passos firmes, mas sem radicalismos. "A reforma que está por fazer em Portugal tem de começar primeiro pelos partidos, depois pelo sistema eleitoral" e finalmente é preciso "discutir o sistema de Governo", declara esta investigadora. "Só assim podemos querer aliciar a sociedade civil" para a participação partidária.

Primárias para as listas
A adopção pelos partidos de eleições primárias internas para todos os cargos electivos, "sistema que é já usado na Europa", é defendida por Conceição Pequito. "Quem escolhe os candidatos são os directórios nacionais e, quando muito, locais", mediante regras que não são transparentes e critérios que são desconhecidos, afirma. Ora isto dá "espaço de manobra a tudo o que é patrocínio e clientelismo". E frisa que "a constituição das listas é o jardim secreto da política, é onde tudo se decide, o alinhamento é calculado ao milímetro tendo em conta a constituição do Governo e as nomeações políticas".
Por isso propõe que haja "descentralização da decisão para os militantes" e que o processo "se torne mais institucional, mais formal, mais transparente". E logo mais apelativo para a militância: "O militante diria: eu escolho os candidatos à Assembleia da República, ao Parlamento Europeu, ao poder local, ou seja, eu tenho uma palavra a dizer no meu partido sobre o pessoal político e as estratégias de recrutamento do pessoal político que exercem cargos públicos electivos. Era um sinal que os partidos davam à sociedade. Era um novo direito, um novo poder de decisão, de participar na decisão sobre quem governa."

Referendos internos
"Os referendos internos para as questões programáticas" deviam ser adoptados, sublinha esta investigadora, como forma de promover o debate programático e dar "combate à fulanização da política". Conceição Pequito defende que os partidos usem as novas tecnologias de informação, mas não dando a estas um papel redutor, já que o acesso ao computador cria novas clivagens sociais e exclusões. Contudo, diz que "não faz sentido" a eleição directa do líder pelos militantes. "Muitos partidos europeus estão a voltar ao congresso, pois a eleição directa é uma guerra de personalidades, sem discussão programática".

Círculos menores e listas abertas
Defende a manutenção do sistema proporcional mas com diminuição dos círculos eleitorais e a adopção de listas plurinominais abertas, em que o eleitor escolha o partido e, se quiser, escolha o seu candidato. Sendo que esta indicação serve para ordenar a entrada em primeiro lugar dos mais votados nominalmente. Uma reforma idêntica à proposta por André Freire, Manuel Meirinho e Diogo Moreira no estudo Para uma melhoria da Representação Política, editado pela Sextante, e realizado por encomenda do PS.

Não aos independentes
A investigadora opõe-se frontalmente às candidaturas de independentes à Assembleia da República. "Isso era um risco muito grande de populismo", afirma, alertando: "Nós, em Portugal, não estamos sequer preparados para governos de coligação, como é que estamos preparados para a balbúrdia de partidos com independentes? Não acredito que tenhamos sociedade civil preparada para isso nem classe política para o efeito."
E, veemente, insiste: "Temos um legado histórico com uma sociedade civil muito fraca, que vem da Monarquia Constitucional, vem da Primeira República, vem do Estado Novo, com o seu paternalismo que é conhecido. E no pós-25 de Abril, com as maiorias absolutas ou quase absolutas, anestesiou-se a sociedade civil." Este legado histórico levou a que para a maioria dos portugueses "a estabilidade é sinónimo de governos maioritários ou monocolores", quando, "por essa Europa fora, o que mais existe são governos de coligações, às vezes até promíscuas, juntando forças partidárias que não têm nada a ver e que conseguem o milagre de governar legislaturas completas", argumenta Conceição Pequito, acrescentando que em Portugal, "quando, nos estudos, se pergunta ao eleitorado se prefere governos de maioria absoluta ou de coligação, a maioria responde de maioria e de um só partido".
E questiona, contundente: "Quem são os candidatos independentes no poder local? São pessoas que de independente têm muito pouco, são pessoas que tiveram vida partidária e que se desentenderam com o partido." Prosseguindo no diagnóstico, afirma: "E desentenderam porquê? Porque não obtiveram o que queriam e entram em ruptura, são dissidentes e rebeldes de partidos. Veja Helena Roseta, em Lisboa, Isaltino Morais, em Oeiras, Valentim Loureiro, em Gondomar, Fátima Felgueiras, em Felgueiras." Sublinhando que estes candidatos "não emanam da sociedade civil", garante que "considerá-los da sociedade civil é ser um pouco simpático", uma vez que "eles se agarram à sociedade civil quando os partidos os deixam cair".

Aumentar fiscalização do Governo
"Os partidos na Europa têm optado pela americanização" e "o sistema político tem evoluído para presidencialismo", afirma Conceição Pequito, sublinhando que, "nas legislativas, na prática, é eleito o primeiro-ministro" e o sistema parlamentar está a ser "desvirtuado".
Ou seja, "não se discute o sistema de governo, o Governo é que manda e o Parlamento é uma caixa
de eco", considera Conceição Pequito. "Há governamentalização do Parlamento. Os outros partidos fazem oposição para a televisão. No Orçamento do Estado foram viabilizadas duas propostas da oposição em mais de quinhentas.
E temos um Governo que é refém da figura do primeiro-ministro, temos ministros amestrados, que seguem à linha um guião que lhes é ditado pelo primeiro-ministro, que é uma espécie de chanceler. O próprio partido que apoia o Governo desaparece. Sendo que o Governo ainda determina os cargos de nomeação política", frisa de forma crítica, questionando: "Portanto, o que temos? Executivo, executivo, executivo. Não temos mecanismos de fiscalização, estes poderes do Parlamento desaparecem. Mas não vejo discutir esta questão."»

SÃO JOSÉ ALMEIDA PÚBLICO 01.06.2009


Ler:

25.3.09

If

A campanha de promoção da Antena 1, concebida pela agência BBDO, foi lançada no início do mês. Não tenho dúvidas de que foi um sucesso para o anunciante! Uma nova versão já foi lançada. Qual preferem? Eu acho que ambas ligam Portugal...


12.3.09

Era uma vez em Aveiro

Eu sou Nabonidus, Rei da Babilónia (...) num dia favorável para o meu reinado, o deus Shamash lembrou-se da sua antiga casa, e foi a mim, Rei Nabonidus, quem ele encarregou da tarefa de restaurar o templo e de refazer a sua casa...”.

Este texto de Nabonidus, do século VI A.C., testemunha um desejo humano ancestral: o de conservar e restaurar a história das sociedades e da sua cultura. Contudo, a intenção deliberada de conservar, revelada pelo Rei, não era inocente. As suas motivações eram de ordem religiosa, mas também políticas. Passados mais de dois mil anos, o que nos leva a querer conservar e restaurar o nosso património? O fervor religioso (ainda...), interesses políticos (num sentido muito amplo), económicos, a vontade de educar, a busca da história- identidade de um povo ou região, a aspiração ao belo. Não estamos assim tão distantes do Rei da Babilónia!

Infelizmente, também muito cedo na história da humanidade, aconteceram actos de destruição do património. Na sua origem: o fanatismo religioso, o activismo político, as guerras, o mercantilismo, a ignorância, a negligência, a desvalorização ou rejeição do passado, ou apenas um desejo de ampliar, de refazer, de recriar livremente.

A consciência da importância do nosso património e da necessidade de o conservar, pelo que representa em termos de memória colectiva e pelas suas qualidades intrínsecas, amadureceu a partir do século XIX, quando a curiosidade pelo passado se transformou em História. Surgiram os debates, acesas polémicas, em torno dos conceitos de restauração e conservação, que, à época, foram colocados em campos opostos. O arquitecto Eugène Viollet-le-Duc, um dos primeiros teóricos da preservação do património histórico, afirmava em 1886 que restaurar um edifício não era preservá-lo, repará-lo ou reconstruí-lo; restaurar significava recriar a forma na sua totalidade, pelo que o resultado seria algo que forçosamente nunca existira antes. A crítica veio de Inglaterra. Membros da famosa Irmandade Pré-Rafaelita, amantes do medievalismo, os românticos John Ruskin e Willian Morris, consideravam que restaurar era reduzir o trabalho original a nada. Segundo Ruskin, «... a maior glória de um monumento não é as suas pedras, nem o seu ouro. A sua glória está na sua Idade».

Os pressupostos modernos da conservação do património fusionam os princípios essenciais destas duas correntes oitocentistas. Aceita-se a restauração como operação legítima, desde que não falsifique a evidência. No século XX, o desenvolvimento destas ideias traduziu-se na produção de vários instrumentos internacionais orientadores dos trabalhos de conservação do património. A Carta de Atenas (1931) constitui a primeira tentativa de fixação de princípios éticos a nível internacional. Estabelece a necessidade de criar medidas legais de protecção do património, a primazia da conservação face à restauração, o respeito pela integridade dos monumentos e pelas contribuições de idades diferentes, a necessidade de documentação. Estes princípios foram reafirmados na Carta de Veneza (1964) e, em 1972, a Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural, foi adoptada na Conferência Geral das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Actualmente, mais de 160 países ratificaram essa Convenção. Portugal aderiu em 1979. Podemos ler no sítio do IPPAR que promover uma ética de conservação do património «é, sem dúvida, um grande desafio, particularmente numa época onde a globalização económica conduz todas as nações a perseguir um desenvolvimento acelerado, por vezes pouco preocupado com as consequências para o futuro

É com esta declaração que regresso a Aveiro. No decorrer das obras de ampliação e «requalificação» do Museu de Aveiro iniciadas em 2006, foi noticiada a descoberta de construções antigas, estruturas do antigo Convento de Jesus, e de “milhares de peças” (agência Lusa). Um técnico da Mythica, empresa de arqueologia que acompanhou a obra, informava que estava a ser feita «a exploração de duas valas próximas da antiga cozinha do Convento de Jesus, de onde tem saído grande quantidade de faiança do século XII e posterior, como taças, tigelas, formas e mesmo fragmentos de vidro». Na mesma altura, a Directora do Museu adiantou ao DA que «foi feita a escavação, registada por métodos fotográficos e desenho» e que seriam feitos apenas «pequenos ajustes» ao projecto inicial do arquitecto Alcino Soutinho, algo «totalmente consensual entre todos os interessados». No dia 5 de Março, em resposta a um post que escrevi relatando as minhas impressões da visita ao Museu «requalificado» (nos blogues Divas & Contrabaixos e Quarto Com Vista para a Cidade de Aveiro), a Dra. Ana Margarida Ferreira confirmou que «as estruturas arqueológicas estão documentadas e enterradas, o espólio está acautelado». Os critérios que foram tomados em consideração para a prossecução normal dos trabalhos, os «pequenos ajustes» ao projecto que as descobertas arqueológicas eventualmente produziram, a documentação produzida, a quantidade e caracterização do espólio recolhido, são dados a que os cidadãos, nesta era da informação e do conhecimento, não têm acesso. E o Museu reabriu sem nenhuma exposição que desse conta das escavações e descobertas arqueológicas!

Centremo-nos agora no edifício que alberga o Museu de Aveiro. É classificado Monumento Nacional em 1910, ainda antes da fundação do então designado Museu Regional de Aveiro (1911). Afirmar que o Convento de Jesus integra o espaço museológico é redutor. O valor do património que foi agora «requalificado» deriva das origens, história e arquitectura conventuais. Qualquer intervenção no Museu deveria assim ser concebida tendo em conta a totalidade do espaço histórico, nunca esquecendo a sua natureza especifica e original. O projecto do arquitecto Alcino Soutinho conseguiu o inimaginável: nas salas onde estão expostas as colecções dedicadas à Princesa Santa Joana e as de arte sacra, o visitante esquece-se que está num espaço conventual! Nos anos 30 foram demolidas paredes de celas para criação de salões de exposição. O princípio ético da intervenção minimamente invasiva em monumentos com valor histórico ainda não tinha sido ratificado. Mas o projecto actual removeu as paredes que restavam, destruiu por completo a antiga entrada do Museu, rasgou uma ponte de betão no interior do convento, fechou as portas do claustro alto,... e mais não sei porque uma parte do museu está ainda vedada ao público. Naturalmente, o Museu merecerá sempre a nossa visita. A Igreja de Jesus, a capela-mor, o coro baixo e o coro alto, os túmulos de Santa Joana, do Duque de Aveiro e de João Albuquerque, as colecções de pintura, escultura, talha, azulejaria, ourivesaria, joalharia, paramentaria, cerâmica (essencialmente de índole religiosa) são tesouros que têm um valor universal. Mas estranho. Estranho a aprovação deste projecto. Estranho que a belíssima Botica conventual não possa mais voltar ao espaço que anteriormente ocupava ou a qualquer outro, dadas as suas dimensões e a filosofia de descontextualização das peças dos seus ambientes. Estranho que um investimento de cinco milhões de euros, valor estimado da obra (sendo a comparticipação comunitária de metade), não abranja o restauro do claustro e sua azulejaria. Estranho que a necessidade objectiva de construção de um corpo novo, destinado a sala de exposições temporárias e reservas, biblioteca e laboratórios de conservação, gabinetes, auditório e café, tenha levado a uma excessiva relativização do valor histórico deste Monumento Nacional. O fantasma da paralisação do futuro dominou a vontade ancestral de preservar o passado. «É preciso ver a cultura como um factor de desenvolvimento», afirmou a secretária de Estado da Cultura no dia da reabertura do Museu de Aveiro (18-12-2008). Sei que a forma como olhamos para uma obra é subjectiva. Eu penso que o Museu perdeu memória. John Ruskin diria que houve «profanação». Que importa! Venham os novos projectos, as novas actividades, as exposições temporárias! Porque público é preciso! Cidadãos é que nem tanto...


... ou não! Na declaração já referida, a Dra. Ana Margarida Ferreira declarou ser «completamente adepta da discussão pública dos assuntos de interesse público» e disponibilizou-se para «discutir conceitos e opções de intervenção em museus e monumentos». Dado a sua incontestável competência e determinação, a questão dos achados arqueológicos não estará pois perdida. Relativamente ao projecto arquitectónico de Alcino Soutinho, mesmo que pareça tarde demais discuti-lo, não o é de facto. Seria da máxima importância que gerasse uma reflexão pública, envolvendo especialistas e o público em geral. O Museu de Aveiro é de todos nós! Não devemos abster-nos de fruir desse espaço e de exigirmos o respeito pela Idade das suas pedras.

P.S.: O título deste artigo é também uma alusão ao site do Museu de Aveiro - http://www.eraumavezemaveiro.com/


Maria do Rosário Fardilha
DIÁRIO DE AVEIRO, 12 de Março de 2009



Ver ainda artigo de João Peixinho no DA de hoje.

11.1.09

O Impossível

Três semanas de ofensiva na Faixa de Gaza:
- 854 palestinianos mortos, entre os quais 270 crianças e 98 mulheres;
- 3350 feridos.

Israel promete intensificar ataques.(...) Também o Hamas fez saber que não tenciona cumprir o apelo da ONU para uma paragem das hostilidades, tendo disparado hoje pelo menos oito mísseis artesanais contra o sul de Israel, causando dois feridos civis.

Fonte: Público, 10-01-2009


Pavel Wolberg/European Pressphoto Agency


(...)
Dir-se-ia que somos vinte prodígios
em Lidda, em Ramlah, na Galileia.
Aqui permaneceremos
sobre os vossos peitos como um muro,
nas vossas gargantas como um pedaço de vidro...
como o espinho dum cacto,
e nos vossos olhos como uma tempestade de fogo.
(...)

TAWFIQ ZAYYAD
in Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea
Selecção e tradução de Albano Martins
Edições ASA, 2004, pp. 54

1.12.08

das Comemorações #2

Os últimos redutos do patriotismo não são a monarquia nem o PCP, mas a comparação é genial! Se as monarquias estão mais próximas da natureza, já não sei se o deus de D. Duarte é o dos cristãos ou se é um deus panteísta. Viva a República! Viva a laicidade! Mas eu gostei da entrevista de D. Duarte de Bragança ao Publico.

(...)
- Porque faz sempre um discurso no 1º de Dezembro?
(...)
- Criou-se a ideia de que a nossa independência não é necessária. De que podemos depender dos outros, seja da União Europeia, seja dos americanos ou dos espanhóis. E até que seríamos mais bem governados se o fôssemos por outros.
- Isso é uma tendência recente?
- É um pensamento que data de 1910. O núcleo duro da revolução tinha como objectivo a União Ibérica. É por isso que o vermelho da bandeira portuguesa, que representa a Espanha, é maior do que o verde, que representa Portugal. E ainda hoje há quem pense assim, até alguns ilustres escritores, que deveriam ter mais juízo.
- Mas porque cabe aos monárquicos defender o patriotismo?
- Porque não vejo mais ninguém a fazê-lo. As associações dos antigos combatentes celebram o 10 de Julho, o Presidente da República comemora o Ano Novo, e o 25 de Abril, e ainda há alguns que vão ao cemitério do Alto de São João celebrar o 5 de Outubro.
- O Presidente da República deveria fazer um discurso no 1º de Dezembro?
- Sim. Se o fizer, deixo de fazer o meu.
- A monarquia é o último reduto do patriotismo?
- O último não. O Partido Comunista também é muito patriótico.
- O que há de comum entre as duas forças?
- Um certo idealismo próprio de quem adere a movimentos políticos que não dão compensações, que não dão emprego. Se um dia houver em Portugal um referendo e ganhar a causa monárquica, os movimentos monárquicos deixam de existir.
- Quem está nos grandes partidos é sempre por interesse?
- Os partidos deveriam fazer um trabalho de formação doutrinária. Digo muitas vezes aos meus amigos do PS, por exemplo, que é fundamental debater a doutrina. Para que serve hoje em dia o socialismo?
- Acredita no socialismo?
- Acredito no socialismo cooperativista, como era definido no século XIX, por Antero de Quental, ou António Sérgio.
- Poderia ter aplicação hoje em dia?
- Podia. Veja um caso concreto. Qual é hoje o sector bancário que não está em crise? O crédito agrícola. Por ser cooperativista, mutualista. O Montepio é a mesma coisa, não teve crise. São mais abertos, têm muita gente a dar opinião, a acompanhar o que eles fazem. O Crédito Agrícola é propriedade de centenas de caixas agrícolas espalhadas pelo país. Eu sou o presidente da Assembleia-Geral da Caixa Agrícola de Nelas, e temos uma participação na caixa central. Representamos mais de um milhão de portugueses, mas não nos ligam nenhuma, a nível político.
- O PS devia estar mais atento a essa realidade?
- Sim, porque o pensamento socialista original em Portugal era esse. Se o cooperativismo estivesse mais desenvolvido, vários factores beneficiariam muito.
- Mas essas empresas podem ser competitivas?
- Na Holanda, na Áustria, na Suíça, na Alemanha, na Escandinávia, grandes organizações empresariais são cooperativas. O maior banco da Holanda é uma cooperativa. Em França, o maior banco é o Crédit Agricole. Mas estas empresas têm um inconveniente: não dão tachos a ex-ministros. Nem financiam campanhas eleitorais. Por isso não são muito simpáticas.
(...)
- Acha que devia ter uma pensão do Estado?
- Não. Isso retirava-me a independência, para a minha acção política. Embora, quando faço missões pelo mundo fora, o faça em colaboração com o Ministério dos Negócios Estrangeiros.
- Que missões são essas?
- Neste momento, tenho um programa de desenvolvimento ambiental agrícola na Guiné-Bissau, outro em Angola, de introdução de novas técnicas de construção civil, outro em Timor. Estou a iniciar um projecto de ensino da língua portuguesa nos países que aderiram agora à lusofonia, como o Senegal, a Guiné Equatorial e as Ilhas Maurícias.
- Como escolhe as missões?
- Quando vejo uma oportunidade que possa ser interessante, proponho ao MNE. São sempre no campo das relações externas, geralmente com países com que Portugal tem relações fracas, como foi o caso da Indonésia, durante algum tempo, ou são hoje os países árabes.
- É respeitado nos países árabes?
- Quando estou numa monarquia árabe sou descendente do profeta Maomé.
- Porquê?
- A rainha Santa Isabel era descendente de um príncipe árabe que era descendente de Maomé. Por isso, a minha posição é completamente diferente da de qualquer embaixador da república portuguesa.
- Isso é reconhecido em todo o mundo árabe?
- É. Mas quando estou em Israel digo que o D. Afonso Henriques era descendente do Rei David. Aliás, aconteceu uma coisa curiosa, nesta última viagem a Jerusalém: o chefe dos sefarditas contou-me que D. Pedro II do Brasil, bisavô da minha mãe, tinha visitado Israel e falava fluentemente o hebreu.
- Esse respeito de que é objecto em todo o lado deve-se a pertencer a uma família aristocrática?
- Não. Não tem anda a ver com aristocracia. É por ser o chefe de uma Casa Real. O imperador do Japão, por exemplo, recebeu-me na biblioteca, coisa que só faz com a sua família.
- Também é da família dele?
- Não. Mas aconteceu uma coisa engraçada. No fim, o imperador veio à porta despedir-se de mim, o que também só faz com parentes. O motorista do táxi viu e foi contar no hotel. Quando cheguei lá, tinha os directores à minha espera, pedindo-me licença para me instalarem numa suite especial, porque viram que o imperador me tinha tratado como família.
- É como se as famílias reais fossem todas uma grande família.
- Sim. É uma família espiritual.
- Mas porque faz essas missões? Não tem obrigação nenhuma.
- Sinto que o facto de ter nascido nesta família me dá uma obrigação moral para com o meu povo.
(...)
- O atraso que temos é herdeiro do 25 de Abril?
- É sobretudo herdeiro de 1910. Se o rei D. Carlos não tivesse sido assassinado, não teria havido a revolução republicana. A nossa monarquia teria evoluído democraticamente como as outras. A revolução de 1910 atrasou Portugal muitos anos, e teve como consequência a revolução do Estado Novo de 1926.
- É um ciclo de desgraças.
- Sim, de atrasos no desenvolvimento português. E agora, mais uma vez, se houver uma grave crise, ninguém acredita que a democracia a resolva. As pessoas vão dizer que querem um militar que tome conta de nós.
- Isso lembra o que Manuela Ferreira Leite disse recentemente. A grave crise pode, de facto, acontecer? Pode acabar com a democracia?
- A educação democrática em Portugal é muito fraca. As pessoas ainda não perceberam qual é o papel dos partidos e do Parlamento. Se houver uma crise grave, com fome, pilhagens, tudo isto vai por água abaixo. Basta que, por um acto terrorista, não recebamos petróleo, que por causa de greves, ou distúrbios, a importação de produtos alimentares seja suspensa. Somos completamente dependentes. Pode haver centenas de milhares de pessoas a manifestarem-se por uma intervenção totalitária dos militares, ou do Presidente.
- Como é que o regime impede que se chegue a esse ponto?
- É preciso que a democracia seja participativa. Devia haver referendos, a sociedade civil deveria participar das decisões. As pessoas não deveriam apenas depositar o seu voto numa urna (este nome não augura nada de bom. Geralmente, o que está na urna são os mortos). As organizações ecologistas, por exemplo, deveriam ter milhares de colaboradores...
- As monarquias são mais sensíveis à causa ecologista...
- Sim, porque defendem os valores permanentes.
- As próprias famílias reais são permanentes, no poder.
- As monarquias são mais ecológicas porque estão mais próximas da natureza humana, que é baseada na família.
- As repúblicas são contranatura?
- São. As repúblicas são contranatura. Excepto aquelas repúblicas muito tradicionais, como a Suíça, ou os EUA, onde, de algum modo, elegem um rei.
- O Presidente americano é um rei?
- Sim. Esteve mesmo para ser rei. E tem mais poder do que algum rei tem hoje em dia.
(...)

13.9.08

Comic strip

O meu amigo F. é septuagenário e diz que encontra todos os dias pessoas fantásticas neste país de merda. Por exemplo, a semana passada conheceu um rapaz de vinte anos que gere um armazém, em Lisboa, onde é possível encontrar antiguidades e velharias preciosas. A paixão desse jovem, que tão cedo descobriu a sua vocação, deixou-o feliz. No dia seguinte, numa viagem para Aveiro, encontrou um antigo trabalhador da CP que colecciona edições de dicionários de português e que está agora a criar um museu com todas as obras que comprou/recolheu durante anos. A programação televisiva e as notícias de cabeçalho dos jornais parecem feitas à medida de um povo ignorante mas a verdade, dizia, é que facilmente encontramos pessoas curiosas e interessantes. Chegámos à conclusão que a soma das partes é maior do que o todo.

Esta conversa aconteceu ontem à noite. Hoje pela manhã, estava a ler no
PUBLICO ON LINE as notícias sobre o LCH, «um projecto que juntou milhares de cientistas do mundo durante 20 anos, que procura simular os primeiros milésimos de segundo do Universo, há cerca de 13,7 mil milhões de anos atrás, e que é considerado a experiência científica do século». «A máquina de regressar ao Big Bang» gerou centenas de comentários: "Deus é e sempre será o que nos garantiu estarmos aqui!" - "Repudio a necessidade dos homens se tornarem famosos, e usar seus conhecimentos como brinquedos" - "Não importa o que venha a ser descoberto, pois não estamos atraz de provas, existimos!" - "Como homem de ciência, recuso-me liminarmente a discutir seja o que for com acólitos, sacristãos, militantes de Deus ou qualquer outra forma de estupidez sacramentalizada. Também não discuto com sabichões de tasca, proxenetas, políticos saltimbancos ou oportunistas ideológicos." - etc..
Uma rápida análise de conteúdo a essa amostra do pensamento humano fez-me temer pelo todo, pela soma das partes, pelas partes, ...

22.8.08

Ângulos

Ontem, a França não obteve nenhuma medalha nos JO (e desceram para 13° no ranking global das nações medalhadas). Ontem, Portugal obteve a sua primeira medalha de ouro. Nenhum programa televisivo francês - jornal, magazine, diario dos JO -, fez referëncia a Nelson Evora. Apesar do milhão de imigrantes portugueses.

O zapping não deu em nada. para além do genial e carismatico Usain Bolt. das lagrimas de Ladjie. e da repetição integral a todas as horas da cerimonia de homenagem aos dez soldados franceses mortos no Afeganistão - nos Invalides, com um Sakorzy omnipresente. (Os media portugueses deram algum destaque à emboscada que vitimou estes militares franceses, ao serviço da Nato?)

10.11.07

Volte-Face



VOLTE-FACE é uma publicação temática que alia de forma original a poesia ao design, numa linha de intervenção arrojada e interdisciplinar. Cada edição, no papel, é apresentada sob a forma de performances, que revivificando-a, estendem o conceito editorial, de base, para apresentações ao vivo que aliam ainda outras formas de expressão, no palco. Dando a conhecer o segundo número desta publicação, a performance VOLTE-FACE #2, conjuga a declamação (de poemas seleccionados a partir da edição) com a música ao vivo (contrabaixo + bateria digital +samplers), projecção vídeo multimédia e a dança contemporânea. Prosseguindo a sua senda de actuações ao vivo, o VOLTE-FACE trar-nos-á nova emissão de sentido(s), numa abordagem poética e visual singular, criada por este colectivo vivo e surpreendente:

a próxima apresentação vai acontecer dia 14 de Novembro, às 21:15 H, na Sala 2 do Cinema Quarteto, no âmbito do encerramento do
Festival Número-Projecta '07 .






Guião SARA ÉVORA FERREIRA, J.C. JERÓNIMO, ANDRÉ GASPAR, ANTÓNIO FARIA
Poema e Declamação J.C. JERÓNIMO
Ilustração [Intro] CARLOS ALBERTO CAVACO
Realização e Montagem ANDRÉ GASPAR, ANTÓNIO FARIA
Animação Multimédia [Intro] ANDRÉ GASPAR, ANTÓNIO FARIA
Figuração XIBITA
Contrabaixo TIAGO ALMEIDA
Bateria Digital JOÃO FERNANDES
Sonoplastia e Samplers RUI BENTES (Shhh...)
Produção CONFLITO ESTÉTICO - ASSOCIAÇÃO CULTURAL
[vídeo premiado no Video Run Contest '06 (Restart)]

Mais vídeos-poema Volte-Face

6.11.07

Apenas

Mário Vitória
Nomes Novos para Coisas Antigas
Acrílico s/ tela - 150x150 cm - 2007

Gosto particularmente da pergunta que encerra o último artigo de Eduardo Graça no SM - sobre o Tratado de Lisboa ou «o chapéu jurídico da UE»:
«como hão-de os cidadãos, conformados à descrença nas suas próprias virtudes, ajudar à riqueza da nação?».

27.9.07

Um homem revoltado #3

Assisti apenas ao vídeo via Publico. Não vi a emissão em directo. Mas já era tempo de alguém reagir como Santana Lopes. Mesmo se saturados da guerra de estaturas e novela de bastidores que tem sido esta eleição para a liderança do maior partido da oposição, concordamos todos que não devia ser possível interromper essa emissão (e tantas outras) para directos vazios de conteúdo. O Mourinho veio a Portugal para descansar! Seria excelente se esta atitude fizesse escola. Pena que a revolta tenha começado com alguém carente de credibilidade. Pena que tenha demorado tanto tempo a saltar da cadeira onde, diga-se, o instalaram, depois da corrida de Durão Barroso para o trono da Europa. Mas esse é outro assunto. Ontem, o homem esteve melhor que nunca.

26.9.07

Revista História

Fui alertada por Lauro António para o fim da publicação da revista História.

Pelo que conta esse (também) colaborador antigo da revista, esta "deixou de contar com alguns apoios oficiais (porte pago, apoio do IPLB, etc) e deu por terminada a publicação no nº 100 desta nova série. Fernando Rosas despediu-se de director em cargo, mas Luís Farinha procura meios para retomar a publicação. Apoios de qualquer género precisam-se: mecenato de um banco, de uma empresa, de uma fundação, anúncios, recolha de assinantes, apoios estatais, etc. Com cerca de mais 10.000 euros / ano, a revista volta às bancas. É algo de irrisório."

Divulguem, participem ou convençam mecenas, protestem. Assinem a petição se estiverem de acordo com o movimento:

Petição on line

10.9.07

Que mais precisamos de saber?

Apeteceu-lhe escrever sobre uma série de matérias que indiciam o estado do mundo, o nosso e o de todos, se pudermos criar ainda divisões. Sobre algumas dessas matérias, tem uma autoridade acrescida (vejam as notas). Fá-lo com a liberdade que teria permitido a Jorge Sena, hoje, mudar o nome de um poema. Leiam Eduardo Graça. Acabou a silly season.