1.10.07

Do domínio da luta #n



«C'était bien... dis-je avec un émerveillement incrédule. C'était vraiment bien.
- Oui, elle était sensuelle, cette fille. Moi aussi, elle m'a bien léché.
- C'est bizarre, les prix du sexe... poursuivis-je avec hésitation. J'ai l'impression que ça ne dépend pas tellement du niveau de vie du pays. Évidemment, suivant le pays, on obtient des choses tout à fait différentes; mais le pris de base, c'est à peu près toujours le même: celui que les Occidentaux sont prêts à payer.
- Est-ce que tu crois que c'est ce qu'on appelle l'économie de l'offre?
- Je n'en sais rien... Je secouai la tête. Je n'ai jamais rien compris à l'economie; c'est comme un blocage.»

in Michel Houellebecq, Plateforme

Flammarion, 2001, pp 223


A ler:
Do Domínio da Luta
(1) e (2).

Partículas soltas:
O "escritor" Michel Houellebecq não entra em enfadonhas «partouzes». A libertação/libertinagem sexual dos anos 60 é completamente arrasada em «As Partículas Elementares». Michel Djerzinski, o protagonista, e o seu meio-irmão Bruno foram abandonados pelos pais hippies. Nesta obra, "o trauma", ferida aberta, revela-se pela incapacidade dos personagens experimentarem qualquer sentimento profundo pelos seus semelhantes - com excepção talvez do que Michel nutre pela sua avó, que o criou, e que simboliza, a seu ver, uma espécie em extinção: "Seres humanos que trabalhavam toda a vida, e que trabalhavam duro, (...) que literalmente davam a vida pelos outros, dentro de um espírito de dedicação e amor." Mas Michel isola-se e Bruno vai enlouquecendo entre sex-shops e sites eróticos.

O erotismo embalado, o sexo néon, omnipresentes, é que são intencionalmente enfadonhos em Houellebecq. Por isso concordo: Houellebecq expõe "com grande inteligência a grande ilusão da esquerda que nasceu em 1968: a ilusão de que a sexualidade é revolucionária."

Em "La Porsuite du Bonheur" (Éditions de la Différence, 1992; Flammarion, 1997 - livro de poesia ainda não traduzido, segundo sei), "A Extensão do domínio da luta", em "Plataforma" ou em "A Possibilidade de uma Ilha" não existem «partouzes». Apenas uma feroz crítica à "economia política do sexo". Baudrillard não esqueceu o sexo como signo e como valor de troca. Em "Plataforma", Houllebecq integra-o no sistema do turismo de massas. Com Valérie, o protagonista entra numas ménage à trois, mas "morre" com ela. Sexista, Houellebecq não é. No mesmo romance, coloca prostitutas e seus clientes ao mesmo nível. Mesmo se a troca é económica, ao nível humano, nada os distingue. Na verdade, tudo os une: carência e anomia.

Em "A Possibilidade...", as «partouzes» surgem como uma aberração e sinal de decadência dos líderes religiosos carismáticos. Nunca é revolucionária.

Enfim, esqueçam as «partouzes», é irrelevante. A associação do deboche a Houellebecq é que não é. A sua "brutalidade pornográfica" não é da ordem dos canais por cabo (coisa que ele não diz, mas pode parecer).

Finalmente, leio: "A esquerda imaginou que o sexo é sinónimo de revolução, ou seja, de «libertação». Mas o sexo, colectivamente entendido, é sinónimo de alienação." /
"Incomodado com a componente «comportamental» da New Left americana e do Maio, Hobsbawn explica que a «libertação» sexual tem uma relação muito duvidosa com a «libertação» social".

Seja. Mas a cultura libertária dos anos 60 e 70 foi certamente um antecedente necessário para nossa actual possibilidade de identificar o Outro como desafiantemente naturalmente lésbica ou gay, como orgulhosamente Negro ou Índio, conscientemente feminista, e até ecologicamente correcto. Sem essa ilusão (histórica) da esquerda, as farmácias não disporiam de caixas automáticas de venda de preservativos, pais e professores estariam todos de acordo sobre a violência emocional de qualquer programa de educação sexual nas escolas,
Bertrand Delanoë não seria o Maire de Paris, etc.. Bons sintomas contra a doença do sexismo, racismo, censura...

[Fotografias de Melvin Sokolsky]

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